Abtu, Alto Egito - 2992 a.C.
Haviam-se
passado quase dois meses da estação de Peret, a emersão (1), e Epher
sofria cada vez mais. Sua esposa, Mahkret, havia perdido mais um filho
quando a gestação já ia avançada, e mergulhava em uma angústia terrível
cada vez que via uma criança. Aos quarenta anos Epher, escriba-sacerdote
do templo de Khentymentyou (2) em Abtu (3), não conseguia ter herdeiros
que lhe garantissem o futuro.
Mahkret
sempre foi uma mulher saudável, Epher escolhera-a justamente por isso
e também por sua beleza. E Epher amava-a demais, como também sabia que
Mahkret o amava. Mas havia algo no corpo de Mahkret que rejeitava sua
semente, não permitindo que ela engravidasse de Epher. Quando ficava
finalmente grávida, Mahkret perdia o bebê logo nos primeiros meses.
A última quase vingou mas, mesmo repousando ao máximo, Mahkret sofreu
fortes hemorragias e teve um parto muito prematuro, dando à luz uma
criança morta, sobrevivendo ela própria apenas pela vontade divina.
Epher já havia tentado de tudo: preparou-lhe as mais poderosas poções
mágicas, realizou todos os rituais de purificação, fez oferendas dispendiosas
no templo, escreveu a todos os parentes mortos pedindo ajuda (4), levou-a
aos melhores médicos e sacerdotes, mas de nada adiantou. Mahkret continuava
estéril, como se uma maldição pairasse sobre a casa de Epher.
Mas
o que mais atormentava Epher era que, sempre que consultava os oráculos
para saber as razões de tamanha desgraça, a resposta era invariavelmente
a mesma: Epher teria filhos abençoados. As palavras, com algumas variações,
eram sempre bastante claras nos papiros que recebia dos escribas-sacerdotes,
com a transcrição das respostas sagradas dos deuses: "Fica seguro, teu
nome viverá eternamente na boca dos que saírem de tua casa. Muitos temerão
o poder dos filhos iluminados de Epher. Consola-te e não chora, o momento
certo está marcado." E Epher agradecia, orava, esperava. Sempre em vão.
Como
um escriba-sacerdote de hierarquia inferior, Epher trabalhava também
como médico e assistente do profeta-mor, e fazia de tudo um pouco no
templo, recebendo como pagamento um salário do rei e também uma pequena
parte das doações dos fiéis. Mas isso não lhe permitia sustentar concubinas
(5), e Epher temia a reação de Mahkret caso viesse a dormir com outra
mulher, mesmo que fosse uma das duas criadas da casa ou uma das famosas
moças da alegria (6). Mahkret já sofria profundamente por não poder
satisfazê-lo como procriadora, e ver-se substituída até como esposa
seria demais. Confiando nos papiros dos Oráculos, Epher acreditava que
um dia Mahkret conseguiria finalmente dar à luz, mas os seguidos abortos
estavam minando aos poucos a saúde do corpo e da mente de sua bela esposa,
e Epher temia que a qualquer hora Mahkret desistisse e entregasse a
alma aos deuses. A adoção (7) passou-lhe diversas vezes pela cabeça,
pois era fato normal adotar uma criança até mesmo para quem já tivesse
filhos mas, a cada vez que pensava em comentar o assunto com Mahkret,
ela miraculosamente engravidava, e Epher novamente acreditava que sua
hora havia chegado. E a decepção era, assim, cada vez maior e mais dolorosa.
A
carruagem de Rá (8) já ia alta quando, cansado, Epher foi mais um dia
para o templo em busca de consolo às suas aflições, e decidiu consultar
novamente os oráculos. Quem sabe os deuses, por piedade, mostrariam
um caminho? E Epher, rezando enquanto esperava pela resposta, pediu
novamente a Khentymentyou pelos filhos que tanto sonhava...
-
Alegra-te, Epher! Dança comigo, irmão, que os deuses ouviram falar de
tuas lágrimas!
Epher
deu um pulo, sobressaltado com os gritos que ecoavam pelas colunas do
templo. Era Diankós, seu amigo sacerdote, quem vinha-lhe correndo ao
encontro, acenando de longe com um rolo de papiro. Franzindo as sobrancelhas
grossas, Epher gritou em resposta:
-
Não zombes, Diankós! Sofro demais, tu sabes! Que queres dizer?
-
Dança comigo, Epher! Trago-te boas novas! Irmão, os deuses abençoaram
teu lar!
