Ouviu-se
a lâmina cortando o ar e o sibilo fugaz do golpe. Juan sentia todo seu
braço enrijecido, os músculos tensos e o ódio que explodia em adrenalina.
Sua alma turva pedia sangue, pedia vingança. Poderia ter sido tudo diferente,
Anne poderia estar aqui, viva, feliz e não uma mera lembrança. Ele ainda
poderia ser uma pessoa normal, vivendo normalmente e fora dessa história
louca. Mas o que não acaba em rosas acaba em vingança, aquele desgraçado
morreria aqui e agora.
Os
segundos corriam enquanto a espada buscava sedenta o pescoço de Enrique.
Sangue, morte, redenção, vingança. Juan sentiu a mão firme de Enrique
tocar em seu braço defendendo o golpe e logo após seu corpo rodando
e sendo arremessado no chão. O Imortal estupefato olhava Juan que estava
arfante, sobrancelhas cerradas e maxilar rígido, quase babando com a
raiva estampada em si.
-
Enlouqueceu, garoto?
-
Por quê, maldito? Você acha que aqueles dois desgraçados que nos mataram
não falariam? Eles disseram que foi o cara com espada que os contratou.
Enrique
Muñoz pensou por alguns segundos. Fazia sentido, Juan estava apenas
confuso. Torceu a mão do garoto, fazendo-o largar a espada, e então
se levantou e ficou a admirar a lâmina.
-
O que você ganha com isso? - Juan continuou gritando - Qual o motivo?
Não poderia ter deixado nossa vida em paz? Por que Anne? Responda, seu
filho da mãe!
-
O antigo dono dessa espada chamava-se Ian Krasendof. - sua voz voltava
à serenidade habitual - Ele era Imortal e foi o responsável por sua
morte.
-
Me convença.
-
Desgraçado! Irei lhe comprar um jornal e você verá que está dividindo
as manchetes com um cara decapitado. Ou você acha que um Imortal decepa
a cabeça do outro com as mãos?
Juan
permaneceu impassível, sentado na posição em que havia caído após o
golpe de Muñoz. Enrique controlou-se novamente e continuou a falar.
-
Como eu dizia, eu tinha uma rixa antiga com esse Imortal. Provavelmente
ele estava lhe sondando e contratou aqueles dois para fazer o serviço.
-
E por que eu?
-
Porque este é o estilo dele. Tornar os pré-Imortais em Imortais e depois
decapitá-los, para tirar seu conhecimento facilmente, já que não sabem
se defender.
-
O que aconteceu com ele?
-
Eu o matei alguns minutos antes de achar você na rua.
Enrique
fitou novamente e espada e a entregou a Juan.
-
Pegue. A espada dele agora é sua. A partir de agora, ela será seu novo
braço, sua companheira e sua vida dependerá dela. Terá muito que aprender
e no que eu puder, irei lhe ajudar e ensinar.
O
silêncio entre os dois se impôs por alguns segundos. As folhas voltaram
novamente a farfalhar e pode-se ouvir o estalar da fogueira. A agradável
noite espanhola trouxe novamente o cheiro da terra e das videiras. Enrique
deitou-se e ficou a contemplar o céu estrelado.
-
Tudo isso. - começou Juan - Que loucura!
A
voz do garoto soava rouca e trêmula. Ele passou a mão na face, enxugando
as lágrimas. Ensaiou um pedido de desculpas, que foi interrompido antes
mesmo de ser começado:
-
Não se preocupe, Juan. Já disse que sei como se sente, já passei por
situação semelhante. Amanhã começaremos a caminhar.
-
Como você conseguiu resistir a essa loucura?
-
Começarei a lhe contar como sobrevivi até aqui. Espero que lhe ajude
a entender e lhe dê uma perspectiva. Mas acalme-se. Teremos muito que
conversar! Agora durma e descanse. Irá ouvir uma longa história.
-
De séculos, não?
Não
recebeu resposta. Então, vencidos pelo cansaço, mais do que pela vontade,
ambos dormiram até que o sol iluminasse novamente o Caminho de Santiago.
