Roma - Península Itálica - 148 a 139 a.C.
Nos
meses que se seguiram, a convivência de Emrys com os alunos foi sempre
alegre e agradável. Methos confiava realmente no Imortal mais velho
e oferecia-lhe uma vida mais do que confortável como seu hóspede, dando-lhe
liberdade de entrar e sair quando bem entendesse e, a não ser por um
ou outro ciúme momentâneo, não implicava quando os outros Imortais vinham
visitá-lo, então tudo estava bem para Emrys.
Por
causa de seu amor pelos textos, o velho Imortal logo fez amizade com
alguns patrícios importantes, de famílias antigas e donos de respeitáveis
coleções de arte e literatura. Eram pessoas que na maioria haviam encomendado
cópias de Alexandria, portanto Emrys já tinha ouvido falar superficialmente
sobre alguns deles, quando trabalhava na grande biblioteca, e sabia
inclusive o que eles poderiam ter nas estantes. Com seu jeito afável
e sempre solícito, foi fácil para o ex-bibliotecário cair nas boas graças
destes senhores, que adoraram a perspectiva de ter com quem conversar
sobre suas raridades. Methos ficara ressabiado no início, alertando
o mestre sobre o perigo de andar em companhia de gente que não via a
hora de arranjar um bom casamento para os parentes ou meter os amigos
em altos cargos políticos - Methos preferia patrícios de ambientes menos
tradicionais, que poderiam ser manobrados, subornados ou mesmo ludibriados
em caso de necessidade, mas Emrys sabia o que estava fazendo e foi em
frente com seus novos contatos. No fim Methos entendeu e até achou bom,
pois esses homens, atiçados pelo filósofo Aristeu, resolveram ampliar
suas coleções de manuscritos, e seus negócios como importador de textos
engrenaram de vez.
Porém
o maior desafio para Emrys foi aproximar-se de Peter Gaicus, pois o
rapaz em geral apenas rodeava-o à distância e era o mestre quem tinha
que tomar a iniciativa de chamá-lo para um passeio ou sentar-se ao lado
dele para puxar assunto. Nas primeiras semanas ambos conversaram sobre
amenidades, até que a simpatia do velho Imortal enfim venceu a timidez
de Gaicus e os dois puderam entrar em diálogos mais profundos. E Gaicus,
que nunca tivera muito interesse em relação ao passado dos outros Imortais
com quem vivia, transformou-se aos poucos num buraco sem fundo de curiosidade
e dúvida, crivando Emrys de perguntas por vezes desconcertantes.
-
Quando ainda eras feiticeiro, tu não te imaginavas quase um deus? A
impossibilidade de ter filhos nunca te incomodou? Não temes esquecer
algo de teu passado? Como aprendeste a ler e escrever? É verdade que
antigamente os Imortais usavam machados de pedra para matar-se uns aos
outros? Alguma vez pensaste que isso tudo era um sonho? Quem descobriu
que não podemos lutar em Solo Sagrado?
A
capacidade dele em encontrar novas questões e abordá-las por ângulos
diferentes a cada dia deixou Emrys deliciado. Nem todos os seus discípulos
tinham coragem de mostrar-se abertamente curiosos, preferindo esperar
que ele lhes ensinasse tudo com o tempo, porém Gaicus, depois que começou
a perguntar, não sabia mais parar.
-
Mas o que deu nesse garoto para grudar em ti assim? - resmungou Methos
num dia em que Emrys não aceitou acompanhá-lo ao forum porque já combinara
de passar a manhã com Gaicus - O malandro nunca aguentou uma conversa
decente comigo sem bocejar, com que então agora inventou de aprender
até filosofia contigo?
-
Não sejas ranzinza! - sorriu Emrys, pacientemente - Tu também ficaste
impressionado comigo quando nos conhecemos...
-
Nem tanto! - Methos fingiu-se de indiferente - Eu não era nenhum bobo
naquela época!
-
Eu sei, por isso sempre andei com minha espada bem segura comigo! Pensas
que nunca percebi que reviravas minha tenda assim que eu dava as costas,
mesmo quando ainda mal te aguentavas em pé? - Emrys gargalhou vendo
a cara de Methos ao ser desmascarado após milênios - E depois, quantas
vezes encontrei minhas coisas fora do lugar quando voltei para casa?
Eu é que não era nenhum bobo naquela época!
