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O quilombo argentino

entrevista

por Claudia Antunes

e Fernanda da Escóssia

Folha de S. Paulo

13 de outubro de 2003

 

 

 

dossiê Antonio Negri



 Bush atacou Iraque para controlar UNIÃO EUROPÉIA, diz Negri

 

Soldados americanos tomam palácio

de Saddam Hussein em 8 de abril de 2003

 

 

Um dos gurus do movimento antiglobalização, o filósofo italiano Antonio (Toni) Negri diz não ver muita diferença entre o ator Arnold Schwarzenegger, eleito governador da Califórnia, o presidente russo, Vladimir Putin, o norte-americano, George W. Bush, ou o premiê italiano, Silvio Berlusconi. Para Negri, 70, Schwarzenegger não é "um escândalo em particular", mas resultado, como os demais, do monopólio da comunicação e da crise da representação política tradicional. Negri é autor, junto com o americano Michael Hardt, de "Império", que vê na resistência supranacional a única maneira de mudar as bases da globalização, e prepara "Império 2". Esta é a primeira viagem ao Brasil do filósofo, em liberdade depois de cumprir pena pelo sequestro e morte, em 1978, do líder democrata-cristão Aldo Moro. No livro "De Retour", ele afirma que nunca participou de atentados. O filósofo ficou quatro anos em prisão de alta segurança. Em 1983, fugiu para a França, onde se exilou até 1997. Voltou para a Itália, segundo diz, por causa de uma "desilusão amorosa". Foi preso novamente e agora está livre, com seu passaporte de volta. Negri faz hoje no Rio a conferência "As Multidões e o Império", em evento do Ministério da Cultura e pela Universidade Nômade, que reúne intelectuais do Rio e de São Paulo. No evento, será lançada a revista "Global". Ele fará também duas palestras em São Paulo nesta semana. Amante do futebol, torce para o Milan. "É o mesmo time de Berlusconi. Mas quando a gente é torcedor, suporta tudo", disse, em entrevista à Folha.

 

Folha - Qual é sua opinião sobre o governo Lula?

 

Antonio Negri - Não posso entrar no debate político interno do Brasil, não sou um conhecedor. Do ponto de vista internacional, Lula e a política externa brasileira tornaram-se muito importantes. É extremamente evidente a presença de Lula na crise do período pré-Iraque. Foi a primeira vez que um país do sul da América teve um papel importante na cena internacional.

Tropas americanas entram

na cidade de Najaf em 4 de abril de 2003

 

Folha - O senhor já disse que a guerra dos EUA contra o Iraque foi um pretexto para atacar a Europa. Por quê?

 

Negri - É uma longa história. Começa nos anos 70, quando a Europa, pela primeira vez, se aproxima no campo político de uma reorganização interna independente da Otan [a aliança militar com os EUA]. Isso coincide com a primeira crise do petróleo, em 1973. A Europa é dependente, em energia, do Oriente Médio. O que se passa lá é vital para a Europa. Desde que a União Européia progrediu, a luta americana contra a unidade européia tornou-se mais forte. A intervenção estratégica dos EUA no Oriente Médio tem como um de seus elementos fundamentais o controle da Europa e dos recursos energéticos.

 

Folha - O senhor mencionou a posição brasileira sobre o Iraque, próxima da de países europeus como França e Alemanha. Mas, na reunião da Organização Mundial do Comércio, em Cancún, os EUA se aliaram à Europa em defesa do protecionismo agrícola. Como o senhor vê essa diferença?

 

Negri - A globalização é um processo que avança e deve avançar. Sou contrário à proteção européia ao mercado agrícola. Mas em Cancún passou-se algo mais importante, o bloqueio a novas privatizações e a novos processos neoliberais. A privatização dos bens comuns foi bloqueada [quando os países pobres rejeitaram a liberalização dos serviços, incluindo a educação, e as regras de investimentos propostas pelos ricos]. Isso, sim, é importante, muito mais do que a questão agrícola -que deverá ser resolvida mais cedo ou mais tarde.

 

Soldados americanos

comemoram no Iraque

 

Folha - O senhor vê, na invasão do Iraque -contra a opinião pública mundial e a ONU- o retrato de um poder sem igual na história?


Negri - É verdade que o poderio militar dos EUA é extraordinário, mas não creio que ele seja suficiente. Hoje os EUA não têm meios para manter a ocupação do Iraque nem, em geral, as políticas contra o terrorismo, entre aspas, tal como começaram. Esse poder militar monárquico é condicionado pelo poderio econômico.


Folha - O que acha das previsões de queda do império americano?


Negri - Não penso que exista uma queda do império americano, porque não penso que haja queda do império de ninguém. Talvez seja verdadeiro que o auge do poder americano já passou, foi a fase dos anos 30 aos 70. É evidente que os EUA participaram de maneira profunda da construção do que é a civilização hoje. Mas esse período talvez tenha terminado. O império, a constituição de uma ordem global, vai além dos EUA.

 

Folha - O senhor fala de império sem imperialismo, considerando ultrapassada a idéia de Estado-nação. Mas a globalização hoje beneficia alguns países, em detrimento de outros.


Negri - Estou completamente de acordo, posso dizer até pior: temos uma espécie de hierarquia rígida na constituição mundial. Os países do centro são países que vão ganhar nesse processo. Isso é evidente. Seria completamente idiota negar isso, mas é igualmente idiota pensar que as nações possam, um, quebrar esse processo de globalização, dois, ter uma função protagonista na repartição da riqueza mundial. Quem são as nações? São os patrões, os que aqui criaram as favelas, a mais forte divisão de classe, o racismo. São essas as pessoas que querem defender os princípios nacionais diante da América e da Europa. A globalização é um fato, mas é preciso organizá-la. A luta é sobre quem organizará a globalização. Se essa organização será democrática, é preciso definir o que é democracia, e não é nem a democracia americana nem a brasileira. A opinião pública, tanto na América quanto no Brasil, está dopada, falsificada. O problema é esse.

Berlim 2004: manifestação contra a invasão do Iraque


Folha - O que é hoje ser de direita ou de esquerda?


Negri - A Itália tem um governo de direita, mas sei que na direita italiana há um ministro fascista que propôs o direito de voto aos imigrantes. Isso sei que é algo da esquerda. Tenho alguns critérios, que são muito simples: preferir o comum ao privado, por exemplo. A esquerda prefere o que é comum. Não simplesmente o público, mas o que é comum, como a água, os recursos. Não privatizar isso é de esquerda. É de esquerda reapropriar os meios de produção, e é de direita privatizá-los. Resta a todo mundo decidir se é de direita ou de esquerda. Não há confusão de idéias, há confusão de práticas.


Folha - Como avalia a eleição de Arnold Schwarzenegger para o governo da Califórnia?


Negri - Tenho a impressão de que, fora dos movimentos democráticos, tudo pode acontecer: Schwarzenegger, [Jörg] Haider [na Áustria], ou Berlusconi, na Itália. Gostaria de saber por que [José Maria] Aznar [primeiro-ministro espanhol] ou Putin devem ser considerados muito diferentes de Schwarzenegger. Os meios para produzi-los são os mesmos, é o monopólio da comunicação. Com Bush é um pouco diferente, porque os dois são equivalentes. Não sei se Schwarzenegger é um escândalo em particular. É um escândalo, é evidente, que ele tenha se tornado chefe de um país de 35 milhões [a Califórnia], a sexta potência do mundo, do ponto de vista econômico, é uma loucura, dá medo.

Madri 2004: manifestação contra a invasão do Iraque

Folha - O senhor crê que há uma separação entre as representações dos países -Bush, Putin- e os países em si?


Negri - Creio que a representação política, tal como foi formada na modernidade, está em crise. Essa representação fundada nas regras da democracia formal está em crise. E em crise radical. Há poderes que apareceram, em particular o poder dos "media", que estão fora de controle. São eles que decidem, de maneira fundamental, sobre a representação. A criação do imaginário humano não é mais a que existia no começo da democracia. Todas as regras da representação são completamente transgredidas. Estão em crise. O problema não é Putin. É por isso que os movimentos sociais são tão importantes, porque são a construção do imaginário, a expressão da necessidade, do desejo. O problema é reinventar as formas de representação. É preciso colocar esse problema, tanto nos velhos espaços nacionais quanto nos espaços globais.

 

 

 


 


entrevista por 

Rachel Bertol 

11 de outubro de 2003

O Globo

A CONQUISTA DA LIBERDADE

Negri na Espanha em 2004

O italiano Antonio Negri, de 71 anos, que chega ao Brasil hoje (sábado, 11 de outubro), disse em entrevista exclusiva ao GLOBO que está realizando a sua primeira verdadeira viagem desde que conquistou a liberdade, em abril deste ano. O filósofo passou 25 anos preso e no exílio devido à sua militância na esquerda, na época em que o líder da democracia cristã italiana, Aldo Moro, foi seqüestrado e morto pelas Brigadas Vermelhas. Co-autor com o americano Michael Hardt de Império, que foi lançado em 2000 e se tornou uma referência para a compreensão dos movimentos de resistência no pós-Guerra Fria, Negri fará uma série de palestras no Brasil. A primeira, nesta segunda-feira, no Palácio Capanema (Rua da Imprensa 16), às 17h, no lançamento do número 1 da revista Global, uma publicação da rede Universidade Nômade. O ministro Gilberto Gil deve estar presente. No dia 31 de outubro, Negri participará do encontro mundial dos Estados Gerais da Psicanálise, no Hotel Glória. Antes, passará quatro dias na Argentina, onde também é aguardado com ansiedade. O filósofo lançará pela DP&A Kayròs, Alma Venus, Multitudo — Nove lições ensinadas a mim mesmo e Guias: cinco lições sobre o Império. No momento, finaliza com Hardt o segundo volume de Império, a ser lançado em 2004. Nesta entrevista por telefone de Roma, quarta-feira, Negri analisou a guerra, Schwarzenegger, Lula e muitas outras questões.

 

O Globo - Como está a vida agora, depois de tanto tempo preso? O senhor se sente aliviado?

 

NEGRI: É evidente. É um desejo de liberdade que ainda está comprimido, tão forte que encontra dificuldades a ser dito. E fica-se assim meio tímido, ainda não livre completamente. A liberdade é algo difícil de gozar, de conquistar inteiramente. Comecei a viajar um pouco, estive na França, na Alemanha e na Eslovênia. Depois de 25 anos, é a primeira vez que tenho meus documentos. Mas é difícil dizer... É divertido (diz rindo) , é contraditório. Antes eu também podia encontrar as pessoas e vejo que a liberdade dos outros é tão importante quanto a minha. Algumas vezes me pergunto se não é muito cansativo ser livre. Porque é preciso viajar e eu sou agora um velho senhor. Vinte e cinco anos é muito tempo. Além do mais, nas viagens nunca sabemos o que vamos encontrar. E viajar é sempre insuficiente. Seria preciso residir, morar, ficar no lugar muito tempo para verdadeiramente viajar.

 

O Globo - Hoje as viagens que costumamos fazer seriam como olhar TV, ver um filme...

 

NEGRI: É preciso evitar a todo custo que viajar seja turismo. O turismo é uma grande doença. É mesmo como olhar a TV. Mas a viagem ao Brasil é a primeira verdadeira que farei. E eu não conheço o Brasil, um país formidável, onde se pode tentar novos sentimentos, novas experiências. Não farei turismo e acho que nem é uma viagem (ri muito) , é na verdade um deslocamento. Eu deveria ter ido ao Brasil em 1986, quando houve pela primeira vez a co-habitação no governo francês entre o presidente Mitterrand e a direita. Fiquei em situação difícil. Eu estava no exílio há três anos e foi um homem de São Paulo, Fernando Henrique Cardoso, quem cuidou da possibilidade de eu ir a Campinas, na universidade. Mas, finalmente, não foi necessário.

 

O Globo - O senhor chega no momento em que o governo Lula enfrenta muitos dilemas em seu próprio partido. Acredita que esses dilemas nascem de uma incompreensão da realidade?

 

NEGRI: Para mim é muito difícil responder a esta pergunta. Conheci Lula na França e sempre acompanhei seu trabalho com muita simpatia e fraternidade. Não sei bem o que acontece no Brasil, mas vejo a transformação da imagem de Lula no nível mundial. Tenho a impressão, de fora, que o governo Lula aceitou as condições da globalização. E percebo, pelo julgamento que se faz dele na Europa, mesmo na esquerda, que ele tenta a grande transformação hoje necessária entre a velha esquerda nacional e uma nova esquerda mundialista, global. O custo dessa transformação, dessa passagem, pode ser muito pesado, mas é preciso pagá-lo. Isso vale para a esquerda no mundo todo.

 

O Globo - Mas talvez o que esteja incomodando é que não se vê bem onde estão esquerda e direita...

 

NEGRI: Mas tenho certeza de que há diferença. Por exemplo, em Cancun sabia-se com clareza onde estavam, mas de fato há uma certa confusão, uma troca de papéis. Na Itália, hoje, é quase impossível saber onde estão esquerda e direita. Há gente de direita pedindo a permissão para os imigrantes votarem nas eleições locais e a esquerda nunca pediu isso.

 

O Globo - Hoje (quarta-feira), temos essa novidade nos EUA que é a eleição de Arnold Schwarzenegger na Califórnia...

 

NEGRI: É bom, não? (pergunta rindo muito) . Eu gosto muito de Schwarzenegger: é um violador de mulheres, um nazista... Parece que na juventude ele declarou sua admiração por Hitler. É uma verdadeira demonstração da democracia americana.

 

centro financeiro Manhattan, 11 de setembro de 2001

O Globo - Também é coisa de cinema, como o 11 de setembro...

 

NEGRI: Justamente, a representação, a democracia representativa, está em crise no mundo todo. De fato, não conseguimos mais compreender, do ponto de vista da comunicação, onde estão esquerda ou direita. A representação política está em crise sob esse ponto de vista. É preciso conseguir entender o que é a esquerda ou a direita, ou melhor, o que é o Império e a multidão, o que é biopoder, potência, resistência. É preciso mudar completamente nossas categorias de pensamento. Saímos de uma época na qual muitas coisas aconteceram, coisas demais, e as categorias que temos hoje na análise política se tornaram obsoletas, não correspondem mais à realidade. É preciso, portanto, com muita prudência e inteligência, procurar compreender o que significa hoje soberania, direita, esquerda, representação. A conclusão da nossa prudente pesquisa será mudar esses termos por outros e, sobretudo, evitar a manipulação sistemática e contínua. Este senhor, o Arnold, não é um escândalo — é lógico. E o terrível é isso: não é um escândalo. Ele foi eleito, é a lógica do sistema.

 

O Globo - É como se houvesse um vazio...

 

NEGRI: É totalmente vazio. Os grandes autores da ficção científica estão muito mais próximos da realidade do que nós. Estamos completamente dentro desse jogo perverso, pervertido. E talvez Arnold venha a ser um governador melhor que os políticos profissionais. Veremos. Não é melhor, nem pior.

 

O Globo - Estaria a cena política tradicional, que acompanhamos nos jornais, muito distante das forças que de fato mudam a realidade?

 

NEGRI: Sim, é uma cena política completamente vazia de significados. O que faz mudar as coisas é o trabalho dos homens, a fadiga de viver, o esforço cotidiano que as pessoas fazem para compreender a realidade, são as lutas... Veja o que aconteceu no Iraque. É algo inacreditável. Estávamos convencidos de que o poder americano era tão forte que tudo terminaria em semanas ou meses. Que as relações de força já estavam definidas. Mas tudo está ainda aberto. Não sei se ficou pior ou melhor, quero dizer simplesmente que está aberto. Não há absolutamente nenhum controle. Todas as informações, todas as imagens de que dispomos são imagens nas quais temos uma prefiguração do mundo que não corresponde à realidade. Não há possibilidade de fazer previsões. O adversário, ou melhor, o patrão, não tem consciência de si próprio. É um mundo à imagem de Arnold. Mas embaixo, em outro lugar, há coisas muito mais importantes acontecendo: a luta de classes, a luta pelo poder, as grandes tensões pela liberdade, pelo bem-estar, a busca da alegria. Tudo não se resume a essa espécie de delírio pós-moderno. Há novas relações de força, novas relações morais e éticas, principalmente, mas também políticas. Quer dizer, há resistência, indignação em relação a um poder idiota e vazio. Quando a resistência começa a se identificar com a liberdade então isso significa que algo deve mudar profundamente.

