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Dossiê Antonio Negri ~ textos sobre futebol Os padecimentos de um torcedor do Milan
Neste
período muitas coisas andam arrevesadas para mim. Mas
sobretudo uma: o futebol.
Sou torcedor do Milan. Estou vivendo, no entanto, num
cárcere romano, cuja
população divide-se entre torcedores do Lazio e
do Roma (os dois clubes da
cidade eterna). Entre si, dividem-se, escarniçadamente
dialéticos, mas quando
estão diante de um milanista, unem-se,
escarniçadamente hostis. Como se isso
não bastasse, o meu time só faz é
perder. Apesar dos nomes famosos, o Milan é a
sombra do timão que já foi. Meu
mal-estar está no ápice: como sobreviver no
cárcere, numa situação destas?
Desde que o campeonato começou, meus colegas criminosos,
"lazistas"
ou "romanistas" que sejam, olham-me com
comiseração, quando não com
desprezo. Os meus títulos acadêmicos, minha fama
na mídia, minha bonomia de
cavalheiro, que de início me valeram muito respeito, como
por encanto
dissiparam-se na consideração de meus
companheiros de desgraça. Às
segundas-feiras, depois da rotineira derrota dominical de meu time,
não me
chamam mais "professor", mas Toni, familiar e ironicamente Toni.
Não
poderia haver maior humilhação, não
por simplificarem tão rudemente uma
relação
que, de qualquer maneira, é dura, mas por eu sentir sua
postura como escárnio.
Nesta situação, por vezes, até penso
em mudar o objeto de minha torcida.
"Paris bem que vale uma missa!" Aliás, haveria boas
razões para um
"arrependimento": depois de ter sido o time do antifascismo
milanês,
e, portanto, de esquerda, o Milan foi comprado por Berlusconi, o
rás da direita
neoliberal italiana. Poderia, portanto, acobertar com motivos
políticos a minha
oportuna conversão para outra torcida. A do Roma poderia
atrair-me: o Roma é o
time do proletariado romano, enquanto o Lazio, seu oponente da cidade,
representa
antes a burguesia clerical e fascista e a aristocracia populista da
província.
Mas não posso. O fantasma de Giordano Bruno, milanista e
europeu, queimado numa
fogueira romana, aparece para me admoestar! "Non possumus." Desde
criança meu pai vestia-me nas cores (antifascistas) do Milan
e, mais tarde, por
volta de 1968 e depois daquela data (que fique entre nós,
não vão repetir isso
aos juízes italianos), estive entre os inspiradores das
"brigadas
rubro-negras", as tropas de assalto da torcida milanista. Os meus
amigos,
eu os escolhi entre os milanistas, e entre as tantas vicissitudes de
minha
vida, felizes ou desafortunadas que fossem, só
não fui traído pelos
milanistas. Minha
vida é milanista: a do meu filho também, e eu o
perderia se o traísse, e o meu
pai se viraria no caixão. De modo que resisto estoicamente
às desventuras do
meu time. Assim, quando urros selvagens se levantam dos
pavilhões do presídio
(mais intensos do que se uma revolta estivesse em curso) para comemorar
um ou
mais gols que o Roma ou o Lazio impingiram ao meu time, sofro calado. Uma
grande e melancólica dignidade, tal que só
Plutarco poderia narrá-la, cresce no
meu peito. Claro, em outros momentos eu sinto uma certa
tentação de aliar-me
aos napolitanos e sicilianos (poucos neste cárcere, mas
dotados de uma firme
tradição criminosa, da qual, individualmente,
deram prova) para construir uma
musculosa aliança anti-romana. Como os príncipes
milaneses e napolitanos
faziam, no Renascimento, para se oporem aos desejos expansionistas do
Papa. Uma
aliança vingativa que, a cada derrota do Roma ou do Lazio,
saiba retribuir as
ofensas sofridas. Infelizmente (tenho de reconhecer, realisticamente)
não
existem relações de força que
possibilitem a eficácia desta eventual aliança,
mais ou menos como já reconheciam Guicciardini e Maquiavel.
Em suma, a vida que
estou levando é insuportável. E vai ficar mais
ainda: em vista do jubileu, e já
na previsão das Olimpíadas (esperança
felizmente não realizada), os grandes
tributos estatais que convergem sobre Roma fortalecerão
estes times e as
instalações que utilizam e os viveiros de onde
conseguem seus jogadores.
