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dossiê Antonio Negri Bush atacou Iraque para controlar UNIÃO EUROPÉIA, diz Negri
Um dos gurus do movimento antiglobalização, o filósofo italiano Antonio (Toni) Negri diz não ver muita diferença entre o ator Arnold Schwarzenegger, eleito governador da Califórnia, o presidente russo, Vladimir Putin, o norte-americano, George W. Bush, ou o premiê italiano, Silvio Berlusconi. Para Negri, 70, Schwarzenegger não é "um escândalo em particular", mas resultado, como os demais, do monopólio da comunicação e da crise da representação política tradicional. Negri é autor, junto com o americano Michael Hardt, de "Império", que vê na resistência supranacional a única maneira de mudar as bases da globalização, e prepara "Império 2". Esta é a primeira viagem ao Brasil do filósofo, em liberdade depois de cumprir pena pelo sequestro e morte, em 1978, do líder democrata-cristão Aldo Moro. No livro "De Retour", ele afirma que nunca participou de atentados. O filósofo ficou quatro anos em prisão de alta segurança. Em 1983, fugiu para a França, onde se exilou até 1997. Voltou para a Itália, segundo diz, por causa de uma "desilusão amorosa". Foi preso novamente e agora está livre, com seu passaporte de volta. Negri faz hoje no Rio a conferência "As Multidões e o Império", em evento do Ministério da Cultura e pela Universidade Nômade, que reúne intelectuais do Rio e de São Paulo. No evento, será lançada a revista "Global". Ele fará também duas palestras em São Paulo nesta semana. Amante do futebol, torce para o Milan. "É o mesmo time de Berlusconi. Mas quando a gente é torcedor, suporta tudo", disse, em entrevista à Folha.
Folha - Qual é sua opinião sobre o governo Lula?
Antonio Negri - Não posso entrar no debate político interno do Brasil, não sou um conhecedor. Do ponto de vista internacional, Lula e a política externa brasileira tornaram-se muito importantes. É extremamente evidente a presença de Lula na crise do período pré-Iraque. Foi a primeira vez que um país do sul da América teve um papel importante na cena internacional.
Folha - O senhor já disse que a guerra dos EUA contra o Iraque foi um pretexto para atacar a Europa. Por quê?
Negri - É uma longa história. Começa nos anos 70, quando a Europa, pela primeira vez, se aproxima no campo político de uma reorganização interna independente da Otan [a aliança militar com os EUA]. Isso coincide com a primeira crise do petróleo, em 1973. A Europa é dependente, em energia, do Oriente Médio. O que se passa lá é vital para a Europa. Desde que a União Européia progrediu, a luta americana contra a unidade européia tornou-se mais forte. A intervenção estratégica dos EUA no Oriente Médio tem como um de seus elementos fundamentais o controle da Europa e dos recursos energéticos.
Folha - O senhor mencionou a posição brasileira sobre o Iraque, próxima da de países europeus como França e Alemanha. Mas, na reunião da Organização Mundial do Comércio, em Cancún, os EUA se aliaram à Europa em defesa do protecionismo agrícola. Como o senhor vê essa diferença?
Negri - A globalização é um processo que avança e deve avançar. Sou contrário à proteção européia ao mercado agrícola. Mas em Cancún passou-se algo mais importante, o bloqueio a novas privatizações e a novos processos neoliberais. A privatização dos bens comuns foi bloqueada [quando os países pobres rejeitaram a liberalização dos serviços, incluindo a educação, e as regras de investimentos propostas pelos ricos]. Isso, sim, é importante, muito mais do que a questão agrícola -que deverá ser resolvida mais cedo ou mais tarde.
Folha - O senhor vê, na invasão do Iraque -contra a opinião pública mundial e a ONU- o retrato de um poder sem igual na história?
Negri - É verdade que o poderio militar dos EUA é extraordinário, mas não creio que ele seja suficiente. Hoje os EUA não têm meios para manter a ocupação do Iraque nem, em geral, as políticas contra o terrorismo, entre aspas, tal como começaram. Esse poder militar monárquico é condicionado pelo poderio econômico.
Folha - O que acha das previsões de queda do império americano?
Negri - Não penso que exista uma queda do império americano, porque não penso que haja queda do império de ninguém. Talvez seja verdadeiro que o auge do poder americano já passou, foi a fase dos anos 30 aos 70. É evidente que os EUA participaram de maneira profunda da construção do que é a civilização hoje. Mas esse período talvez tenha terminado. O império, a constituição de uma ordem global, vai além dos EUA.
Folha - O senhor fala de império sem imperialismo, considerando ultrapassada a idéia de Estado-nação. Mas a globalização hoje beneficia alguns países, em detrimento de outros.
Negri - Estou completamente de acordo, posso dizer até pior: temos uma espécie de hierarquia rígida na constituição mundial. Os países do centro são países que vão ganhar nesse processo. Isso é evidente. Seria completamente idiota negar isso, mas é igualmente idiota pensar que as nações possam, um, quebrar esse processo de globalização, dois, ter uma função protagonista na repartição da riqueza mundial. Quem são as nações? São os patrões, os que aqui criaram as favelas, a mais forte divisão de classe, o racismo. São essas as pessoas que querem defender os princípios nacionais diante da América e da Europa. A globalização é um fato, mas é preciso organizá-la. A luta é sobre quem organizará a globalização. Se essa organização será democrática, é preciso definir o que é democracia, e não é nem a democracia americana nem a brasileira. A opinião pública, tanto na América quanto no Brasil, está dopada, falsificada. O problema é esse.
Berlim 2004: manifestação contra a invasão do Iraque Folha - O que é hoje ser de direita ou de esquerda?
Negri - A Itália tem um governo de direita, mas sei que na direita italiana há um ministro fascista que propôs o direito de voto aos imigrantes. Isso sei que é algo da esquerda. Tenho alguns critérios, que são muito simples: preferir o comum ao privado, por exemplo. A esquerda prefere o que é comum. Não simplesmente o público, mas o que é comum, como a água, os recursos. Não privatizar isso é de esquerda. É de esquerda reapropriar os meios de produção, e é de direita privatizá-los. Resta a todo mundo decidir se é de direita ou de esquerda. Não há confusão de idéias, há confusão de práticas.
Folha - Como avalia a eleição de Arnold Schwarzenegger para o governo da Califórnia?