 

O Globo - Por que diz isso?

 

NEGRI: Porque tenho a impressão de que não podemos aceitar a forma com a qual o poder se faz representar. Arnold, por exemplo, há duas possibilidades de vê-lo: considerar tudo igual, então tanto faz que o governador seja ele ou o democrata Gray Davis; ou reconhecer que não há diferença, que a representação não tem significado, mas nós resistimos, queremos a liberdade, a representação. Queremos inventar a democracia de novo. Não podemos permitir que a democracia, um valor fundamental para os homens, seja reduzida a esse vazio de significação e sentido. E já existem caminhos. Por exemplo, os movimentos antiglobais que não são antiglobais, mas new-global , que levantam novos problemas. Devemos nos perguntar em que nível está se reconstruindo a democracia, o prazer de viver, de reproduzir liberdade. São problemas, talvez, aos quais Lula esteja respondendo, e talvez haja erros nessa resposta. É preciso rever muita coisa. Reexaminar, estudar novamente muita coisa. Muitas das dificuldades que existem hoje no Brasil são ligadas às dificuldades e à incapacidade de rever as coisas a partir dos novos terrenos em que elas se constituíram, em que se determinaram.

 

O Globo - O senhor se tornou mais pessimista depois do 11 de setembro?

 

NEGRI: (Ele ri) É impossível não ser um pouco pessimista. E, apesar da opinião que se tem a meu respeito, eu nunca fui um grande otimista. Em todo caso, o 11 de setembro abriu uma nova fase na constituição do Império. Os americanos deram uma espécie de golpe de Estado no Império e não foram bem-sucedidos — e isso já é alguma coisa. Não são apenas os iraquianos que resistem, são as Nações Unidas, são os outros elementos da aristocracia mundial que se recusam a pagar a guerra do Iraque. Isso me parece muito importante.

 

O Globo - Resistem à guerra como um novo fundamento...

 

NEGRI: Os americanos tentam fazer da guerra o fundamento do Império. Mas é preciso evitar que a guerra se torne o elemento de legitimação novo do Império.

 

O Globo - É o desafio do momento?

 

NEGRI: Talvez, e sob esse ponto de vista é preciso reavaliar a política de Lula e de todas as outras potências, de todos os movimentos. Estamos diante do problema da organização do mundo. Não podemos resolver os problemas falando de imperialismo, retomando antigas categorias da tradição socialista. É preciso realmente se confrontar ao novo. E o pós-moderno não é uma situação simplesmente literária, mas algo profundo e nossa análise deve ir além dos fenômenos mais superficiais, como Arnold. É um sinal, mas há sinais que criam caminhos perversos, sinais de morte. É preciso distinguir entre sinais positivos e sinais de degradação, de corrupção.

 

O Globo - O senhor fala de tudo isso em “Império II”?

 

NEGRI: Falamos sobretudo do sujeito, da multidão. Falamos do comum, portanto, do comunismo. Falamos da única esperança que temos que é a construção de bens comuns. É centrado na democracia e na multidão. A guerra é só o começo. O livro está mais ou menos pronto, terá cerca de 300 páginas. Sairá em 2004. O primeiro “Império” analisa a evolução das formas políticas e o segundo estuda o sujeito político.

 

O Globo - Desde o lançamento de “Império”, ganharam força os movimentos de protesto tipo Seattle, mas também se fortaleceu o terrorismo, que também se beneficia dessa realidade errática da globalização...

 

NEGRI: Não são dois lados, mas uma dialética necessária, um e outro. Há muitos terrorismos. O terrorismo de Estado, o terrorismo islâmico, há fenômenos terroristas difundidos um pouco por tudo, há a vontade dos governos de chamar de terrorismo tudo o que se move. Hoje todas as revoltas de pobres são chamadas de terrorismo. Mas atrás disso há os fenômenos terroristas verdadeiros. Só que eu não sei qual é a diferença entre Bin Laden e Ariel Sharon.

 

Tanque de Israel no Líbano [2006]

O Globo - Israel está tornando um Estado de terror?

 

NEGRI: Eu vivi a construção de Israel trabalhando num kibutz, eu era verdadeiramente ligado a esse país. Mas é terrível o que acontece lá hoje. Eu repito o que dizem muito israelenses: o sionismo terminou e encontramo-nos numa situação terrível. Eu esperava que a paz e os tratados de Oslo se tornassem definitivos, assim como muitos israelenses e palestinos. É a primeira vez que temo por Israel. É um país que amo muito. Eles estão numa situação desesperadora. A única possibilidade de sair dela é a busca da paz. Ela está longe, mas estamos numa situação em que o Império está aí. E o Império é um processo. O problema é como uma nova ordem vai determinar as regras do mercado mundial, não apenas do mercado das mercadorias, mas do mercado político, das relações entre países, das relações entre as multidões. Tudo isso é um processo que se abriu de uma maneira definitiva depois da queda da União Soviética. Estamos no meio dessa passagem, que é enorme e à qual devemos olhar com muita humildade, com muita inteligência. Devemos agir para construir a democracia e não o terror. E a democracia não é a democracia americana e o terror não é apenas o terror dos que resistem, dos pobres e de tudo isso. É preciso estar atento para mudar os termos, para compreender o que acontece.

 

O Globo - Que contribuições as diversas partes do mundo podem dar a esse processo?

 

NEGRI: Há papéis distintos e possibilidades diferentes. Por exemplo, a América Latina pode constituir um pólo importante. É a primeira vez — e tudo isso está muito a favor de Lula — que começamos a falar da América Latina como um sujeito na ordem internacional. Sempre se considerou a América Latina como o último efeito da Doutrina Monroe, e hoje começa-se a falar de uma realidade da América Latina e tudo isso está absolutamente ligado ao que acontece agora no Brasil. E podemos falar da Europa, onde também há uma grande luta democrática a se fazer. Todo o problema da constituição da Europa é um problema enorme, formidável, no qual a Europa pode dar muito ao mundo hoje. E há o problema da democracia no Islã, de uma democracia laica no Islã. Mas tudo isso não se resolverá com os aviões americanos ou através de ocupação militar.

 

O Globo - Há uma defasagem entre o poder militar e o poder político?

 

NEGRI: Há diferenças sobretudo entre o poder militar e o econômico. Hoje o poder 

econômico não está totalmente de acordo com o poder militar de Bush.

 

O Globo - Há alguma chance de otimismo?

 

NEGRI: Hoje temos a multidão e talvez a possibilidade de uma revolução, a multidão acelera o tempo da democracia. A democracia é muito mais avançada que as necessidades dos reis. Hoje as pessoas são inteligentes. Se eles votam em Arnold, eles são inteligentes: é um absoluto espetáculo de ironia histórica. Sei que é um paradoxo (ele ri muito) . Mas é assim.

 

O Globo - Tornou-se quase uma moda intelectual dizer que o poderio americano enfrenta uma decadência irremediável. O senhor concorda?

 

NEGRI: Os EUA são um grande país democrático e a única possibilidade de se pôr fim à arrogância imperial americana é com a democracia, com a vitória da esquerda. Sem a esquerda americana não se fará nada no mundo. E os EUA já demonstraram muitas vezes a capacidade de serem democráticos até o fundo.

 


entrevista por 

Roberto Dias

Folha de S. Paulo

30 de março de 2003

 

Livro explica política no mundo globalizado

 

Antonio Negri passou a ser um dos nomes mais populares entre os integrantes do movimento antiglobalização desde que lançou "Império" (editora Record) em 2000, livro escrito em parceria com o professor de literatura norte-americano Michael Hardt. Ele está preso desde 1997 em Roma, em regime semi-aberto, acusado de ser o mentor do grupo terrorista Brigadas Vermelhas e de ter planejado o assassinato do deputado Aldo Moro, em 1978. O filósofo italiano teve seu livro descrito pelo "New York Times" como "a primeira grande síntese teórica do novo milênio". "Império" trata da estrutura política que sustenta o mundo globalizado, numa organização que "eliminou conceitos de nação, raça, etnia e povo", como afirma Negri. Os Estados-nações não têm mais controle sobre movimentos de capital ou lutas sociais. A nova configuração política, o império, não tem limites nem está atrelada à busca pela expansão do Estado-nação. Ela regula trocas econômicas e culturais num sistema em que a soberania se baseia na construção de caminhos para novos fluxos mundiais, criadores da vida social, numa inter-relação entre o econômico, o político e o cultural. "Estamos numa situação paradoxal na qual o presidente dos EUA é eleito com financiamento do exterior: o capital dos senhores do petróleo sauditas está tão integrado à direção dos negócios americanos que não se pode mais afirmar que o Estado-nação ainda funciona", diz o escritor. Império, portanto, não trata de imperialismo -e aí reside o que Negri classifica de "confusão" em relação ao uso que tem sido feito de suas idéias para embasar alguns dos pilares do pensamento da esquerda mundial -como o antiamericanismo. "Ser antiamericano é uma idiotice total. O governo americano é o mais importante dos poderes a ser contestados, mas não é o único. Não existiria se as outras classes dirigentes do capitalismo mundial não lhe dessem apoio incondicional", afirma.

 

"EUA FOGEM DA LÓGICA DO IMPÉRIO"

 

A guerra não só não é legítima; ela também não é suficiente para erguer uma nova ordem mundial. Não há consenso sobre o conflito. Os EUA se movem fora da legitimidade imperial. Para Negri, autor de "Império", guerra foi golpe de Estado contra outros países dominantes. Ao atacar o Iraque, os EUA escaparam à lógica que deve nortear o império, diz o filósofo italiano Toni Negri, o mais debatido pensador da esquerda européia. Em entrevista à Folha, ele define como "golpe de Estado" a decisão de ir à guerra mesmo sem o aval da ONU. "O Iraque é um pretexto para confrontar a Europa", afirma Negri, 70, em entrevista por telefone de sua casa, em Roma. Sua teoria foi exposta no livro "Império", escrito em parceira com Michael Hardt. A obra se tornou uma espécie de "bíblia" para contestar a ordem mundial. Para Negri, que foi ligado ao grupo terrorista Brigadas Vermelhas nos anos 70, a idéia de império abarca, evidentemente, os EUA, mas é mais ampla que isso. "O conceito de império se caracteriza principalmente pela falta de fronteiras", diz no livro. Daí seu estranhamento pela posição americana, como explica a seguir.

 

Folha - Em "Império", o sr. diz que a legitimação da ordem imperial não se baseia apenas na força militar, mas também na produção de normas jurídicas internacionais duradouras. Com o que ocorreu na ONU, o que será dessa legitimação?

 

Toni Negri - Este foi evidentemente um golpe de Estado contra as outras forças que fazem parte, de forma multilateral, deste império. O poder monárquico dos EUA se opôs às posições dos outros países do mundo.

 

Folha - Seu livro é de 2000, e creio que o sr. já fez reflexões sobre como os atentados terroristas, a doutrina Bush e esta guerra no Iraque se encaixam em sua teoria. Como seria essa continuação?

 

Negri - O problema fundamental hoje é considerar que a guerra, como está estabelecida pela potência americana, não só não é legítima, mas também não é suficiente para erguer uma ordem mundial. Os EUA não podem pagar a guerra. Não há consenso internacional para ela. Os EUA estão se movendo fora da legitimidade imperial. E, com toda a probabilidade, movem-se também fora de sua Constituição.

 

Folha - O sr. também fala da importância da razão para o império. Os EUA a perderam?

 

Negri - Não creio que se possa dizer se os EUA têm ou não razão, porque não são um animal. O que se tem hoje é um grupo que não representa os Estados Unidos. Representa, sobretudo, os interesses de alguns setores poderosos. A questão fundamental não creio que seja americanismo ou antiamericanismo. O problema é que há um grupo nos EUA que talvez nem seja legal, por causa do que aconteceu nas eleições. Pode-se chamar esse grupo de usurpador.

George W. Bush joga cricket no Paquistão [2006]

 

Folha - Para o império, Bush está mais próximo de ser um Nero ou um Augusto?

 

Negri - Não sei dizer.

 

Folha - Mas qual será o posto de Bush na história americana, em que patamar ele estará em relação aos outros presidentes?

 

Negri - Há uma veia que o vê como um jacksoniano [a teoria jacksoniana diz que o objetivo principal da política externa de Washington deve ser a segurança dos americanos". Não creio que se trate disso. Penso que ele não está na linha de Jackson. Acho que ele será apenas uma exceção negativa.

 

Folha - Se a concepção imperial necessita de espaço, como o sr. diz, o que devemos esperar agora? Depois de Bagdá, viria Pyongyang?

 

Negri - Será o Irã, creio eu. Quer dizer, isso é o que vem dos Estados Unidos, eu vivo na província.

 

Folha - E a Coréia do Norte estaria a seguir?

 

Negri - Acho que será a China, mas daqui a algum tempo. Na verdade, a Coréia do Norte é um pretexto para a China, assim como o Iraque é um pretexto para confrontar a Europa. E o Irã será um pretexto para a Rússia. Esse é o jogo que está se fazendo agora.

 

Folha - Immanuel Wallerstein diz que o império americano é decadente, que a economia está fraca e que Washington está isolado. O que o sr. pensa?

 

Negri - Sou prudente em relação a isso. Talvez haja a decadência desse império de Bush, mas, para os EUA, acho que ainda é uma primavera.

 

Folha - O que será dos EUA e do Império daqui a dois anos?

 

Negri - Acho que será importante que a Europa e a América Latina sigam fortes contra a vontade de Bush. Espero que os EUA possam se livrar de Bush. É a esperança que eles podem dar ao mundo agora.

 


Iraque, 1 de março de 2006

 

entrevista por 

Francesca Angiolillo

14 de julho de 2001

Folha de S. Paulo

O FIM DA FRONTEIRA

Livro define forma política do Capital Global. 

 

O cientista político italiano Antonio Negri ocupou os jornais nos anos 80 por seu suposto envolvimento com o banho de sangue terrorista nos 70. Entre as acusações contra o professor da universidade de Pádua, estava o assassinato de Aldo Moro, líder do Partido Democrata Cristão. Absolvido do envolvimento concreto com os crimes, em 83, Negri foi acusado de incitar, com sua teoria, o terrorismo. Pediu asilo à França, onde foi professor universitário em Paris. Por 14 anos, viveu sem nenhum documento. No período, foi julgado à revelia e sentenciado a 30 anos. Não foi por ter sido privado dos direitos de cidadão, porém, que, ele se uniu ao norte-americano Michael Hardt para falar de uma nova cidadania em "Império". O livro, que chega ao Brasil até o fim do mês, pela Record, analisa a forma política que rege a economia globalizada. E, surpresa, a noção que usam para definir essa estrutura política é importada da Roma antiga. Para Negri e Hardt, vivemos sob o império. Eles alertam: não se trata do velho "imperialismo ianque". Este pressupõe fronteiras a serem expandidas _e a fronteira acabou. Parte do livro, concebido a partir de 1995, porém, foi escrita de dentro de um lugar com limites bem definidos. Em 97, Negri surpreendeu o mundo ao comunicar que voltaria a seu país. Esperava a anistia; foi levado do avião ao cárcere de Rebibbia, em Roma. De nada adiantou explicar que as perguntas sobre sua atual situação legal - a saber, Negri hoje cumpre prisão domiciliar, tendo de ficar em casa entre 19h e 7h - serviriam para traçar seu perfil sem incorrer em imprecisões. Ele foi irredutível. Prefiro que você erre do que falar sobre isso. Negri falou à Folha, sobre "Império", por telefone, de sua casa, em Roma. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

 

Folha - Como podemos definir o império que dá título ao livro?