O
NOVO ALVORECER
Primeiros Passos
Madri,
Espanha
Noite anterior
Eduardo
e Édina sentiam o peso da fadiga causada pela longa semana. Apesar disso,
Eduardo trazia consigo um enorme sorriso radiante. Sentia em suas veias
uma empolgação latente como uma criança feliz. Procurava os olhos de
Édina, mas eles continuavam impassíveis e frios. Talvez fosse por ter
que encontrar com aquele desgraçado arrogante, mas Eduardo não tinha
certeza. Além disso, mais do que nunca estranhava o comportamento da
parceira. Desde que se conheceram, era normal o fato de Édina estar
distante e nunca demonstrar qualquer emoção, fato que valera muitos
apelidos escondidos de outros rapazes na organização em que trabalhavam,
mas foi a primeira vez que a viu sendo tão fria. Sua mente ainda devaneava,
vendo-a apertar o gatilho, matando o policial. Realmente, era uma face
que ele não conhecia. Sentira vontade de perguntar-lhe os motivos durante
a viagem, mas a prudência falara mais alto. Enfim, apesar de serem parceiros,
ela ainda era sua superiora e não queria ter nenhum problema. Voltou
ao estado de empolgação e começou a pensar nas muitas possibilidades
que viriam com esse garoto:
-
Você não está empolgada, Édina?
-
Estou cautelosa.
Ela
não disse mais nada. Olhou novamente para o volante e continuou guiando
rápido pelas ruas de Madri. Dentro de alguns minutos chegaram a um prédio
e subiram ao apartamento 13 no terceiro andar. Bateram na porta e foram
recebidos pelo sorriso cínico mais detestável do mundo. Leonardo vestia
uma calça social preta e uma camisa social de seda vermelha. Tinha seu
pingente em forma de crucifixo pendurado no pescoço e seu grande cabelo
estava solto, num raro momento, já que ele sempre o prendia num rabo-de-cavalo.
-
Boa noite, senhores! Por favor, entrem.
Seu
leve sotaque italiano acentuava-se bem nas palavras em espanhol. Leonardo
estendeu o braço indicando para dentro do apartamento e colocou-se educadamente
ao lado da porta. Os dois entraram e por um momento repararam no espaçoso
apartamento, decorado com extremo bom gosto. Duas janelas amplas com
belas cortinas acentuavam-se com os móveis e a tapeçaria numa cor clara,
que variava do bege a um tom bem claro de marrom. Na sala um quadro
de uma paisagem bucólica, alguns vasos e o discreto lustre, completavam
o simples refino do aposento que se afrontava com um canto gregoriano
que era ouvido tocar no aparelho de som.
-
Bondade sua nos receber a essa hora, em seu apartamento.
Édina
falou num tom ferino, como se o acusasse de algo.
-
Imagine... É um prazer recebê-los, afinal, temos muito que conversar.
Ele
não devolveu o tom de ataque da voz de Édina. Falou com uma voz de quem
domina o mundo e está seguro de si. Cada palavra sua continha uma arrogância
enorme incrustada. Fez sinal para que os dois se sentassem no sofá.
-
Querem beber algo? Talvez Gim com soda, senhorita Ríos?
Ela
encarou Leonardo e então fez um aceno de aceitação com a cabeça. Eduardo
disse que aceitava o mesmo. Na verdade ele estava estupefato com tal
cena. Já conhecia seu anfitrião e também detestava sua pose de prepotente,
porém nunca havia percebido tal troca de olhares com sua parceira. Leonardo
se retirou e então voltou com uma bandeja com as bebidas e uma pasta
de papelão. Serviu aos dois e pegou um copo de uísque com gelo para
si. Eles então começaram a bebericar, enquanto Leonardo narrava os fatos
que aconteceram na cidade nos dias anteriores:
-
Como podem perceber, foi de extrema necessidade eliminar qualquer prova
que não coubesse à organização.
-
Com um tiro na testa do Sr. Carrère... - Édina continuava com seu tom
agressivo.
-
Édina, minha cara. Interessante vocês designarem um lunático para fazer
o trabalho de um agente de campo. Como ele dizia? Agora me lembro: zumbis!
Realmente, muito interessante.
-
Interessante é o fato de que, mesmo achando um erro, você não se opôs
em nenhum momento.
-
Gosto não só de ver o circo pegar fogo. Prefiro ficar e presenciar o
palhaço queimar!
Édina
engoliu em seco e não se deu ao trabalho nem de disfarçar o ódio que
fuzilava saindo de seus olhos.
-
Oh, me perdoe! - continuou Leonardo - Indelicadeza minha fazer uma brincadeira
com a incompetência dos dois! Bem, espero que não tenhamos perdido o
Sr. Juan Gonzáles ou vocês dois terão sérios problemas!
Édina
não agüentou se conter, via até seu parceiro começar a corar com raiva
pela maneira que Leonardo falava com ambos.
-
Quem você acha que é? Até onde eu saiba, não é ninguém para se referir
a mim com esse tom e, se não fosse por mim, provavelmente nós continuaríamos
sem nenhuma pista.