-
Eu não ia matar-te, eu só queria... Só pensei em... Em... Oras!
-
Em roubar-me e fugir, não? - Emrys suspirou - Eu entendo, meu filho,
eu era um Imortal estranho, poderoso, e na época estavas desarmado,
dependendo de mim. Sei que tinhas medo, que outros tentaram fazer-te
mal no passado... E mesmo tendo salvo tua vida, ninguém garantia que
eu não tinha más intenções.
-
Sinto muita vergonha de minha ingratidão naqueles dias! - Methos fitou
Emrys nos olhos - Será que há algo neste mundo que nunca tenhas sabido
ou adivinhado?
-
Talvez! - Emrys piscou maliciosamente - Por que não tentas descobrir,
como Gaicus?
-
Certo, venceste outra vez! - Methos sorriu - Hoje ficas com ele, mas
amanhã vais comigo ao circo!
-
Eu detesto violência, tu sabes disso! - Emrys franziu a testa e encarou-o
com tristeza - Como ainda podes assistir essas lutas desnecessárias,
aceitar que um bando de gente se mate à toa para divertir uma multidão
insana?
-
Mas não iremos ver os gladiad...
Methos
calou-se e corou ao perceber a sutil indireta. Não era a primeira vez,
desde sua chegada, que Emrys referia-se enviesadamente aos vários séculos
durante os quais Methos dedicara-se a ser uma das mais temíveis criaturas
que já assolaram o mundo. Foram séculos de mortandade, pilhagem, estupros,
destruição, crueldade e covardia. Aldeias e até vilas inteiras haviam
sido completamente aniquiladas por Methos e seus companheiros Imortais,
criaturas de almas tão negras quanto a do pior demônio que a humanidade
pudesse imaginar. Nem Methos sabia ao certo por que havia se transformado
naquele monstro. Talvez fosse a pressão do grupo que o empurrara para
o crime desenfreado, talvez fosse o ódio pessoal que devotava a um mundo
que lhe negava amor e compreensão, ou até uma sádica perversão mesmo...
O caso era que gostara daquilo e permanecera tempos demais naquela vida
para ousar arrepender-se ou procurar justificativas para seu passado.
Mesmo se pedisse perdão aos berros em praça pública, por todos os dias
de sua vida até a eternidade, isso não traria de volta o que havia sido
destruído por suas mãos, não ressuscitaria os mortos nem confortaria
sua própria consciência. Methos sabia que teria que conviver para sempre
com esse terrível peso na alma, e sequer acreditava poder dividi-lo
com mais alguém - nem com Emrys, a única criatura no mundo a quem amava
sem restrições, e a quem devia a própria vida. Agora via que com certeza
Emrys sabia de tudo, sempre soubera, e percebeu que o mestre, apesar
disso, o perdoava. Por um instante Methos não soube lidar com as avassaladoras
emoções que isso lhe provocou, e seus olhos encheram-se de lágrimas.
-
Ah, meu filho, eu orei tanto para que um dia pudéssemos conversar sobre
isso, mas desde que cheguei tens evitado o assunto! - Emrys puxou Methos
para seus braços e deixou que ele desabafasse, alisando-lhe os cabelos
como teria feito a uma criança - Ouvi falar coisas terríveis de ti e
várias vezes tentei seguir teu rastro, mas sempre me escapaste, metido
em novas desgraças! Sofri muito, porque temia que os deuses resolvessem
te castigar!
-
Eles castigaram, eles me deram uma consciência que não me deixa em paz!
- pela primeira vez em muito tempo Methos permitia-se chorar sem pudores
diante de outra pessoa - Cometi tantas atrocidades que nem eu suporto
pensar nelas e hoje minha vida é só remorsos!
-
Não precisas dizer-me o que fizeste, eu sempre soube qual seria o teu
destino! - Emrys suspirou profundamente - No dia em que te vi partir,
eu senti que terias que caminhar à beira dos abismos antes de voltar
ao caminho seguro... Não foste o primeiro e nem serás o último a passar
por isso!
-
Por que salvaste-me a vida naquele deserto? - Methos limpou o rosto
com as mãos - Eu sobrevivi para tornar-me um demônio tão medonho que
ainda hoje tenho pesadelos com o que fiz! O pior é que eu gostava daquilo,
Emrys, eu GOSTAVA!
-
Eu sei, meu filho, eu entendo até bem demais o que sentes!
