HISTÓRIA DO TEATRO NO BRASIL
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As informações mais antigas que temos sobre atividades teatrais no Brasil se referem aos autos religiosos que o padre José de Anchieta fez encenarem-se para auxiliar na catequese dos índios. Não há dados sobre representações cênicas anteriores à chegada dos portuguêses, a menos que consideremos as cerimônias e festas dançadas de algumas tribos brasileiras como representações. Na cidade mineira de Vila Rica (atual Ouro Preto) há registros de apresentações teatrais ocorridas no século XVIII, no período do ciclo do ouro. Em 1810, D.João VI manda construir o Real Teatro de São João (atual teatro João Caetano) , onde se apresentam companhias portuguesas.

Martins PenaDurante o reinado de D.Pedro I surge o primeiro grande ator, João Caetano dos Santos, que se destaca em interpretações de personagens das tragédias de Shakespeare. Surge também o primeiro grande autor teatral:Luís Carlos Martins Pena (foto à direita). Suas comédias são talves o primeiro retrato do cotidiano da sociedade brasileira da época, mostrado de forma satírica. Entre as suas peças, podemos citar O juíz de paz na roça, O Judas em Sábado de Aleluia, e principalmente O Noviço, sua peça mais representada até hoje. A partir de 1840, escritores importantes passam a escrever obras para o palco, como Joaquim Manuel de Macedo (autor do romance A Moreninha), que escreveu Lusbela e O Fantasma Branco, José de Alencar, com O Demônio familiar e As asas de um anjo, Gonçalves Dias, com Leonor de Mendonça, e Machado de Assis, com Lição de Botânica. Joaquim José de França Júnior de certa forma foi o continuador do estilo de Martins Pena, com obras satíricas que retratam a vida no Segundo reinado, em peças como Um Carnaval no Rio, Caiu o Ministério e Como se Fazia um deputado. O maranhense Artur Azevedo torna-se o pai da comédia musical brasileira, com as “burletas” O Mambembe, O Oráculo, O Badejo, A Véspera de Reis e, principalmente, A Capital Federal. Mas as companhias teatrais ainda são precárias, e os atores aclamados - como Furtado Coelho, Lucinda Simões, Adelaide do Amaral - são portugueses. Na primeira metade do século XX Leopoldo Fróes, concorrendo com os atores lusitanos, consegue firmar a primeira companhia brasileira, para a qual escrevem permanentemente Viriato Correa (Sol do Sertão) e Oduvaldo Vianna (A Casa de Tio Pedro). Desse grupo inicial surgirão, posteriormente, as companhias de Abígail Maia, Procópio Ferreira e Jaime Costa, e a de Dulcina de Morais, jovem atriz lançada por Fróes. Novos autores despontam: João do Rio (Eva, Que Pena Ser Só Ladrão!), Armando Gonzaga (Cala a Boca Etelvina, O Ministro do Supremo), Coelho Neto (A Muralha, Quebranto, O Patinho Feio), Paulo Gonçalves (A Comédia do Coração) e Joracy Camargo (Deus lhe Pague). A partir de 1940, outra companhia de caráter permanente, a de Eva Todor e Luís lglésias, encena espetáculos de género “boulevardier”, mas apresenta também importantes textos europeus de Shaw, Molnár, Casona, etc. Durante a II Guerra Mundial, vários artistas do leste europeu vem para o Brasil. O mais importante deles é Zgybniew Ziembinsky, fundador de Os Comediantes, que revela ao público brasileiro as peças de Pirandello e Eugene O’Neill, por exemplo. Mas é com Vestido de Noiva, dá Nélson Rodrigues (1945), que o grupo alcança seu maior sucesso. Enquanto isso, o Teatro do