Antonio Negri - Quando se diz império, falamos da forma política do mercado global. Não é possível imaginar um mercado sem um poder político que o atravesse. O conceito de império se volta para evitar a confusão com imperialismo, que era uma simples expansão do Estado-nação, enquanto o império é uma forma política que não tem confins. E, sobretudo, não tem só forças localizadas, como o Estado-nação. O império tem uma grande vantagem teórica, que foi ter mandado pelos ares os conceitos de nação, raça, etnia. E até de povo.

Folha - O sr. acredita que as culturas locais possam ser aniquiladas pela erradicação das fronteiras?

Negri - Não. Acho que o império as está esmagando, mas tenho também a convicção de que essas culturas não possam se defender simplesmente insistindo sobre a sua individualidade. Precisamos de novas formas de solidariedade internacional, de culturas híbridas para abater o império.

Folha - Pelo que deve lutar, o que aspira o cidadão do império?

Negri - Capacidade de viver. As necessidades da vida cresceram muito. Entre o Negri do passado e o Negri que agora escreve "Império" com Michael Hardt existe uma diferença de gerações, em termos de necessidades, sensibilidades, capacidade de uso da linguagem. Quando entramos no poder do capital sobre o real, criamos situações de não-trabalho, de resistência, que possibilitam disparar contra o capital.

Folha - A greve ainda funciona?

Negri - Não falo de greve. Hoje seu cérebro é o instrumento da produção, não foi seu patrão que o forneceu. Foi você quem criou. Antes, você ia trabalhar numa fábrica e seu patrão antecipava o instrumento. Você não precisa mais disso: você transita nessa globalidade, é alguém capaz de conquistar sua própria liberdade.

Folha - As manifestações que, nos últimos anos, acompanham os encontros ligados ao capital global são sinais dessa liberdade?

Negri - Em parte. Principalmente quando pedem três coisas fundamentais: o direito de cidadania global; uma garantia de salário que possibilite viver (e, paralelamente, tudo o que está ligado à ecologia, à capacidade de respirar, comer bem); e, por fim, a possibilidade de se apropriar dos instrumentos de transformações técnicas e científicas mais altas.

2006: Manifestação em Caen, França, contra a Lei do Primeiro Emprego

Folha - Esses protestos são a semente de uma revolução global capaz de fazer frente ao império?

Negri - Não sou um profeta, mas sei que há condições enormes que se reabriram contra a globalização. A reorganização dos pobres e, acredito, até a luta de classes, que foi superada, serão retomados no bojo desse movimento. Isto posto, resta o problema fundamental que é aquele de como tudo isso poderá se constituir em um pólo de luta pela transformação radical do que existe. Acredito que os mecanismos de representação, aqueles da velha democracia burguesa (e também do socialismo), devem ser, de algum modo, superados. É preciso substitui-los pela expressão, vista como prática política contínua.

Folha - A ação do chamado terceiro setor e das organizações não-governamentais, que chegam a suprir responsabilidades do Estado, institucionalizam essa expressão?

Negri - Há nesses movimentos energias muito positivas, mas é preciso estar atento, porque são instrumentos que suprem o que seriam carências do capital. Em "Império", dizemos que muitas vezes essas organizações parecem as grandes ordens mendicantes da Idade Média (os dominicanos, os franciscanos), que, na prática, faziam caridade. Ninguém pode negar sua generosidade, mas essas ordens cobriram as necessidades imperiais. É mandatório retomar a riqueza coletiva e distribuí-la.

Folha - Uma das epígrafes do livro é uma frase da cantora Ani di Franco, que diz que, sabendo usá-la, toda ferramenta é uma arma. Qual é nossa arma ideal?

Negri -A inteligência, essa ferramenta que todos nós temos. Temos o martelo no cérebro. Temos uma arma que podemos utilizar.

 

 

texto originalmente 

publicado na coletânea

O trabalho da multidão.
Museu da República e 

Editora Gryphos, 2002

O QUILOMBO ARGENTINO E O TRABALHO DA MULTIDÃO

Antonio Negri e Giuseppe Cocco 



Argentina, dezembro de 2001

 

Quanto mais nos adentramos nessa primeira década do século XXI, mais firme é a
sensação de que o projeto neoliberal esgotou seu fôlego. O próprio processo de
globalização passa por uma fase de transição particularmente conturbada. A
crescente volatilidade dos mercados financeiros e a velocidade de propagação
mundial de seus impactos, que já caracterizou a segunda metade dos anos 90,
encontram hoje as ameaças de uma recessão mundial.

O unilateralismo da administração norte-americana parece sancionar, junto com
a volta de preocupações protecionistas das indústrias domésticas, a
reafirmação da soberania nacional como marco necessário de uma nova geração de
políticas industriais e econômicas. Corolário quase automático dessa guinada
das correlações de forças que atravessam a economia no mundo, antigas
clivagens parecem renovar-se, voltando a opor o "centro" hegemônico americano
às periferias.

Depois do 11 de setembro de 2001, a guerra global permanente confirma o
retorno de nítidos projetos de tipo imperialista por parte da administração
Bush. Novos e velhos fundamentalismos alimentam-se reciprocamente, como
sinistras máquinas mortíferas, para afirmar que a única saída do
neoliberalismo apenas pode acontecer de maneira reacionária e conservadora:
seja por meio de um renovado populismo nacionalista e imperialista ou de um
reanimado populismo do fundamentalismo religioso.

Nos dois casos, a reação aos mercados e à globalização nos faz pensar na
Europa dos anos 30, quando o fascismo e o nazismo, com o apoio das elites
industrial-militares nacionais, realizaram essas mesmas trágicas operações e
combateram o internacionalismo do movimento operário com a demagogia xenófoba
e anti-semita da luta contra o "capital cosmopolita". A guerra global
permanente reproduz a transcendência dos mercados e da soberania, mas desta
vez na maneira regressiva de um poder definitivamente insensato e paranóico
que encara a própria globalização como um problema.

Agora, ao passo que o unilateralismo de Bush pode ser interpretado como sendo
uma reação (da "velha economia" do petróleo!) em face do fato de que também os
Estados Unidos são sugados em um processo de globalização que não conseguem
dominar, uma nova geração de movimentos e conflitos sociais de bases globais
conseguiu afirmar as dimensões constituintes do Império. Desde Seattle até
Gênova, a globalização apareceu definitivamente como um espaço aberto a um
novo tipo de lutas.

Em Gênova, nas formas originais de organização em rede de redes do Genoa
Social Forum, o chamado "povo de Seattle" anunciou a transformação das
manifestações de Praga, Gothemburg e Quebec contra as cúpulas do FMI, da OMC e
do BM em um verdadeiro ciclo de lutas, cujo ator é um movimento múltiplo
(feito de muitos movimentos), globalizado (feito de fluxos de movimento
globalizados) e constituinte (embrião de novos modos de mobilização social, de
um novo modo de produção e subjetivação).

A "fenomenologia" do "movimento dos movimentos" (1) é capaz de colocar, na
sistemática deslegitimação de uma soberania imperial fundada em sua
efetividade, ou seja, na lei da força, a questão da determinação ontológica
dos processos contemporâneos de ruptura com a ordem capitalista do mundo.
Nesse novo cenário, o Fórum Social Mundial de 2002, em Porto Alegre, deu um
grande passo à frente, para além do mero contraponto "social" aos "donos" da
economia (o Fórum de Davos), abrindo brechas significativas para além do
discurso neo-soberanista (e antiglobalização) que tanto marcou sua primeira
edição (em 2000) e continuou marcando sua representação "formal" nas mídias
nacionais e internacionais (2) . E isso, graças ao fato de que o FSM de 2002
tinha duas novas pernas.

Uma delas estava em Gênova, a outra estava com certeza logo do outro lado da
fronteira gaúcha, em Buenos Aires. Em dezembro de 2001, a longa agonia da
nação argentina acabou explodindo quando as multidões arrastaram a pávida
política de De La Rua (sob os auspícios do FMI e do Banco Mundial) e ao mesmo
tempo negaram qualquer legitimidade ao nacionalismo peronista: "Que se vayan
todos, que no quede ni uno solo"!. É exatamente na tragédia argentina que
encontramos, de maneira ainda mais potente, as tramas do trabalho e de uma
possível política da multidão.

 

Na Argentina, a multidão apareceu como sendo o "conteúdo do qual o Império é o
contendor" (3) . As manifestações insurreicionais de 19 e 20 de dezembro de
2001 não derrubaram apenas o governo, mas sobretudo abriram um formidável
período de experimentação e inovação social, econômica e política. As
interrupções de estradas pelos "piqueteros", os "cacerolazos" das chamadas
classes médias urbanas, o assédio sistemático aos bancos pelos "ahorristas",
as assembléias "barriales y interbarriales", a autogestão de fábricas falidas
pelos trabalhadores demitidos e as redes de economia solidária ("red global
del trueque") constituíram uma nova configuração do "movimento dos
movimentos".

No "quilombo" argentino (4) , o êxodo das políticas neoliberais aparece como
êxodo constitutivo de uma possível política da multidão. Uma análise
tradicional de sua composição social esbarraria imediatamente em suas
dimensões fragmentárias e, por isso, inconciliáveis: classes médias urbanas,
por um lado, e proletários desempregados da periferia, pelo outro.
Como explicar a junção de figuras sociais tão diferentes no plano da
composição de interesses e sobretudo pelo tipo de inserção e posicionamento
que elas tinham no próprio período neoliberal? Como explicar a completa
derrocada de qualquer forma de representação e a deslegitimação de toda
instância de poder constituído?

Para além das dificuldades que o movimento argentino pode estar enfrentando e
enfrentará, seus elementos constituintes permanecem e permanecerão como um
patamar essencial para o "movimento dos movimentos", para se pensar o próprio
conceito de multidão e as possibilidades de juntar o desenvolvimento da
riqueza ontológica da multidão cooperante (o trabalho da multidão) com a
capacidade de opor-se de maneira eficaz ao poder capitalista (a política da
multidão). O movimento argentino constituiu-se num evento sem finalidade
definida, numa ruptura, numa mudança da percepção coletiva. Ou seja, com o
movimento argentino podemos pensar materialmente uma multidão capaz de decidir
e, pois, as possibilidades de realização da democracia.

Quais são os elementos constituintes do "quilombo" argentino?

O primeiro tem a ver com a desmentida cabal de que haja qualquer determinismo
entre a dissolução da relação salarial canónica e o inevitável enfraquecimento
dos movimentos sociais. Pelo contrário, o quase desaparecimento do operariado
sentado num contrato de trabalho a tempo indeterminado e garantido pela dupla
representação do sindicalismo peronista e do Estado, por um lado, não impediu
as recentes, maciças e radicais mobilizações sociais.

Por outro, constituiu-se numa de suas condições necessárias. Aliás, uma das
operações mais aventurosas, do próprio ponto de vista do poder, do
neoliberalismo à la Menem foi justamente a de ter destruído parte expressiva
da força de "los gordos" (5) , ou seja, da burocracia sindical peronista e,
com ela, parte da espessa malha corporativa de privilégios e redes
clientelistas e mafiosas que constituía o verdadeiro lastro de cumplicidades
sociais nas quais navegava o navio pirata da ditadura e do justicialismo.

Da mesma maneira como aconteceu nos países socialistas, a crise do
desenvolvimentismo na América Latina em geral e na Argentina em particular é
fortemente determinada pela falta daquelas características de liberdade que
são necessárias para ter acesso à pós-modernidade, ao pós-fordismo. Os regimes
de controle estatal do nacional-desenvolvimentismo eram incapazes de
introduzir aqueles elementos de liberdade e de inovação/invenção por parte do
trabalho vivo que são necessários para ser uma sociedade civil.

É claro, os neoliberais fizeram pagar o altíssimo preço dessa passagem
(baseado no desmonte do pacto corporativo-estatal) aos próprios operários e à
sociedade argentina como um todo. Ao mesmo tempo, não devemos esquecer que o
neoliberalismo, na América Latina da mesma maneira que nos Estados Unidos e na
Europa ocidental e, como dissemos, nos países do "socialismo real", afirmou
sua hegemonia também porque soube captar e inrivados e corporativos
incrustados na hegemonia, real ou tendencial, da relação salarial.

O desmonte de parte desses privilégios produziu privilégios e tragédias ainda
piores, mas acabou também deixando um espaço aberto para formas de
participação popular antes impensáveis. A potência do movimento argentino,
apesar da inexistência das tradicionais relações sociais baseadas no emprego
formal e sindicalizado, mostra quanta liberdade pode gerar a crise da relação
de servidão que é o trabalho assalariado. A multidão acabou se afirmando como
o conteúdo da globalização, ou seja, afirmando sua força produtiva enquanto
potência de ser comum, produção enquanto força habitada por uma teleologia
imanente à sua essência afirmativa (6) . Esses agenciamentos produtivos são a
realidade do Império: são as lutas da multidão que produziram o Império
enquanto inversão e sua própria imagem.

O segundo elemento nos introduz diretamente no cerne da composição técnica das
camadas sociais que constituíram o "quilombo de los pampas". Como foi possível
a recomposição política entre, por um lado, os "piqueteros" desempregados
excluídos pela reestruturação produtiva e as políticas neoliberais de corte da
despesa pública e, por outro lado, os incluídos, os "ahorristas", com suas
contas em dólares e os trabalhadores urbanos dos serviços (privatizados) que
desfrutaram por anos do poder de compra artificial proporcionado pela
irresponsável política monetária do "currency board"?

Isso foi possível porque essas duas figuras sociais tinham e têm muito mais
coisas em comum do que a tradicional teoria das classes pretende e o comando
tenta esconder. O neoliberalismo, ainda mais na América Latina do que na
Europa e nos Estados Unidos, representou também uma tentativa de implementar
novas condições de valorização procurando a nova potência ontológica do
trabalho. Diante disso, o que sobrava do movimento operário, traindo sua
tradicional vocação de antecipação do capital na dinâmica do desenvolvimento,
retirava-se, cada vez mais, dentro de fronteiras conservadoras e corporativas.

Para além das ilusórias metas de estabilização macroeconômica por meio das
manipulações das taxas de câmbio e juros, as políticas neoliberais visavam
propor, pelas privatizações e a lógica do mercado, um espaço público de
cooperação social sem o qual o novo regime de acumulação baseado no trabalho
imaterial não é minimamente viável. Mas esse espaço de mercado apenas é um
sucedâneo do espaço público incapaz de mobilizar os territórios produtivos das
redes.

Numa primeira fase, isso parecia até funcionar: não é por acaso nem por mera
manipulação da opinião pública que Menem (7) conseguiu se confirmar facilmente
no segundo pleito eleitoral. Naquele primeiro momento, embora de modo
completamente superficial e instável, a dinâmica de mercado conseguiu dissipar
os efeitos de distorção óptica da hiperinflação e tornar mais transparentes o
sistema dos preços relativos (e, pois, as condições reais de distribuição da
renda). Alcançaram-se também aumentos significativos de produtividade e
sobretudo níveis bem mais dinâmicos de universalização dos serviços do que
conseguia fazer o Estado autoritário e corporativo do
nacional-desenvolvimentismo.

Nesse deslocamento e num primeiro momento, as políticas neoliberais
conseguiram ler e interpretar a potência de um novo tipo de trabalho,
fundamentalmente baseado em suas dimensões imateriais, ou seja afetivas,
intelectuais, comunicacionais, lingüísticas. Um trabalho cuja socialização
tendencialmente independe da relação salarial e cuja produtividade está
atrelada, ao mesmo tempo, aos níveis de sua socialização e aos de sua
cidadania material, ou seja, à universalização dos serviços básicos e
avançados.