-
COMO podes entender? - Methos afastou-se bruscamente - Nem EU me entendo!
Tu sempre foste um sacerdote, o eterno pai piedoso! Tu nunca...
-
Ora, Methos, além de sacerdote eu também sou humano! Já fiz besteiras
também, quando era mais novo! - vendo que Methos ia retrucar, Emrys
assumiu um tom severo, quase agressivo - Pensas acaso que nunca me meti
em guerras nojentas junto com meu povo, porque acreditavam que era eu
quem trazia nas minhas armas os feitiços que nos ajudariam a vencer?
Que nunca dancei ensandecido em volta de uma fogueira onde ardiam os
corpos dos inimigos, com meu rosto pintado com o sangue deles e com
seus dentes pendurados em colares no meu pescoço, só para agradecer
aos deuses pela vitória? Acreditas que nunca violentei cruelmente uma
mulher, excitado como um animal por poções mágicas que eu mesmo preparava,
em rituais de fertilidade para garantir a prosperidade da tribo? Esqueces
que eu vivi em tempos tão incivilizados que fazia parte das funções
de um sacerdote revirar as vísceras dos inimigos em busca de visões
do futuro, ou mesmo devorar pedaços humanos, ainda pulsantes de vida,
para aumentar meus poderes? Pois eu fiz tudo isso e muito mais, Methos,
e eu também gostava! Pior, eu achava que aquilo estava CERTO e era BOM!
Aquelas
palavras hediondas, despejadas de sopetão, haviam feito Methos parar
de chorar com mais eficiência do que se ele tivesse levado uma bofetada.
E era justo que Emrys lhe respondesse nesse tom. Era mais do que justo
que o amigo lhe desse umas palmadas no traseiro e pusesse-o no seu devido
lugar. Se fosse outro homem que lhe fizesse isso, Methos o odiaria imediatamente,
mas aquele era Emrys, o Velho.
Há
tempos Methos não procurava mais pelo mestre como tinha feito antes,
porque apavorava-se com a idéia de que ele tivesse morrido, e de certa
forma também temia enfrentá-lo após tudo o que já fizera. Jamais tinha
desconfiado da ligação de Marconus com o velho Imortal, afinal nem Marconus
sabia da verdade até pouco tempo atrás. Methos só se unira a ele e a
Gaicus para fugir da solidão - além de, obviamente, tentar garantir
a própria segurança contra outros Imortais que, Methos tinha certeza,
ainda andavam atrás de sua cabeça. Mas Aka e Eksamus, esses sim ele
sabia que tinham visto Emrys há pouco tempo, e foi a eles que Methos
agarrou-se de propósito, na esperança do mestre procurar pelos dois.
Reencontrar enfim o Imortal mais velho do mundo e ainda por cima descobrir
que ele também tinha cometido atos medonhos não apenas tirava um peso
enorme de sua consciência como colocava muitas coisas em perspectiva.
Diante
do olhar dolorido do amigo, Emrys calou-se e fechou os olhos. Nunca
tivera orgulho de seu passado distante, por isso não costumava revelá-lo
a ninguém. Nem devia ter revelado agora, fora algo cruel de sua parte.
Graças aos deuses a humanidade tinha evoluído, em muitos lugares já
não havia mais sacrifício humano e os curandeiros hoje não eram tão
selvagens, vários eram sábios e verdadeiros médicos. Se disse aquilo
tudo a Methos, talvez foi porque sentiu que ele precisava entender que
não tinha sido o único a viver tempos negros através da História...
Não. Era mentira. Aquilo fora um desabafo, igualzinho ao de Methos.
Emrys tinha que admitir que às vezes também precisava revolver a lama
podre dos confins de sua alma para sentir-se melhor consigo mesmo e
recobrar a vontade de prosseguir através dos tempos. Porém Methos era
ainda jovem para suportar uma carga como a sua. Por um momento Emrys
quase sufocou sob o peso da própria idade.
-
Nós, que estamos por aí há milênios, vimos e fizemos muitas coisas que
hoje entendemos que foram más! - falou afinal, em tom conciliador -
Poucos de nós tiveram a sorte de caminhar sempre pelo lado certo da
vida, e raríssimos nunca foram tentados a desviar-se dessa trilha. Na
maioria das vezes acreditamos que agimos corretamente, porque obedecemos
às leis e costumes do tempo e do lugar em que estamos, e nem sempre
nos damos conta do quanto erramos!