Estudante, animado por Pascoal Carlos Magno, promove a apresentação sistemática da obra shakespeareana: a montagem de Hamlet lança o nome de Sérgio Cardoso, um ator jovem que posteriormente há de se tornar uma figura prestigiosa da cena nacional. Em 1948, Lúcia Benedetti lança, com O Casaco Encantado, as bases do teatro infantil praticado por artistas adultos. Dentre seus seguidores, a mais importante é Maria Clara Machado (Pluft, o Fantasminha, O Rapto das Cebolinhas, O Boi e o Burro no Caminho de Belém ), que durante décadas esteve à frente do Tablado, importante centro de formação de atores no Rio. Nessa mesma época é fundado também o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), onde Nídia Lícia e Paulo Autran representam as peças de Abílio Pereira de Almeida (Santa Marta Fabril, Moral em Concordata). Mais tarde, importando diretores estrangeiros - Luciano Salce, Adolfo Celli -, incorporando ao seu elenco atores novos - Cacilda Becker, Sérgio Cardoso - conquista uma posição de liderança dentro do teatro brasileiro. Na década de 50, diversos conjuntos brasileiros - os de Eva Todor, Dulcina e Odilon, Maria Della Costa, Procópio e Bibi Ferreira são contratados para exibir-se em Portugal e províncias ultramarinas, invertendo a situação que prevalecera em épocas anteriores. Durante o primeiro governo de Getúlio Vargas é criado o Serviço Nacional de Teatro, que patrocinará a criação de grupos experimentais e a montagem de textos de autores brasileiros. Um dos mais bem-sucedidos será A Raposa e as Uvas, de Guilherme de Figueiredo, peça que projeta internacionalmente o nome de seu autor, cujas obras são representadas na Argentina, Tchecoslováquia, Bulgária e União Soviética. Enquanto isso, das cisões no elenco do TBC paulista surgem as companhias mais importantes dos anos 50 e 60: a Tônia-Celli-Autran, com Tônia Carrero, Paulo Autran e Margarida Rey, sob a direção de Adolfo Celli; a de Cacilda Becker, com quem trabalham Walmor Chagas e Cleyde Yaconis, sob a direção de Ziembinsky; o Teatro dos Sete, cujos atores principais são Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi e Sérgio Brito; a de Sérgio Cardoso e Nídia Licia, etc. Esse período assiste também à revelação de novos autores: António Callado (Pedro Mico), Osman Lins (Lisbela e o Prisioneiro), e Dias Gomes, que se tornou conhecido também como autor de novelas para a TV. Entre suas peças mais conhecidas, estão O Pagador de Promessas (adaptada para o cinema, ganhou a Palma de Ouro em Cannes), O Santo Inquérito e Odorico,o bem-amado (posteriormente adaptada para a TV com o título O bem amado). Nélson Rodrigues, que firmara sua reputação de dramaturgo com Anjo Negro, Álbum de Família, Os Sete Gatinhos e A Falecida, causou muita polêmicas com peças que tratam de assuntos considerados tabus para a época: Perdoa-me por me Traires, Beijo no Asfalto, Bonitinha mas Ordinária, etc. Para muitos, Nélson rodrigues é o maior dramaturgo brasileiro. Jorge Andrade, que retrata a decadência da aristocracia rural paulista em A Moratória e O Telescópio, e da mineira em Pedreira das Almas, a ascensão das classes novas em Os ossos do Barão (adaptada para a TV na década de 70), e um caso de fanatismo messiânico em Vereda da Salvação. Fora do eixo Rio-São Paulo, o principal movimento a ser registrado é o do amadorismo pernambucano, animado por Ariano Suassuna, autor de duas comédias de grande sucesso: O Auto da