"No future." O meu Milan terá de sofrer esta supremacia por
muitos
anos ainda? Quando o pesadelo acossa, minha vida de prisioneiro fica
reduzida ao
limite do desespero. Afinal
por que, pergunto-me, fui me entregar de volta ao cárcere
logo num período em
que o Milan está perdendo? Como podia imaginar sair
vitorioso numa batalha
política, na ausência do suporte de um poderoso
time de futebol? Já está
bastante claro que o povo e os juízes romanos querem punir a
minha
"fé" futebolística! Procuro
consolar-me: os acontecimentos do futebol são
aleatórios -repito para mim
mesmo-, o esporte é o reino do efêmero e do
imprevisível, os deuses são
frívolos em suas preferências e amanhã
poderiam voltar a abençoar o Milan. Mas
o meu gênio me aconselha a não ceder à
ilusão -pode levá-lo para o alto, mas
quando cair vai ser um desastre. O que eu perderia? No desastre do meu
Milan eu
já estou mesmo. Penso em suicídio.
Não, não, a vida, de qualquer forma, é
sagrada, pelo menos a minha. Procuremos então administrar a
passagem pelo
deserto. Subterfúgios,
caminhos de fuga interiores, nicodemismo. Por exemplo: mesmo que
permanecendo
intimamente milanista, não dê nas vistas, fale
sobre isso com um distanciamento
cético, lembre com ironia alguma derrota do passado
(já tão distante a ponto de
não ferir mais): por que não? Já
tentei, sem o menor sucesso. Eles enxergam
você, em todo o caso, como um infiel, um réprobo,
um inimigo. A astúcia não
compensa. Tento o último maquiavelismo: abstenho-me de
qualquer discussão,
finjo que o futebol não existe como
instituição totalitária da sociedade
e, em
vez de amaldiçoar este "ópio dos povos", esnobo
sua atulhante
presença e suas vulgares paixões. Aos domingos, enquanto a massa dos prisioneiros fica grudada, entre imprecações e entusiasmos, aos radinhos que transmitem "o futebol minuto a minuto", eu ando, solitário, na gaiola de cimento do "passeio" (sei que "romanistas" e "lazistas" ficam, de todo modo, me espiando). Assovio com uma pontinha de arrogância. Deus me salve! De vez em quando alguma chacota chega por detrás das grades das janelas que dão para o "passeio". Chacotas desarmantes. Nem sequer a mais sublime abstração do espírito me salva de um escárnio que não poderia ser mais prosaico. Alma minha, não estremeça. E no entanto estremece, mas de raiva. Não aguento mais este domínio barbaresco. Do futebol a gente não se livra. Então, sabem o que vou fazer? Vou pedir transferência para o cárcere de Milão. Ali, pelo menos, nós, os milanistas, seremos a maioria. Estas são as minhas prisões, senhores leitores, no triunfo do pós-moderno. Como podem observar, procurei compreendê-las "gramscianamente" e agir em conformidade. Vou me subtrair à "hegemonia" liquidando toda e qualquer aquiescência "passiva" com esta: buscarei uma "revolução ativa" que me leve a Milão, onde a "ditadura democrática" dos milanistas poderá se exercer. Acredito firmemente nisto. Só que, às vezes, num ímpeto de revolta extremista, ouso pensar que o próprio futebol deveria ser eliminado porque é, em todo lugar, uma prisão; e que as prisões deveriam ser destruídas porque, em todo o lugar, estão invadidas pelo futebol. Mas não digam isso aos meus juízes: quem perdoaria este crime contra "o estado presente das coisas"?
