A POESIA ETERNA

Por Marco Dias

DAVID MOURÃO-FERREIRA

Biografia

19271996

Portugal Portugal

David de Jesus Mourão-Ferreira nasceu em Lisboa em 1927 e faleceu, na mesma cidade, em 1996. Frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa onde se formou em Filologia Românica. Foi professor desta mesma Faculdade.

David Mourão-Ferreira distinguiu-se como poeta, professor e deixou uma obra considerável a nível da crítica literária.

 

Poesias Eternas

Natal, e não Dezembro

Certidão de nascimento

Pele

Legenda

Equinócio

Ternura

Testamento

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Natal, e não Dezembro
(1962)
 
 
Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.
 
 
Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.
 
Cancioneiro de Natal, Editorial Verbo, 2ª edição, p.19
topo
 
 
 
 
 
 

 
Certidão de Nascimento 
 
Tão regaço estas arcadas 
Tão de brinquedo os eléctricos 
Vejo a cidade parada 
no ano de vinte e sete 
Dela por vezes me evado 
mas sempre a ela regresso 
Bem sei eu que não desato 
o cordão com que me aperta 
Vejo seus gestos de grávida 
medidos cautos imersos 
nessa jovem gravidade 
que só grávidas conhecem 
Que frescor de madrugada 
no terror com que me espera 
Mães têm sempre a idade 
que em sonho os filhos decretam 
Recordo melhor a data 
Até mesmo a atmosfera 
É o dia vinte e quatro 
de um mês a tremer de febre 
com armas grades e o rasto 
de um sangue que nunca seca 
Só seis decénios passaram 
rápidos como seis séculos 
Tão pouco Mas nelas cabem 
cidade arcadas eléctricos 
nesta imensa claridade 
irmã gémea do mistério 
 
FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN, LISBOA, 1984, P. 19
topo
 
 
 
 

Pele
 
Quem foi que à tua pele conferiu esse papel 
de mais que tua pele ser pele da minha pele 
 
DO TEMPO AO CORAÇÃO, GUIMARÃES EDITORES, LISBOA, 1966, P. 23
topo
 
 
 
 

Legenda
 
Nada garante que tu existas 
Não acredito que tu existas 
 
Só necessito que tu existas 
 
FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN, LISBOA, 1984, P. 27 
topo
 
 


 
 
 
 
 
 
 
  
Equinócio
 
Chega-se a este ponto em que se fica à espera 
Em que apetece um ombro o pano de um teatro 
um passeio de noite a sós de bicicleta 
o riso que ninguém reteve num retrato 
 
Folheia-se num bar o horário da Morte 
Encomenda-se um gin enquanto ela não chega 
Loucura foi não ter incendiado o bosque 
Já não sei em que mês se deu aquela cena 
 
Chega-se a este ponto Arrepiar caminho 
Soletrar no passado a imagem do futuro 
Abrir uma janela Acender o cachimbo 
para deixar no mundo uma herança de fumo 
 
Rola mais um trovão Chega-se a este ponto 
em que apetece um ombro e nos pedem um sabre 
Em que a rota do Sol é a roda do sono 
Chega-se a este ponto em que a gente não sabe 
 
DO TEMPO AO CORAÇÃO, GUIMARÃES EDITORES, LISBOA, 1966, P. 31 

 

 

 


Ternura
 
Desvio dos teus ombros o lençol 
que é feito de ternura amarrotada, 
da frescura que vem depois do Sol, 
quando depois do Sol não vem mais nada... 
 
Olho a roupa no chão: que tempestade! 
há restos de ternura pelo meio, 
como vultos perdidos na cidade 
em que uma tempestade sobreveio... 
 
Começas a vestir-te, lentamente, 
e é ternura também que vou vestindo, 
para enfrentar lá fora aquela gente 
que da nossa ternura anda sorrindo... 
 
Mas ninguém sonha a pressa com que nós 
a despimos assim que estamos sós! 
 
INFINITO PESSOAL OU A ARTE DE AMAR, GUIMARÃES EDITORES,, LISBOA, 2ª EDIÇÃO, P. 25
topo
 
 

 

 

 


 

Testamento 
 
Que fique só da minha vida
um monumento de palavras
Mas não de prata Nem de cinza
Antes de lava Antes de nada
Daquele nada que se aviva
quando se arrisca uma viagem
por entre os pântanos da ira
além do sol das barricadas
Ou quando um poço que cintila
parece o tecto de uma sala
Ou quando importa que se extinga
dentro de nós a inexacta
irradiação que vem das criptas
em que o azul nos sobressalta
em que à penumbra se diria
que se acrescenta o som das harpas
Ou quando a terra não expira
senão segredos feitos de água
Ou quando a morte nos avisa
Ou quando a vida nos agarra
 
Adeus ó pombas
todas iguais ante as muralhas
Adeus veredas invisíveis
que na floresta nos aguardam
Adeus ó barcos à deriva
Adeus canais Adeus guitarras
Adeus ó sílabas da brisa
Adeus sibilas ningas cabras
tantas que a Deus se prometiam
mas só adeuses encontravam
Adeus ó deusas de partida
no meu minuto de chegada
Adeus ardentes evasivas 
a ver se um pouco as demorava
Se as demorava ou demovia
de tão depressa me deixarem
Adeus ó portas clandestinas
que ao fim da tarde se entreabrem
Adeus adeus íntimas vítimas
das cerimónias implacáveis
 
Como deixar-vos todavia
se as vossas mãos as vossas faces
ora parecem despedir-me
ora conseguem renovar-me
E tantas tantas tantas ilhas
no mar que não nos limitasse
Como deixar-vos se na linha
deste horizonte aquela praia
tão de repente se aproxima
tão de repente se me escapa
Jorram vulcânicas as crinas
de récuas de éguas subaquáticas
Jorram do fundo. E à superfície
crescem as ilhas assombradas
Eis que de longe lembras liras
mas entre as ondas só navalhas
É quando o poeta menos grita
que mais se crê nas suas lágrimas
Fique porém de quanto sinta
um monumento de palavras
 
Mas não de bronze Nem de argila
E nem de cinza nem de mármore
De fumo sim Do que se infiltra
no coração das velhas máquinas
no estertor dos suicidas
no riso triste dos apátridas
no ondular das gelosias
de onde se espia a madrugada
Do fumo enfim que se eterniza
na longa insónia das estátuas
E que de nós a alma extirpa
não nos deixando nem a máscara
quando é só corpo o que nos fica
para morrer às mãos dos bárbaros
E que nos conta só mentiras
E nos aceita só verdades
Múltiplas ágeis infinitas
sejam as linhas que ele trace
como as que traça a própria vida
sem liberdade em liberdade
 
Adeus ó fogo Adeus raízes
que todo o fumo alimentavam
E adeus o mel Adeus urtigas
da minha terra calcinada
Adeus cortiço Adeus cortiça
Ó madrugadas inflamáveis
Já se nem sabe a que sevícias
é que por fim a boca sabe
Nem qual a sombra que improvisa
esta sonâmbula sonata
que apazigua que arrepia
que nos destói que nos exalta
Nem qual o crime inda mais crime
se acaso chega a desvendar-se
Adeus adeus eterna esfinge
Adeus Não penses que me ultrajas
E lembro tudo o que era simples
antes do nada inevitável
Mas que do nada ao menos fique
um monumento de palavras 
 
 FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN, LISBOA, 1984, P. 45

 

topo

 

 

 

 

Portugal Voltar para Poetas de Portugal

 A Poesia Eterna, por Marco Dias . Todos os direitos reservados.

1