Diankós
praticamente atirou-se sobre Epher, abraçando-o e beijando-o apesar
da diferença de altura, pois Epher, mesmo magro, era bem mais alto.
Epher não compreendia, não respondia, mas os olhos negros e fundos dardejavam
suas perguntas mudas. Diankós tinha vários filhos e sabia de sua dor,
era o amigo de sua alma que ouvia suas confidências e consolava-o com
palavras doces como o mel. Como podia brincar com seus sentimentos dessa
forma?
-
Canta para os céus ouvirem tua alegria, Epher! - insistiu Diankós, sacudindo-o
pelos ombros - Os oráculos despejaram estrelas de luz sobre tua casa,
teu lar poderá finalmente frutificar! Tens um filho, Epher! Um varão!
E uma filha também!
-
Mentes, Diankós! Já te disse, não zombes! Mahkret perdeu nosso filho
há sete dias, como poderia meu lar frutificar agora?
-
Lê então, Epher, e verás que teu irmão não mente nem zomba das palavras
sagradas!
Epher
baixou os olhos para o papiro que Diankós lhe estendia. Trêmulo, tomou-o
finalmente e leu as palavras dos oráculos que selariam seu destino:
"Epher
de Abtu, sacerdote de Khentymentyou, a hora é chegada. Teu lar receberá
dois frutos divinos, que acolherás e nomearás como crias de teu próprio
ser. Toma um menino que será teu varão, e que te é enviado por Bast
(9). Adota o filho que tua carne não gerou, mas que ao olhá-lo dirás:
'É meu, parece-se comigo!' Toma ainda uma filha, uma criança de poucos
dias, trazida pela Íbis celeste que habita nas Terras Divinas do Qunfidhah
(10). Ela é irmã de teu primogênito. Faze-o hoje antes que Rá termine
sua jornada pelo ventre de Nut (11). Muitos temerão o poder dos filhos
iluminados de Epher. Teu nome viverá eternamente na boca dos que saírem
de tua casa."
Epher
leu e releu as palavras dos oráculos, o estômago contraíndo-se em espasmos,
os hieróglifos dançando em meio às lágrimas que não conseguia conter.
Adotar duas crianças? Hoje?
Diankós
não podia mais consigo:
-
Alegra-te, Epher! Não vês que eu tinha razão? Os deuses estão enviando-te
não apenas um, mas dois filhos de uma vez! Tua casa floresce finalmente,
e meu irmão ainda mostra-se triste?
-
Ai de mim, Diankós, meu irmão! Não leste por acaso as palavras sagradas?
São filhos adotados, não carne de minha querida Mahkret! É com certeza
um amargo castigo...
-
Que Khentymentyou não tenha ouvidos pregados nas paredes de seu próprio
templo para ouvir-te, Epher! - ralhou Diankós - Um filho adotivo é tão
bom e legítimo como um de tua própria semente e tu bem o sabes! Ama-os
e louva-os como dádivas, irmão! São os deuses que te ordenam!
-
E Mahkret? Minha pobre e doce Mahkret... Diankós, irmão, tu sabes como
ela sofre, o que irá pensar se eu acaso levar-lhe filhos adotados?
-
Não serás tu quem os levará, Epher! - Diankós impacientava-se - São
os deuses que os entregarão a Mahkret por meio de teus braços! A divina
Apet (12) negou-se a abençoar a semente de Mahkret porque reservou-lhe
filhos melhores, vindos do céu! Não dizem as palavras sagradas que teu
filho se parecerá contigo? Pois apressa-te, que Rá logo atinge o ponto
mais elevado no ventre de Nut!
Vagarosamente,
Epher enrolou o papiro como se ali enrolasse sua alma eterna: se os
deuses ordenavam, era necessário obedecer. Mas por onde começar?
-
Diankós, tens por acaso idéia de onde encontrarei meus filhos? Como
vou saber que são estes e não aqueles os herdeiros que os deuses me
enviam? Continuo perdido, irmão... Ilumina-me!
O
problema ainda não havia passado pela mente de Diankós. Realmente, como
encontrar dois órfãos e saber que são estes mesmos os filhos designados
para Epher? Por onde começar a procurá-los?
-
Procura-se, Epher, procura-se... - respondeu Diankós, dando de ombros
e forçando um sorriso, sem demonstrar a leve dúvida que de repente o
assaltou - Vamos, circulemos por Abtu, e os deuses nos apontarão o caminho!
Passando
um braço pelo ombro de Epher, Diankós levou-o para a rua. Se os deuses
ordenavam, também arrumariam um modo de provê-los com as respostas certas.