Negri - Tenho a impressão de que, fora dos movimentos democráticos, tudo pode acontecer: Schwarzenegger, [Jörg] Haider [na Áustria], ou Berlusconi, na Itália. Gostaria de saber por que [José Maria] Aznar [primeiro-ministro espanhol] ou Putin devem ser considerados muito diferentes de Schwarzenegger. Os meios para produzi-los são os mesmos, é o monopólio da comunicação. Com Bush é um pouco diferente, porque os dois são equivalentes. Não sei se Schwarzenegger é um escândalo em particular. É um escândalo, é evidente, que ele tenha se tornado chefe de um país de 35 milhões [a Califórnia], a sexta potência do mundo, do ponto de vista econômico, é uma loucura, dá medo.
Madri 2004: manifestação contra a invasão do Iraque Folha - O senhor crê que há uma separação entre as representações dos países -Bush, Putin- e os países em si?
Negri - Creio que a representação política, tal como foi formada na modernidade, está em crise. Essa representação fundada nas regras da democracia formal está em crise. E em crise radical. Há poderes que apareceram, em particular o poder dos "media", que estão fora de controle. São eles que decidem, de maneira fundamental, sobre a representação. A criação do imaginário humano não é mais a que existia no começo da democracia. Todas as regras da representação são completamente transgredidas. Estão em crise. O problema não é Putin. É por isso que os movimentos sociais são tão importantes, porque são a construção do imaginário, a expressão da necessidade, do desejo. O problema é reinventar as formas de representação. É preciso colocar esse problema, tanto nos velhos espaços nacionais quanto nos espaços globais.
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Rachel Bertol 11 de outubro de 2003 O Globo |
A CONQUISTA DA LIBERDADE
O italiano Antonio Negri, de 71 anos, que chega ao Brasil hoje (sábado, 11 de outubro), disse em entrevista exclusiva ao GLOBO que está realizando a sua primeira verdadeira viagem desde que conquistou a liberdade, em abril deste ano. O filósofo passou 25 anos preso e no exílio devido à sua militância na esquerda, na época em que o líder da democracia cristã italiana, Aldo Moro, foi seqüestrado e morto pelas Brigadas Vermelhas. Co-autor com o americano Michael Hardt de Império, que foi lançado em 2000 e se tornou uma referência para a compreensão dos movimentos de resistência no pós-Guerra Fria, Negri fará uma série de palestras no Brasil. A primeira, nesta segunda-feira, no Palácio Capanema (Rua da Imprensa 16), às 17h, no lançamento do número 1 da revista Global, uma publicação da rede Universidade Nômade. O ministro Gilberto Gil deve estar presente. No dia 31 de outubro, Negri participará do encontro mundial dos Estados Gerais da Psicanálise, no Hotel Glória. Antes, passará quatro dias na Argentina, onde também é aguardado com ansiedade. O filósofo lançará pela DP&A Kayròs, Alma Venus, Multitudo — Nove lições ensinadas a mim mesmo e Guias: cinco lições sobre o Império. No momento, finaliza com Hardt o segundo volume de Império, a ser lançado em 2004. Nesta entrevista por telefone de Roma, quarta-feira, Negri analisou a guerra, Schwarzenegger, Lula e muitas outras questões.
O Globo - Como está a vida agora, depois de tanto tempo preso? O senhor se sente aliviado?
NEGRI: É evidente. É um desejo de liberdade que ainda está comprimido, tão forte que encontra dificuldades a ser dito. E fica-se assim meio tímido, ainda não livre completamente. A liberdade é algo difícil de gozar, de conquistar inteiramente. Comecei a viajar um pouco, estive na França, na Alemanha e na Eslovênia. Depois de 25 anos, é a primeira vez que tenho meus documentos. Mas é difícil dizer... É divertido (diz rindo) , é contraditório. Antes eu também podia encontrar as pessoas e vejo que a liberdade dos outros é tão importante quanto a minha. Algumas vezes me pergunto se não é muito cansativo ser livre. Porque é preciso viajar e eu sou agora um velho senhor. Vinte e cinco anos é muito tempo. Além do mais, nas viagens nunca sabemos o que vamos encontrar. E viajar é sempre insuficiente. Seria preciso residir, morar, ficar no lugar muito tempo para verdadeiramente viajar.
O Globo - Hoje as viagens que costumamos fazer seriam como olhar TV, ver um filme...
NEGRI: É preciso evitar a todo custo que viajar seja turismo. O turismo é uma grande doença. É mesmo como olhar a TV. Mas a viagem ao Brasil é a primeira verdadeira que farei. E eu não conheço o Brasil, um país formidável, onde se pode tentar novos sentimentos, novas experiências. Não farei turismo e acho que nem é uma viagem (ri muito) , é na verdade um deslocamento. Eu deveria ter ido ao Brasil em 1986, quando houve pela primeira vez a co-habitação no governo francês entre o presidente Mitterrand e a direita. Fiquei em situação difícil. Eu estava no exílio há três anos e foi um homem de São Paulo, Fernando Henrique Cardoso, quem cuidou da possibilidade de eu ir a Campinas, na universidade. Mas, finalmente, não foi necessário.
O Globo - O senhor chega no momento em que o governo Lula enfrenta muitos dilemas em seu próprio partido. Acredita que esses dilemas nascem de uma incompreensão da realidade?
NEGRI: Para mim é muito difícil responder a esta pergunta. Conheci Lula na França e sempre acompanhei seu trabalho com muita simpatia e fraternidade. Não sei bem o que acontece no Brasil, mas vejo a transformação da imagem de Lula no nível mundial. Tenho a impressão, de fora, que o governo Lula aceitou as condições da globalização. E percebo, pelo julgamento que se faz dele na Europa, mesmo na esquerda, que ele tenta a grande transformação hoje necessária entre a velha esquerda nacional e uma nova esquerda mundialista, global. O custo dessa transformação, dessa passagem, pode ser muito pesado, mas é preciso pagá-lo. Isso vale para a esquerda no mundo todo.
O Globo - Mas talvez o que esteja incomodando é que não se vê bem onde estão esquerda e direita...
NEGRI: Mas tenho certeza de que há diferença. Por exemplo, em Cancun sabia-se com clareza onde estavam, mas de fato há uma certa confusão, uma troca de papéis. Na Itália, hoje, é quase impossível saber onde estão esquerda e direita. Há gente de direita pedindo a permissão para os imigrantes votarem nas eleições locais e a esquerda nunca pediu isso.
O Globo - Hoje (quarta-feira), temos essa novidade nos EUA que é a eleição de Arnold Schwarzenegger na Califórnia...