Compadecida (apresentado recentemente no cinema, com direção de Guel Arraes), e O Santo e a Porca. Também em Pernambuco encontra-se uma tradição típicamente brasileira: o Mamulengo (teatro de bonecos). Da Escola de Arte Dramática de São Paulo sai o núcleo inicial de um grupo de a jovens, que virá a contestar a política da própria escola e das companhias tradicionais. O Teatro de Arena introduz nova tecnica de apresentação, a qual, por aproximar mais palco e platéia, incita o público a maior envolvimento e participação. Além de peças estrangeira de Pirandello, Tennese Williams e O’Casey, inéditas no Brasil, o Arena encena textos novos de Augusto Boal (Marido Magro, Mulher Chata), Gianfrancesco Guarnieri (Eles não Usam Black Tie; Gimba, o Presidente dos Malandros), além de criações coletivas, das quais a mais importante é Arena Conta Zumbi. Trabalho semelhante é desenvolvido pelo Grupo Oficina, de São Paulo, dirigido por José Celso Martínez Correa, que encena peça de Górki, Brecht e Max Frisch, redescobre um importante texto nacional - O Rei da Vela, de Oswald de Andrade - e monta Roda Viva, a primeira peça de Chico Buarque de Holanda, compositor popular voltado para o teatro (e que já colaborara para o palco compondo o acompanhamento musical para Morte e Vida Severina, do nordestino João Cabral de Mello Neto, levado à palco pelo Teatro da Universidade Católica de São Paulo). O mesmo tipo de trabalho do Oficina é feito paralelamente no Rio de Janeiro, pelo Grupo Opinião, com conotação nitidamente política. Seu principal espetáculo é Se correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come, de Oduvaldo Vianna Filho. A partir de 1967, o novo impulso é da dramaturgia de caráter realista, com a obra de Plínio Marcos, autor de Dois Perdidos numa Noite Suja, Navalha na Carne, Quando as Máquinas Param, etc. O gênero de situação que ele explora e a maneira como procura mostrar, em seus diálogos, os ritmos da linguagem popular exercem forte influência sobre os autores jovens que apareceriam durante a década de 70: Antônio Bivar (Cordélia Brasil), LeiIah Assunção (Fala Baixo Senão Eu Grito), Consuelo de Castro (Caminho de Volta), Isabel Câmara (As Moças) e sobretudo José Vicente (O Assalto). Em anos recentes, Chico Buarque volta com obras significativas do ponto de vista da tentativa de utlização de um teatro musical brasileiro: Calabar, em colaboração com o cineasta Rui Guerra, Gota d’Água, colaboração com Paulo Pontes (o autor de Um Edifício Chamado 200) e, em 1978, a Ópera do Malandro.

Qorpo SantoA partir de 1965 a obra de Qorpo Santo (à esquerda), é redescoberta, um caso isolado dentro da história do Romantismo brasileiro. Qorpo Santo foi o pseudônimo usado pelo gaúcho José Joaquim Campos Leão, escritor que viveu no século XIX. Após sua morte, em 1883, suas obras se perderam em sebos de livros, até serem reencontradas no século seguinte graças ao trabalho de pesquisa de Guilhermino César e Júlio Petersen. Suas peças Mateus e Mateusa, Eu Sou Vida Eu não Sou Morte, As Relações Naturais são comédias cheias de nonsense, libertas das convenções literárias da época, abordando um temática ousada de forma especialmente irreverente, o que lhes confere intensa modernidade, colocando-as como precursoras do teatro do absurdo, antes mesmo do francês Alfred Jarry. As obras de Qorpo Santo trazem também inovações linguísticas inusitadas para a época em que foram escritas.