Era preciso confiar. Mal os dois andaram algumas dezenas de côvados
(13) e um oleiro correu-lhes ao encontro:
-
Que os deuses abençoem vossas almas eternas! Perdoem-me, sacerdotes,
mas necessito urgente de vossa ajuda!
O
homem jogou-se de joelhos diante deles, encostando a testa ao pó em
sinal de reverência. Se pudesse, Epher teria espantado-o imediatamente,
pois tinha coisas mais importantes a fazer. Mas Diankós, como sempre
piedoso, tomou-lhe a dianteira e fez o que deveria ser feito por qualquer
sacerdote:
-
Dize a que vieste, homem. Qual o mal que te aflige para que procures
nossa ajuda?
-
Que os deuses lancem paz por sobre vossos lares! - saudou novamente
o homem, ainda com a cabeça baixa, sem atrever-se a olhá-los - Que suas
casas sejam ricas e prósperas! Sacerdote, surgiu há uma semana em minha
humilde morada de oleiro uma gata, que deu à luz quatro filhotes! Estou
a cuidar deles, pois são uma dádiva de Bast a minha casa...
Epher
revirava os olhos de impaciência quando Diankós meteu-lhe o cotovelo
entre as costelas, quase fazendo-o perder o fôlego, ao mesmo tempo em
que cortava a ladainha do oleiro:
-
Leva-nos imediatamente à tua humilde morada, homem!
O
artesão arriscou uma olhadela para Diankós, e tentou continuar:
-
Senhor, que Rá ilumine vossos dias com felicidade, mas os gatos estão
com sarna, e temo que...
-
Obedece, homem! - cortou novamente Diankós, visivelmente impaciente
- Leva-nos imediatamente à tua casa! Com sarna ou não, teus gatos com
certeza são uma dádiva de Bast!
Epher
ainda tentou protestar, mas Diankós fez-lhe sinal para calar-se. O oleiro,
humilde, ergueu-se entre reverências e, arrastando as sandálias sujas
de barro seco, guiou-os até sua casa, numa rua afastada em direção ao
rio. Diankós levava Epher firmemente pelo braço, como temendo que ele
lhe escapasse. Epher não dizia palavra, sabendo que Diankós tinha alguma
idéia estranha, mas sentia que o tempo precioso lhe fugia. Precisava
cumprir as ordens divinas sem demora e ainda arrumar uma forma de explicar-se
com Mahkret ao chegar em casa. Pobre Mahkret!
A
casa do oleiro ficava quase ao fim da rua, espremida entre outras casinholas
de artesãos, e estava atulhada de vasos e vasilhas empilhados por todo
lado, alguns a secar ao sol diante da porta, outras já secas à espera
de compradores. As peças estavam acomodadas em todos os espaços possíveis
da pequena moradia, que também servia de oficina e depósito. Diante
da porta, o oleiro fez novas reverências, pedindo-lhes que entrassem,
e Diankós mandou-o indicar o caminho com um rápido aceno de mão. Acostumado
à bagunça, o oleiro foi passando com destreza por entre as pilhas de
cerâmicas e ferramentas diversas, enquanto Diankós e Epher torciam disfarçadamente
o nariz diante do pó escuro e do cheiro podre de lama que pareciam impregnados
em cada centímetro da pequena casa. Era parte de seu ofício como sacerdotes
atenderem a população humilde, levando-lhes medicamentos e assistência,
mas algumas pessoas pareciam pedir que as doenças invadissem seu lar,
mantendo-o sujo e malcheiroso, como fazia o oleiro.
Finalmente,
num aposento posterior que parecia servir de dormitório, o oleiro levantou
um reposteiro feito com um tecido rústico e desbotado, descortinando
uma cama tosca de madeira. Sobre a cama, a gata lambia despreocupadamente
suas crias, enquanto um menino magro, de cerca de cinco anos, dormia
enrolado a seu lado. O menino parecia proteger a gata, como se ela fosse
sua própria cria, um dos braços compridos aninhando o animal e seus
filhotes contra sua barriga, o outro dobrado para que pudesse chupar
o dedão da mão, enfiado na boca entreaberta e suja de saliva seca. O
estômago de Epher deu voltas de angústia ao vê-lo: tantas vezes sua
mãe gritara em desespero, ao vê-lo chupar o dedo da mesma maneira! Sua
mãe dizia...
-
Quem é o menino? - perguntou Diankós ao oleiro, em voz baixa, enquanto
debruçava-se sobre a cama para olhar a criança - É teu filho? Quem deixou-o
dormir com os animais, se eles têm sarna?