-
Eu sempre soube que estava errado, Emrys! - insistiu Methos num sussurro,
parecendo procurar novos motivos para incriminar-se - Eu sabia, mas
mesmo assim eu fazia... E eu gostava de fazer, apesar de entender o
quanto aquilo era horroroso!
-
Então foste abençoado pelos deuses, porque agora tens noção disso e
ainda há tempo de reparares teus crimes! - Emrys puxou Methos outra
vez para seus braços, a fim de que ele não visse sua própria dor - Essa
é talvez a única glória da Imortalidade... Podes não acreditar, mas
eu ainda estou consertando os meus erros, e um dia também sentirás que
estás consertando os teus!
-
Será que existe perdão e reparação para mim? - Methos deixou-se embalar
como uma criança, tamanha era sua inconfessável carência - Será que
eu mereço essas chances? Tantas vezes eu te amaldiçoei por me salvares
naquele deserto... Seria melhor para o mundo se eu tivesse morrido lá,
cozido sob o sol até meus ossos sumirem na areia! Tanta desgraça teria
sido evitada!
-
Pois quando te salvei eu estava tentando fazer o certo, meu filho! -
Emrys sorriu tristemente - Eu também tentei morrer em épocas de desespero,
e quase consegui! Hoje me arrependo muito... Posso ter errado ao deixar-te
viver para ser um monstro, mas acho que no fim acertei, porque agora
estás aqui de novo comigo, consciente do mal que fizeste, e te encontro
cercado de bons amigos, que viverão a teu lado por muito tempo ainda!
Sim, eu acertei, porque estou vivendo algo inédito! Tu me mostraste
que vários de nossa espécie podem permanecer juntos e em paz, por vontade
própria... Tu realizaste um sonho que acalento há milênios sem fim,
o sonho da minha eternidade! Não achas que isso já vale como consolo
para as dores de tua alma?
Comovido,
Methos fitou Emrys nos olhos. O que viu foi o que também procurava há
milênios - o amor infinito de um pai, a confiança de um amigo, e um
mundo de compreensão e perdão. Sentiu imediatamente as lágrimas voltando,
mas dessa vez eram lágrimas de alívio, e pela primeira vez em muitos
séculos acreditou novamente que merecia continuar vivendo. Como havia
ansiado por aquilo!
Sentindo
Methos mais sossegado, Emrys beijou-o na testa.
-
Não tenhas vergonha do que foste um dia, porque sobreviveste para ser
alguém melhor! - disse o ancião com ternura - Como já falei, eu também
dei muitos passos errados em minha infinita vida e não tenho orgulho
deles, ninguém deve ter. Só que um poder maior manteve-me neste mundo
até agora visando algum propósito, e talvez esse propósito tenha sido
refazer meus passos e ainda evitar que outros passem pelos mesmos traumas,
amparando-os com meu exemplo. Não é feio errar para aprender, filho,
isso faz parte da natureza humana... E não é porque somos Imortais que
temos que ser eternamente condenados também!
-
Por que é que eu ainda me sinto uma criancinha perto de ti? - Methos
enxugou as lágrimas com a ponta do manto e sorriu - Tantos milênios
e não mudaste nada!
-
Ora, para mim és e sempre serás uma criança! - Emrys alisou paternalmente
os cabelos do aluno - Uma criança levada, mas que eu amo muito e gostaria
que fosse meu filho de verdade! Agora mostra que és adulto e encara
teus erros de frente, como eu encarei os meus... E amanhã iremos ao
circo!
-
Não iremos ver os gladiadores, prometo! - Methos procurou recompor-se
e forçou um sorriso - O público adora as lutas, mas na verdade só vou
ao circo ver as corridas, essas sim são um lindo espetáculo e acho que
vais gostar!
-
Perfeito! - Emrys sorriu, apertando as mãos de Methos com carinho -
Agora vou falar com Gaicus, que já deve estar impaciente à minha espera!
E
Gaicus realmente aguardava pelo mestre no jardim. Os amigos em geral
deixavam-no a sós com Emrys, percebendo o quanto aquilo era importante
para ele, e o ancião era-lhes agradecido por isso. Gaicus tinha realmente
muito a aprender, e Emrys era agora seu grande livro da vida, sua fonte
infindável de conhecimento. Obviamente nem o velho Imortal poderia responder-lhe
tudo, mesmo porque ele próprio não conhecia a razão de certas coisas,
mas só o fato de ele dizer isso já era suficiente para satisfazer a
atual ansiedade de Gaicus, que logo pulava para a próxima pergunta de
sua interminável lista - se Emrys não sabia algo, então ninguém mais
saberia e nem precisaria saber. Simples assim.