NEGRI: É bom, não? (pergunta rindo muito) . Eu gosto muito de Schwarzenegger: é um violador de mulheres, um nazista... Parece que na juventude ele declarou sua admiração por Hitler. É uma verdadeira demonstração da democracia americana.
centro financeiro Manhattan, 11 de setembro de 2001 O Globo - Também é coisa de cinema, como o 11 de setembro...
NEGRI: Justamente, a representação, a democracia representativa, está em crise no mundo todo. De fato, não conseguimos mais compreender, do ponto de vista da comunicação, onde estão esquerda ou direita. A representação política está em crise sob esse ponto de vista. É preciso conseguir entender o que é a esquerda ou a direita, ou melhor, o que é o Império e a multidão, o que é biopoder, potência, resistência. É preciso mudar completamente nossas categorias de pensamento. Saímos de uma época na qual muitas coisas aconteceram, coisas demais, e as categorias que temos hoje na análise política se tornaram obsoletas, não correspondem mais à realidade. É preciso, portanto, com muita prudência e inteligência, procurar compreender o que significa hoje soberania, direita, esquerda, representação. A conclusão da nossa prudente pesquisa será mudar esses termos por outros e, sobretudo, evitar a manipulação sistemática e contínua. Este senhor, o Arnold, não é um escândalo — é lógico. E o terrível é isso: não é um escândalo. Ele foi eleito, é a lógica do sistema.
O Globo - É como se houvesse um vazio...
NEGRI: É totalmente vazio. Os grandes autores da ficção científica estão muito mais próximos da realidade do que nós. Estamos completamente dentro desse jogo perverso, pervertido. E talvez Arnold venha a ser um governador melhor que os políticos profissionais. Veremos. Não é melhor, nem pior. O Globo - Estaria a cena política tradicional, que acompanhamos nos jornais, muito distante das forças que de fato mudam a realidade?
NEGRI: Sim, é uma cena política completamente vazia de significados. O que faz mudar as coisas é o trabalho dos homens, a fadiga de viver, o esforço cotidiano que as pessoas fazem para compreender a realidade, são as lutas... Veja o que aconteceu no Iraque. É algo inacreditável. Estávamos convencidos de que o poder americano era tão forte que tudo terminaria em semanas ou meses. Que as relações de força já estavam definidas. Mas tudo está ainda aberto. Não sei se ficou pior ou melhor, quero dizer simplesmente que está aberto. Não há absolutamente nenhum controle. Todas as informações, todas as imagens de que dispomos são imagens nas quais temos uma prefiguração do mundo que não corresponde à realidade. Não há possibilidade de fazer previsões. O adversário, ou melhor, o patrão, não tem consciência de si próprio. É um mundo à imagem de Arnold. Mas embaixo, em outro lugar, há coisas muito mais importantes acontecendo: a luta de classes, a luta pelo poder, as grandes tensões pela liberdade, pelo bem-estar, a busca da alegria. Tudo não se resume a essa espécie de delírio pós-moderno. Há novas relações de força, novas relações morais e éticas, principalmente, mas também políticas. Quer dizer, há resistência, indignação em relação a um poder idiota e vazio. Quando a resistência começa a se identificar com a liberdade então isso significa que algo deve mudar profundamente.
O Globo - Por que diz isso?
NEGRI: Porque tenho a impressão de que não podemos aceitar a forma com a qual o poder se faz representar. Arnold, por exemplo, há duas possibilidades de vê-lo: considerar tudo igual, então tanto faz que o governador seja ele ou o democrata Gray Davis; ou reconhecer que não há diferença, que a representação não tem significado, mas nós resistimos, queremos a liberdade, a representação. Queremos inventar a democracia de novo. Não podemos permitir que a democracia, um valor fundamental para os homens, seja reduzida a esse vazio de significação e sentido. E já existem caminhos. Por exemplo, os movimentos antiglobais que não são antiglobais, mas new-global , que levantam novos problemas. Devemos nos perguntar em que nível está se reconstruindo a democracia, o prazer de viver, de reproduzir liberdade. São problemas, talvez, aos quais Lula esteja respondendo, e talvez haja erros nessa resposta. É preciso rever muita coisa. Reexaminar, estudar novamente muita coisa. Muitas das dificuldades que existem hoje no Brasil são ligadas às dificuldades e à incapacidade de rever as coisas a partir dos novos terrenos em que elas se constituíram, em que se determinaram.
O Globo - O senhor se tornou mais pessimista depois do 11 de setembro?
NEGRI: (Ele ri) É impossível não ser um pouco pessimista. E, apesar da opinião que se tem a meu respeito, eu nunca fui um grande otimista. Em todo caso, o 11 de setembro abriu uma nova fase na constituição do Império. Os americanos deram uma espécie de golpe de Estado no Império e não foram bem-sucedidos — e isso já é alguma coisa. Não são apenas os iraquianos que resistem, são as Nações Unidas, são os outros elementos da aristocracia mundial que se recusam a pagar a guerra do Iraque. Isso me parece muito importante.
O Globo - Resistem à guerra como um novo fundamento...
NEGRI: Os americanos tentam fazer da guerra o fundamento do Império. Mas é preciso evitar que a guerra se torne o elemento de legitimação novo do Império.
O Globo - É o desafio do momento?
NEGRI: Talvez, e sob esse ponto de vista é preciso reavaliar a política de Lula e de todas as outras potências, de todos os movimentos. Estamos diante do problema da organização do mundo. Não podemos resolver os problemas falando de imperialismo, retomando antigas categorias da tradição socialista. É preciso realmente se confrontar ao novo. E o pós-moderno não é uma situação simplesmente literária, mas algo profundo e nossa análise deve ir além dos fenômenos mais superficiais, como Arnold. É um sinal, mas há sinais que criam caminhos perversos, sinais de morte. É preciso distinguir entre sinais positivos e sinais de degradação, de corrupção.
O Globo - O senhor fala de tudo isso em “Império II”?
NEGRI: Falamos sobretudo do sujeito, da multidão. Falamos do comum, portanto, do comunismo. Falamos da única esperança que temos que é a construção de bens comuns. É centrado na democracia e na multidão. A guerra é só o começo. O livro está mais ou menos pronto, terá cerca de 300 páginas. Sairá em 2004. O primeiro “Império” analisa a evolução das formas políticas e o segundo estuda o sujeito político.
O Globo - Desde o lançamento de “Império”, ganharam força os movimentos de protesto tipo Seattle, mas também se fortaleceu o terrorismo, que também se beneficia dessa realidade errática da globalização...