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Tradução de Rodrigo Bertolotto Folha de S. Paulo 27 de junho de 2002
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O futebol se antecipa à globalização
O mundo tornou-se um só. Não há mais forasteiros, estranhos ou coisas externas neste mundo. A globalização das relações econômicas anda no mesmo passo que a globalização das relações sociais. Hoje, o mundo se restringe às ligações financeiras que vão de indivíduo para indivíduo, saltando as fronteiras nacionais. Os contratos não vêm mais com a chancela do Estado, mas com carimbos de advogados que constituem elos da "lex mercatoria". Agora, não se vira mais cidadão do mundo: você já nasce sendo um. As platéias de espectadores e torcedores estão globalizadas. Eu, um italiano, não torci pela Itália nesta Copa, virei um seguidor apaixonado do Senegal. Por um lado, o Mundial de futebol é, nessa perspectiva, um anacronismo singular. Nele, as nações guerreiam ainda, uma contra a outra. Certo, é um jogo, é uma experiência lúdica que não comporta declarações de guerra: batem de frente países, e não diferentes imperialismos. Na verdade, tudo isso é uma ficção. Não existem mais nações, com as relações sociais, econômicas e financeiras se desenvolvendo em escala universal, onde as identidades se esvanecem e valem muito pouco no meio de tanto intercâmbio. A Copa se apresenta como uma ficcional permanência das nações, e o nosso orgulho nacional é artificialmente reavivado. Neste planeta sem confins não vale a pena se divertir com essas nações-fetiches. O fato é que o futebol não havia previsto a realidade da globalização. Mas a antecipou. É por isso que o futebol é uma chave para interpretar o "espírito do mundo". O futebol já havia começado a circulação de mão-de-obra (ou pé-de-obra) de um país a outro, já tornava híbridos os torneios locais e contaminava as torcidas futebolísticas. Na Europa, as grandes nações européias são todas híbridas: a seleção italiana bicampeã nos anos 30 estava cheia de argentinos, os franceses vencedores de 1998 eram quase todos estrangeiros. Isso demonstra como o futebol se antecipa à realidade. A força de trabalho futebolística se move com toda a liberdade e chegou a todos os rincões primeiro que a globalização. Hoje, observando os torneios locais, se percebe como está avançado esse processo. Foi divertido (digo ironicamente, afinal, tratou-se na verdade de uma afirmação indecente) ouvir recentemente um nacionalista francês exclamar, diante da multicolorida seleção de seu país, que para conquistar a vitória era preciso uma equipe só de brancos... Pobre idiota! A mistura é irreversível. É uma exigência do mundo. E, além disso, essa lógica não diz respeito só a equipes de futebol. Ela serve como condição para nossa existência, para nós, seres cosmopolitas... E, depois, existe um efeito profundamente positivo. Essa lógica acaba com a possibilidade de usar uma herança de cor ou de raça como arma para a exploração ou a exclusão. O campeonato mundial de futebol é útil por isso. Não porque exalta as nações, mas porque mistura as raças, as cores, as paixões. Em suma, mostra as condições elementares da liberdade.
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Tradução de Rodrigo Bertolotto Folha de S. Paulo 20 de junho de 2002 |
O futebol está preso numa camisa-de-força
Eu ainda não sei, e ninguém até este momento sabe, quem vencerá a Copa do Mundo. Nas previsões das bolsas de apostas e dos "tifosi", a eliminada Itália estava muito bem. Mesmo o Campeonato Italiano, que alguma vez foi considerado "o mais belo do mundo", é certamente hoje o mais feio. Por quê? Porque é um futebol que não tem mais uma identidade e uma personalidade, é um futebol no qual todos os jogadores são iguais entre si, e, quando aparece algum diferente, acaba reduzido a ser como os outros. Antes existiam os zagueiros da classe operária, brutos, mas honestos. Existiam os meias velozes que se moviam transformando o campo em uma rede de possibilidades. Havia os atacantes que surpreendiam pelo imprevisto. E ainda tinha o líbero, que, de sua posição, dominava tudo. Abria o campo como a golpes de foice, atravessando dezenas de metros. Depois fechava seu campo como um gladiador, quando, por acaso, por lá passava um atacante oponente. Hoje, os jogadores são todos iguais e valem a metade ou um quarto daquilo que valiam os jogadores de um tempo atrás. Não é por nada que os canais esportivos preencham o tempo com estatísticas, esquemas táticos e replays. Eles precisam criar um logo, uma marca para esses jogadores sem identidade. A alternativa é entre o tédio e a violência. O campeonato mais feio do mundo só oferece isso. Há compactos de partidas que são tão repetitivas quanto ver o tráfego em uma rodovia. Mas há também jogos com tanta violência, que chamam a atenção pela novidade e pela paixão. Parecia impossível, mas, de verdade, se está realizando a profecia do