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por François Ewald
O que é Mil platôs? Como se organiza? Como um tratado de
filosofia, após a ruptura, quando o filósofo, o grande
nômade, resolveu desertar a filosofia dos códigos, dos
territórios e dos Estados, a filosofia do comentário. Mil
platôs é um grande livro, porque com ele a filosofia
alcança um de seus devires improváveis. Mil platôs
desenvolve uma filosofia verdadeira, quer dizer nova, inaugural,
inédita. Duas grandes filosofias jamais se assemelham; pois elas
jamais são da mesma família. A filosofia não se
desenvolve seguindo uma linha arborescente de evolução,
mas segundo uma lógica dos múltiplos singulares. A
questão que Deleuze e Guattari retomam é a seguinte: de
que se ocupa, então, a filosofia, se ela só pode se
exprimir de uma maneira incomparável? Evidentemente não
daquele que poderia ser comum a todas as filosofias: do universal, do
verdadeiro, do belo e do bem. Deleuze e Guattari respondem do
múltiplo puro sem referência a um qualquer um, da
diferença pura, das intensidades que individualizam, das
heoceidades. Mil platôs é um evento na ordem da filosofia.
E ler Mil platôs é se perguntar: 1980, Mil platôs, o
que é que aconteceu?
Mil platôs contém todos os componentes de um tratado
clássico de filosofia: uma ontologia, uma física, uma
lógica, uma psicologia e uma moral, uma política. Com a
diferença de que não se vai de uma a outra segundo uma
lógica de desenvolvimento, do que funda ao fundado, dos
princípios às conseqüências. Deleuze e
Guattari dão mais privilégio ao espaço do que ao
tempo, ao mapa do que à árvore. Tudo é coextensivo
a tudo. Assim as divisões só podem corresponder a placas,
a estrias paralelas, com diferenças de escala,
correspondências e articulações dos platôs,
datados mas co-presentes.
Deleuze e Guattari concebem a ontologia como geologia: ao invés
do ser, a terra, com seus estratos físico-químicos,
orgânicos, antropomórficos. Pois de que a terra é
feita? Quem fez da terra o que ela é? Quem deu esse corpo
à terra? Máquinas, sempre as máquinas. A terra
é a grande máquina, a máquina de todas as
máquinas. Mecanosfera. A filosofia de Mil platôs
não concebe oposição entre o homem e a natureza,
entre a natureza e a indústria, mas simbiose e aliança. A
lógica da mecanosfera não conhece a negação
nem a privação. Há apenas devires, sempre
positivos, e, dentre estes, devires perdidos, bloqueados, mortos.
Positividade do esquizo.
Como criar para si um corpo sem órgão? E o que
está em jogo em um devir? Não há dúvida de
que, antes de Mil platôs, nunca se tinha ido tão longe na
crítica da representação e da
significação, na revelação do que se
relaciona a uma representação. Não um
significante, mas sempre um ato, uma ação.
Gilles Deleuze e Félix Guattari detestam a
interpretação. "Interpretar", dizem, "é nossa
maneira moderna de crer e de ser piedoso". À
interpretação, eles opõem a
experimentação. Seu método, esquizo-análise
ou pragmática, obedece às regras de um positivismo
radical. Não se trata de amor a ciência, mas de produzir
fatos. Os dois tomos de Capitalismo e esquizofrenia são uma
máquina de produzir fatos e, como tal, inéditos. Sua
importância é a de renovar completamente os fatos de que
trata a filosofia e que tramam a nossa existência.
por Antonio Negri
Dizem que não existe livro que traduza 68: isso é falso!
Esse livro é Mil platôs. Mil platôs é o
materialismo histórico em ato de nossa época.
Contrastando radicalmente com certa deriva atual, os Mil platôs
reinventam as ciências do espírito (deixando bem claro
que, na tradição em que se situam Deleuze e Guattari,
geist é o cérebro), renovando o ponto de vista da
historicidade, em sua dimensão ontológica e constitutiva.