NEGRI: Não são dois lados, mas uma dialética necessária, um e outro. Há muitos terrorismos. O terrorismo de Estado, o terrorismo islâmico, há fenômenos terroristas difundidos um pouco por tudo, há a vontade dos governos de chamar de terrorismo tudo o que se move. Hoje todas as revoltas de pobres são chamadas de terrorismo. Mas atrás disso há os fenômenos terroristas verdadeiros. Só que eu não sei qual é a diferença entre Bin Laden e Ariel Sharon.
Tanque de Israel no Líbano [2006] O Globo - Israel está tornando um Estado de terror?
NEGRI: Eu vivi a construção de Israel trabalhando num kibutz, eu era verdadeiramente ligado a esse país. Mas é terrível o que acontece lá hoje. Eu repito o que dizem muito israelenses: o sionismo terminou e encontramo-nos numa situação terrível. Eu esperava que a paz e os tratados de Oslo se tornassem definitivos, assim como muitos israelenses e palestinos. É a primeira vez que temo por Israel. É um país que amo muito. Eles estão numa situação desesperadora. A única possibilidade de sair dela é a busca da paz. Ela está longe, mas estamos numa situação em que o Império está aí. E o Império é um processo. O problema é como uma nova ordem vai determinar as regras do mercado mundial, não apenas do mercado das mercadorias, mas do mercado político, das relações entre países, das relações entre as multidões. Tudo isso é um processo que se abriu de uma maneira definitiva depois da queda da União Soviética. Estamos no meio dessa passagem, que é enorme e à qual devemos olhar com muita humildade, com muita inteligência. Devemos agir para construir a democracia e não o terror. E a democracia não é a democracia americana e o terror não é apenas o terror dos que resistem, dos pobres e de tudo isso. É preciso estar atento para mudar os termos, para compreender o que acontece.
O Globo - Que contribuições as diversas partes do mundo podem dar a esse processo?
NEGRI: Há papéis distintos e possibilidades diferentes. Por exemplo, a América Latina pode constituir um pólo importante. É a primeira vez — e tudo isso está muito a favor de Lula — que começamos a falar da América Latina como um sujeito na ordem internacional. Sempre se considerou a América Latina como o último efeito da Doutrina Monroe, e hoje começa-se a falar de uma realidade da América Latina e tudo isso está absolutamente ligado ao que acontece agora no Brasil. E podemos falar da Europa, onde também há uma grande luta democrática a se fazer. Todo o problema da constituição da Europa é um problema enorme, formidável, no qual a Europa pode dar muito ao mundo hoje. E há o problema da democracia no Islã, de uma democracia laica no Islã. Mas tudo isso não se resolverá com os aviões americanos ou através de ocupação militar.
O Globo - Há uma defasagem entre o poder militar e o poder político?
NEGRI: Há diferenças sobretudo entre o poder militar e o econômico. Hoje o poder econômico não está totalmente de acordo com o poder militar de Bush.
O Globo - Há alguma chance de otimismo?
NEGRI: Hoje temos a multidão e talvez a possibilidade de uma revolução, a multidão acelera o tempo da democracia. A democracia é muito mais avançada que as necessidades dos reis. Hoje as pessoas são inteligentes. Se eles votam em Arnold, eles são inteligentes: é um absoluto espetáculo de ironia histórica. Sei que é um paradoxo (ele ri muito) . Mas é assim.
O Globo - Tornou-se quase uma moda intelectual dizer que o poderio americano enfrenta uma decadência irremediável. O senhor concorda?
NEGRI: Os EUA são um grande país democrático e a única possibilidade de se pôr fim à arrogância imperial americana é com a democracia, com a vitória da esquerda. Sem a esquerda americana não se fará nada no mundo. E os EUA já demonstraram muitas vezes a capacidade de serem democráticos até o fundo.
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Roberto Dias Folha de S. Paulo 30 de março de 2003
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Livro explica política no mundo globalizado
Antonio Negri passou a ser um dos nomes mais populares entre os integrantes do movimento antiglobalização desde que lançou "Império" (editora Record) em 2000, livro escrito em parceria com o professor de literatura norte-americano Michael Hardt. Ele está preso desde 1997 em Roma, em regime semi-aberto, acusado de ser o mentor do grupo terrorista Brigadas Vermelhas e de ter planejado o assassinato do deputado Aldo Moro, em 1978. O filósofo italiano teve seu livro descrito pelo "New York Times" como "a primeira grande síntese teórica do novo milênio". "Império" trata da estrutura política que sustenta o mundo globalizado, numa organização que "eliminou conceitos de nação, raça, etnia e povo", como afirma Negri. Os Estados-nações não têm mais controle sobre movimentos de capital ou lutas sociais. A nova configuração política, o império, não tem limites nem está atrelada à busca pela expansão do Estado-nação. Ela regula trocas econômicas e culturais num sistema em que a soberania se baseia na construção de caminhos para novos fluxos mundiais, criadores da vida social, numa inter-relação entre o econômico, o político e o cultural. "Estamos numa situação paradoxal na qual o presidente dos EUA é eleito com financiamento do exterior: o capital dos senhores do petróleo sauditas está tão integrado à direção dos negócios americanos que não se pode mais afirmar que o Estado-nação ainda funciona", diz o escritor. Império, portanto, não trata de imperialismo -e aí reside o que Negri classifica de "confusão" em relação ao uso que tem sido feito de suas idéias para embasar alguns dos pilares do pensamento da esquerda mundial -como o antiamericanismo. "Ser antiamericano é uma idiotice total. O governo americano é o mais importante dos poderes a ser contestados, mas não é o único. Não existiria se as outras classes dirigentes do capitalismo mundial não lhe dessem apoio incondicional", afirma.
"EUA FOGEM DA LÓGICA DO IMPÉRIO"
A guerra não só não é legítima; ela também não é suficiente para erguer uma nova ordem mundial. Não há consenso sobre o conflito. Os EUA se movem fora da legitimidade imperial. Para Negri, autor de "Império", guerra foi golpe de Estado contra outros países dominantes. Ao atacar o Iraque, os EUA escaparam à lógica que deve nortear o império, diz o filósofo italiano Toni Negri, o mais debatido pensador da esquerda européia. Em entrevista à Folha, ele define como "golpe de Estado" a decisão de ir à guerra mesmo sem o aval da ONU. "O Iraque é um pretexto para confrontar a Europa", afirma Negri, 70, em entrevista por telefone de sua casa, em Roma. Sua teoria foi exposta no livro "Império", escrito em parceira com Michael Hardt. A obra se tornou uma espécie de "bíblia" para contestar a ordem mundial. Para Negri, que foi ligado ao grupo terrorista Brigadas Vermelhas nos anos 70, a idéia de império abarca, evidentemente, os EUA, mas é mais ampla que isso. "O conceito de império se caracteriza principalmente pela falta de fronteiras", diz no livro. Daí seu estranhamento pela posição americana, como explica a seguir.