horripilante filme "Rollerball", que vi anos atrás. Disseram-me que, coincidindo com a Copa do Mundo, o filme entrou outra vez em cartaz em algumas repúblicas asiáticas, com enorme sucesso. É um cenário feroz, onde a cobiça dos dirigentes e dos bookmakers edifica a violência de um esporte circense, onde os jogadores, para que siga o espetáculo, devem massacram uns aos outros. Quando a alegria do jogo é substituída pela busca do lucro -e o resultado não é uma honra, mas um investimento industrial-, o futebol fica feio. O paradoxal consiste no fato de o Campeonato Italiano ser um dos paradigma mais importantes do futebol mundial. Feio e violento, violento porque é feio e vice-versa. Na democracia global do Império, esta forma de espetáculo entra como uma luva na era das comunicações. Às vezes, acho que altíssima frequência de faltas e contusões no jogo são provocadas de propósito para permitir que seja inserida uma propaganda durante a partida. Sei que não é verdade, mas os jogos são tão chatos, que a inserção de publicidade acaba sendo uma coisa prazerosa. O fato é que o futebol (o italiano e o mundial) está agora preso em uma camisa-de-força, aquela que o business e a publicidade determinam em torno de toda atividade humana. Não há saída: o melhor para recuperar a magia do esporte é fechar os olhos.
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Tradução de Rodrigo Bertolotto Folha de S. Paulo 13 de junho de 2002 |
O esporte moral, mas também poético
Quando um esporte torna-se uma paixão tão difundida e profunda como conseguiu o futebol, isso interessa ao poder. Os imperadores romanos já sabiam disso, o circo era o futebol da época. Mas um esporte não é simplesmente um momento de liberação para cidadãos infelizes e uma compensação lúdica dos sofrimentos cotidianos. Em suma, um remédio social. O esporte pode ser pensado também como uma ação positiva para a manutenção da ordem pública. Pode, portanto, se transformar em instrumento de organização e adestramento das massas, ou seja, aquilo que os soberanos absolutistas do século 18 chamavam uma "ação de polícia". Em alguns países europeus, americanos, asiáticos e africanos é em torno do futebol que acaba se desenvolvendo boa parte da reflexão sobre a relação entre esporte e polícia. Em que sentido? O futebol tem a vantagem de ser um esporte moral -é difícil compreender como um jogador de futebol possa se drogar, afinal, essa ação soma pouco à dinâmica do jogo (Maradona ensina). É árduo, quase impossível, por outro lado, pensar na corrupção no jogo, na falsificação de resultados etc. Eis, então, os exemplos edificantes. Não é só isso, porém, que interessa ao soberano. A oportunidade que se oferece é a de tomar o futebol como paradigma da ordem social, o jogo dos chutes como um "tipo ideal" da constituição (física e moral) de um país. Seja pelo lado positivo ou pelo negativo. Do lado positivo: na medida em que em torno do futebol podem se materializar as supostas virtudes de um povo (a inventividade brasileira, a astúcia italiana, a disciplina alemã, o dinamismo esnobe dos ingleses). Do lado negativo: as partidas, que podem virar receptáculos da violência popular, se oferecem como terreno ideal para demonstrar quanto é necessário o poder da polícia. Juntemos a estas considerações banais algumas outras reflexões. Há um grande jornalista esportivo na Itália, Gianni Brera, que conseguiu traçar em seus artigos um espécie de panorama representando o desenvolvimento italiano do pós-guerra até o triunfo capitalista dos anos 60. Traçou também (de forma subliminar) o desejo de grupos que não se aproximavam do poder, que combatiam o capitalismo e, mesmo assim, viviam. Não se tratava, portanto, para Brera, de reduzir os atores do futebol em uma tensão unidimensional da comunidade, do orgulho nacional, da aventura quase imperialista quando jogava a seleção italiana. Tratava-se sobretudo de mostrar, no futebol, como os oprimidos poderiam tomar consciência, se emancipar e se rebelar. Com Brera, o jornalismo esportivo, de dispositivo de polícia, se abre, de repente, para uma representação das classes subalternas. Hoje, se o futebol é a imagem destas classes, como poderá indicar o movimento da multidão uma esperança, um novo salto adiante? Não estaríamos sendo exigentes demais se pedíssemos a nós mesmos que produzíssemos um movimento político que fosse feito da elegância do toque de bola (democrático) de Ronaldo, ou do sprint (socialista) de Vieri. O que não dá mesmo para pedir para o próximo campeão do mundo é que levantem seus punhos proletários como fizeram os afro-americanos na Olimpíada de 1968. Não, de verdade, não queremos cerimônias. Para mim, já me chateia ouvir o rumor daqueles anos nacionalistas. O fato é que, como contava Brera, bastam grandíssimos lances e belíssimos jogos para restituir a esperança de ser, nós todos, uma multidão, no mundo, fraternalmente. Porque o futebol é essa poesia política...