-
Era o que eu tentava explicar, senhor! Os animais estão sarnentos, mas
o menino não os deixa! Desde que a gata chegou em minha casa, ele a
cerca de mimos e não quer que nada nem ninguém se aproxime, nem mesmo
para tratá-la! Os filhotes estão contaminados pela mãe, que já chegou
aqui doente. E agora o menino cisma de dormir agarrado com os animais
na cama e de comer com eles à mesa, expondo minha família às impurezas
e...
-
Cala-te, homem! Quero saber de quem é o menino, qual o seu nome! - ralhou
Epher, a voz trêmula de nervoso contido - É teu filho? É teu aprendiz?
Quem cuida dele? Fala!
Diankós
sorriu, os olhos iluminados ao ver que finalmente o amigo havia compreendido:
as palavras sagradas estavam sendo cumpridas, Bast trazia o varão de
Epher diante de seus olhos!
Diante
da voz áspera de Epher, o menino abriu lentamente os olhos, acordando
de um profundo sono. Vendo estranhos debruçados sobre a cama, o menino
logo sentou-se com as pernas cruzadas, puxando a gata para o colo, enquanto
as crias protestavam ao ver as tetas maternas escaparem-lhes das boquinhas
famintas. O menino logo puxou-os também com uma mão para seu colo, pressuroso,
enquanto com a outra, a mesma que estivera chupando, esfregava os olhos
negros e profundos para espantar o sono. O oleiro não esboçou sequer
um gesto para impedi-lo, apenas dirigiu-lhe um silencioso olhar de censura.
O menino imediatamente encarou-o de soslaio, com um misto de medo e
rancor, como se o desafiasse. Finalmente o oleiro resolveu falar:
-
Este menino é filho adotivo de minha falecida irmã, Nessareit. Minha
pobre irmã foi levada para Osíris no último dia da estação de Akhet,
ao dar à luz uma criança morta, que apodreceu seu ventre. Não tenho
esposa ainda, senhores, mas tomei-o porque minha irmã era viúva de um
marido estrangeiro, que foi quem verdadeiramente adotou o menino. Ele
veio de terras distantes e não há mais ninguém no mundo que o queira
abrigar! A mulher com quem pretendo casar-me já disse que não o aceitará,
pois pressentiu que um espírito malígno habita em seu corpo! Pensei
em atirá-lo aos crocodilos, mas tive medo...
-
Como te chamas? - perguntou Epher ao menino, a voz mais suave porém
ainda trêmula, enquanto sentava-se na cama para chegar mais perto -
Que nome deste à tua gatinha?
-
Chamo-a de gata, oras! E eu sou filho adotivo de Nessareit! - respondeu
o menino, sorrindo simplesmente, na inocência resoluta de qualquer criança.
Apontou para o amuleto que Epher trazia no peito, seu símbolo de sacerdote
- Quem és tu? Tu vives no templo, não é?
Epher
sorriu em silêncio, os olhos brilhando. Sem desviar o olhar do menino,
estendeu a mão e começou a acariciar os gatinhos. Diankós conteve a
respiração: o sorriso dos dois, ali sentados, era idêntico! A cor negra
dos cabelos, a estrutura magra e comprida, os longos cílios escuros...
Os deuses tinham razão, o menino parecia-se mais fisicamente com Epher
do que um filho de sua carne jamais se pareceria!
-
Epher, meu irmão, não há necessidade de que eu te diga o que penso,
pois bem vejo que tu o sabes antes mesmo que minha boca o pronuncie!
-
Não, Diankós, teu pensamento é o mesmo que o meu, abençoado sejas! -
respondeu Epher, o coração aos pulos - Bom oleiro, se tu não desejas
mais este menino, eu levarei-o comigo para minha casa!
O
oleiro abriu a boca, espantado. Quem iria querer aquele pequeno demônio?
-
Senhor, a criança tem um gênio ruim e pode trazer-vos problemas! Infeliz
seria eu caso ele viesse a ofender vossa casa, se eu vos deixasse levá-lo!
Nem nome este infeliz recebeu de minha família, pois o esposo de minha
irmã morreu doente quando voltava da viagem em que o trazia para casa,
e minha irmã, já febril, seguiu-o três dias depois! O pequeno só nos
trouxe doenças e dor! E o demônio que habita neste menino nega-se a
dizer o nome que lhe foi dado!