Folha - Em "Império", o sr. diz que a legitimação da ordem imperial não se baseia apenas na força militar, mas também na produção de normas jurídicas internacionais duradouras. Com o que ocorreu na ONU, o que será dessa legitimação?
Toni Negri - Este foi evidentemente um golpe de Estado contra as outras forças que fazem parte, de forma multilateral, deste império. O poder monárquico dos EUA se opôs às posições dos outros países do mundo.
Folha - Seu livro é de 2000, e creio que o sr. já fez reflexões sobre como os atentados terroristas, a doutrina Bush e esta guerra no Iraque se encaixam em sua teoria. Como seria essa continuação?
Negri - O problema fundamental hoje é considerar que a guerra, como está estabelecida pela potência americana, não só não é legítima, mas também não é suficiente para erguer uma ordem mundial. Os EUA não podem pagar a guerra. Não há consenso internacional para ela. Os EUA estão se movendo fora da legitimidade imperial. E, com toda a probabilidade, movem-se também fora de sua Constituição.
Folha - O sr. também fala da importância da razão para o império. Os EUA a perderam?
Negri - Não creio que se possa dizer se os EUA têm ou não razão, porque não são um animal. O que se tem hoje é um grupo que não representa os Estados Unidos. Representa, sobretudo, os interesses de alguns setores poderosos. A questão fundamental não creio que seja americanismo ou antiamericanismo. O problema é que há um grupo nos EUA que talvez nem seja legal, por causa do que aconteceu nas eleições. Pode-se chamar esse grupo de usurpador.
George W. Bush joga cricket no Paquistão [2006]
Folha - Para o império, Bush está mais próximo de ser um Nero ou um Augusto?
Negri - Não sei dizer.
Folha - Mas qual será o posto de Bush na história americana, em que patamar ele estará em relação aos outros presidentes?
Negri - Há uma veia que o vê como um jacksoniano [a teoria jacksoniana diz que o objetivo principal da política externa de Washington deve ser a segurança dos americanos". Não creio que se trate disso. Penso que ele não está na linha de Jackson. Acho que ele será apenas uma exceção negativa.
Folha - Se a concepção imperial necessita de espaço, como o sr. diz, o que devemos esperar agora? Depois de Bagdá, viria Pyongyang?
Negri - Será o Irã, creio eu. Quer dizer, isso é o que vem dos Estados Unidos, eu vivo na província.
Folha - E a Coréia do Norte estaria a seguir?
Negri - Acho que será a China, mas daqui a algum tempo. Na verdade, a Coréia do Norte é um pretexto para a China, assim como o Iraque é um pretexto para confrontar a Europa. E o Irã será um pretexto para a Rússia. Esse é o jogo que está se fazendo agora.
Folha - Immanuel Wallerstein diz que o império americano é decadente, que a economia está fraca e que Washington está isolado. O que o sr. pensa?
Negri - Sou prudente em relação a isso. Talvez haja a decadência desse império de Bush, mas, para os EUA, acho que ainda é uma primavera.
Folha - O que será dos EUA e do Império daqui a dois anos?
Negri - Acho que será importante que a Europa e a América Latina sigam fortes contra a vontade de Bush. Espero que os EUA possam se livrar de Bush. É a esperança que eles podem dar ao mundo agora.
Iraque, 1 de março de 2006
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Francesca Angiolillo 14 de julho de 2001 Folha de S. Paulo |
O FIM DA FRONTEIRA Livro define forma política do Capital Global.
O cientista político italiano Antonio Negri ocupou os jornais nos anos 80 por seu suposto envolvimento com o banho de sangue terrorista nos 70. Entre as acusações contra o professor da universidade de Pádua, estava o assassinato de Aldo Moro, líder do Partido Democrata Cristão. Absolvido do envolvimento concreto com os crimes, em 83, Negri foi acusado de incitar, com sua teoria, o terrorismo. Pediu asilo à França, onde foi professor universitário em Paris. Por 14 anos, viveu sem nenhum documento. No período, foi julgado à revelia e sentenciado a 30 anos. Não foi por ter sido privado dos direitos de cidadão, porém, que, ele se uniu ao norte-americano Michael Hardt para falar de uma nova cidadania em "Império". O livro, que chega ao Brasil até o fim do mês, pela Record, analisa a forma política que rege a economia globalizada. E, surpresa, a noção que usam para definir essa estrutura política é importada da Roma antiga. Para Negri e Hardt, vivemos sob o império. Eles alertam: não se trata do velho "imperialismo ianque". Este pressupõe fronteiras a serem expandidas _e a fronteira acabou. Parte do livro, concebido a partir de 1995, porém, foi escrita de dentro de um lugar com limites bem definidos. Em 97, Negri surpreendeu o mundo ao comunicar que voltaria a seu país. Esperava a anistia; foi levado do avião ao cárcere de Rebibbia, em Roma. De nada adiantou explicar que as perguntas sobre sua atual situação legal - a saber, Negri hoje cumpre prisão domiciliar, tendo de ficar em casa entre 19h e 7h - serviriam para traçar seu perfil sem incorrer em imprecisões. Ele foi irredutível. Prefiro que você erre do que falar sobre isso. Negri falou à Folha, sobre "Império", por telefone, de sua casa, em Roma. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.
Folha - Como podemos definir o império que dá título ao livro? Antonio Negri - Quando se diz império, falamos da forma política do mercado global. Não é possível imaginar um mercado sem um poder político que o atravesse. O conceito de império se volta para evitar a confusão com imperialismo, que era uma simples expansão do Estado-nação, enquanto o império é uma forma política que não tem confins. E, sobretudo, não tem só forças localizadas, como o Estado-nação. O império tem uma grande vantagem teórica, que foi ter mandado pelos ares os conceitos de nação, raça, etnia. E até de povo. Folha - O sr. acredita que as culturas locais possam ser aniquiladas pela erradicação das fronteiras? Negri - Não. Acho que o império as está esmagando, mas tenho também a convicção de que essas culturas não possam se defender simplesmente insistindo sobre a sua individualidade. Precisamos de novas formas de solidariedade internacional, de culturas híbridas para abater o império. Folha - Pelo que deve lutar, o que aspira o cidadão do império? Negri - Capacidade de viver. As necessidades da vida cresceram muito. Entre o Negri do passado e o Negri que agora escreve "Império" com Michael Hardt existe uma diferença de gerações, em termos de necessidades, sensibilidades, capacidade de uso da linguagem. Quando entramos no poder do capital sobre o real, criamos situações de não-trabalho, de resistência, que possibilitam disparar contra o capital. Folha - A greve ainda funciona? Negri - Não falo de greve. Hoje seu cérebro é o instrumento da produção, não foi seu patrão que o forneceu. Foi você quem criou. Antes, você ia trabalhar numa fábrica e seu patrão antecipava o instrumento. Você não precisa mais disso: você transita nessa globalidade, é alguém capaz de conquistar sua própria liberdade. Folha - As manifestações que, nos últimos anos, acompanham os encontros ligados ao capital global são sinais dessa liberdade? Negri - Em parte. Principalmente quando pedem três coisas fundamentais: o direito de cidadania global; uma garantia de salário que possibilite viver (e, paralelamente, tudo o que está ligado à ecologia, à capacidade de respirar, comer bem); e, por fim, a possibilidade de se apropriar dos instrumentos de transformações técnicas e científicas mais altas.