-
Não sou ninguém. Mas, acho que serei seu superior logo, minha cara.
Dizendo
isso, ele passou a mão no controle remoto, ligando a televisão e um
vídeo cassete, que mostrava cenas da Plaza Major filmadas do local em
que Miguel Carrère atirara em Juan. Depois dessa cena, viu-se a luta
de Enrique e Miguel e quando esse segundo metralhou Enrique. Seguiu-se
a cena da luta com Juan e depois a mais chocante cena: mesmo tendo sido
perfurado por uma rajada de balas, Enrique se levantou e nocauteou Miguel
como se nada tivesse acontecido. Édina e Eduardo permaneceram calados,
totalmente estupefatos com aquela cena. Era impossível que ele tivesse
levantado novamente, totalmente inimaginável. Leonardo se deliciou com
a incredulidade no olhar de ambos e continuou seu discurso:
-
Como eu dizia, enquanto vocês mandaram suposições e relatórios, eu enviarei
uma prova completa e definitiva. Esses dois são evidências de coisas
que fogem a nossa compreensão lógica. Tenho certeza que nunca viram
nada do gênero antes. E eu mostrarei essa fita em três semanas aos nossos
superiores!
-
Desgraçado! - Eduardo exalou a palavra entre dentes enquanto tentava
raciocinar sobre tudo aquilo.
-
Bom, minha cara Édina, agora cabe a nós observarmos atentamente esses
dois.
*************
Villa
Del Pueblo, Espanha
Ano de 1474
Ela
permitiu-se sentar um pouco frente a sua casa. Os pés descalços sentiram
a terra batida tocando a sola, enquanto ela se espreguiçava e exalava
o ar num sinal de cansaço. Vislumbrou as árvores que circundavam a clareira
onde sua casa estava localizada. Procurou por flores novas em meio à
mata já conhecida e viu que algumas começavam a desabrochar, indicando
o início da primavera. Elas se misturavam com os arbustos rasteiros,
quase insignificantes frente às grandes árvores que lhe dividiam o chão
consigo. Sorriu. Um sorriso meigo e sincero, frente à bela paisagem
de sua simples casa. Com o sorriso, seu rosto se iluminou e sua bela
face foi oferecida à paisagem. Era nova, tinha 19 anos, o corpo magro
e esguio, porém belo. Agitada e simpática, apesar de ser moça simples.
Toda sua jovialidade foi reacesa frente àquela cena. Uma bela borboleta
dava o ar de sua graça, voando calmamente em frente à casa. Ela observou
calmamente aquele belo ser, como se sentisse que também tinha asas,
como se pudesse experimentar o toque do vento contra si e voar com a
brisa leve. Saindo de seu devaneio, viu que não fora a única a se encantar
com a borboleta. Seu pequeno filho engatinhava feliz, tentando pegá-la
com as mãos miúdas. Parecendo que adivinhava a brincadeira, a borboleta
voava em círculos sobre o garoto enquanto ele soltava uma risada alegre
e satisfeita. Ela voou mais alto e ele, fazendo força, levantou-se e
deu dois passos, caindo no chão novamente, vendo a colorida borboleta
se afastar. A mãe, perplexa de alegria, pulou de onde estava sentada
e acalentou o filho no colo. Ficou a mimá-lo enquanto afagava seus cabelos.
A
cena durou alguns minutos até que o pai chegasse e os visse juntos.
-
Olhe, nosso filho. Ele conseguiu dar os primeiros passos hoje. - dizia
a mãe, orgulhosa.
O
pai o pegou no colo, rodou o garoto no ar e deu-lhe um carinhoso beijo.
-
Esse é o meu filho! Logo estará me ajudando a cortar as árvores.
Ela
disfarçou a tristeza e forçou um sorriso, enquanto respondia.
-
Ainda sem negócios?
-
Sabe que é difícil. Todo o trabalho sou eu quem faz: arranjar madeira,
entalhar os móveis e depois vendê-los. Acaba sendo muito devagar o processo
e fica difícil conseguir vender na cidade.
-
Cidade. Logo teremos que ir pra lá. Preciso comprar algumas coisas.
Se der, gostaria de comprar um tecido para fazer uma roupa para Enrique.
As dele estão tão pequenas.
-
O garoto cresce a olhos vistos.
Ele
parou por um momento, seus olhos fixados no seu pequeno filho. Um olhar
terno, mas duro. Refazia antigas promessas a si mesmo, não desistiria
de sua família nunca. Percebeu que sua esposa o olhava, continuou de
modo que tentava acalmá-la, com sua voz incisiva, mas sempre carinhosa.