Epher
fez o homem calar-se com um gesto rápido. O menino apenas alisava a
gata com seus dedos finos e longos, indiferente às palavras do artesão,
como se nem lhe dissessem respeito, e encarava Epher sem medo. Diankós
não perdeu mais tempo:
-
Quanto queres pelo menino e pela gata, meu bom oleiro? Dize teu preço
e dá-me imediatamente tudo o que é da criança, para que o levemos conosco.
E dá-me ainda um cesto, para levar a gata e sua cria em segurança.
O
menino lançou um olhar agradecido a Diankós, ao ouvi-lo comprar a família
de gatos. Com certeza, não iria querer separar-se de seus únicos amigos,
mas nem sequer esboçou reação ao fato de estar sendo comprado, ele próprio,
por estranhos. Ao contrário, espichou imediatamente o corpinho magro
para fora da cama e foi buscar, silenciosamente, uma pequena trouxa,
onde enfiou uma caneca de barro trincada e uma gamela velha que jazia
com um punhado de pão velho ao lado da cama, com certeza os restos de
sua última refeição e seus poucos pertences. O oleiro correu a buscar
uma cesta enquanto Epher e Diankós observavam os gestos calmos e resolutos
do menino, como se ele estivesse esperando justamente por aquilo: ser
levado daquela casa.
O
oleiro trouxe um pequeno cesto de junco trançado, talvez o melhor que
tivesse, certamente querendo agradar aos sacerdotes. O menino depositou
cuidadosamente a gata e seus filhotes no cesto e, passando a alça da
trouxa de pano pelo ombro, ergueu a mãozinha para Epher, pronto para
partir. Como devia sofrer o pobrezinho naquela casa, para entregar-se
assim facilmente a um estranho que acabava de comprá-lo como quem compra
uma ânfora de cerveja!
Sem
poder mais conter-se, Epher puxou-o para si e abraçou-o com força, duas
lágrimas escorrendo pelo rosto ossudo. O menino deixou-se abraçar e
começou a alisar os cabelos longos de Epher, como se consolasse-o. Nem
Diankós conseguia mais segurar a emoção ao vê-los e, para disfarçar,
tomou logo o cesto com os animais para apressar a partida, dizendo ao
oleiro:
-
Passa amanhã pelo templo e procura pelo teu pagamento, homem, pois é
como disseste: esta gata sarnenta trouxe uma dádiva de Bast, e receberás
o que te é devido! Vamos, Epher, que metade de teu trabalho ainda está
por cumprir!
Epher
separou-se a custo do menino e levantou-se, levando-o pela mãozinha.
Diankós seguiu-os, ouvindo as saudações e agradecimentos sem fim do
oleiro, que com certeza pensava ter sido mesmo abençoado: livravam-no
do menino infernal e da gata com suas crias sarnentas, e ainda davam-lhe
um pagamento por isso!
Os
três deixaram o oleiro à porta da casa, com Diankós fazendo-lhe um aceno
para que não os seguisse. Epher caminhava a passos contidos, para que
o menino pudesse acompanhá-lo com suas perninhas ossudas, e Diankós
notou que o garoto provavelmente ficaria alto como seu amigo sacerdote.
Que maravilha dos deuses! Mas ainda faltava encontrar a filha de Epher,
e Diankós pensava se a sorte lhes sorriria novamente com tanta facilidade.
O menino praticamente foi atirado em seus braços pelo oleiro, mas e
a menina? Onde encontrá-la?
-
Epher, irmão de meu coração, lembra-te que ainda precisas encontrar
a menina órfã de que falaram as palavras sagradas! Não tenho sequer
idéia de onde iremos encontrá-la! Que faremos?
Epher
parou de repente e, largando a mão do menino, voltou a desenrolar o
papiro que ainda trazia consigo. Relendo as palavras dos oráculos, Epher
suspirou.
-
Aqui diz: "uma criança de poucos dias, trazida pela Íbis celeste que
habita nas Terras Divinas do Qunfidhah". Para mim isto é um enigma,
Diankós! O que pensas de tais palavras?
Diankós
balançou a cabeça em negação. Não tinha a menor idéia de como encontrar
tal criança!
-
Se tu queres uma menina, eu tenho uma! - disse o menino, olhando para
os dois sacerdotes com se falasse a coisa mais natural do mundo - E
ela é dourada como as águas do Nilo ao amanhecer!
Epher
encarou o menino por alguns minutos, o papiro ainda entreaberto nas
mãos.
-
Que queres dizer? Como podes tu ter uma menina, ainda mais dourada?
-
Se prometerdes não machucá-la, eu mostro! - respondeu o garoto, sério
- Ela é muito pequena ainda...