Os Mil platôs precedem o pós-moderno e as teorias de
hermenêutica fraca: antecipam uma nova teoria da
expressão, um novo ponto de vista ontológico —
instrumento graças ao qual se encontram em posição
de combater a pós-modernidade, desvelando e dinamitando suas
estruturas.
Trata-se aqui de um pensamento forte, mesmo quando se aplica ã
"fraqueza" do cotidiano. Quanto ao seu projeto, trata-se de apreender o
criado, do ponto de vista da criação. Esse projeto
não tem nada de idealista: a força criadora é um
rizoma material, ao mesmo tempo máquina e espírito,
natureza e indivíduo, singularidade e multiplicidade — e o
palco é a história, de 10.000 a.C. aos dias de hoje. O
moderno e o pós-moderno são ruminados e digeridos, e
reaparecem contribuindo para fertilizar abundantemente uma
hermenêutica do porvir. Relendo os Mil platôs anos mais
tarde, o que é mais impressionante é a incrível
capacidade de antecipação que aí se exprime. O
desenvolvimento da informática e da automação, os
novos fenômenos da sociedade mediática e da
interação comunicacional, as novas vias percorridas pelas
ciências naturais e pela tecnologia científica, em
eletrônica, biologia, ecologia, etc, são apenas previstos,
mas já levados em conta como horizonte epistemológico, e
não como simples tecido fenomenológico sofrendo uma
extraordinária aceleração. Mas a superfície
do quadro no qual se desenrola a dramaturgia do futuro é, na
verdade, ontológica — uma superfície dura e
irredutível, precisamente ontológica e não
transcendental, constitutiva e. não sistêmica, criativa e
não liberal.
Se toda filosofia assume e determina sua própria fenomenologia,
uma nova fenomenologia se afirma aqui com força. Ela se
caracteriza pelo processo que remete o mundo à
produção, a produção à
subjetividade, a subjetividade à potência do desejo, a
potência do desejo ao sistema de enunciação, a
enunciação à expressão. E vice-versa. E no
interior da linha traçada a partir do "vice-versa", quer dizer,
indo da expressão subjetiva à superfície do mundo,
ã historicidade em ato, que se revela o sentido do processo (ou
ainda a única ideologia que a imanência absoluta pode se
permitir): o sentido do processo é o da abstração.
O sujeito que produz o mundo, na horizontalidade ampliada de suas
projeções, efetua ele mesmo, cada vez mais, sua
própria realização. A primeira vista, o horizonte
do mundo construído por Deleuze-Guattari parece animista: mas
muito rapidamente se vê que esse animismo traduz a mais alta
abstração, o processo incessante dos agenciamentos
maquínicos e das subjetividades se elevando a uma
abstração cada vez mais alta.
Nesse mundo de cavernas, de dobras, de rupturas, de
reconstruções, o cérebro humano se dedica a
compreender, antes de mais nada, sua própria
transformação, seu próprio deslocamento, para
além da conflitualidade, nesse lugar em que reina a mais alta
abstração. Mas essa abstração é
novamente desejo.
por Jean Clet Martin
Mil platôs, esse livro plural, não é um tratado de
metafísica ou um simples ensaio de história das
idéias. É, antes, um livro de magia, uma alquimia
preciosa em que cada fórmula traça a cifra de uma
metamorfose.
O que se trata de modificar sob a ação dessa metamorfose
é a própria idéia de conceito, que nada tem em
comum com a lógica de sua compreensão, tampouco com a de
sua extensão. Nem interpretação nem
explicação, o conceito só existe por
variação, quer dizer, no fim das contas, por
criação contínua.
Mas não basta definir a filosofia pela criação de
conceito se, nessa mesma circunstância, nos eximimos de
fazê-lo. Descrever conceitos não é produzi-los.
Desse modo, esse livro de platôs superpostos fará com que
penetremos no antro da feiticeira, no lugar onde Deleuze não se
transforma em gato sem que Guattari se torne um rato, onde o rato se
torna subitamente um tigre, o tigre vira pulga assim que o gato se
metamorfoseia em micróbio. Fazer conceitos é
questão de devir, um devir que, arrastando esta ou aquela
determinação conceituai no declive de sua
variação, produzirá mutações na
vertente da estética, da política, da ciência,
cujos mapas e transformações é impossível
separar.