Logicamente
Emrys fazia de tudo para não parecer um deus, dono da última palavra,
porém Gaicus ainda estava deslumbrado com a presença do mestre e por
enquanto não lhe importava assimilar as consequências ou a magnitude
do que aprendia. Apenas com o passar do tempo foi que ele começou a
digerir melhor o que ouvia de Emrys, e após alguns meses suas perguntas
diminuíram, dando então lugar a períodos cada vez mais longos de silenciosa
e solitária meditação.
Se
sua primeira fase tinha provocado ciúmes e implicâncias, a segunda então
causou completa estranheza. O problema era que Gaicus estava o oposto
do que sempre fora. Antes ele era o mais despreocupado e brincalhão
do grupo, o que contava as piadas mais sujas e falava asneiras, o que
dirigia-se desaforadamente às mulheres fáceis na rua e embriagava-se
primeiro nas festas. Agora Gaicus vivia sóbrio e em silêncio, observando
os amigos, ou simplesmente divagava, com o olhar perdido em algum lugar
de sua própria mente. Até ler ele andava lendo, e com uma voracidade
invejável.
Emrys
era o único que parecia entendê-lo e ter paciência com suas excentricidades.
Durante os anos seguintes, era só com o velho Imortal que Gaicus encontrava
compreensão para suas confissões e paz para filosofar à vontade, e os
dois muitas vezes passavam horas lendo em silêncio, ou conversavam passeando
à pé pela cidade. Todos os outros Imortais faziam rápidas viagens de
negócios, e Aka em geral acompanhava o marido ou ficava com o irmão,
porém Gaicus só aceitava viajar se Emrys também fosse. Titus às vezes
ressentia-se por Gaicus não procurá-lo mais como antes, mas Aka acalmava-o
fazendo-o ver o quanto o rapaz estava amadurecendo, mesmo dando a impressão
contrária.
-
Ele agora toma conta dos próprios negócios com inteligência, não arruma
brigas à toa e quase nem bebe mais! - comentou ela uma noite no quarto,
enquanto o marido fitava tristemente o complicado mosaico que ornava
o chão - Gaicus mudou para melhor, descobriu que a Imortalidade não
é uma eterna orgia irresponsável... Devias agradecer a Emrys por ter
enfiado algum juízo naquela cabeça frívola dele, Titus, isso sim!
-
É que antes ele era... Divertido! - Marconus sorriu com tristeza, cutucando
distraidamente uma das cabeças de leão entalhadas nos braços da cadeira
onde sentara-se - Ele sempre foi o contraponto da minha seriedade, entendes?
Hoje ele está quase tão centrado quanto nós, e às vezes sinto pena por
ele ter perdido aquela inocência toda...
-
Então sentes por ver teu filhote enfim crescer e ganhar asas? - murmurou
Aka ternamente, sentando-se no colo do marido e puxando-o levemente
pelos cabelos para forçá-lo a encará-la - Achas que perdeste a importância
para ele, que não tens mais utilidade como mestre?
Após
um segundo de hesitação, Marconus concordou com um aceno de cabeça e
apertou-se contra ela, cônscio do próprio egoísmo. Aka cobriu-o de beijos
e depois ergueu-lhe o queixo, fitando-o outra vez com grande amor.
-
Entendas isso como uma fase de adaptação apenas! - disse ela - A chegada
de Emrys fez com que o mundo desabasse na cabeça de Gaicus, colocando-o
em contato com outras realidades que jamais imaginou. Eu também fiquei
confusa quando conheci Emrys em Atenas, foi como se arrasassem todos
os conceitos que levei séculos para formar e dar como garantidos...
Eu precisava substituí-los por outros, senão iria enlouquecer! E eu
já era bem mais velha do que Gaicus é hoje, mais velha do que tu! Imagines
então o que isso está fazendo na cabeça do rapaz... Com o tempo ele
reencontrará sua própria maneira de ver o mundo, podes ficar certo!
E aí ele te amará ainda mais por ter-lhe permitido a liberdade de experimentar
por si mesmo tantas descobertas...