Sem
poder acreditar, Epher olhava do menino para Diankós, que nada mais
podia fazer do que devolver-lhe o olhar de dúvida. Finalmente, Epher
enrolou o papiro dos oráculos e ajoelhou-se ao lado do menino, segurando-lhe
a mãozinha para acalmá-lo.
-
Eu prometo não machucá-la, mas tu precisas dizer onde conseguiste uma
menina.
-
Eu encontrei-a ontem num cesto, numa moita no lamaçal! Eu fui buscar
lama como o oleiro mandou, para fazer vasilhas, e ouvi ela chorando.
Um crocodilo estava quase a comê-la, precisei jogar muitas pedras para
espantá-lo! Ele ficou bravo, mas foi embora para o pântano!
-
Parabéns, foste muito corajoso! - incentivou Epher, vendo-o estufar
o peito ao contar o ato de heroísmo. Realmente, poucas crianças ou mesmo
adultos se arriscariam a jogar pedras num dos muitos crocodilos que
ainda circulavam pelos pântanos. Com a baixa do Nilo, as feras ousavam
aproximar-se até das casas em busca do alimento que começava a faltar-lhes
- E onde está ela agora, meu pequeno?
-
Deu trabalho, mas eu consegui colocar o cesto bem alto numa árvore e
fiz uma tampa de capim trançado para que as aves não a levassem, depois
colhi bastante junco e troquei pelo leite da cabra do cesteiro, que
mora aqui perto. Levei o leite e a menina bebeu tudo, que eu lhe dei
num canudo de caniço! Fiquei com ela o dia todo! Por isso o oleiro me
bateu ontem quando voltei para casa, pois não levei o barro que ele
pediu... E hoje ele não me deixou sair, mas preciso colher mais junco
para trocar por leite novamente e levar para a menina! Tu me deixas
colher o junco agora?
Epher
e Diankós estavam pasmos. Além de corajoso, o pequeno era engenhoso
e inteligente! Epher abraçou-o, cheio de orgulho, olhando para Diankós
como se precisasse de seu mudo testemunho para certificar-se de que
tudo o que estava lhe acontecendo era verdade. Diankós acenou com a
cabeça e sorriu, compreendendo-o. Epher pôs-se novamente em pé:
-
Pois bem, pequeno herói, mostra-me tua menina dourada e eu mesmo lhe
darei todo o leite que ela quiser! Poderemos levá-la conosco, se tu
o deixares!
O
menino pulou de alegria e logo tomou a mão enorme de Epher, puxando-o
novamente para o final da rua, em direção ao rio. Epher fingiu que deixava-se
levar. Diankós seguiu-os abanando a cabeça, ainda com os gatos no cesto,
e sorrindo de orelha a orelha. Que aventuras os deuses reservavam aos
mortais! Com certeza, seria necessário uma celebração com muitas oferendas
no templo, para agradecer tantas dádivas!
Os
três embrenharam-se pelo capim alto que crescia perto das áreas que
o abençoado Nilo alagara durante os quatro meses da estação de Akhet,
fecundando a terra com sua lama negra. As águas já haviam baixado bastante
e os artesãos recolhiam o capim para seus trabalhos, enquanto os agricultores
cultivavam a terra novamente fértil. Alguns homens e mulheres levantavam
os olhos de seus afazeres, curiosos ao ver a estranha comitiva: um sacerdote
carregando um balaio de gatos seguia um sacerdote carregando um papiro,
e à frente de ambos corria o filho da irmã do oleiro, o menino estrangeiro
que diziam ter o corpo possuído por espíritos maus... Iriam por acaso
realizar algum ritual de exorcismo no menino?
Embaraçados
com as longas vestes (14), que usavam apenas no templo, Epher e Diankós
esforçavam-se para não escorregar com as sandálias na lama escura e
pútrida, enquanto o menino corria despreocupadamente à frente, descalço
e seminu, enfiando gostosamente os pés no lamaçal. Diankós desistiu
de tentar manter a compostura e colocou o balaio com os gatos à cabeça,
segurando-o com uma mão, como os camponeses que passavam por eles, enquanto
com a mão livre tentava arregaçar as saias que teimavam em enroscar
no matagal. Ao olhar para trás para conferir se o amigo ainda o seguia,
Epher não conteve uma gargalhada, e acabou escorrengando, caindo sentado
no lodo negro.
-
Os deuses castigam-te por zombares de mim, Epher! - gargalhou Diankós
por sua vez, vendo a triste figura do amigo - Vamos, irmão, dá-me tua
mão e levanta-te!