2006: Manifestação em Caen, França, contra a Lei do Primeiro Emprego Folha - Esses protestos são a semente de uma revolução global capaz de fazer frente ao império? Negri - Não sou um profeta, mas sei que há condições enormes que se reabriram contra a globalização. A reorganização dos pobres e, acredito, até a luta de classes, que foi superada, serão retomados no bojo desse movimento. Isto posto, resta o problema fundamental que é aquele de como tudo isso poderá se constituir em um pólo de luta pela transformação radical do que existe. Acredito que os mecanismos de representação, aqueles da velha democracia burguesa (e também do socialismo), devem ser, de algum modo, superados. É preciso substitui-los pela expressão, vista como prática política contínua. Folha - A ação do chamado terceiro setor e das organizações não-governamentais, que chegam a suprir responsabilidades do Estado, institucionalizam essa expressão? Negri - Há nesses movimentos energias muito positivas, mas é preciso estar atento, porque são instrumentos que suprem o que seriam carências do capital. Em "Império", dizemos que muitas vezes essas organizações parecem as grandes ordens mendicantes da Idade Média (os dominicanos, os franciscanos), que, na prática, faziam caridade. Ninguém pode negar sua generosidade, mas essas ordens cobriram as necessidades imperiais. É mandatório retomar a riqueza coletiva e distribuí-la. Folha - Uma das epígrafes do livro é uma frase da cantora Ani di Franco, que diz que, sabendo usá-la, toda ferramenta é uma arma. Qual é nossa arma ideal? Negri -A inteligência, essa ferramenta que todos nós temos. Temos o martelo no cérebro. Temos uma arma que podemos utilizar.
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publicado na coletânea O trabalho da multidão. Editora Gryphos, 2002 |
O QUILOMBO ARGENTINO E O TRABALHO
DA MULTIDÃO Antonio Negri e Giuseppe Cocco
Quanto mais nos adentramos nessa primeira
década do século XXI, mais firme é a
Na Argentina, a multidão apareceu
como sendo o "conteúdo do qual o Império
é o
Da mesma maneira como aconteceu nos
países socialistas, a
crise do
2 - Para uma
reflexão critica sobre o FSM de POA, vide o documento
coletivo, 3 - Jacques
Rancière, "Peuple ou Multitudes?". Entrevista com Eric
Alliez. 4 - Para uma
problematização do movimento argentino nessa
perspectiva, vide 5 - "Los gordos"; é
assim que são chamados os membros da cúpula dos
sindicatos 6 - A "liturgia peronista
(tinha) desaparecido desde a campanha eleitoral que 7 - J. Rancière,
Ibid. 8 - Para Fernando Henrique
Cardoso não foi muito diferente. Ele não apenas 9 - M. Merleau Ponty, "Le
Visible et l'Invisible. Paris. Gallimard. 1964, pág. 10 - "La Trama de la
Crisis", cit., pág. 21. 11 - O "escrache"
é uma forma de luta praticada pela
associação Hijos, de 12 - Jacques Rancière, cit., pág. 96.
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Rachel Bertol O GLOBO 4 de agosto de 2001
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HOUVE UMA RECOMPOSIÇÃO DO CICLO DE LUTAS
Toni Negri afirma que o poder não o perdoou: em outubro de 2003 completará 17 anos preso, embora com intervalos, além de ter vivido 13 anos no exílio. Entregou-se em 1997 às autoridades italianas e desde abril deste ano vive em regime de prisão domiciliar. Nos anos 80, quando morava na França, chegou a cogitar a possibilidade de se mudar para o Brasil. Ele conta que quem muito o ajudou então foi o atual presidente Fernando Henrique Cardoso.