É claro, como dissemos, esse deslocamento foi superficial e parcial. Os
neoliberais não se apoiaram em nenhum pacto social, nem na única genealogia
possível desse deslocamento, aquela das lutas contra a sociedade disciplinar
do trabalho. O único recurso que podiam mobilizar era constituído apenas pelas
técnicas monetárias preconizadas pelo "Consenso de Washington".
Em vez de construir uma esfera pública de cidadania produtiva, foram
privatizando o que devia ser comum e construindo regimes cada vez mais
fragmentados e diversificados de acesso aos serviços pela dinâmica do poder de
compra, e acabaram amplificando loucamente os níveis de exclusão social. O
que, dessa maneira, os neoliberais fragmentavam era a própria possibilidade de
constituir a composição técnica de um novo tipo de trabalho socializado, cuja
produtividade dependia cada vez mais dos níveis de singularização e de
igualdade (de cidadania material) de uma multidão de trabalhadores.

Mas, aquilo que as políticas neoliberais fragmentavam e o corporativismo
sindical nem reconhecia, o trabalho da multidão foi capaz de juntar,
ontologicamente. No "quilombo" argentino, excluídos e incluídos não se
encontraram a partir de uma improvável aliança táctica entre as classes médias
e o proletariado das periferias, mas enquanto eles formavam as duas faces de
uma mesma composição técnica do trabalho: a do trabalho imaterial. Para o
capital, a reprodução do comando tem como condição necessária a de mobilizar
sem reconhecê-lo esse novo tipo de trabalho. Flexibilização e desemprego
aparecem como as duas faces de um modo de controle do trabalho que passa
essencialmente pelas técnicas administrativas de multiplicação dos estatutos
da "mão-de-obra" e, mais em geral, das condições nas quais "tem-se direito aos
direitos".


No "quilombo argentino" não houve nenhuma aliança, nem fragmentação social,
mas uma nova figura de classe protagonizou o movimento dos movimentos
argentino: a multidão. É nesse sentido que a multidão é um conceito de classe.
Ela é sempre produtiva e em movimento. Considerada de um ponto de vista
temporal, a multidão é explorada na produção; vista de um ponto de vista
espacial, ela é ainda explorada enquanto constitui sociedade produtiva,
cooperação social para a produção. O conceito de "classe de multidão" deve ser
considerado diferentemente do conceito de classe operária.

Com efeito, o conceito de classe operária é um conceito limitado, tanto do
ponto de vista da produção (inclui essencialmente os trabalhadores da
indústria) quanto do ponto de vista da cooperação social (envolve apenas uma
pequena quantidade dos trabalhadores que operam no conjunto da produção
social). Se colocamos a multidão como um conceito de classe, a noção de
exploração será definida como exploração da cooperação: cooperação não dos
indivíduos, mas das singularidades, exploração do conjunto das singularidades,
das redes que compõem o conjunto e do conjunto que envolve as redes etc.

O terceiro elemento constitutivo do "quilombo" argentino tem a ver com o fato
de que nas novas dimensões ontológicas da produção, o trabalho e a política da
multidão tendem a coincidir. Organizar a luta e organizar a produção,
fenomenologia das lutas e ontologia do trabalho tendem a ser exatamente a
mesma coisa: resistir e produzir.

É o que afirmam os jovens do Afro Reggae, tentando organizar a resistência dos
negros nas favelas do Rio de Janeiro por meio da produção de estilos e formas
de vida. A multidão aparece como conceito de uma potência: ela é a condição da
nova potência produtiva baseada na produção de "mais ser". Essa potência não
quer apenas se expandir, ela pretende sobretudo construir um corpo: o elemento
constitutivo da multidão é a carne no sentido de Merleau Ponty, ou seja, uma
coisa geral, um tipo de princípio encarnado que importa um estilo de ser em
cada lugar onde se encontra uma sua parcela.

A carne é nesse sentido "um elemento do ser" (8) , a substância viva e comum
na qual corpo e intelecto coincidem. A carne da multidão quer se transformar
em corpo do "General Intellect". As tentativas neoliberais de suscitar o
deslocamento ontológico do trabalho (do trabalho fordista e industrial para o
trabalho pós-fordista baseado na massificação da intelectualidade e na
centralidade do trabalho vivo) esbarraram inevitavelmente, por um lado, na
incapacidade de o mercado dar conta das dimensões cooperativas e lingüísticas
do trabalho imaterial e, por outro, na redução da singularidade do trabalho
vivo operada pelos próprios processos de fragmentação e exclusão do corpo
social, ou seja, pela reiterada tentativa de mensurar (unificar e homologar
dentro cada fragmento) o que é e deve ser incomensurável (a multiplicidade do
conjunto).

Mais uma vez, o conceito de multidão é incompatível com o de povo. A multidão
não pode ser apreendida nem explicada nos termos do contratualismo. Em seu
sentido mais geral, a multidão recusa-se à representação, pois ela é uma
multiplicidade incomensurável. O povo é sempre representado como uma unidade
ao passo que a multidão não é representável.

Em oposição ao conceito de povo, o conceito de multidão é o de uma
multiplicidade singular, de um universal concreto. O povo constituía um corpo
social; a multidão não, pois ela é a carne da vida. Se opomos a multidão ao
povo, temos também que opô-la às massas e à plebe. Massa e plebe foram muitas
vezes palavras usadas para nomear uma força social irracional e passiva,
perigosa e violenta, pelo fato preciso de ter sido facilmente manipulável. A
multidão é um ator social ativo, uma multiplicidade que age. Ela não é, como o
povo, uma unidade, mas nós podemos vê-la, em oposição a massa e plebe, como
algo organizado. Trata-se, com efeito, de um ator ativo de auto-organização.

Uma das grandes vantagens do conceito de multidão é, pois, o de neutralizar o
conjunto dos argumentos modernos baseados sobre o "medo das massas" ou sobre a
"tirania das maiorias", argumentos muitas vezes utilizados como uma forma de
chantagem para obrigar-nos a aceitar (inclusive a pedir) nossa própria
servidão.

A multidão não é, pois, representável, e sua política é constituinte de
democracia absoluta, ou seja, não limitada per nenhum princípio externo, por
nenhuma transcendência, por nenhuma soberania que não coincida com sua própria
ação. A opção pela multidão é escolha de um sujeito de ação política que não
seja marcado por nenhuma separação, um sujeito comunista, no sentido de que
recusa toda particularidade dos dispositivos e das esferas de subjetivação.
Comunista no sentido de que o que age nele é a potência do que faz serem os
seres em comum (12) .

Só o trabalho da multidão pode, de maneira imprevisível e intempestiva,
constituir as bases para o deslocamento ontológico do modo de produção (para o
modo de produção imaterial) e as condições para que a democracia torne-se a
base da moeda e, pois, do desenvolvimento como desenvolvimento da liberdade.
Como diria Paolo Virno, o desmoronamento da representação política não tem
nada a ver com um ato anarquista, mas com a procura tranqüila e realista de
instituições políticas que fujam aos mitos e aos ritos da soberania. Nesse
sentido, a política da multidão não compõe com nenhuma política econômica que
faz da moeda a base de sustentação da democracia: nem no caso das técnicas da
macroeconomia neoliberal, nem no caso da soberania transcendental do Estado. A
moeda que a política da multidão constitui na Argentina funciona como uma
instituição paradoxal, inseparável da luta e, nessa medida, abre agenciamentos
sociais e jurídicos impensáveis até então.

A política da multidão mostra como não é possível, sem difusão do saber e
emergência do comum, encontrar as condições necessárias para que uma sociedade
livre possa viver e reproduzir-se. A liberdade, de fato, como libertação do
comando, é materialmente dada pelo desenvolvimento da multidão e por sua
constituição enquanto corpo social das singularidades.


1 - Para uma apresentação mais aprofundada do movimento de Gênova, antes e
depois do 11 de setembro, vide G. Cocco e G. Hopstein (orgs.), "As Multidões e
o Império". Ed. DPA. Rio de Janeiro 2002. Vide também vários artigos em "Lugar
Comum" n. 13-14 de janeiro-agosto de 2001 e 15-16 de setembro 2001 - abril de
2002. Nepcom/UFRJ. Rio de Janeiro.

2 - Para uma reflexão critica sobre o FSM de POA, vide o documento coletivo,
"Porto Alegre 2002: O Trabalho das Multidões". In "Lugar Comum", n. 17 Ed.
E-Paper/LABTeC. Maio-Outubro de 2002.

3 - Jacques Rancière, "Peuple ou Multitudes?". Entrevista com Eric Alliez.
"Multitudes", n. 9. Paris Exils. pág. 98.

4 - Para uma problematização do movimento argentino nessa perspectiva, vide
Gerardo Silva, "O Quilombo Argentino", In "Lugar Comum", n. 17, Ed.
E-Paper/LABTeC. Maio-outubro de 2002.

5 - "Los gordos"; é assim que são chamados os membros da cúpula dos sindicatos
peronistas. Vide Federico Schustter e alli, "La Trama de la Crisis - Modos y
Formas de Protesta Social a Partir de los Acontecimientos de Diciembre de
2001". Instituto Gino Germani. Universidad de Buenos Aires. Junho de 2002,
pág. 37.

6 - A "liturgia peronista (tinha) desaparecido desde a campanha eleitoral que
levou Menem ao poder em 1989". Federico Schuster e alii. Ibid., pág. 37.

7 - J. Rancière, Ibid.

8 - Para Fernando Henrique Cardoso não foi muito diferente. Ele não apenas
conseguiu se reeleger, mas já na primeira eleição ele consolidou um voto de
aprovação da política econômica por ele desenvolvida enquanto ministro da
Fazenda do governo Itamar Franco.

9 - M. Merleau Ponty, "Le Visible et l'Invisible. Paris. Gallimard. 1964, pág.
184.

10 - "La Trama de la Crisis", cit., pág. 21.

11 - O "escrache" é uma forma de luta praticada pela associação Hijos, de
filhos dos desaparecidos sequestrados pelos assassinos de seus pais. Trata-se
de uma manifestação organizada perto da habitação de um indivíduo (um militar,
um juiz, um governador etc. etc.), que é indicado à pública reprovação com
cânticos, insultos, lanços de ovos etc. etc. "La Trama de la Crisis", cit.,
pág. 40.

12 - Jacques Rancière, cit., pág. 96. 




entrevista por

Rachel Bertol

O GLOBO

 4 de agosto de 2001

 

HOUVE UMA RECOMPOSIÇÃO DO CICLO DE LUTAS

 

Toni Negri afirma que o poder não o perdoou: em outubro de 2003 completará 17 anos preso, embora com intervalos, além de ter vivido 13 anos no exílio. Entregou-se em 1997 às autoridades italianas e desde abril deste ano vive em regime de prisão domiciliar. Nos anos 80, quando morava na França, chegou a cogitar a possibilidade de se mudar para o Brasil. Ele conta que quem muito o ajudou então foi o atual presidente Fernando Henrique Cardoso.

 

Rachel Bertol: Em seu livro, o senhor diz que as principais revoltas dos anos 90 eram incomunicáveis, muito auto-centradas. Isso mudou agora?

ANTONIO NEGRI: No século XX tivemos ciclos de lutas que modificaram a relação de força das massas, do proletariado com o capital e a organização industrial. Como em 1917. Foi por causa da Revolução Russa que os EUA implementaram o New Deal, para não se tornarem uma nova URSS. Foram lutas que transformaram as relações sociais. Mas desde os anos 70 não tivemos mais lutas cíclicas. Mesmo lutas muito importantes - como Chiapas no México e o massacre da Praça da Paz Celestial, em Pequim - eram auto-centradas, não formavam um ciclo. No entanto, depois de Seattle, em 1999, houve uma recomposição do ciclo de lutas. Acabamos o livro em 1997, mas lá dizíamos esperar uma recomposição, que começa a se tornar possível. Sempre me perguntam se estamos diante de um novo 68. Certamente não é isso, porque as características são diversas. Mas é algo que recompõe as lutas no nível mundial, que recompõe a multidão contra o Império. 

Rachel Bertol: Foi uma coincidência a explosão dessas lutas ter ocorrido no seu país?

NEGRI: Não acho que foi um fato ligado ao governo Berlusconi. Se a esquerda estivesse no poder, como há três meses, não sei se a resposta da polícia teria sido a mesma, mas penso que o movimento de Gênova não é um movimento de esquerda, no sentido que a esquerda social-democrata e os antigos comunistas podem imaginar. É um movimento novo, que nada tem a ver com a velha esquerda mumificada em seus dogmas, em sua besteira. A maneira como a esquerda italiana se comportou sobre Gênova foi simplesmente ridícula. Disseram estar de acordo com os manifestantes, depois se retiraram, depois pediram uma comissão de inquérito, depois disseram que bastava uma breve análise. São uns covardes. Não são muito diferentes de Berlusconi. Não entenderam que o mundo mudou. 

Rachel Bertol: Seu livro saiu na Itália?

NEGRI: Não. É preciso perguntar às editoras italianas por que. Parece que na Itália meu nome está banido. Esta semana, saiu no Corriere della Sera, o grande jornal da burguesia italiana, uma entrevista comigo, pela primeira vez muito gentil. Parece que estão começando a se interessar pelo livro.

Rachel Bertol: Com os protestos em Gênova houve uma atenção maior sobre Império, então?

NEGRI: O mais importante foi a possibilidade de dizermos que não se trata de um movimento antiglobalização. Usar esta expressão é ridículo. Na Itália, na Europa em geral, todos são a favor da globalização. Os manifestantes são contra a globalização que está aí, o que não significa ser a favor do nacionalismo e do Estado-nação. A nação é sempre fascista. Não há mais possibilidade de considerar a nação, mesmo a mais liberal, senão como fascista. O Império concentra poderes que antes eram do Estado-nação. Há uma transferência de soberania. E acontece com três características importantes da soberania: o poder sobre o Exército, sobre a bomba, que é hoje um poder imperial; o poder sobre a moeda, sobre o valor da moeda; e um terceiro poder que é o da língua, sobre a comunicação, o imaginário. Há uma incapacidade de compreensão profunda, uma violência radical que está na base de uma evolução, de uma transformação dos homens e de sua cabeça. Quando acusamos as pessoas de serem contra a globalização, acusamos pessoas que querem uma antiglobalização anticapitalista. Querem ser livres, autônomas. 

Rachel Bertol: É um momento em que os poderes imperiais irão recalibrar seus instrumentos?

NEGRI: A pergunta equivale a esta: existe a possibilidade de o império republicano que tivemos até agora se transformar num império bizantino? Com Bush e seu escudo de defesa antimísseis, tenho a impressão de ver uma transformação da imagem do poder para algo bizantino. Como se fosse um mosaico numa igreja bizantina, no qual há os apóstolos e os sinais do apocalipse, mas com os quais não se pode mais ter relação. Não sei quais serão as conseqüências porque o Império não nasce no plano das instituições políticas; ele nasce depois das transformações. Para os patrões seria muito bom continuar no Estado-nação, com hierarquias definidas. Éramos tranqüilos.

 

Entrevista por 

Vitor Aiello Tsu

Folha de S. Paulo

24 de setembro de 2000

A NOVA SOBERANIA

 

Se muitos impérios foram declarados ao longo dos últimos 2.000 anos, só agora o conceito está se realizando integralmente, pois é a primeira vez que se vê uma forma verdadeiramente ilimitada de poder, que ultrapassa a própria noção de Estado. O Império está se materializando diante de nossos olhos." A nova ordem mundial, produto de uma nova forma de soberania, baseada no poderio econômico, no monopólio da "arma final" e na ampliação da velocidade e quantidade da troca de informação em nível global, constituiu-se. Dela não se pode fugir. O Império não tem concorrentes e engloba toda e qualquer faceta da vida humana. Só se pode esperar que os trabalhadores se organizem e consigam se emancipar do círculo vicioso do capital. Isso se for desejável criar uma "globalização democrática", em oposição a uma "globalização capitalista".