-
Vamos, vamos! A árvore está logo ali, vamos! - apressou o menino, correndo
para ajudar Epher a levantar-se. Os sacerdotes não conseguiam parar
de rir - A menina deve estar com fome, vamos!
Epher
patinhou ainda alguns instantes, antes de conseguir firmar novamente
os pés na lama. Antes tivesse vindo com as saias curtas que usava em
casa, muito mais apropriadas! Rindo muito, arrancou as sandálias meladas
de barro e atirou-as longe. Depois compraria sandálias novas, valeria
a pena. Há muito não ria como agora! Diankós passou-lhe o cesto de gatos
e rapidamente fez o mesmo, pelo menos se enfiassem logo o pé no lodo
não escorregariam mais. Epher entregou-lhe então o papiro dos oráculos
e carregou pessoalmente o balaio na cabeça, seguindo o menino até finalmente
alcançar a árvore que ele apontava. Entre os galhos mais altos divisava-se,
com efeito, um cesto!
Largando
a pequena trouxa de pano com suas tralhas, o menino trepou imediatamente
pelos galhos, enquanto os sacerdotes olhavam do chão. O menino levantou
a tampa de capim trançado e Epher pode perceber-lhe o sorriso ao confirmar
que a menina ainda estava lá.
-
Podes descer com o cesto sem derrubá-la? - Perguntou Epher - Ou queres
que eu suba para ajudar-te?
-
Estás louco, Epher? - cortou imediatamente Diankós, devolvendo-lhe o
papiro e arregaçando até a cintura as saias enlameadas - Os galhos não
aguentariam teu peso, irmão! Deixes que eu suba, sou menor e mais leve
do que tu para isso! Além disso, sou também mais novo e mais ágil...
Epher
ia começar a protestar, mas Diankós logo subia na árvore pelo mesmo
caminho que o menino, que já começava a descer, com o cesto balançando
perigosamente na cabeça. Juntos, os dois trouxeram para baixo o bercinho
simples e improvisado, provavelmente obra de algum camponês pobre. Contudo,
os panos dentro do cesto eram de seda alaranjada, matéria luxuosa e
cara que nem os sacerdotes podiam dar-se ao luxo de obter, mesmo na
rica Abtu!
O
menino afastou os panos e mostrou aos estupefatos sacerdotes uma menina
recém-nascida, de pele clara e cabelos dourados, que enfiava gulosamente
os dedinhos rosados na boca desdentada, como se pedisse comida. Epher
não podia acreditar: jamais vira uma criança com tal cor, nem entre
os masciauash, os beduínos que vinham dos distantes oásis do deserto,
curtidos pelo sol, nem entre os mercadores do norte, que chegavam a
Abtu em barulhentas caravanas. Às vezes chegavam à cidade mercadores
estrangeiros de pele dourada, vindos de terras que ficavam a nordeste,
além do distante Delta, mas nunca uma criatura tão branca... Do sul
ela também não poderia ter vindo, pois para lá ficavam as terras selvagens
de Uauat, Yam e Kush (15), e ainda além o misterioso reino dos Nehesiu
(16), o país dos negros. De onde viria tamanha maravilha dos deuses?
-
É a criança trazida pela Íbis Celeste! - exclamou enfim Epher - Diankós,
que pensas disto, tu que és meu irmão? Viste alguma vez coisa semelhante?
-
Garanto-te que estou tão maravilhado quanto tu, Epher! Já vi gente clara,
mas esta menina é rosada como o raro sândalo!
-
Eu já vi gente branca assim antes! - gritou orgulhoso o menino, dando
carinhosamente um dedo para que a menininha apertasse entre as mãozinhas
- De onde eu vim há muitas, eu me lembro! Mas fica muito longe daqui!
Nem eu sei dizer onde fica, mas sei que existe um lugar assim! Podemos
ficar com ela?
-
Claro, vamos levá-la! - Epher de repente pensou no que diria Mahkret
ao ver tal criança - Ela deve ter fome, olha como engole teu dedo! Ajuda-me
a leva-la, Diankós! E tu também, meu pequeno orgulho, tu também!
Epher
carregou consigo o cesto com a criança e Diankós retomou o balaio dos
gatos, iniciando o escorregadio caminho de volta. O menino saiu trotanto
alegremente à frente dos dois, carregando sua pequena trouxa ao ombro
e fazendo malabrarismos com o rolo de papiro, que tinha mais da metade
de sua altura. Com certeza estava orgulhoso de seus feitos, arrumando
um novo lar para si, seus gatos e sua menina dourada, tudo num único
dia, de uma só vez. Que diria o pequeno se soubesse que, naquele rolo
que lhe servia agora de brinquedo, todos os últimos acontecimentos estavam
previstos, e seu futuro havia ali sido selado pelos deuses?