Rachel Bertol: Em seu livro, o senhor diz que as principais revoltas dos anos 90 eram incomunicáveis, muito auto-centradas. Isso mudou agora? ANTONIO NEGRI: No século XX tivemos ciclos de lutas que modificaram a relação de força das massas, do proletariado com o capital e a organização industrial. Como em 1917. Foi por causa da Revolução Russa que os EUA implementaram o New Deal, para não se tornarem uma nova URSS. Foram lutas que transformaram as relações sociais. Mas desde os anos 70 não tivemos mais lutas cíclicas. Mesmo lutas muito importantes - como Chiapas no México e o massacre da Praça da Paz Celestial, em Pequim - eram auto-centradas, não formavam um ciclo. No entanto, depois de Seattle, em 1999, houve uma recomposição do ciclo de lutas. Acabamos o livro em 1997, mas lá dizíamos esperar uma recomposição, que começa a se tornar possível. Sempre me perguntam se estamos diante de um novo 68. Certamente não é isso, porque as características são diversas. Mas é algo que recompõe as lutas no nível mundial, que recompõe a multidão contra o Império. Rachel Bertol: Foi uma coincidência a explosão dessas lutas ter ocorrido no seu país? NEGRI: Não acho que foi um fato ligado ao governo Berlusconi. Se a esquerda estivesse no poder, como há três meses, não sei se a resposta da polícia teria sido a mesma, mas penso que o movimento de Gênova não é um movimento de esquerda, no sentido que a esquerda social-democrata e os antigos comunistas podem imaginar. É um movimento novo, que nada tem a ver com a velha esquerda mumificada em seus dogmas, em sua besteira. A maneira como a esquerda italiana se comportou sobre Gênova foi simplesmente ridícula. Disseram estar de acordo com os manifestantes, depois se retiraram, depois pediram uma comissão de inquérito, depois disseram que bastava uma breve análise. São uns covardes. Não são muito diferentes de Berlusconi. Não entenderam que o mundo mudou. Rachel Bertol: Seu livro saiu na Itália? NEGRI: Não. É preciso perguntar às editoras italianas por que. Parece que na Itália meu nome está banido. Esta semana, saiu no Corriere della Sera, o grande jornal da burguesia italiana, uma entrevista comigo, pela primeira vez muito gentil. Parece que estão começando a se interessar pelo livro. Rachel Bertol: Com os protestos em Gênova houve uma atenção maior sobre Império, então? NEGRI: O mais importante foi a possibilidade de dizermos que não se trata de um movimento antiglobalização. Usar esta expressão é ridículo. Na Itália, na Europa em geral, todos são a favor da globalização. Os manifestantes são contra a globalização que está aí, o que não significa ser a favor do nacionalismo e do Estado-nação. A nação é sempre fascista. Não há mais possibilidade de considerar a nação, mesmo a mais liberal, senão como fascista. O Império concentra poderes que antes eram do Estado-nação. Há uma transferência de soberania. E acontece com três características importantes da soberania: o poder sobre o Exército, sobre a bomba, que é hoje um poder imperial; o poder sobre a moeda, sobre o valor da moeda; e um terceiro poder que é o da língua, sobre a comunicação, o imaginário. Há uma incapacidade de compreensão profunda, uma violência radical que está na base de uma evolução, de uma transformação dos homens e de sua cabeça. Quando acusamos as pessoas de serem contra a globalização, acusamos pessoas que querem uma antiglobalização anticapitalista. Querem ser livres, autônomas. Rachel Bertol: É um momento em que os poderes imperiais irão recalibrar seus instrumentos? NEGRI: A pergunta equivale a esta: existe a possibilidade de o império republicano que tivemos até agora se transformar num império bizantino? Com Bush e seu escudo de defesa antimísseis, tenho a impressão de ver uma transformação da imagem do poder para algo bizantino. Como se fosse um mosaico numa igreja bizantina, no qual há os apóstolos e os sinais do apocalipse, mas com os quais não se pode mais ter relação. Não sei quais serão as conseqüências porque o Império não nasce no plano das instituições políticas; ele nasce depois das transformações. Para os patrões seria muito bom continuar no Estado-nação, com hierarquias definidas. Éramos tranqüilos.
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Vitor Aiello Tsu Folha de S. Paulo 24 de setembro de 2000 |
A NOVA SOBERANIA
Se muitos impérios foram declarados ao longo dos últimos 2.000 anos, só agora o conceito está se realizando integralmente, pois é a primeira vez que se vê uma forma verdadeiramente ilimitada de poder, que ultrapassa a própria noção de Estado. O Império está se materializando diante de nossos olhos." A nova ordem mundial, produto de uma nova forma de soberania, baseada no poderio econômico, no monopólio da "arma final" e na ampliação da velocidade e quantidade da troca de informação em nível global, constituiu-se. Dela não se pode fugir. O Império não tem concorrentes e engloba toda e qualquer faceta da vida humana. Só se pode esperar que os trabalhadores se organizem e consigam se emancipar do círculo vicioso do capital. Isso se for desejável criar uma "globalização democrática", em oposição a uma "globalização capitalista". Essas são as premissas do livro "Empire" (Império), de Antonio Negri e Michael Hardt, que tem causado controvérsias na discussão política contemporânea, principalmente por se propor um "Manifesto Comunista" _bem ao estilo de Marx, como se pode ver pela frase que abre o livro e é reproduzida no início deste texto_ para o século 21. Publicado há pouco nos EUA pela editora da Universidade Harvard e com lançamento previsto para o Brasil no ano que vem pela Record, o volume negro de mais de 500 páginas, no entanto, parece estar bem longe daquilo que seria a leitura de cabeceira de um operário médio. Além disso, ele não é tanto uma proposta de ação para a parcela dos dominados no regime capitalista quanto uma crítica à sociedade que vem se constituindo nos últimos anos, marcada, entre outros acontecimentos, pelas trocas cada vez mais aceleradas de informação e pela intervenção militar da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) em Kosovo em nome da justiça e contra a limpeza étnica _já que o Império dedica suas ações à paz, mas suas práticas sempre envolvem forte poderio militar. O cientista social e filósofo Antonio Negri, após viver 14 anos exilado em Paris (França), retornou voluntariamente à Itália e, desde 1997, cumpre pena na prisão de Rebibbia, em Roma - atualmente em regime semi-aberto. Negri havia sido condenado a 13 anos de prisão
FOLHA — O que é o Império?
Antonio Negri — O Império é a Constituição do mercado global. Naturalmente, quando se fala em Constituição, entendem-se duas coisas: o ordenamento jurídico e o comando. O comando imperial já está constituído, o ordenamento jurídico está em via de constituição.
Michael Hardt — Império é o nosso nome para a forma política da globalização capitalista. O termo Império, no entanto, tem uma longa história. Nossa compreensão do termo deriva primariamente da Roma antiga e é filtrada pela civilização européia. A noção tradicional do Império é definida por domínio ilimitado em pelo menos três sentidos. O Império é ilimitado no sentido espacial, não há fronteiras para o seu domínio; não há nada externo a seu poder. O Império domina a totalidade. O Império também é ilimitado no sentido temporal, já que seu domínio é posto como necessário e eterno, em vez de temporário e transicional. Finalmente, o Império é ilimitado em um sentido social, pois busca controlar toda experiência social; o objeto do Império é a própria forma de vida. Nossa hipótese é de que, enquanto muitos impérios foram declarados ao longo dos últimos 2.000 anos, atualmente pela primeira vez o conceito foi realizado de modo integral. É a primeira vez que vemos uma forma verdadeiramente ilimitada de poder. Acreditamos ser muito importante distinguir o Império do imperialismo. Por imperialismo nós entendemos as estruturas políticas e econômicas ao longo das quais os Estados-nação europeus estenderam seu poder sobre outras nações e territórios do século 17 ao 20. Os vários regimes europeus imperialistas foram necessariamente limitados uns pelos outros e estavam em constante conflito. Em contraste, o Império atual é único e não possui competidores semelhantes a ele. Além disso, e esse é o ponto mais importante e que leva boa parte do livro para explicar, o Império opera por meios e princípios diferentes dos que operavam os velhos imperialismos europeus e, portanto, o Império coloca uma forma fundamentalmente diferente de soberania. Um aspecto dessa diferença é que o Império não depende do Estado-nação como base de seu poder do mesmo modo que dependiam os imperialismos europeus. Uma consequência dessa argumentação é que nós não acreditamos ser exato definir nossa ordem contemporânea global como um regime imperialista norte-americano. Os Estados Unidos têm de fato um papel privilegiado no Império, mas isso não basta para pensar que hoje os EUA completaram o projeto imperialista que os britânicos e franceses haviam tentado realizar anteriormente. No Império, nenhum Estado-nação pode funcionar como centro de poder. FOLHA — Os senhores afirmam que as bases do Império são o poder militar, a globalização da economia e a Justiça. Como funciona a Justiça no Império? Por que os poderes imperiais se manifestam no caso do Kosovo e não no caso das guerras na África?