Essas são as premissas do livro "Empire" (Império), de Antonio Negri e Michael Hardt, que tem causado controvérsias na discussão política contemporânea, principalmente por se propor um "Manifesto Comunista" _bem ao estilo de Marx, como se pode ver pela frase que abre o livro e é reproduzida no início deste texto_ para o século 21. Publicado há pouco nos EUA pela editora da Universidade Harvard e com lançamento previsto para o Brasil no ano que vem pela Record, o volume negro de mais de 500 páginas, no entanto, parece estar bem longe daquilo que seria a leitura de cabeceira de um operário médio. Além disso, ele não é tanto uma proposta de ação para a parcela dos dominados no regime capitalista quanto uma crítica à sociedade que vem se constituindo nos últimos anos, marcada, entre outros acontecimentos, pelas trocas cada vez mais aceleradas de informação e pela intervenção militar da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) em Kosovo em nome da justiça e contra a limpeza étnica _já que o Império dedica suas ações à paz, mas suas práticas sempre envolvem forte poderio militar. O cientista social e filósofo Antonio Negri, após viver 14 anos exilado em Paris (França), retornou voluntariamente à Itália e, desde 1997, cumpre pena na prisão de Rebibbia, em Roma - atualmente em regime semi-aberto. Negri havia sido condenado a 13 anos de prisão

FOLHA — O que é o Império?

 

Antonio Negri — O Império é a Constituição do mercado global. Naturalmente, quando se fala em Constituição, entendem-se duas coisas: o ordenamento jurídico e o comando. O comando imperial já está constituído, o ordenamento jurídico está em via de constituição.

 

Michael Hardt — Império é o nosso nome para a forma política da globalização capitalista. O termo Império, no entanto, tem uma longa história. Nossa compreensão do termo deriva primariamente da Roma antiga e é filtrada pela civilização européia. A noção tradicional do Império é definida por domínio ilimitado em pelo menos três sentidos. O Império é ilimitado no sentido espacial, não há fronteiras para o seu domínio; não há nada externo a seu poder. O Império domina a totalidade. O Império também é ilimitado no sentido temporal, já que seu domínio é posto como necessário e eterno, em vez de temporário e transicional. Finalmente, o Império é ilimitado em um sentido social, pois busca controlar toda experiência social; o objeto do Império é a própria forma de vida. Nossa hipótese é de que, enquanto muitos impérios foram declarados ao longo dos últimos 2.000 anos, atualmente pela primeira vez o conceito foi realizado de modo integral. É a primeira vez que vemos uma forma verdadeiramente ilimitada de poder. Acreditamos ser muito importante distinguir o Império do imperialismo. Por imperialismo nós entendemos as estruturas políticas e econômicas ao longo das quais os Estados-nação europeus estenderam seu poder sobre outras nações e territórios do século 17 ao 20. Os vários regimes europeus imperialistas foram necessariamente limitados uns pelos outros e estavam em constante conflito. Em contraste, o Império atual é único e não possui competidores semelhantes a ele. Além disso, e esse é o ponto mais importante e que leva boa parte do livro para explicar, o Império opera por meios e princípios diferentes dos que operavam os velhos imperialismos europeus e, portanto, o Império coloca uma forma fundamentalmente diferente de soberania. Um aspecto dessa diferença é que o Império não depende do Estado-nação como base de seu poder do mesmo modo que dependiam os imperialismos europeus. Uma consequência dessa argumentação é que nós não acreditamos ser exato definir nossa ordem contemporânea global como um regime imperialista norte-americano. Os Estados Unidos têm de fato um papel privilegiado no Império, mas isso não basta para pensar que hoje os EUA completaram o projeto imperialista que os britânicos e franceses haviam tentado realizar anteriormente. No Império, nenhum Estado-nação pode funcionar como centro de poder. 

FOLHA — Os senhores afirmam que as bases do Império são o poder militar, a globalização da economia e a Justiça. Como funciona a Justiça no Império? Por que os poderes imperiais se manifestam no caso do Kosovo e não no caso das guerras na África?

 

Negri — As bases do Império são o poder militar (ou, na verdade, a arma absoluta e o seu monopólio), o poder monetário ("um dólar vale um dólar") e a comunicação (ou a capacidade de formar sujeitos). Quanto à Justiça, que devemos ver como um ordenamento em formação, é a combinação disposta desses poderes: a Justiça, de fato, não é o navio, mas sim a mão que guia o navio por sua rota; e naturalmente este vai aonde sopra o vento... Por isso, ela funciona, de certo modo, em Kosovo, onde se trata de afirmar os direitos do homem diante da opinião pública anti-soviética do Ocidente; não funciona na África (por enquanto) porque (além de motivos extrínsecos, como a crise da intervenção na Somália, a pressão ambígua da opinião pública afro-americana e da cultura pós-colonial etc.) na África a exigência do Império se afirma por intermédio dos massacres recíprocos das etnias e dos grupos sociais...  

 

FOLHA - o que significa dizer que o Império é "bom em si mesmo" e não "bom para si mesmo"?

 

Hardt — Estamos jogando com a terminologia hegeliana quando dizemos isso e estamos tentando explicar que, apesar de a criação do Império trazer devastadoras e violentas estruturas de opressão e exploração, ela também cria as condições para a liberação. Um modo de entender essa afirmação é concebê-la em termos dos processos contemporâneos de globalização capitalista. É verdade que a globalização capitalista trouxe formas novas e mais intensas de exploração mundo afora, mas isso não significa que nós devamos tentar ressuscitar os poderes do Estado Nação como uma defesa contra a globalização. O que afirmamos é que a globalização capitalista atual apresenta as condições para uma globalização não-capitalista alternativa. Isso tem a ver, creio eu, com muito da confusão sobre os movimentos de protesto contra a Organização Mundial do Comércio em Seattle no ano passado, bem como aqueles contra o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Mundial em Washington e, logo, logo, novamente em Praga. Esses movimentos são sempre vistos na mídia como sendo contra a globalização, mas isso não é verdade. A vasta maioria dos envolvidos são contra a forma atual de globalização, contra a globalização capitalista, e favoráveis a uma globalização nova, democrática. A tarefa que eles colocam, para a qual aponta nosso livro, é transformar a atual globalização capitalista em uma globalização democrática.

 

Negri — Tentamos entender um conceito fundamental de nossa pesquisa: a internacionalização, a liberdade de movimento sobre a cena mundial, o cosmopolitismo intelectual etc. são virtudes que _desde sempre_ foram próprias da classe operária e do proletariado (branco ou negro, verde ou amarelo)... Toda a história das lutas contra a exploração pressiona contra as leis do Estado e os seus limites "nacionais". O mercado mundial, a superação da miséria, das burguesias nacionais, a internacionalização das trocas foram sempre um objetivo das revoltas e revoluções proletárias (brancas, negras, amarelas, anárquicas ou bolcheviques que fossem). Do nosso ponto de vista (ponto de vista que desejava interpretar o movimento proletário), a mundialização é, portanto, um bem. O capitalismo foi constrangido a se globalizar (não é uma novidade, mas uma lei histórica, que o capital seja sempre seguido de lutas proletárias e operárias). Mas, agora que o capital foi constrangido a desenvolver o Império, essa nova forma constitucional de exercício do poder, nós podemos reconhecer que o Império é o nosso inimigo e combatê-lo, em base internacional, dentro de movimentos antagonistas globais, em torno de objetivos de "cidadania imperial" (com relação à mobilidade, ao salário, à apropriação e à distribuição do saber etc.).

   

Folha - Como se dão as relações de trabalho na nova ordem? Não se tornam ainda mais violentas?

 

Negri — Existem várias formas de violência no Império relativas às relações de trabalho, isto é, às relações entre capital e força de trabalho. As mais vulgares são, na fase atual, aquelas formas de violência que se exercem contra as livres migrações de força de trabalho, em nome de privilégios nacional-corporativos ou, mais exatamente, nacional-socialistas e que acabam por cobrir a troca desigual entre o Norte e o Sul e a exploração mais feroz que atinge as faixas mais frágeis do proletariado mundial. As mais perigosas são aquelas cuja formação prevemos: violência do poder contra a vida proletária, construção sanitária ou biológica de uma humanidade inferior, governo da fome e da doença, o objetivo de extrair mais-valia de setores do globo etc. O Império constrói essa violência, as organizações internacionais fingem tratá-la: é possível a revolta?


Hardt — Relações de trabalho sempre serão violentas na sociedade capitalista pela simples razão de que trabalhadores sempre se recusarão a trabalhar; isso significa que sempre se rebelarão contra o controle do capital e o comando sobre o trabalho deles. É natural que aqueles que são oprimidos e explorados recusem a autoridade _e devemos nos alegrar por isso. O que mudou, ao contrário, são as formas dominantes de trabalho e, portanto, as formas das relações de trabalho e revolta. Nós tentamos compreender o câmbio primário nas formas de trabalho na sociedade contemporânea por meio de nossa discussão do "trabalho imaterial", isto é, trabalho que tem produtos imateriais, como comunicação, informação ou afeto. O trabalho material é ainda extremamente importante e prevalente na maior parte do mundo em termos quantitativos, mas nossa argumentação é que o trabalho imaterial vem se tornando mais e mais o foco da economia global capitalista. Esse câmbio na forma de trabalho dominante traz consigo novas formas de exploração, mas também, novamente, novas possibilidades de liberação.

   

Folha - A legitimidade do Império é dada por um circuito construído pelo próprio Império. Até que ponto é possível questionar essa nova ordem mundial?

 

Negri — Não é possível. É preciso sair da ordem da representação, tanto daquela nacional (parlamentar) quanto das diplomáticas, internacionalistas e humanitárias. O êxodo é a única via de liberação que o Império nos deixou. Êxodo, resistência e construção de territórios liberados, em nível mundial.

 

FOLHA — Hoje em dia, as pessoas aparentemente perderam a sua "imaginação sociológica", isto é, a percepção da conexão entre suas vidas e a sociedade como um todo. Qual é o lugar dos pobres dentro do Império e quais as suas expectativas para o futuro?


Hardt — Sim, é muito difícil reconhecer a si mesmo no mundo e como a própria vida se situa nas estruturas da sociedade como um todo. Essa é claramente uma tarefa de trabalhos teóricos como o nosso: auxiliar em nosso entendimento das estruturas que definem a sociedade e nos ajudar a reconhecer como nossas lutas são iguais às lutas de outros. Esse é o uso da teoria política como um todo. Mas você poderia também acrescentar que, além de nossa "imaginação sociológica", nós aparentemente também perdemos a nossa "imaginação utópica". Porque é tão difícil compreender a natureza da ordem social e porque o poder que nos encara parece tão esmagador, é difícil imaginar como poderíamos transformar o mundo. Essa é certamente uma segunda tarefa para um livro como o nosso: ajudar-nos a imaginar como o mundo pode ser melhor e identificar o nosso real poder de transformá-lo.


Negri — No Império, os pobres têm apenas um lugar: a pobreza. Do futuro, espero que, "mutatis mutandis", mantenham aquele lugar de pobreza que o capitalismo imperial lhes propõe. A não ser que a situação seja ulteriormente piorada por modificações genéticas ou pelo uso impensado da bioengenharia para lhes fixar as características e as funções sociais do pobre.

 

FOLHA — Quem é o sujeito da história? Qual seria uma proposta de ação para esse sujeito?

 

Negri - Sujeito da história? São as multidões de trabalhadores e hoje _sempre mais_ as de trabalhadores intelectuais. A enorme transformação que o século 20 determinou na organização do trabalho pôs a imaterialidade/intelectualidade do trabalho vivo e cooperante no centro da valorização econômica e social. Não creio que existam propostas que a esse sujeito, a essa multidão, possam ser feitas. Pode-se no máximo pedir a eles que escutem as recomendações do "Intelecto Geral" que constitui hoje o trabalho vivo. Dizem essas recomendações: reúnam e organizem politicamente na cooperação do trabalho cada forma de trabalho vivo, ou seja, o trabalho material dos escravos, o trabalho intelectual dos pesquisadores, o afetivo da reprodução doméstica da vida, o imaterial dos serviços superiores etc. Todo o trabalhador explorado deve encontrar, na sua própria dignidade de trabalho vivo e no reconhecimento da tendência de se tornar plenamente cooperativo e intelectual, a força de desatrelar-se do capital, de ir embora, de levar a luta a um ponto final.

 

Folha - Como funcionam as relações pessoais no Império? Há ainda sentido em dividir as coisas em termos de "público" e "privado"?


Hardt — Não, não faz sentido dividir a sociedade em esfera pública e esfera privada. É útil recordar o velho adágio feminista de que o pessoal é político, significando que, para nos dirigirmos às estruturas sociais de poder, nós devemos também transformar o reino das relações pessoais. Mas isso é também o que queremos dizer quando falamos que o Império domina todas as fases da vida. É nesse sentido que nós usamos a noção de biopoder de Michel Foucault, poder que domina a própria forma de vida.

 

 

 Tradução Roberta Barni

Folha de S. Paulo 

7 de setembro de 1997

 

 

Ilusões de uma história

François Furet, ao pensar o comunismo, produziu uma historiografia impotente

 

No mês passado (agosto de 97) morreu François Furet, o grande historiador revisionista francês. Tive ocasião, nos anos 70, de frequentar suas aulas sobre o jacobinismo, que me influenciaram profundamente. Recentemente, quando o livro foi lançado, li a sua história da idéia comunista no século 20: história de uma ilusão. Este livro monumental não me impressionou do mesmo modo que acontecera por ocasião dos estudos sobre a revolução francesa. Pergunto-me o porquê.

 

Uma primeira explicação encontro-a imediatamente: é que a crítica do jacobinismo, dirigida contra a historiografia marxista que, sobre a grande revolução francesa (derrotada) tinha moldado a épica da grande revolução russa (vencedora), ainda assim se mantinha no princípio inspirador da história social.

 

Ainda que o jacobinismo fosse considerado o produto de motivações ideológicas (e não como representação dos interesses das camadas mais exploradas do proletariado ou até como primeiro e consciente aparecimento político destas), mesmo neste caso a determinação material e social do evento histórico era, no entanto, mostrada.

 

A ideologia não coincidia, no desenho crítico do jacobinismo de Furet, com a estrutura de classe, mas agia dentro desta, configurava o movimento de massa e, justamente por não coincidir, podia deturpá-lo, arrastá-lo para o extremismo e impor ao movimento revolucionário sinais contraditórios e êxitos suicidas.

 

Mas é através desta maranha que a revolução se torna uma enorme usina de transformação; e é devido à atenção aos elementos de heteronomia, às casualidades indeterminadas, à inextricável singularidade do entrelaçamento entre ideologias, determinações materiais e transtorno das instituições que aquela história furetiana da revolução constituía uma atuação poderosa, uma profunda inovação historiográfica. Por assim dizer, Furet retomava na historiografia aquele sentido da superfície indeterminada do mundo que, no mesmo período, Prigogine e Stengers generalizavam a partir da crise da física moderna.

 

Por que motivo, então, o grande livro revisionista de Furet sobre a história da idéia comunista no século 20 não me convenceu? Porque, ao contrário de quanto fizera para a revolução francesa, aqui Furet (permitam-me acentuar a polêmica) dá à sua historiografia o cunho de uma história sacra às avessas, monolítica e perversa. É a história de um erro, construído lógica e emocionalmente, que se desenvolve virginalmente -pecado original, pecaminosa e agostiniana cidade do homem, predestinada à perdição. Mais que história de uma ideologia, trata-se de uma patologia epidêmica.