Em 1979, obteve enorme sucesso Carreira do Divino, uma criação coletiva do grupo O Pessoal do Victor, resultado de anos de pesquisa do cotidiano rural e da desestruturação do mundo caipira paralela a seu afastamento da terra. Causou grande impacto, também, a liberação de duas peças de Oduvaldo Vianna Filho, que se encontravam retidas pela censura: Papa Highirte, uma sátira à ditadura, e Rasga Coração, um emocionante balanço das desilusões políticas de três gerações de brasileiros. Ainda em 1979, obteve grande destaque a montagem que Antunes Filho extraíu do Macunaíma de Mário de Andrade, notável pela originalidade de suas soluções cênicas; dois anos depois, a tentativa de reeditar esse estilo de encenação com Nelson Rodrigues: o Eterno retorno, resultaria em um espetáculo bem menos coeso. Em 1980, foi muito comentado Os Órfãos, outra criação coletiva que visava a traçar amplo painel critico de nossa historia recente. Dos anos seguintes, podemos citar a autora Maria Adelaide Amaral (A Resistência, Bodas de Papel) e o mineiro Mario Prata
, autor de contos, novelas, roteiros de cinema e peças como Besame Mucho, Dona Beja e Papai e Mamãe, conversando sobre sexo (em parceria com a sexóloga Marta Suplicy). Também nos anos 80, destaca-se o paulista Naum Alves de Souza com peças como No natal a gente vem te buscar e A aurora da minha vida. Nos anos 90, Gerald Thomas se destacou por montagens de vanguarda apresentadas no Brasil e exterior, algumas polêmicas, como a da ópera O Navio Fantasma, de Wagner, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1987. Dele são as peças O Império das Meias Verdades e Unglauber. Mauro Rasi retrata satiricamente a vida da classe média urbana em peças como Pérola, As Tias e A Estrela do Lar . O carioca Miguel Fallabela, conhecido inicialmente como ator de TV, obteve grande sucesso de crítica e público com peças como A Partilha (que foi adaptada para o cinema) e Como encher um biquini selvagem. Entre os outros autores que surgem na década de 90, podemos citar o escritor fluminense Tony Caroll, autor de obras que expõem questões polêmicas como drogas, homossexualismo, superstição religiosa, abordadas em peças densas como Casa Velha, O orgasmo da borboleta e o monólogo Amor de Pecado, que enfoca um caso de adultério bissexual. Em São Paulo, destacam-se Otávio Frias Filho com Típico romântico, Marcos Caruso e Jandira Martini com Porca Miséria e Noemi Marinho com a comédia Fulaninha e Dona Coisa.

Na direção teatral, destacaram-se: Cacá Rosset, que fez sucesso nos Estados Unidos com uma polêmica montagem de Sonhos de uma Noite de Verão, de Shakespeare, e dirigiu também Ubu, A Comédia dos erros, O doente imaginário, entre outras peças; Moacyr Góes com A escola de bufões; Enrique Díaz, diretor do grupo carioca Companhia dos Atores; o paulista Ulysses Cruz, que faz montagens importantes à frente do grupo Boi Voador; o mineiro Gabriel Villela, à frente do grupo Galpão; e a carioca Bia Lessa, que se destacou com montagens originais como Orlando e Cartas Portuguesas, só para citar alguns diretores.

Nova Jerusalem
Não podemos deixar de lembrar que, curiosamente, é fora do eixo Rio-São Paulo que se realiza desde 1968 a mais grandiosa produção teatral brasileira: a Paixão de Cristo (foto á direita), encenada todos os anos na Semana Santa em Pernambuco, na cidade cenográfica de Nova Jerusalém, o maior teatro a céu aberto do mundo, com 70.000 metros quadrados de extensão. Na encenação participam centenas de atores e figurantes, assistidos por cerca de 8 mil espectadores.



PANORAMA ATUAL DO TEATRO NO BRASIL
Após o advento da Televisão, várias pessoas cogitaram que o teatro poderia perder popularidade não só no Brasil, mas em todos os países em geral. No entanto, não foi isso que se verificou. A televisão, de certa forma, ajudou a popularizar ainda mais o teatro, divulgando a um número muito maior de pessoas o trabalho de dramaturgos e atores teatrais. É verdade também que percebe-se uma afluência maior do público à peças onde atores que fazem carreira no vídeo estão presentes. De qualquer forma, as instituições públicas tem procurado dar incentivos à divulgação e produção, viabilizando a apresentação de peças acessíveis às massas, e vários grupos profissionais e amadores no país inteiro levam à cena peças de todos os gêneros, algumas vezes em praças públicas e locais com acesso grátis para possibilitar à todos, homens, mulheres, velhos e crianças, um maior contato com o teatro (para muitos o primeiro).



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