Aka levantou,
colocou a bolsa no ombro e se virou para a amiga dizendo:
- Então tá, Mary. Eu vou indo antes que chov...
*CABRUUUUUUMMMMMMM*
Não
deu nem tempo dela terminar a frase e a chuva despencou lá fora. Aka
olhou bem pela janela da sala de sua amiga e viu o céu cinzento. O horizonte
ficou até "enevoado" com a força da chuva. As luzes da casa se apagaram.
Ainda por cima a luz acabou.
-
Pode sentar. Vai demorar para passar e não sou louca de deixar você
ir embora com essa chuva toda. - Mary disse tirando a bolsa dos ombros
da amiga. - Você não pode ficar resfriada!
Aka
sorriu e sentou novamente no sofá da sala.
-
Fica mais um pouco. Já falei. - Mary disse. - Não sei por que essa pressa
toda! Vamos tomar um chá!
-
Ah, Mary. Você sabe, eu tenho muita coisa para fazer em casa. Depois,
meu irmão está lá e não gosto que ele fique sozinho muito tempo. Ele
anda meio tristonho. - Aka respondeu.
-
Eu pensei que ele soubesse que eu tinha casado.... - Mary disse sentando-se
na outra ponta do sofá. - Não me sinto pronta para reencontrá-lo...
-
Êêêêêêêê! Já falei que você precisa digerir isso. Já se passaram...
- Aka disse fazendo umas contas de cabeça...
-
Não precisa me dizer quanto tempo passou, me sinto velha demais! - Mary
interrompeu.
-
Aaaaaah, só porque vocês lutaram juntos nas cruzadas??? - Aka disse
rindo. - Você está na flor da idade... Laissa...
-
SCHHHHHH! - Mary riu também. - Pode parar. Laissa é minha tatatatatatata...
avó. Fica falando 'meu nome' em vão! - Olhou para a amiga na penumbra...
- O que vamos ficar fazendo no escuro, sem música e sem tv? Já fofocamos
tudo que tinhamos pra fofocar!
-
Credo, menina! Na época em que você nasceu não existiam essas coisas
e você se divertiu bastante sem elas! - Aka disse com um olhar meio
repreensor, mas sorrindo.
-
Pó parar! Vou começar a espirrar aqui com o pó das memórias que você
está levantando agora, dona Aka. Só vc pra me fazer lembrar de tanta
velharia! - Mary deu uma gargalhada divertida. Em seguida, levantou-se
exclamando:
-
Ah, já sei!!!! Já venho. Vou buscar um jogo!
Aka
olhou para ela e sorriu... Viu a amiga subir as escadas. Gritou para
ela:
-
Vai tirar um jogo de tabuleiro daí???? O que você tem? War, Detetive,
Banco Imobiliário...
Logo
Mary retorna com uma caixa pequena em mãos...
-
War de dois, não tem graça. Nem Detetive... Banco Imobiliário demora
demais... Lembra quando jogamos a primeira vez, lá na Itália, eu, você,
Fernando e Alan? Hm, Alan não usava esse nome... - Mary disse.
-
Caramba. Depois eu que fico tirando memórias empoeiradas. Nem lembro
direito quando foi isso!!! - Aka disse coçando a cabeça, como sempre
faz quando está confusa ou tentando lembrar de algo. - Não vou lembrar
agora qual o nome que ele usava naquela época!
Mary
então abriu uma caixinha e tirou um embrulho em veludo.
-
O que é isso? - Aka perguntou.
-
Em todos esses anos, eu nunca li o baralho pra você, não é? - Mary disse
acendendo umas velas que estavam num castiçal, na estante. Sentou no
chão.
-
Não! Não mesmo!!! - Aka disse, descendo do sofá para o chão e se acomodando.
- Você vai ler agora para mim???
-
Vou, isto é, se você quiser! - Mary disse sentando diante da amiga,
abrindo uma grande toalha de veludo bordô, com desenhos de mandalas
e animais.
Aka
observou os desenhos todos. Fez muitas perguntas sobre os símbolos todos,
os animais. Ela lembrava de seus estudos no egito, mas vagamente (não
é fácil lembrar de coisas de mais de 5.000 anos atrás!).
Mary
espalhou o baralho sobre a toalha de veludo.
-
Esse tarô não é o de Marselha! - Aka disse examinando uma carta. - Eu
já vi vários baralhos!
-
Não, é o nórdico. É o que eu uso ultimamente. - Mary disse. E começou
a mostrar todas as cartas. Explicando uma a uma. Seu significado, o
conto mitológico associado a ela, os personagens. Aka ouviu tudo maravilhada
e muito interessada. Fez várias perguntas e as duas debateram sobre
os símbolos.
Mary
então abriu um jogo para Aka. Examinou todas as cartas abertas.
-
Fala logo! Você me deixa curiosa!!!!! - Aka disse tentando ler no rosto
da amiga, alguma coisa através da expressão e do olhar dela. Mary riu.
Mas depois ficou séria.