-
Eu conseguirei dinheiro, prometo.
-
Talvez se conversássemos com o meu pai ou com o seu. Eles nos ajudariam,
têm um neto agora.
-
Não dariam o braço a torcer. Nós conseguiremos, não se preocupe.
Fez-se
silêncio. Ele confortou sua família e recomendou que entrassem na casa.
Estava esfriando e logo o sol iria se por. A clareira em que a família
se encontra iria mergulhar mais uma noite na escuridão, na esperança
de um novo dia, no horizonte de uma cidade à distância.
*************
Presente
A
manhã raiou e logo cedo Juan e Enrique despertaram. Após um tempo, Enrique
já se mostrou disposto a andar, indicando uma grande empolgação que
não era correspondida por Juan, que se mostrava absorto em seus pensamentos
sobre a conversa da noite.
Antes
de partirem, falaram com o simpático casal, donos da propriedade. Enrique
lhes agradeceu e quis pagar por terem cedido o lugar e pelas uvas que
haviam comido, mas eles negaram veementemente, dizendo ser um prazer
ajudar os peregrinos do Caminho. De fato, eles até se mostraram prestativos,
oferecendo lugar para que os dois ficassem mais próximos da casa, mas,
por causa do conteúdo da conversa, Muñoz preferiu que ambos ficassem
afastados. Da parte do casal, também não estranharam tal comportamento.
Era até natural que os peregrinos não quisessem pernoitar de modo tão
cômodo, principalmente no primeiro dia de viagem. Aquém disso, havia
o fato que move cada um a andar. Talvez os dois rapazes quisessem ter
um lugar mais tranqüilo pra rezar, podiam ser um daqueles loucos tentando
fazer magia e tantas outras coisas, mas, enfim, ficavam feliz somente
pelo fato de poder ajudar. Com belos sorrisos e agradecimentos, eles
viram os dois partindo com os primeiros raios do sol no novo dia.
Mal
começaram a andar e logo se puseram a conversar novamente, Juan ficou
aos poucos mais disposto e logo Enrique se meteu a contar o começo de
sua vida:
-
Como eu disse, nasci em 1473. No dia 21 de Março, eu fui encontrado
por meus pais. Tinha acabado de nascer e estava abandonado numa floresta,
era próximo da clareira de onde eles haviam feito sua casa. Logo o lugar
cresceria e viria a ser chamado Villa Del Pueblo.
-
Então, todos somos órfãos, não? Tudo isso é muito maluco!
-
Maluco, um bebê numa clareira? - Enrique carregava no tom sarcástico
- Como eu dizia, meu pai era marceneiro. Quer dizer, era um pouco de
tudo. Ele derrubava a madeira, esculpia móveis, lixava e outras coisas,
e então ia para a cidade e vendia. Minha mãe ajudava no que podia, mas
tinha que cuidar de mim e da casa, por isso não sobrava muito tempo.
-
Por que eles não moravam na cidade?
-
Eu não sei bem, mas lembro que eles haviam brigado com meus avós. Eles
não queriam que os dois se cassassem, rixa de família ou algo assim.
Sei que eles fugiram de suas famílias, se casaram e construíram nossa
casa. Alguns meses depois eles me encontraram.
-
Então, seus pais eram Romeu e Julieta com final feliz?
-
É, mais ou menos!
Eles
riram e continuaram a conversar. Enrique lhe contou um pouco mais sobre
quando era criança. Era um garoto só, não tinha muita possibilidade
de brincar com outras crianças e fora educado pelos pais. Nunca fora
arredio, sempre foi uma criança tranqüila e inteligente. Crescera na
floresta e tinha-a por companheira. Em contrapartida, mantinha esse
seu lado selvagem escondido, mostrando sempre sua faceta mais recatada,
o bom garoto da família. Desde pequeno tivera esse comportamento.
Juan
continuou enchendo-o de perguntas. Falava sobre roupas, lugares, comidas
da época, sobre o cotidiano e tudo mais que se passava. Enrique se divertia
em responder, fazia bem lembrar de sua infância e deixava isso bem claro.
Afinal, era sempre bom poder contar para alguém toda a sua vida, sem
medo nem temor, enfim, conversar abertamente. A companhia de outro Imortal
fazia bem à ele. Seguiram caminhando enquanto conversavam, sentindo
o caminho começar a passar abaixo deles. O começo de uma longa caminhada.
*************
Agradecimentos:
Aka Draven MacWacko