Um platô não é nada além disso: um encontro
entre devires, um entrecruzamento de linhas, de fluxos, ou uma
percolação — fluxos que, ao se encontrarem,
modificam seu movimento e sua estrutura; é por isso que o mais
importante dos operadores que este livro consegue construir concerne
não ao relevo de um platô, mas àquele por meio do
qual os platôs se chocam e se penetram, mudando todos os
índices de ambiente e as coordenadas de território:
é a desterritorialização.
Um conceito, assim como uma flor ou um inseto, tem seus ambiente e seus
territórios. Toda uma etologia do conceito, por meio da qual
não se pode mais separar seus componentes do ambiente concreto
em que eles se depositam. O que ocorre, ao contrário, quando
certo conceito é levado para um outro ambiente? Quais são
os acontecimentos que ocorrem com os conceitos quando estes se
desterritorializam?
A essa questão responde a idéia de ritornelo, uma
idéia musical que proporá aos conceitos seu ritmo e seu
canto, para posturas e acrobacias inauditas. Há, então,
duas coisas muito diferentes: aquelas em que se tramam procedimentos
éticos, etológicos, mas que ainda não são
conceitos. São condições dos conceitos, dos
gritos, dos cantos que os afetam. E, acima dos territórios e dos
ambientes, ainda são necessários os processos, que
são como gestos e posturas reagindo aos ambientes. O
procedimento é um ritmo, ao passo que o processo é uma
dança — duas asas que abrem para este livro suas
longitudes e sua latitude.
por Peter Pál Pelbart
Mil platôs é o prolongamento de uma aposta iniciada em O
anti-Édipo. Mais do que um acerto de contas com a conturbada
década dos 60 e o freudo-marxismo que parecia animá-la,
este era, segundo a bela definição de Michel Foucault,
uma "introdução à vida não-fascista". Ou
seja, um livro de ética. Foucault resumia as linhas de
força daquele "guia da vida cotidiana": liberar a
ação política de toda forma de paranóia
unitária e totalizante; alastrar a ação, o
pensamento e o desejo por proliferação e
disjunção (e não por hierarquização
piramidal); liberar-se das velhas categorias do Negativo (a lei, o
limite, a castração, a falta), investindo o positivo, o
múltiplo, o nômade; desvincular a militância da
tristeza (o desejo pode ser revolucionário); liberar a
prática política da noção de Verdade;
recusar o indivíduo como fundamento para
reivindicações políticas (o próprio
indivíduo é um produto do poder) etc.
Ora, não podemos dizer que essas balizas perderam algo de sua
pertinência ou atualidade, muito pelo contrário. Na
esteira delas, Mil platôs vai ainda mais longe, e de maneira mais
leve, sóbria e radical. Despede-se das polêmicas com a
psicanálise, desfaz os mal-entendidos sobre os marginais e suas
bandeiras, multiplica as regras de prudência, intensifica a
leitura micropolítica, amplia o espectro das matérias
deglutidas (etologia, arquitetura, cibernética, metalurgia
etc.), reinventa suas interfaces e hibridações e
lança ao ar saraivadas de conceitos novos, como
desterritorialização, devires, rizoma, platô.
Já a forma do livro pede uma leitura inusitada. Seus
platôs de intensidade, e não capítulos, podem ser
lidos independentemente uns dos outros, mas formam uma rede, um rizoma.
Num rizoma entra-se por qualquer lado, cada ponto se conecta com
qualquer outro, não há um centro, nem uma unidade
presumida — em suma, o rizoma é uma multiplicidade (como
se vê, todas essas características prenunciavam a
geografia imaterial da Internet, para cuja assimilação
filosófica parecíamos tão pouco preparados).
Contra a geografia mental do Estado, com seus sulcos e estrias, Mil
platôs faz valer um espaço liso para um pensamento
nômade. Contra o homem-branco-macho-racional-europeu,
padrão majoritário da cultura, libera as
mutações virtuais, os devires minoritários e
moleculares capazes de desfazer nosso rosto demasiadamente humano.