-
Eu sou o homem mais sortudo e feliz do mundo! - sussurrou Marconus,
encarando-a com sincera adoração - O que será que fiz para merecer uma
mulher como tu? És tão sensata e compreensiva que tenho até vergonha
de minhas idéias mesquinhas!
-
Não me coloques num pedestal, Titus, eu não sou perfeita! - Aka sorriu,
comovida - Sortuda sou eu em ter um marido que me ama tanto assim!
Marconus
sabia que Aka tinha razão. Em poucos anos Gaicus mudou muito, mas para
melhor. Começou a tratar os escravos com mais brandura, arrumou uma
amante fixa, devorou dezenas de grandes obras que encontrou nas bibliotecas
dos amigos e, sobretudo, enfiou a cabeça nos negócios, abrindo algumas
pequenas empresas na cidade, nas quais os amigos logo tornaram-se seus
sócios. Aos poucos até o famoso bom-humor de Gaicus foi voltando, porém
de uma forma mais apurada e inteligente, sem as baboseiras infantis
de antes.
Quem
não estava mais satisfeito, entretanto, era Emrys. Com o passar do tempo,
uma das coisas de que mais o velho mestre começou a sentir falta em
Roma foi da espiritualidade sincera do povo. Mesmo sabendo que cada
civilização inventava seus próprios deuses e demônios, Emrys sempre
admirara a capacidade humana de admitir que um poder além de sua compreensão
regia implacavelmente os fenômenos do mundo, e de criar fantasias para
tornar esses mistérios menos apavorantes, envolvendo-os em mitologias
que servissem a propósitos mundanos - alguns povos tinham feito notáveis
avanços científicos justamente por esse processo de tentar explicar
o inexplicável, e a maioria dos grupos humanos incluía a religião em
sua forma de governo. Porém Roma não era baseada numa cultura espiritual
própria, e sim numa miscelânea jamais vista de deuses e mitologias absorvidas
de outros povos. Em Roma os templos viviam lotados e celebravam-se grandes
festas em homenagem a divindades de origens tão distintas quanto a egípcia,
a mesopotâmica e a minóica, sequestradas de seus conceitos originais
e trasformadas para satisfazer o paladar latino, mas ainda assim tudo
era superficial, decorativo, e o verdadeiro sentido religioso estava
ausente - a ciência explicava coisas demais, havia deuses demais, havia
egoísmo e materialismo demais. Acreditava-se em tudo e, por isso mesmo,
já não se acreditava realmente em nada.
E
Emrys notava que seus próprios alunos estavam virando céticos. Mesmo
tendo sido criados em função da vida religiosa, Aka e Eksamus tinham
sofrido o suficiente para perder logo cedo toda a fé nos deuses de seus
pais. Methos nunca tivera nenhuma crença verdadeira e era velho demais
para inventá-las agora, principalmente depois de ter sido, ele próprio,
uma das maiores provas de que reis não eram deuses e nenhum raio cairia
do céu para punir os criminosos. Marconus, mesmo sendo um artista e
estudioso nas horas vagas, era mais um observador do comportamento humano
do que dos mistérios da alma. E Gaicus estivera tanto tempo mergulhado
na satisfação de suas próprias necessidades imediatas que sequer dirigira
um olhar mais profundo aos companheiros Imortais, e só agora desabrochava
sua consciência para o mundo, porém numa civilização que Emrys julgava
perniciosa - Roma era talvez a mais ímpia de todas as civilizações que
o velho Imortal já conhecera. Nem os gregos excessivamente politeístas
e filosóficos tinham se divorciado tanto do mundo invisível e isolado
tanto as emoções alheias. Hoje, Emrys passeava com seus alunos por Roma
e não entendia como eles conseguiram conviver décadas a fio com esse
povo que tinha tanta necessidade de expôr-se e ao mesmo tempo não amava
o próximo. Os romanos não possuíam um sentido de individualidade ou
privacidade, e talvez justamente esse excesso de vida pública tirara
deles a visão do outro como pessoa.