 

A conclusão revisionista consiste no fato de que o triunfo da ideologia comunista na classe operária e na "intelligentsia" ocidental é identificada numa ambígua e delirante resistência ao fascismo, do qual o comunismo é o espelho deformado. Polêmica à parte, o que falta ao livro de Furet sobre o comunismo é justamente o gosto por uma metodologia da superfície e da contradição: aqui a superfície é plana antes que acidentada, e as contradições são enganos e erros.

 

Alguém insinuou maldosamente que nesta obra de Furet não haveria muito mais do que havia nos vários "Escolhi a Liberdade", de Koestner ou de Kravtchenko, obras de propaganda nos anos mais sombrios da Guerra Fria. Mas não é verdade. A riqueza da documentação, a extensão da análise, a elegância da argumentação não podem ser subestimadas.

 

Claro, trata-se de materiais publicados e não do resgate das novas (e imensas) fontes de documentação que a queda do Muro colocou à disposição dos estudiosos: isso não significa que a a obra não seja, a seu modo, exemplar. Mas, justamente, repito-me, metodologicamente incorreta, a partir das premissas que sustentavam a obra anterior de Furet e todo o desenvolvimento da historiografia contemporânea.

 

Mas com que finalidade tratar desta obra se a considero tão incorreta? Por dois motivos. A de Furet é um exemplo de historiografia "reacionária". Amiúde, a reacionária foi grande historiografia. Os livros de Burke contra a Revolução Francesa foram, como Friedrich von Gentz -o seu tradutor alemão- adorava dizer: "Uma obra revolucionária contra a revolução". Estes propunham, através da polêmica, um novo modelo de Estado e insistiam sobre a continuidade histórica e sobre o realismo político.

 

O modelo contra-revolucionário que auspiciavam tornava-se projeto político para a atualidade: neste, a Santa Aliança dessedentou-se, e a política do imperialismo do século 19 encontrou sólidos alicerces. Nada disso em Furet: sua historiografia é impotente. Não propõe nada. É uma historiografia do "fim da história" -um verdadeiro bate-boca terminológico.

 

É cega e muda diante do pós-moderno, da mundialização, do fim do Estado-Nação e do colonialismo, isto é, diante dos máximos problemas da atualidade. Age feito uma "vassoura de Átila" sobre o passado, sem nos permitir um presságio do porvir. Esta historiografia apaga as razões da revolta sem fazer com que compreendamos se suas razões persistem. É uma obra impotente.

 

O segundo motivo que me leva a falar desta obra é puramente subjetivo. Para obter a libertação do cárcere onde estou trancado por motivos políticos, estou a debater, entre outros temas, a memória histórica. Ora, minha memória comunista não pode, de modo algum, nem digo ser criticada, mas sequer abarcada pela definição de comunismo proposta por Furet. Paradoxalmente, os juízes italianos que me mantêm no xadrez (mas que, dia mais, dia menos, irão me libertar) entendem disso mais do que ele.

 

Porque sabem, ainda que numa frente oposta, o que eu sei: isto é, que a vicissitude da idéia comunista é tão misturada com a longa duração da história -isto é, com as lutas, os desejos, as utopias e os crimes de um século inteiro de nossas sociedades, com os ciclos da história e com a memória ontológica das gerações- que falar disso apenas como uma idéia é um "nonsense". O sonho do comunismo representou uma mutação antropológica: poderemos domá-la, mas de modo nenhum anulá-la.


Tradução 

Simonetta Persichetti

Folha de S. Paulo

28 de janeiro de 1996

Ruídos na canção neoliberal 


Greves na França trazem distorções ao modelo que

passou a vigorar desde a queda do Muro de Berlim


Sabe-se que uma luta social, imprevista e imensurável, nova na sua forma de agir, pacífica embora bastante radical, que durou da metade de novembro até o final de dezembro, tomou conta da França, não só de Paris, mas do país todo. Este movimento não terminou. Foi, podemos afirmar, suspenso, durante as festas de final de ano. Todos aguardam que ele recomece, esporadicamente, endemicamente, de forma contundente, ninguém sabe: todos sabem porém que algo mudou, tanto na consciência individual como no imaginário coletivo.

Trocando em miúdos, por meio da luta as pessoas se convenceram de que é possível resistir à "nova ordem mundial", ditada pelo liberalismo e multiplicada pelas regras financeiras, desde a redução do déficit, às privatizações, da reorganização móvel e flexível do trabalho, a uma nova disciplina na vida. Existe uma "nova possibilidade".

A luta começou em torno de algumas reivindicações dos funcionários das empresas públicas (transportes, energia, comunicações e ensino), mas o movimento de repente cresceu, o objetivo agora é a retirada do plano governamental (em relação às mudanças sociais e à drástica redução do déficit público) ou seja, da revisão da política neoliberal imposta _segundo o governo_ pela globalização dos mercados e pelas regras da unificação européia. A greve contou com o apoio ativo de grande parte da população.


Paris em greve [2003]

O movimento foi reconhecido como de "interesse geral". A mídia não conseguiu motivar as pessoas com seus slogans antigrevistas, e qualquer iniciativa de organizar a população contra a greve não deu em nada. Assim, durante um mês, paralelamente às grandes passeatas dos sindicatos, um grande número de trabalhadores, que não estava em greve, tomou a cidade, não menos ameaçadoramente, durante o dia e a noite _a pé, de bicicleta, pedindo carona_ co-produzindo assim o movimento. Uma nova forma de luta foi criada: a greve metropolitana.

No momento em que escrevo, o resultado ainda é incerto. Se por um lado os funcionários públicos venceram, obtendo recuo por parte do governo e o pagamento dos dias parados, por outro o governo manteve seu projeto. Até quando? Os governantes pedem um novo consenso, declarando que não existe outra alternativa para a redução da dívida pública. De fato, não só entre os grevistas ou entre aqueles que apoiaram o movimento, mas também em vários setores da intelectualidade, surge a consciência de que _se não no plano nacional, mas certamente no europeu_ possa ser construída uma alternativa à lógica monetária e liberal (que pode fragmentar a sociedade), isto é, que um novo dispositivo, igualitário e sólido de aumento da produtividade, da redistribuição da riqueza e levando em conta a utilidade social, possa ser proposto no plano continental.

Lille em Greve [França, 2003]

Acontece que, a curto prazo, é muito improvável que o governo francês consiga restabelecer um consenso ao seu projeto e ao desenho do liberalismo mediado. Poderíamos afirmar que este extraordinário fato francês ao expressar, por enquanto timidamente, mas de forma bastante eficaz, outras alternativas de desenvolvimento tenha derrubado, ou pelo menos freado, a tendência que, desde Thatcher, Reagan e a derrubada do Muro de Berlim, parecia consolidada num período secular no plano mundial? A resposta é incerta.

Se os acontecimentos do final do ano quebraram, de forma fascinante como só os franceses sabem fazer nas suas insurreições, com a tendência até aqui hegemônica do domínio liberal, nada nos permite concluir que esse exemplo seja contagioso como o foi em outras épocas.

Todavia, mesmo com a ausência da comunicação imediata e internacional, a novidade do fato dificilmente será neutralizada. Ela exprime de forma contundente em um país altamente politizado, num momento delicado da unificação européia, a percepção da insuportabilidade do regime neoliberal, a certeza de que o comando capitalista é hoje mais insustentável do que tenha sido no passado (trabalhado e constituído pelo socialismo) e que sua superação é o desejo de uma multidão. Uma ilusão? 

Talvez, como já aconteceu tantas vezes, quando os movimentos vindos de baixo contestavam radicalmente o exercício do poder. Mas uma "ilusão real".

Retornemos a análise do movimento de dezembro. Nada de antigo estava presente. O "sujeito" que luta, nas fábricas, nas praças, não é simplesmente a classe operária; os uniformes azuis de Putilov, Detroit e Mirafiori são hoje peças de museus. Ao contrário, é um outro tipo de proletariado, uma classe operária evoluída, uma massa escolarizada. Todos lêem Zola, mas ninguém o vive. Quem dirige o trem frequentou a escola durante 20 anos, um técnico durante 23. Quanto ao "objeto" para combater, não é mais salário pessoal, mas a dimensão "biopolítica" da renda, ou seja, a quantidade de trabalho necessária para garantir a reprodução da vida, para si e para os filhos, num arco da existência das gerações, e às suas necessidades crescentes.

O lugar da luta é o serviço público, ou seja, lá onde a cooperação social, a cooperação interativa dos trabalhadores e dos cidadãos (transporte, escola, telecomunicação) é necessária para definir a produtividade. A "forma" de luta é também nova: são as assembléias de base que decidem objetivos, tempos e formas do movimento, e os sindicatos _se quiserem sobreviver_ se tornaram os porta-vozes da vontade da base.

Um corpo novo que apenas por defeito da terminologia ainda chamamos "proletariado" é o que aqui se revela. Veementemente. Um produto do desenvolvimento capitalista? Sem dúvida. Uma figura pós-industrial? Sem dúvida. Mas com o mesmo ódio contra a exploração que caracterizou os operários de Putilov, de Detroit e de Mirafiori, mas com uma capacidade enorme que estes homens e mulheres mostram na luta, muito maior do que seus ancestrais demonstravam de tomar as rédeas do próprio destino.

É talvez a saudade do velho comunismo, de traduzir a luta em linguagem burocrática, de cada iconografia que transforma esta revolta tão anticapitalista em uma feliz promessa. São a resistência e os movimentos capazes de se transformarem no poder constituído. Colocar frente a essa nova potência a alternativa "liberalismo ou barbárie", daqui para frente será um insulto à inteligência humana. Quanto à terrorística afirmação "tecnocracia ou canalhice", essa já caiu no ridículo. No movimento de dezembro, frente à polícia da dúvida, renasceu a política do desejo. Não está nessa ilusão real a política tout court? 

 

Paris em greve [2003]

Tradução Roberta Barni.

Folha de S. Paulo

20 de outubro de 1996

Estados chegam à era do Império
Nova ordem mundial exige uma reformulação dos direitos dos cidadãos

Ferdinand Braudel dizia que "o capitalismo triunfa somente quando identificado com o Estado, quando se torna o Estado". Estava certo. Perguntemo-nos, então: qual é a forma de Estado que segue a mundialização capitalista da produção e da circulação de mercadorias? Respondemos: esta nova forma do Estado é o Império.

A constituição do Império está se desenvolvendo sob os nossos olhos. Uma vez já exaurido o obstáculo soviético ao mercado mundial e consumada a saída do colonialismo, de fato está em curso em uníssono com a irresistível mundialização das trocas a construção de uma estrutura de regulação destas trocas; uma estrutura centralizada e dotada de poderes soberanos. Como na

Antiguidade greco-romana, a idéia do Império, tal e qual nos aparece hoje, antes que representar uma tensão de conquista, é uma tentativa de suspensão da história, de estabilização e de ordenamento do estado (mundial) das coisas presentes.
E, como na Antiguidade, o que se põe em ato com este fim, longe de se reduzir a simples dispositivo ideológico, é uma poderosa máquina política - a máquina Império, justamente. Isto é, um novo paradigma de soberania, de sua legitimação e de seu exercício, em escala mundial.

Certamente há quem afirme que o capitalismo, desde o seu nascimento, foi ordem mundial; e que, portanto, a insistência hoje posta nos processos de mundialização e em suas novas feições politicas é o produto de um defeito anterior de definição: uma ilusão, portanto. Mas a correta atenção levada às dimensões "ab origine" universais do desenvolvimento capitalista não pode esconder o enorme esforço que hoje se realiza para fazer com que o centro do poder econômico coincida com o centro do poder político.

A diferença é produzida aqui pela queda das diferenças, ou melhor, pelo fato de que a mundialização já não é somente um processo de fato, mas se torna fonte de qualificação jurídica e destino de uma figura unitária de poder político - o Império, precisamente. Há também quem afirme que os Estados capitalistas do Primeiro Mundo exerceram - em associação entre si, ou então isoladamente, de qualquer modo sempre na modernidade - uma ação imperialista sobre as outras nações e partes do globo.

A tendência atual do Império não representaria então uma novidade, mas, por assim dizer, um aperfeiçoamento do imperialismo. Sem subestimar eventuais linhas de continuidade, deve-se no entanto salientar que, na situação atual, no pós-moderno, ao conflito entre diversos imperialismos substitui-se a idéia de um poder único que os sobredetermina a todos, os estrutura unitariamente e os contêm sob a mesma idéia de direito. Esta idéia de direito é uma idéia pós-colonial e pós-imperialista.

Chegamos ao cerne: uma nova idéia de direito. Ou seja, uma nova idéia de inscrição da autoridade e um novo desenho de produção de normas e de instrumentos de coação legal para garantir os contratos e para resolver os conflitos - uma nova prática da soberania, portanto, em escala mundial. Assim sendo, o indicador da constituição do Império é ligado, em primeiro lugar, pelo direito.

É o direito que expressa a lógica da grande transformação em ato - especialmente o direito internacional, que, em suas atuais transformações, incide no direito dos Estados-nações, enfraquecendo ou anulando suas prerrogativas, e que constrói, em escala planetária, novas centralidades e hierarquias de comando. Mas também o direito do mercado e das empresas capitalistas, na complexidade das relações que este mantém, hegemonicamente, com a produção e a circulação das mercadorias, a reprodução e as migrações das populações, o desenvolvimento econômico e a determinação dos valores, dos consumos, dos usos e dos modos de vida - para não falar da informação e da linguagem. É a este movimento, e à tendência que podemos ler em seu interior, que chamamos de Império. Este é o quadro, portanto.

Nós, cidadãos de velhas e novas democracias, de Estados-nações mais ou menos consolidados, podemos desejar que o processo imperial se aperfeiçoe, ou então temos de considerar que este representa uma nova, fortíssima, forma de opressão e o irresistível fechamento de todo o processo de transformação democrática das formas políticas existentes?

Eu não sei dar uma resposta definitiva a estas questões. Parece-me lícito pensar, no entanto, que o processo imperial está tão adiantado que fazer-lhe oposição pode parecer vão. Ademais, como velho comunista, continuo pensando que a libertação da humanidade (da exploração) só pode se dar em território mundial, e que a internacional dos trabalhadores desejou fortemente, por meio de suas lutas, uma irmanação mundial dos oprimidos.

Não consigo, por outro lado, esquecer a bestial crueldade do Estado-nação e as mil "guerras patrióticas" em que os povos se massacraram. E não consigo conceber a possibilidade de sobrevivência do Estado-nação, na crise, a não ser como reprodução de mecanismos de exclusão, repressão e integralismo (seja quais forem as suas formas, religiosas ou ideológicas). Além disso, como cidadão cosmopolita, parece-me que somente na mobilidade e na mestiçagem, na desterritorialização e na hibridação, o homem livre possa hoje produzir, enriquecer espiritualmente - enfim, viver. O problema então não é tanto o de resistir ao Império quanto o de decidir, subjetivamente e em termos coletivos, que Império queremos.

 

 

Tradução Roberta Barni

Folha de S. Paulo

22 de novembro de 1998

Mundo sem herói
Não existe hoje força subjetiva ou coletiva que possa inovar a ação política depois da catástrofe da velha sociedade 



manifestante oferece flores à polícia 

durante as manifestações de Seattle 

em dezembro de 1999


Como nunca antes, hoje é forte a consciência de que o neoliberalismo alcançou um limite no qual se afirmam o caos social, a impossibilidade administrativa da economia e a infelicidade das multidões. Como nunca antes, no entanto, há hoje falta de perspectivas alternativas realmente viáveis. Isso não se deve apenas à falta de imaginação dos teóricos da economia e da política nem à repressão seletiva que o poder exercita na circulação das idéias.