Contra as miragens em que se contempla, o homem é devolvido ao
rizoma material e imaterial que o constitui, seja ele
biopsíquico, tecno-social ou semiótico. Para aquém
das figuras visíveis da História e do Capital, colhe seus
movimentos de desterritorialização, a singularidade dos
Acontecimentos aí gestados, as subjetivações que
se anunciam, as lufadas intempestivas que chamam por um povo ainda
desconhecido.
Este livro é um exemplo vivo daquilo que os autores consideram a
tendência, ou mesmo a tarefa da filosofia moderna: elaborar um
material de pensamento capaz de captar a miríade de
forças em jogo e fazer do próprio pensamento uma
força do Cosmos. O filósofo como um artesão
cósmico, a filosofia como estratégia.
Deleuze chegou a considerar Mil platôs o melhor de tudo o que
já escrevera. Predileção premonitória ou
não, o fato é que este livro inclassificável
começa a ser revisitado, justo numa época em que se prega
sobranceiramente o fim da Filosofia, ou mesmo da História, em
vez de se buscar ferramentas teóricas para a travessia do
milênio.
por Michael Hardt
Mil platôs é o mais profundo trabalho político de
Deleuze e Guattari. A primeira vista, ele parece, na verdade, um guia
claro, pronto a responder a questões de avaliação
e ação políticas. Deleuze e Guattari apresentam
incessantemente dicotomias no campo social e político: o Estado
e a máquina de guerra, o sedentário e o nômade,
territorialização e desterritorialização, o
estriado e o liso, e assim por diante. As distinções
parecem proliferar infinitamente, mas todas elas giram em torno de um
único eixo. O mundo é dividido em compartimentos e o
texto nos convida a censurar um pólo e afirmar o outro —
Abaixo o Estado! Viva a máquina de guerra nômade! Se ao
menos a política fosse tão simples.
No entanto, ao prosseguirmos na leitura, percebemos que Deleuze e
Guattari complicam continuamente essa clara série de
distinções. K importante reconhecer, em primeiro lugar,
que os termos contrastantes não estão em
oposição absoluta um com o outro (como se pudessem ser
subsumidos dialeticamente em uma unidade superior). Os termos de cada
distinção não são postos em
contradição, mas sim em uma relação
oblíqua ou diagonal, irreconciliavelmente diferente e
desconjunta. Em segundo lugar, ao analisarmos cada par mais de perto,
descobrimos que nenhum termo é realmente puro, ou exclusivo de
seu outro. C) Estado sempre contém internalizada uma
máquina de guerra institucionalizada; todo movimento de
desterritorialização carrega consigo elementos de
reterritorialização. As próprias fronteiras que
separam os termos emparelhados são, em outras palavras, vagas,
continuamente em fluxo. Finalmente, o que parecia ser o caminho
assinalado da liberação revela, por vezes, conter
paradoxalmente a dominação mais brutal: o alisamento do
espaço social traz, às vezes, uma rigorosa
hipersegmentação; linhas de fuga revertem-se
freqüentemente em linhas de destruição, tendendo
assim ao fascismo e ao suicídio.
Ao final, Deleuze e Guattari irão frustrar qualquer
aplicação direta de simples fórmulas
políticas. Eles dificultarão qualquer slogan ou mol
d’ordre. K essa complexidade é parte da riqueza de Mil
pleitos enquanto análise propriamente política. A
complexidade e as distinções flutuantes, oblíquas
não necessariamente paralisam a ação
política — por medo de que possamos ser impuros,
cúmplices de nossos inimigos. Isto significa apenas que o
pensamento político e a ação política
não podem prosseguir ao longo de uma linha reta. A
política de Deleuze e Guattari é melhor concebida como um
ziguezague que se move em diferentes ângulos de acordo com as
contingências locais e em mudança.
resenhas publicadas nas capas internas dos volumes 1 a 5 da edição brasileira de Mil Platôs [Editora 34]