-
Calma... Vejo aqui mudanças. Esta é a carta da morte. A morte significa
o fim de um ciclo e começo de outro. A sua vida vai mudar... E se prepara...
- apontou outra carta - Esta é a torre. A torre traz o caos e tudo desmorona.
Então, a mudança vai vir, mas para ela vir, tudo vai desmoronar.
Aka
ficou séria. Levava a sério interpretações de oráculos. Aprendera a
respeitar isso desde sua infância.
-
Ei. Não se assuste... - Mary disse olhando para a amiga. - Esta carta
aqui, é o Sol. Então depois dessa tempestade toda, virá um momento de
descanso e tudo vai ficar bem.
-
Não gosto de... "tudo vai desmoronar". - Aka disse pensativa. - Talvez
esteja na hora de mudar daqui. Já estamos a tempo demais no Brasil.
Vamos voltar para a Europa?
-
Não quero sair daqui agora... - Mary disse. - E não gostaria de perder
o contato com você novamente. Ah olhe!!!! É o valete. Tem um homem muito
importante na sua vida.
Aka
deu uma gargalhada.
-
Oh céus! Quem será????? Mais um marido?
-
Seu irmão, sua boba. Não está na casa de relacionamentos. É só alguém
que tem muita importância para você. - Mary disse rindo. - Falando nisso
e o Methos, mandou notícias?
-
Bah, que nada. Embora ele adore a internet, só responde e-mails quando
lhe dá na veneta. Duncan mandou notícias. Parece que Amanda andou aprontando
de novo e saiu viajando. - Aka disse. - Eu tive outros maridos depois,
porque você pergunta sempre dele?
-
Por que eu acho que ele foi muito marcante na sua vida, porque ele foi
um dos únicos que ainda não perdeu a cabeça e... - deu risada - Basta
ver como vocês se olham quando se encontram pra ver o quão importante
ele foi para você. - Mary disse e deu risada.
-
Isso mesmo, usou o tempo certo: FOI!!! Já faz muito, muito, muito tempo
mesmo. Você nem era nascida! - Aka disse.
-
Se é que imortais nascem!!!! - Mary disse. - Será que nunca vamos descobrir
de onde viemos?
-
Com certeza não foi de outro planeta! - Aka disse. - Methos vive pesquisando
essas coisas. Uma hora ele descobre. - Olhou o jogo novamente... - E
esta carta aqui????
-
Ah, está vendo? A mulher olha para trás. Atrás dela é um navio e aqui,
diante dela, um homem estende a mão. Ela está seguindo em frente, mas
ainda olha para trás. Essa carta mostra que você está deixando algo
pra trás na sua vida, mas ao mesmo tempo, ainda olha para aquilo. Ê,
dona Aka. Tem que deixar fluir! Fica sempre olhando pra trás!!!! - Mary
disse.
Então,
as luzes se acenderam de novo. As duas soltaram ao mesmo tempo uma exclamação
de surpresa. Aka assoprou as velas. Nisso, a campainha tocou. Mary levantou-se
e quando olhou pela janela, seu coração bateu acelerado...
-
Quem é? - Aka perguntou, com a carta da Torre na mão. (ela ficara realmente
impressionada com a carta).
-
É... seu irmão... - Mary disse indo para a porta. - Calma. Respira fundo!
São só alguns séculos que não nos vemos... E não fiz nada de errado!
-
Você está tremendo!!! Quer que eu abra a porta???? - Aka levantou...
-
Isso! Isso!!! Abra a porta... Eu.. eu vou fazer o chá que falei que
ia fazer... - Mary foi correndo para a cozinha, enquanto Aka abria a
porta para receber Fernando.
Enquanto
colocava água no bule, Mary via várias imagens passando pela sua cabeça,
de como eles se conheceram, como ele a salvou na Noruega e depois, o
casamento... As cruzadas. A volta. Daí, a fatídica discussão e o término
do relacionamento. Cada um foi para um lado, literalmente.
Ela
voltou então para a sala. Claro, os dois se abraçaram emocionados, havia
muito tempo que não se viam.
As
cartas?
Ficaram
esquecidas sobre a mesa, enquanto os três imortais relembraram muitas
coisas vivenciadas juntos, ou mesmo separados, tomando um chá quentinho
e gostoso.
Logo,
escureceu. Fernando e Aka então, se despediram. Tinham muita coisa para
fazer ainda naquela noite, Fernando tinha um compromisso e Aka se comprometera
a ir com ele. Eles se despediram então e Aka e Fernando se foram.
Mary
recolheu as cartas com um sorriso nos lábios e sentindo-se bastante
feliz.
Sentiu
que seu maior medo, que era ter uma recaída ao encontrar Fernando, se
concretizasse. Mas nada aconteceu, a não ser toda a emoção do reencontro...
Embaralhou
bem as cartas e puxou uma delas, pensando em tudo que vivenciou naquele
momento.
Examinou
então a carta que tirou da pilha. Ficou quieta, olhando o desenho...
O
mesmo desenho que aparecera para Aka: a mulher olhando para trás.
*************