Tampouco esta situação se deve apenas ao egoísmo dos ricos e dos dominadores: afinal, eles próprios estão sendo arrastados (certamente com menos dor do que os pobres) pela crise que vai se afirmando e, sobretudo, não podem deixar de ver com certa preocupação a derrocada (ou ao menos o enfraquecimento) daquele horizonte de certezas ideais e materiais sobre as quais repousa a autoridade, a não ser que se queira reduzi-la a mero exercício da violência. No entanto, repito, faltam alternativas políticas realmente viáveis. Por quê?

Em primeiro lugar, porque o ideal de um desenvolvimento capitalista capaz de incrementar a produtividade das sociedades e, a um só tempo, melhorar a distribuição da riqueza -por meio de uma direção centralizada da economia e de uma gestão totalitária da sociedade- mostrou ser uma experiência nada melhor do que a denominada "liberdade dos mercados". Neste fim de século, talvez já tenhamos digerido a crise do "socialismo real", assim como estamos saboreando a catástrofe do "liberalismo real".

Em segundo lugar porque, prisioneiros daquela alternativa impossível que o século nos ensinou (mas que morre com ele), os protagonistas do mundo da cultura e da produção (da "intelligentsia" às classes produtivas), em suma, os atores do mundo da vida, já não sabem reconhecer as forças subjetivas capazes de transformar a situação, ou mesmo, mais simplesmente, de agir na crise. Quero dizer: hoje, todos nós, quando temos consciência da crise, não sabemos identificar e, por conseguinte, tampouco construir o herói da inovação que poderá nos subtrair à catástrofe.

O desenvolvimento histórico não se dá no fundamento das idéias, mas, sobretudo, no fundamento das forças materiais; não surge das ilusões, mas dos desejos dos sujeitos fortes. Noutros tempos, o empresário e a sua classe, os operários e a classe operária foram -e reconheceram-se como- forças subjetivas capazes de arrancar o desenvolvimento histórico da crise para levá-lo em direção à inovação: quem, hoje, é capaz disso?

Essas considerações surgem ao serem reexaminadas as teorias da organização industrial no pós-fordismo, ou seja, nesses últimos 25 anos de história industrial em que, sob a pressão conjunta das lutas da classe operária e do desenvolvimento das indústria eletrônica e de informação, operou-se a transformação radical do modo no qual, com a produção das mercadorias, a reprodução da vida também se transformou.

Torno a ler Chandler e a sua crítica ao fordismo; Williamson e a interpretação da crise do fordismo como base de uma nova apreciação dos custos de transação; e depois, de um lado, Sabel, Priore e Margelin e as suas teorias da disseminação empresarial, do outro, Ohno e Nomaka e a construção gradual do modelo japonês; e depois Porter, Solow, Drucker, Hammer, Bill Gates, ou seja, a resposta americana ao modelo japonês...

Chego, desse modo, a identificar as novas condições da produção: o conhecimento implícito que deve prefigurar a produção; os capitais humano e cognoscitivo que se tornam cada vez mais importantes, até substituir, tendencialmente, o capital fixo; a implementação dos fluxos de valor por meio de uma cooperação, cada vez mais intensa, dos operadores. Acrescento, a essas leituras, as dos criadores da divisão distrital das escolas italianas: eles descreveram o novo relacionamento da indústria com os territórios e observaram a circulação produtiva das tecnologias da informação através do social.

Além disso, a respeito deste tema, em relação à contribuição da escola que se refere a Sassen-Koob e aos novos urbanistas: eis outro superávit de conhecimento a respeito dos novos ajustes produtivos, da nova cooperação social que os percorre e das novas forças produtivas que ali se configuram...

Pois bem. Ao terminar essas leituras, que para mim representam um novo mundo da produção e reconfiguram a sociedade diante de meus olhos, isto é, quando a nova "forma" da ação produtiva social é desdobrada, por completo, diante dos meus olhos, não consigo, ainda assim, enxergar como esta nova forma da acumulação poderia se relacionar com o projeto de um novo futuro político, ou seja, de um modelo de sociedade que possa nos subtrair à antítese paralisadora de socialismo e liberalismo reais.

Não consigo identificar nem o empresário político nem o novo partido dos trabalhadores do conhecimento que possam extrair da catástrofe da velha sociedade a semente de uma nova sociedade que está em formação e que já se representa na produção. 

Mas, contestam-me: com que objetivo se pôr diante dessas questões? Certamente há a crise do modelo liberal, assim como se registra a impossibilidade do modelo do planejamento central, mas a questão é complexa e lenta: vamos então nos dar por satisfeitos por termos consciência do problema e por dirigirmos nossa ação diária para o fim da transformação, mas com prudência, sem a construção de novas ideologias...

Não há objeção mais estúpida. Não há repetição mais insensata do que a de uma sabedoria que corresponde a tempos em que o desenrolar-se da história tinha muito pouco a ver com o da inteligência coletiva. Não há registro mais cínico da crise em que estamos mergulhados, que toca, quer o reconheçamos ou não, a multidão. A urgência da questão está ligada à imensidão dos efeitos que, hoje, a crise provoca: a globalização não é somente uma condição, mas um destino.

E então: onde está uma força subjetiva, coletiva, que hoje poderia se tornar herói da inovação política, ou melhor, biopolítica (pois a política já não pode ser separada da vida), diante da crise que nos aflige?

Não vou nem sequer questionar os valores a partir dos quais essa vontade de inovação deveria se organizar. Não me interessam. Estou brincando de nietzschiano (na mais vulgar das acepções que podem ser atribuídas, amiúde injustamente, ao pensamento daquele louco alemão).

Interessa-me a inteligência crítica que, na novidade da força de produção do mundo, descobre as reais hipóteses de reorganização política da vida: que revolve a nova organização do trabalho à procura da chave de um novo horizonte de cooperação social.

Seja lá como for, dificilmente deste esforço de investigação e de reconstrução aparecerá um novo Leviatã... porque este novo mundo produtivo é um mundo de inteligências cooperantes, de conhecimento disseminado e criativo; "General Intellect", dizem alguns exegetas da pós-modernidade.

 

        Seattle, dezembro de 1999 [clique na imagem acima e leia mais sobre a batalha de Seattle]

 

 

 

Tradução Roberta Barni

Folha de S. Paulo

29 de junho de 1997

Direita e esquerda na era pósfordista

Mudanças na esfera da produção levam a novas

formas de organização e atuação políticas

Sociólogos, empresários, políticos, mas também aqueles filósofos que olham a Terra antes que as estrelas, parecem ter alcançado um certo acordo ao definir as características da sociedade produtiva "pós-fordista". Todos insistem sobre três elementos.

1. Na sociedade produtiva pós-fordista (mas também, neste caso, "pós-taylorista") a natureza do trabalho transformou-se completamente. A força de trabalho que, criando mais-valia, hoje se coloca, hegemonicamente, no centro do sistema produtivo, já é essencialmente imaterial: vale dizer, trabalha de modo intelectual, com empreendimento autônomo e com fortes e independentes capacidades de cooperação.

Simplificando ao máximo: o trabalhador que, ao determinar excedente de produtividade, toma o lugar que ontem era do "metalúrgico", é o técnico da informação e dos serviços, é o produtor de saber e de linguagens: eles trabalham entre "redes" cooperativas, mas, ao mesmo tempo, são autônomos na criação de valor.

2. Por conseguinte, o lugar onde se produz o excedente de produtividade já não é a fábrica, nem o sistema da grande indústria, mas o conjunto de "redes" sociais por meio das quais essa massa de trabalhadores imateriais aprende, coloca-se em contato, comunica, inventa, produz mercadorias -e faz tudo isso reproduzindo subjetividades. Porque somente a alma e o cérebro produzem hoje excedente. A produção, portanto, atinge a vida; melhor, a relação produtiva instaura-se na relação social, e ambas se apresentam como facetas de um único conjunto, "biopolítico" (era assim que Foucault o chamava), subjetivo e coletivo, institucional e singular.

Simplificando ao máximo: hoje, não são os "donos das usinas" a gerar produção e excedente, mas o conjunto dos poderes sociais da produção. A escola, a ciência e as instituições científicas, o sistema de comunicação e informação, as instituições sociais, todos os que investem subjetividade nessas "redes", estes são os atores produtivos hoje -e, ainda, todos aqueles sujeitos que, pagos ou não para produzirem, de fato reproduzem subjetividade (primeiras entre todos, as mulheres, esta estranha força de trabalho social, que faz filhos, os educa, gerencia as famílias...).

3. Em terceiro lugar, o novo sistema produtivo apresenta-se como global. Ou seja, como um sistema produtivo que se alarga nas dimensões do orbe terrestre. Nada é excluído. A mobilidade da força de trabalho, a circulação das mercadorias, a onipresença da informação o caracterizam. A produção desterritorializou-se e, com ela, a estrutura "biopolítica" da produção imaterial mundializou-se.

Velha classe operária

Sobre estas três constatações parece haver, então, um amplo consenso. O que significa distinguir-se, como "direita" e "esquerda", como defensores da "liberdade do comércio" ou intransigentes operadores da "igualdade dos cidadãos", como intérpretes dos interesses do capital privado ou defensores dos explorados, depois que a definição deste novo campo tenha sido estabelecida?

No primeiro dos temas que lembramos, é preciso ir logo dizendo que as coisas são bastante complicadas. O conjunto das forças imateriais do novo trabalho produtivo não mostra, de fato, tendências espontâneas de unificação política. Em geral, estas forças não conseguem expressar a unificação de seus interesses específicos. Nada então que possa remeter aos comportamentos da velha classe operária e renovar os faustos de seu solidarismo sindical e político.

É possível, no entanto, identificar novos movimentos, germinais e potentes. Particularmente, mas não só, na Europa, estas novas camadas do trabalho produtivo têm, de fato, produzido algumas situações excepcionais de luta social e, na fase atual, com os seus comportamentos eleitorais, provavelmente estão na base da crise de hegemonia do liberalismo. Isto é o que nos dizem as análises mais afinadas das reviravoltas eleitorais nos EUA, Inglaterra e, agora, na França.


Saudosa e preguiçosa

Estas observações são suficientes para marcar uma tendência de "esquerda" nos comportamentos políticos do conjunto do trabalho imaterial? Certamente, não. Por outro lado, o que a suposta "esquerda" faz para representar com eficácia estas novas camadas da força de trabalho? Nada, nada e mais nada. Saudosa de uma força operária que o processo produtivo marginalizou, e preguiçosa na análise, a esquerda dorme. Quando, ao contrário, ser de esquerda, hoje, significaria tornar-se organizadores coletivos desta nova classe social -uma classe social virtualmente dispon&iacutte;vel a reconstruir uma perspectiva de libertação, para as forças do cérebro e do trabalho.


Nova virtualidade produtiva

É mais fácil, por outro lado, falarmos de "direita" ou de "esquerda" nos outros dois terrenos de transformação que identificamos. Com efeito, está claro que a "direita" -mesmo obrigada a levar em conta as dimensões sociais da produção, em termos "biopolíticos" (na falta dos quais não haveria produção de riqueza)- não quer pagar os custos disso, nem as condições, mas só quer apossar-se novamente do produto do trabalho social. 

A "direita" pratica, em nível mundial, uma feroz política "desinflacionista" dos custos da produção da subjetividade, com consequências terroristas e destrutivas contra a nova virtualidade produtiva.

A "esquerda", ao contrário, deveria se tornar capaz de impor o máximo investimento social, em garantia das melhores condições de produção da subjetividade da força de trabalho. Mas, para fazer isto, ela tem de superar todo o resíduo de corporativismo, toda concepção arcaica, setorial e/ou previdencialista, da despesa pública; e desenvolver, então, o ponto de vista da igualdade como motor de produtividade global do sistema.

Mesmo no que se refere ao tema da globalização dos mercados, a divisão é nítida. Esta passa entre os que, da "direita", limitam o direito de ir-e-vir e de cidadania; e os que, ao contrário, fazem do nomadismo da força de trabalho, da procura de novos espaços de expressão e vida, uma condição irremissível da liberdade e da riqueza.

É paradoxal notar que, só neste terreno, as direitas se trancafiam naquelas estreitíssimas barreiras do Estado-nação, que renegaram ao aderir à globalização dos mercados. A "esquerda", se quiser ser digna de sua aspiração à libertação dos povos, tem de mandar pelos ares esta que é a última aldrava fascista contra o cosmopolitismo e a mestiçagem da força de trabalho intelectual, imaterial, "biopolítica". Como dizia Deleuze, "nós temos de criar o povo por-vir". Logo, não é impossível começarmos a traçar, na condição pós-fordista, a divisão entre "direita" e "esquerda".

 

 

 

 

Tradução Roberta Barni

Folha de S. Paulo

22 de fevereiro de 1998

Por que é difícil esquecer 68

A imagem atual das rebeliões de 30 anos atrás esconde ferida não cicatrizada

 


Maio de 68 em Paris

Celebra-se neste ano o 30º aniversário do movimento de 68. O Estado italiano descobriu uma maneira totalmente paradoxal para comemorar a ocorrência: os dois líderes dos movimentos mais importantes daqueles anos (Sofri, de Lotta Continua, e este articulista, de Potere Operaio) passarão o ano todo no cárcere. E as condenações são salgadas: Sofri terá o seu "fim de pena" em 2010, eu em 2005. Claro, de algum modo seremos libertados antes disso -ao menos espero. Resta o fato desta estranhha coincidência, evidente demonstração de que, ao menos no que concerne à Itália, aquela temporada não terminou.

Todavia, se há um estribilho que ecoa incansável na mídia, não apenas nos outros países europeus, mas também na Itália, é que 68 terminou, é irreproduzível, antigo.

Certamente há coisas do 68 que devem ser recordadas, como a mudança na maneira de se vestir (da minissaia aos jeans), a renova ção da música, uma certa renovação das estruturas de ensino, a liberação da mulher (amiúde reduzida à difusão da pílula), a difusão das drogas leves (que se podia fumar sem tragar, dizem Clinton e Blair) e um certo antiautoritarismo libertário, tão simpático... Mas, em suma, só isso.

Que 68 também foi a redescoberta da luta de classe por parte das gerações mais novas e que a década de 1965 a 1975 foi percorrida por uma onda de lutas anticolonialistas e antiimperialistas, que neste período -de Los Angeles a Praga- a revolta esteve na ordem do dia, bem, isto é tudo o que não deve ser lembrado. E as camisetas ou os bonés com o "X" de Malcomou com o retrato do Che até podem ser objetos meio banais, um tanto inconsequentemente impetuosos, mas inofensivos para as novas gerações, entregues ao esquecimento.

A mim, o esquecimento não é permitido, devido à incômoda situação em que me encontro. Ainda assim, procurando não me deixar envolver por esta situação, pergunto-me se aquelas reevocações superficiais e essas reticências profundas, se aquela pressão para o esquecimento enquanto se finge a comemoração, não estariam escondendo (na atual historiografia filtrada pela mídia) algo de mais doloroso, como se 68 tivesse representado, para as classes dirigentes, um medo enorme, talvez uma ferida profunda que ainda não cicatrizou. E, prosseguindo neste questionamento, vou me convencendo aos poucos que a minha suspeita descobre uma verdade.

O que dizer então para desvelar aquela falsa imagem de 68 e para desmascarar a pérfida rejeição a toda possível consequência atual? O que dizer, o mais friamente possível, "sine ira et studio", quase colocando-se no ponto de vista do poder? Que há alguns elementos irreversíveis determinados por 68, alguns sinais que marcaram definitivamente a história futura. Vamos recordar ao menos dois: um social, o outro político, aliás, estritamente interligados.

O evento social que marca 68 é o fim de um modelo de desenvolvimento e de acúmulo capitalista -isto é, daquele modelo que, organizado nos velhos Estados-nações da segunda metade do século 19, visava a concentração das forças sociais da produção (essencialmente o "big labor" e o "big business"), prometendo uma redistribuição progressiva dos frutos do desenvolvimento. Este modelo, que passou por guerras desastrosas, fora enfim codificado na hegemonia imperial americana, que se impusera a partir do New Deal e se difundira mundialmente após a Segunda Grande Guerra.