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Tradução de Rodrigo Bertolotto Folha de S. Paulo 06 de junho de 2002 |
O futebol é lindo por exaltar a harmonia
O futebol é o mais lindo esporte do mundo, e isso porque é um jogo de virtudes. Explico: Maquiavel define como virtuoso aquele jogo no qual os jovens guerreiros romanos dançavam nos dias de festas, celebrando a vida e a guerra, o amor e a morte, a coragem e a generosidade. Maquiavel criticava, com essa definição, a maneira cristã, onde a alegria e o jogo foram estirpados e trocados por rituais tristíssimos. O futebol é, portanto, virtuoso porque é um jogo que reúne 22 singularidades que colaboram para um objetivo comum. Isso exalta a cooperação de pés e cérebros. Por mais paradoxal que pareça, podemos aplicar ao futebol os esquemas que derivam da sociologia do trabalho. Até o trabalho pós-moderno, imaterial e virtual, nasce da cooperação de funções intelectuais (de mãos e cabeças), realiza-se através de meios de comunicação e produz por meio de finíssimos nexos. O futebol seria como jogo pós-moderno? Não, certamente não: a modalidade nasceu em uma bela praça da Florença renascentista e foi codificado nas faculdades inglesas. É, logo, um fruto da modernidade. Apenas o futebol, melhor que qualquer outro esporte, adaptou-se à nova época na qual entramos, já que é o esporte das multidões. Das grandes multidões, que criam o espetáculo, mas, acima de tudo, daquelas pequenas multidões, aquelas aglomerações singulares, que constróem uma equipe. Faz algumas semanas, fui assistir a um ensaio do maestro Claudio Abbado com a Filarmônica de Berlim: um verdadeiro treinamento de grande singularidade. Maravilhoso era acompanhar a acumulação de partituras e torneios instrumentais em um som sempre perfeito e distinto, o som do que é comum. De tanto em tanto, o maestro se distanciava, descia do palco e fazia ver que a orquestra tocava sozinha. Também vendo o futebol, tenho a impressão de ouvir uma música tocada por si só. A importância do técnico é primordial, unindo o lúdico a uma eventual obra-prima. Mas voltemos para a sociologia do trabalho: também o trabalho imaterial, isto é, o trabalho intelectual, informático se articula através do fraseado múltiplo da singularidade. E, se a máquina organiza a produção, a cooperação linguística constrói seu sentido. Na medida em que aproximando os fonemas formamos palavras, e, juntando palavras, podemos gritar gol! Como grandes pensadores lógicos, os jogadores de futebol constróem significado com a inteligência dos pés, supervisionado pelo cérebro comunitário, que permite deslindar a ação complexa. Abbado desce do tablado, e a orquestra segue tocando. Produção da multidão, produção pós-moderna, produção intelectual. O futebol nasceu faz tanto tempo, mas somente hoje, quando entramos nessa nova era, pôde mostrar inteiramente o fascínio da vida atual, pós-moderna, imaterial. Dê uma olhada em outros esportes coletivos: o futebol americano ou o rúgbi não são construídos como uma totalidade, como uma música em coro. São, sim, fragmentos de episódios do jogo. Os dois conjugam uma exacerbação de performances individuais. São esportes esquizofrênicos, típicos da articulação moderna, sempre incompleta, ao mesmo tempo de massa e individual. Contrário a tudo isso, o futebol: aqui não há massa nem simplesmente individualidade. Há multidão que contempla as singularidades, há uma proliferação múltipla de ações singulares, há um coral polifônico.
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