O
velho Imortal sabia que seus alunos no fundo não eram como os romanos
comuns mas, por maior que fosse sua compreensão da evolução humana e
sua facilidade em absorver as mudanças a seu redor, Emrys mais de uma
vez sentiu-se sufocar nessa Roma excêntrica, onde os outros Imortais
pareciam circular tão confortavelmente. Talvez estivesse mesmo ficando
velho demais, pois sentia falta da liberdade de ajudar os necessitados
sem dar satisfações, de conversar com os filósofos sem ter que acompanhá-los
ao banho, de brincar com crianças nas ruas sem receber olhares furtivos,
de colher ervas frescas pelas colinas sem a vigilância de um escravo
ansioso por acorrer em sua ajuda. Para um Imortal essa vida poderia
ser perigosa, e para Emrys a pressão estava tornando-se excessivamente
desgastante. Nos primeiros anos aquilo tudo fora divertido, um desafio
à sua capacidade de adaptação, mas agora não via mais graça nessa sociedade
que o mantinha numa prisão sem grades. Emrys não queria decepcionar
os amigos, afinal eles o haviam procurado por tanto tempo e estavam
felizes com sua presença, porém também não queria mais ficar ali.
Outro
grave problema era justamente essa convivência amigável de tantos Imortais,
que Emrys a princípio julgara uma bênção inigualável. Com os anos o
mestre percebeu que seus alunos tinham desenvolvido uma perigosa impermeabilidade
contra o resto do mundo. Eles seguiam rigidamente os costumes locais,
participavam de eventos sociais e mesclavam-se na multidão com maestria,
mas sem importar-se de verdade com o que passava-se a seu redor. Juntos
eles imperceptivelmente haviam formado seu próprio Olimpo, isolados
no alto de seus séculos ou milênios de idade para observar o tempo passar,
como se fossem deuses indiferentes à sorte dos mortais comuns. Um acobertava
e ajudava o outro no que fosse necessário, todos eram amigos fiéis,
a presença do grupo espantava outros Imortais da região e nada ameaçava
essa tranquilidade eterna. Nem treinar direito as artes de combate eles
treinavam mais!
Era
preciso separá-los, Emrys decidiu em segredo, e depressa. Senão, eles
acabariam mesmo acreditando que eram invulneráveis e esqueceriam que
ainda havia um Jogo fatal esperando lá fora. A qualquer momento um Imortal
alucinado poderia invadir a cidade atrás deles, ou emboscá-los durante
uma viagem, e essa paz artificial, brutalmente estraçalhada, traria
consequências imprevisíveis...
*************
Roma
- Península Itálica - 138 a.C.
-
Ficaste tão pouco tempo conosco, não entendo! - reclamou Methos, na
tarde em que Emrys finalmente convocou os alunos para anunciar sua decisão
de partir - Se estás com problemas, então podemos...
-
Methos, eu já fiquei dez anos aqui, isso não é pouco! - interrompeu
o mestre, tentando manter a voz gentil porém firme - Por favor, não
caias na velha cilada de perder a noção do tempo... Somos Imortais,
mas o mundo lá fora nunca pára de evoluir e, para muita gente, dez anos
é uma vida inteira!
Todos
permaneceram em silêncio, ruminando a bronca, e Emrys aproveitou para
analisá-los com calma. Aka mostrava-se triste, mas era a mais conformada.
Eksamus mantinha a cara fechada e Marconus estava evidentemente frustrado,
com os olhos pregados no chão. Methos tentava encontrar algum argumento
para fazê-lo ficar, e o mestre suspirou porque sabia que ele poderia
ser infernal quando cismava de manobrar a vontade de alguém - Emrys
congratulava-se por sua prudência em nunca ter ensinado Methos a usar
a Voz, caso contrário agora ambos estariam travando uma verdadeira batalha
de magia. E Gaicus apenas olhava para os amigos com carinho - a bagagem
dele já estava pronta para seguir o mestre, fosse para onde fosse.
Apesar
dos meses que levara até decidir-se definitivamente pela partida, na
última hora Emrys nem precisara dizer a Gaicus o que pretendia fazer.