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Notas
explicativas:
1 - As estações egípcias eram divididas em três períodos de
quatro meses cada, de acordo com o ciclo do rio Nilo. Akhet era a
estação em que as águas inundavam as terras ao redor do Nilo, em Peret
o rio voltava ao nível normal e permitia o cultivo das áreas ribeirinhas,
e Chemu era o período de secas. O ano de doze meses iniciava-se no
dia 16 de Julho, quando a estrela Sírius surgia no horizonte. Esta
história, portanto, inicia-se por volta de 16 de Dezembro de 2992
a.C.
2 - Khentymentyou é uma antiga divindade egípcia sobre a qual
pouco ou nada se sabe atualmente. Ainda há ruínas de um templo dedicado
a Khentymentyou em Abidos. Os egípcios cultuaram muitos deuses durante
sua história, e em geral cada cidade ou vila tinha um deus próprio,
além dos deuses principais da mitologia egípcia.
3 - Abtu é a provável tradução da grafia original do nome egípcio
para a cidade de Abidos.
4 - Era costume entre os egípcios antigos acreditar que os
mortos não "morriam" de verdade, como pensa-se hoje em dia. Para eles,
as almas apenas mudavam de endereço, indo habitar outro corpo no Reino
do deus Osíris, o Reino dos Mortos. Daí o costume de escrever e dedicar
oferendas aos parentes falecidos, pois eles estariam morando perto
dos deuses e poderiam ajudar os vivos.
5 - O concubinato era comum, desde que um homem pudesse sustentar
concubinas sem prejudicar o status da esposa, considerada a verdadeira
dona e administradora do lar. Ter concubinas era considerado mais
honroso do que frequentar a casa da alegria. Esposas insatisfeitas
ou que descobrissem infidelidades dos maridos tinham direito legal
ao divórcio, podendo inclusive expulsar o esposo de casa.
6
- As "moças da alegria", ou moças da "casa da alegria", eram mulheres
que recebiam homens com liberalidade, como fazem as atuais prostitutas.
7
- A adoção de órfãos sempre foi uma prática constante entre os
egípcios, até entre as camadas mais humildes. Em geral, parentes assumiam
as crianças órfãs como filhos, ou entregavam-nas para ser criadas
num templo. Famílias mais abastadas às vezes acolhiam vários órfãos,
mesmo tendo mais filhos, e todos teriam direitos iguais de herança.
Até um mestre poderia adotar um aluno de qualquer idade, ainda que
este tivesse pais ou parentes vivos, bastando para isso nomeá-lo seu
herdeiro.
8
- Rá era o deus-sol.
9
- Bast era a deusa-gata, conhecida também como Basset ou Bastet.
10
- A Íbis Celeste, também chamada Íbis Coroada ou Íbis Comata,
era uma ave pernalta que vivia no sul da zona árabe do Mar Vermelho
(perto do Qunfidhah) e emigrava para a Absínia no inverno. Ambos os
lugares encontram-se próximos às regiões nas quais produzia-se o incenso
sagrado e eram denominadas "terras divinas".
11
- Nut era a deusa que representava o céu, e seu ventre seria o
caminho por onde Rá viajava durante o dia.
12
- Apet era a deusa-hipopótamo, cujo ventre avantajado simbolizava
a gestação, a criação e a fertilidade, tanto humana quanto da natureza
em geral.
13
- O côvado era uma unidade de medida padrão que equivaleria a
aproximadamente 45 centímetros.
14
- A vestimenta padrão dos egípcios era saia curta para os homens,
sem camisa, e vestido para mulheres. Apenas sacerdotes ou homens importantes
usavam saias longas ou camisas, geralmente em situações especiais,
e era até comum trabalhar completamente nu, por causa do calor.
15
- Uauat era a região compreendida entre Abidos e a segunda catarata
do Nilo. Yam era a região habitada pelos beduínos a sudeste de Abidos,
na faixa entre o Nilo e o Mar Vermelho. Kush era a região oriental
ao sul de Yam, que ficava entre a terceira e a quinta catarata do
Nilo.
16
- Nehesiu era a palavra egípcia para "negro", indicando os africanos
que habitavam as vastas selvas ao sul do Nilo. A região era chamada
de País dos Negros.