Ora, 68 impele ao limite a sustentabilidade deste modelo secular, por mais que este tivesse sido aperfeiçoado pelos "reformismos" convergentes do "big labor" e do "big business" e sustentado, de modo cada vez mais imponente, pelo Estado. Por quê? Porque o nível da demanda social dos trabalhadores, e sobretudo o de seus filhos, geralmente já aculturados, rompe os equilíbrios políticos da reprodução capitalista. Os estudantes que se revoltam, já não são os "filhinhos de papai" das velhas burguesias dominantes, já se tratava das camadas de um novo proletariado. Eles são a antecipação da nova força-trabalho imaterial, fortemente intelectualizada, que, nos 30 anos que se seguiram, observamos se impondo na produção.

Rio de Janeiro, 1968:

passeata dos cem mil


Se 68 foi um movimento dos filhos contra os pais, certamente não foi um movimento romântico; registrava socialmente e antecipava politicamente um novo regime da produção. E esses estudantes, fortalecidos por uma possível hegemonia, não tardam, nos países europeus, a arrastar consigo, no rompimento do sistema, o proletariado urbano das fábricas; nos países americanos, onde as linhas de classe e de cor se entrelaçam profundamente, a revolta instaura-se na dimensão cultural das metrópoles. Eis então um primeiro paradoxo político deste movimento, eis o motivo por que aindafere.

O movimento de 68 é um movimento precursor, cuja força de renovação não se esgotou, e que revela um novo protagonista do processo de liberação da exploração, um protagonista intelectual, porque é assim que o trabalho se tornou -ou seja, tira do empreendimento capitalista a possibilidade (que fora o fundamento da autoridade nos séculos passados) de opor o trabalho intelectual ao manual, de enobrecer o comando por meio do saber.

Deriva daí um segundo paradoxo. Se, por um lado, de fato 68 contesta a organização capitalista da sociedade e do trabalho, por outro lado decreta o fim do "socialismo real", destrói a centralidade político-social do movimento operário tradicional, denuncia no socialismo real o modernizador do capital. Isto não é quanto basta para provocar uma crise de nervos, nas certezas de ontem e na aleatoriedade do hoje, à casta dos poderosos, de direita ou de esquerda? É sim, porque 68 foi e é percebido como o indicador de uma verdadeira "revolução de época": marca o fim do moderno -das relações de força sociais e políticas, das ideologias, das esperanças e das ilusões, da riqueza e da miséria, que eram próprios do moderno. O que acontece depois, nós chamamos de pós-moderno.

Claro, 68 não conseguiu indicar uma forma política, que não a da insurreição, para a organização do novo: mas quem poderia pedir isso? Marcou um ponto irreversível na história do desejo de liberação das multidões; e, se foi uma revolução política falhada, é uma revolução ontológica bem-sucedida. Inumeráveis são os eventos constituintes que seguiram 68, as névoas matinais estão rareando. Como não esperar a configuração de um novo poder constituinte? Como, ao contrário, pretender que, da mídia ao poder, não seja tão constrangedor lembrar, ou mesmo, hipocritamente comemorar o movimento de 68?

 

 

 

 

Tradução Roberta Barni

Folha de S. Paulo

10 de maio de 1998

Antonio Negri relembra os protestos de 68 na Itália,

quando lecionava em Pádua

Em 1968 eu tinha 35 anos. Era comunista, «comunista de esquerda". Era, havia cinco anos, professor titular na Universidade de Pádua - "barão", como justamente se dizia naquela época. O ano de 68, ou seja, a coisa que mais teria desejado poder prever e ver acontecer, pegou-me, inesperadamente, naquela situação paradoxal: era o inimigo (enquanto professor), era o companheiro e o ator (enquanto comunista e homem).


Na Universidade de Pádua, 68 começou num dia de maio. Eu estava realizando uma reunião de trabalho com um grupo de marxistas italianos, Mario Tronti, Alberto Asor Rosa, Luciano Ferrari Bravo, Massimo Cacciari (1) e outros (todas pessoas que já tinham nos ombros dez anos de contestação do sistema, todas pessoas hoje qualificáveis como pré-68) numa sala de minha faculdade. De repente, os estudantes chegaram: disseram-nos que a faculdade estava ocupada e que portanto tínhamos de ir embora. Nós nos felicitamos com eles e pedimos no entanto para que nos deixassem continuar com nosso trabalho, porque éramos "companheiros" e estudiosos da revolução. Disseram-nos que fôssemos embora logo, que eles não estavam estudando, mas fazendo a revolução.

Alguns dias depois, em Veneza, onde morava naquela época, assisti na Faculdade de Arquitetura ao regresso de um grupo de estudantes italianos que vinham de Berlim. Tinham ido para uma visita de estudos e agora se encontravam no meio da revolução. 

Durante horas nos contaram suas experiências berlinenses, nos falaram de Rudi Dutschke e nos descreveram como o proletariado juvenil berlinense tinha sido agrupado sob as bandeiras da juventude revolucionária estudantil. Pela primeira vez ouvimos falar das "comunidades" onde os jovens viviam juntos, na vida, na política e no amor. Pela primeira vez tivemos a narração de como se organizavam os choques com a polícia, de como se libertavam os bairros e de como se realizavam as expropriações proletárias, já que "fundar um banco é um ato muito mais criminoso do que assaltá-lo" (como dizia Bertolt Brecht).No final de junho voltaram da França os primeiros companheiros que participaram da insurreição' parisiense. Vieram a Pádua e Veneza. Sergio Bologna e Giairo Daghini escreveram sobre o "Maio parisiense" o mais belo texto - ao mesmo tempo histórico e crítico que eu conheço. Nós tiramos milhares de cópias, que foram distribuídas nas universidades e nas fábricas.

Ah, claro, as fábricas. Como já disse, em 1968 eu morava em Veneza e ensinava em Pádua. Entre as duas cidades há cerca de 40 km; no meio do caminho está o pólo industrial de Maghera. Já há alguns anos, todos os dias, indo ou voltando das aulas, parava diante das fábricas e fazia um pouco de agitação entre os operários. Em Maghera eram 60 mil operários ao todo; na fábrica em que eu fazia agitação eram uns 6 mil.

No início de junho os operários dessa fábrica decidiram levar o Maio parisiense até Maghera. Decidiram então dar início à luta. Pelo salário, naturalmente, como sempre fazem os operários. Mas o Maio parisiense tinha introduzido uma novidade: desta vez os operários queriam algo escandaloso, um aumento salarial "igual para todos". O patrão disse não, como era óbvio, mas desta vez o sindicato também disse não. Que novidade era aquela? Salário igual para todos? Mas nem na China, para não falar da União Soviética, diziam uma asneira destas.

Certa manhã, bem cedo - era um amanhecer veneziano, pálido e sereno-, nos postamos, uns 20 estudantes e uns 20 operários, diante dos portões da fábrica: em poucas horas realizou-se a paralisação total da produção. Só por uma das portas os pelegos fizeram uma tentativa de entrar: naquele mesmo instante foram destruídos uns cem carros. Em poucos dias, em poucas semanas, toda a zona industrial foi bloqueada. Os estudantes chegavam de Veneza e de Pádua para aprenderem na escola da luta de classes.

Depois se decidiu a marcha sobre Veneza. Foi então que a polícia interveio em massa. A batalha durou uma manhã inteira. No final havia feridos de ambos os lados, mas a polícia teve de se retirar. A luta já era incontrolável. A estação ferroviária de Mestre ficou em chamas, os viadutos que dominam o nó de distribuição rodoviária de todo o norte da Itália estavam bloqueados pelas barricadas, em todos os municípios de onde chegava a força de trabalho de Maghera, num raio de uns 50 km, todos os nós rodoviários estavam interrompidos e as fábricas em greve.

Então, 50 mil operários e estudantes marcharam sobre Veneza, até a praça San Marco, e ali dançaram até a madrugada.
Enquanto isso, a Academia de Belas Artes de Veneza fora ocupada pelos estudantes. os artistas venezianos e aos poucos os do mundo todo, começaram a chegar. organizou-se no mês de junho a sabotagem da Bienal de Arte. Foram discussões intermináveis e formidáveis momentos criativos. Como quando Franco Basaglia, o profeta da antipsiquiatria - então diretor do manicômio de Gorizia, em que já tinha dado inicio a experiência da libertação dos doentes mentais -, veio realizar uma assembléia. Do saber ao salário, da arte à psique, a libertação passava onde quer que fosse.

O pintor Vedova e o músico Nono organizaram a contestação da Bienal de Arte: novos choques com a polícia. Zavattini veio no verão pronto para contestar a Bienal cinematográfica; começamos a conectar os operários de Maghera e os cineastas, músicos e pintores. A conclusão desses encontros foi estranha: muitos se puseram a trabalhar sobre a saúde na fábrica, a criar núcleos de assistência aos doentes de câncer e de enfisema (que a fábrica produzia). Foi então que conheci os primeiros ecologistas.



Depois do verão, naturalmente, a universidade tornou a abrir as portas, sob a direção dos estudantes dos comitês de ocupação. Finalmente pude começar a ensinar de novo. Mas tinha de ensinar o que os estudantes me pediam para ensinar Tinha de estudar muito para responder às suas solicitações, mas era muito bonito ter diante de si homens vivos e não almas mortas. O outono foi praticamente sem história, tantas as coisas que se acumulavam, tal era o ritmo de aprofundamento da consciência coletiva, a extensão das experiências de vanguarda (nas universidades, nas fábricas, nas comunas). Havia um ar estranho: a revolução inesperada arrastara o adversário, tudo era permitido, a felicidade coletiva era desenfreada.

Veio o inverno. Na época do Natal, contra o consumismo, organizou-se o bloqueio de todos os grandes magazines e shoppings das cidades - em Pádua, Mestre e Veneza. Desta vez a polícia começou a responder com dureza. Houve feridos, em outras cidades até mortos. No Reveillon de 1968 organizamos uma festa enorme, abrindo a universidade a todos. Lembro-me muito bem daquela noite: tomei um porre, creio que pela primeira vez naquele ano inteiro, e fiz xixi na frente da porta do escritório do reitor. Ainda me envergonho disso, e vou me envergonhar sempre. Mas bem que tenho de admitir que aquele ano dissolvera em mim toda a toxina acadêmica e me convencera de que a rebelião é possível.

Nota da tradutora: Mario Tronti e Luciano Ferrari Bravo são dois respeitados estudiosos do movimento operário, com inúmeros livros publicados sobre o tema. Alberto Asor Rosa, teórico da literatura italiana, é autor, entre outros, do clássico Storia Sociale della letteratura Italiana". Massimo Cacciari, filósofo atualmente é prefeito de Veneza. Todos eles são professores universitários.

 

 

 

 

Tradução Roberta Barni

Folha de S. Paulo 

10 de agosto de 1997

Vestígios de um lugar de liberação

Este é o meu primeiro artigo do cárcere de Roma. Mas não quero voltar aqui às razões desta procedência estranha: outros já o fizeram nas páginas de crônica, com maior objetividade e distanciamento do que o autor poderia colocar em suas palavras. 

Mencionar o acontecimento que se deu será suficiente: Toni Negri, depois de 14 anos de exílio na França (em decorrência de condenações políticas depois das lutas dos anos 70, depois de já ter cumprido quatro anos e meio de prisão preventiva, depois de ter saído da prisão em decorrência de sua eleição a deputado), então voltou à Itália para se entregar à Justiça. Foi um ato voluntário, impelido por uma única necessidade: resolver, junto com o seu problema, o de outras centenas de companheiros seus, que ainda estão languescendo nas cadeias pátrias e no exílio; para levantar, deste modo, o tema da anistia. "Sed de hoc satis!" Há um problema, subjacente a este acontecimento, do qual gostaria de falar aqui, e é o da relação entre memória e justiça.

Evidentemente, não posso enfrentar este problema em sua inteireza: a história da filosofia o inclui entre os mais complexos. A teodicéia (ou seja, a justificação da ação de Deus na história) e a dialética (ou seja, a justificação da história do ponto de vista da razão do vencedor) representam, com efeito, respostas ao problema da relação entre justiça e história, entre justiça e memória. A mim interessa-me um lado bem pequeno desta maranha: a relação entre memória política e justiça política, ambas tomadas num momento singular e consideradas do ponto de vista da subjetividade dos atores. Neste quadro existem duas memórias e duas justiças, quase sempre uma armada contra a outra. A sua relação é de luta. O que é justo na ação de uma parte torna-se injusto na memória da outra parte; e a memória de uma parte anula a justiça da ação da outra.

Esta operação de neutralização é o que aqui resulta particularmente interessante. Vale dizer que a vitória de uma parte sobre a outra tem efeitos ontológicos, determina um cancelamento de memória para os vencidos, estabelece a unilateralidade do conceito (e da relativa função) de justiça. O vencedor determina justiça e memória. Mas até que ponto este evento se instala no âmago da história? Até que ponto a vontade do vencedor pode ter efeitos totais?
Entre os presentes envenenados que o século 20 nos deu, há o totalitarismo. Não estou falando somente daquele com "T" maiúscula. Este desagregou as sociedades democráticas e, parafraseando Benjamin, destruiu os elementos ligados a seus sonhos e seus primórdios, renegando a solidariedade com uma sociedade futura; com a própria humanidade. Não, eu estou falando mesmo do totalitarismo com "t" minúsculo, daquele pequeno, que, numa sociedade dominada pela velocidade das imagens e da comunicação, faz da relação entre justiça e memória uma vicissitude de interdições, de ostracismos, de exclusões, tão frágeis quanto onipresentes; um enredo de linchagens e falsificações, tão violentas quanto permanentes.

Esta é a relação menor -totalitária, mas menor- que aqui me interessa -que já resulta mais destrutiva que tudo o que as grandes máquinas do Totalitarismo conseguem produzir. Em relação a estas últimas, de fato, as vicissitudes horrorosas do século 20, se não nos imunizaram, de algum modo nos dispuseram a uma crítica atenta e ininterrupta. Mas, contra a pequena e alastrante redução de justiça e memória a "urgências" do poder, o que nos salva? Daquela droga da falsificação, injetada a cada dia, quem nos preserva? Como é que a consciência pode evitar uma contaminação?

 
Estou colocando questões ingênuas? Claro. Qualquer publicitário ou jornalista pode me responder que a razão de Estado de outrora transformou-se hoje numa máquina arborescente e eficaz, articulada e coerente para a produção da "justiça" e para a manipulação da memória histórica. Mas o problema permanece: até que ponto este acontecimento se instala no âmago da história? Como é possível, no pós-moderno, reivindicar outra memória e pedir outra justiça? Certamente esta questão não é ingênua. Com efeito, tenta repropor o tema da práxis e da responsabilidade no interior de um mundo que, em sua própria estruturação, predetermina os seus sentidos. Como impedir que a justiça do vencedor elimine a memória dos vencidos? Como reabrir, na vida cotidiana, uma relação entre justiça e memória que não seja unilateral e repressiva?

Eu não tenho respostas para esta questão. E não me parece que se possa dar uma resposta reduzindo a nossa condição a um evento kafkiano (ainda quando assim for) nem se entregando, como faz Benjamin, a um "angelus novus" da revolta (ainda que se tenha feito esta experiência) que transcende a violência da falsificação. Não, deve haver algo de real que permanece no fundo da história -ali onde a derrota se deu e foi sofrida-, algo que é como uma pequena, mas irresistível, modificação da história e do homem. Algo inesquecível. Talvez este seja o novo Prometeu da era da comunicação pós-moderna, aquele que rouba uma centelha do ciúme dos deuses para doá-la aos vencidos. 

Eu realmente não sei se esta seria a resposta à questão posta. Talvez seja somente a indicação de um lugar de liberação. Ainda que seja no fundo de uma cadeia




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