A convivência entre ambos tornara-se tão estreita que logo o rapaz notou
o tom sutilmente amargo nos comentários do mestre sobre a vida em Roma,
que antes ele tanto admirara. E Emrys não surpreendeu-se quando o jovem
Imortal declarou que abandonaria tudo para acompanhá-lo, caso desejasse
sair de Roma, porque ainda tinha muito o que aprender a seu lado. Emrys
não esperava o mesmo dos outros, e tampouco desejava que eles fossem
também, afinal sua intenção era sacudir o tranquilo mundo deles, e não
levá-los para um passeio em grupo. Eles precisavam voltar a ser independentes,
mas só fariam isso se fossem afastados uns dos outros e - principalmente
- perdessem contato por um tempo. Na última separação o grupo permanecera
unido por cartas e aproveitou a primeira oportunidade para se reencontrar
e retomar o esquema de antes. Desta vez Emrys pretendia provocar um
corte mais radical, apesar de pacífico. Aka e Eksamus viveriam grudados
pelo resto dos tempos e Marconus não se separaria da esposa tão cedo,
mas ao menos Emrys poderia tirar Gaicus de perto deles e, sem companhia,
Methos talvez resolvesse partir também. Emrys não tinha orgulho dos
cálculos que estava fazendo, porém algo lhe dizia que aquilo era necessário.
-
Meus filhos, há tempos sinto-me sufocado em Roma - explicou enfim -
, porque o estilo de vida daqui não condiz com meus ideais. Os romanos
são um povo grandioso, inteligente e com certeza terão um belo futuro,
porém eu preciso de mais liberdade para ser quem sou. Pretendo procurar
um Imortal amigo meu na Hispânia (1), e Gaicus irá comigo!
Methos
permaneceu alguns segundos fitando o mestre com a cabeça ligeiramente
inclinada, mas depois suspirou e adotou uma expressão casual, parecendo
dar o assunto por encerrado. Marconus ainda ensaiou um débil protesto,
tentando fazer Gaicus mudar de idéia, porém o rapaz estava resoluto,
e Aka convenceu o marido de que tudo ficaria bem. Eksamus trocou um
olhar furtivo com Methos e ambos perceberam que pensavam a mesma coisa.
O mestre não tomara aquela decisão apressadamente, ao contrário. Emrys
calculara a partida quase como se fosse uma fuga, justamente para não
dar-lhes tempo de questioná-lo ou demovê-lo. Ele e Gaicus haviam preparado
tudo em segredo, seu barco zarparia na manhã seguinte e naquele exato
momento escravos entravam e saíam da casa levando bagagens para o porto.
Não havia mais o que discutir.
Aka
mal teve tempo de preparar um jantar de despedida, enquanto Emrys e
Gaicus despachavam o resto de suas coisas. Apesar do esforço de todos
para manter o clima agradável, o jantar foi triste e ninguém dormiu
direito à noite. Pela manhã Emrys pediu aos amigos que não o acompanhassem
até o porto mas, mesmo assim, a partida foi dolorosa. O mestre abraçou
e beijou cada um dos alunos que ficariam para trás.
-
Se os deuses tivessem me concedido a graça de gerar filhos de meu próprio
sangue, eu não os teria feito melhores do que vós! - confessou, lutando
para domar a emoção - Dói-me profundamente esta separação... Mas ainda
nos veremos, meus queridos!
Gaicus
chorou muito agarrado a Marconus, e Emrys chegou a sugerir-lhe que ficasse,
mas o rapaz manteve-se firme e, enxugando o rosto com valentia, saiu
sem olhar para trás. Ao abraçar Methos uma última vez, Emrys murmurou-lhe
ao ouvido, com voz embargada:
-
Meu filho amado, meu herdeiro! Perdoa-me...
O
mestre então afastou-se, contemplou os alunos com infinito amor e, fazendo
um gesto para que seus escravos saíssem na frente, deixou que lágrimas
corressem mansamente por seu rosto antes de desaparecer pela porta.
Aka caiu em um choro sofrido, pendurada ao pescoço de Marconus, e só
Eksamus percebeu que Methos teve que apoiar-se em uma coluna para não
desfalecer, pálido como ninguém nunca o havia visto antes. Quando tentou
aproximar-se para ampará-lo, ele fez-lhe sinal que estava bem e correu
para seu quarto. Logo que ficou a sós, Methos agarrou uma almofada e
enfiou-a na boca para abafar um grito que destroçou suas entranhas -
de alguma forma Emrys fizera uma mágica para enviar-lhe uma premonição
apavorante e agora Methos sabia que, na próxima vez em que encontrassem
o mestre, alguém do grupo não estaria mais vivo.
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Notas
explicativas:
1
- Hispânia é a atual Península Ibérica, englobando Espanha e Portugal.
A região foi tomada por Roma aos cartagineses em 197 a.C. e separada em
duas províncias romanas: Hispânia Citerior, a leste, e Hispânia Ulterior,
a oeste.