Negri — As bases do Império são o poder militar (ou, na verdade, a arma absoluta e o seu monopólio), o poder monetário ("um dólar vale um dólar") e a comunicação (ou a capacidade de formar sujeitos). Quanto à Justiça, que devemos ver como um ordenamento em formação, é a combinação disposta desses poderes: a Justiça, de fato, não é o navio, mas sim a mão que guia o navio por sua rota; e naturalmente este vai aonde sopra o vento... Por isso, ela funciona, de certo modo, em Kosovo, onde se trata de afirmar os direitos do homem diante da opinião pública anti-soviética do Ocidente; não funciona na África (por enquanto) porque (além de motivos extrínsecos, como a crise da intervenção na Somália, a pressão ambígua da opinião pública afro-americana e da cultura pós-colonial etc.) na África a exigência do Império se afirma por intermédio dos massacres recíprocos das etnias e dos grupos sociais...
FOLHA - o que significa dizer que o Império é "bom em si mesmo" e não "bom para si mesmo"?
Hardt — Estamos jogando com a terminologia hegeliana quando dizemos isso e estamos tentando explicar que, apesar de a criação do Império trazer devastadoras e violentas estruturas de opressão e exploração, ela também cria as condições para a liberação. Um modo de entender essa afirmação é concebê-la em termos dos processos contemporâneos de globalização capitalista. É verdade que a globalização capitalista trouxe formas novas e mais intensas de exploração mundo afora, mas isso não significa que nós devamos tentar ressuscitar os poderes do Estado Nação como uma defesa contra a globalização. O que afirmamos é que a globalização capitalista atual apresenta as condições para uma globalização não-capitalista alternativa. Isso tem a ver, creio eu, com muito da confusão sobre os movimentos de protesto contra a Organização Mundial do Comércio em Seattle no ano passado, bem como aqueles contra o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Mundial em Washington e, logo, logo, novamente em Praga. Esses movimentos são sempre vistos na mídia como sendo contra a globalização, mas isso não é verdade. A vasta maioria dos envolvidos são contra a forma atual de globalização, contra a globalização capitalista, e favoráveis a uma globalização nova, democrática. A tarefa que eles colocam, para a qual aponta nosso livro, é transformar a atual globalização capitalista em uma globalização democrática.
Negri — Tentamos entender um conceito fundamental de nossa pesquisa: a internacionalização, a liberdade de movimento sobre a cena mundial, o cosmopolitismo intelectual etc. são virtudes que _desde sempre_ foram próprias da classe operária e do proletariado (branco ou negro, verde ou amarelo)... Toda a história das lutas contra a exploração pressiona contra as leis do Estado e os seus limites "nacionais". O mercado mundial, a superação da miséria, das burguesias nacionais, a internacionalização das trocas foram sempre um objetivo das revoltas e revoluções proletárias (brancas, negras, amarelas, anárquicas ou bolcheviques que fossem). Do nosso ponto de vista (ponto de vista que desejava interpretar o movimento proletário), a mundialização é, portanto, um bem. O capitalismo foi constrangido a se globalizar (não é uma novidade, mas uma lei histórica, que o capital seja sempre seguido de lutas proletárias e operárias). Mas, agora que o capital foi constrangido a desenvolver o Império, essa nova forma constitucional de exercício do poder, nós podemos reconhecer que o Império é o nosso inimigo e combatê-lo, em base internacional, dentro de movimentos antagonistas globais, em torno de objetivos de "cidadania imperial" (com relação à mobilidade, ao salário, à apropriação e à distribuição do saber etc.).
Folha - Como se dão as relações de trabalho na nova ordem? Não se tornam ainda mais violentas?
Negri — Existem várias formas de violência no Império relativas às relações de trabalho, isto é, às relações entre capital e força de trabalho. As mais vulgares são, na fase atual, aquelas formas de violência que se exercem contra as livres migrações de força de trabalho, em nome de privilégios nacional-corporativos ou, mais exatamente, nacional-socialistas e que acabam por cobrir a troca desigual entre o Norte e o Sul e a exploração mais feroz que atinge as faixas mais frágeis do proletariado mundial. As mais perigosas são aquelas cuja formação prevemos: violência do poder contra a vida proletária, construção sanitária ou biológica de uma humanidade inferior, governo da fome e da doença, o objetivo de extrair mais-valia de setores do globo etc. O Império constrói essa violência, as organizações internacionais fingem tratá-la: é possível a revolta?
Folha - A legitimidade do Império é dada por um circuito construído pelo próprio Império. Até que ponto é possível questionar essa nova ordem mundial?
Negri — Não é possível. É preciso sair da ordem da representação, tanto daquela nacional (parlamentar) quanto das diplomáticas, internacionalistas e humanitárias. O êxodo é a única via de liberação que o Império nos deixou. Êxodo, resistência e construção de territórios liberados, em nível mundial.
FOLHA — Hoje em dia, as pessoas aparentemente perderam a sua "imaginação sociológica", isto é, a percepção da conexão entre suas vidas e a sociedade como um todo. Qual é o lugar dos pobres dentro do Império e quais as suas expectativas para o futuro?
FOLHA — Quem é o sujeito da história? Qual seria uma proposta de ação para esse sujeito?
Negri - Sujeito da história? São as multidões de trabalhadores e hoje _sempre mais_ as de trabalhadores intelectuais. A enorme transformação que o século 20 determinou na organização do trabalho pôs a imaterialidade/intelectualidade do trabalho vivo e cooperante no centro da valorização econômica e social. Não creio que existam propostas que a esse sujeito, a essa multidão, possam ser feitas. Pode-se no máximo pedir a eles que escutem as recomendações do "Intelecto Geral" que constitui hoje o trabalho vivo. Dizem essas recomendações: reúnam e organizem politicamente na cooperação do trabalho cada forma de trabalho vivo, ou seja, o trabalho material dos escravos, o trabalho intelectual dos pesquisadores, o afetivo da reprodução doméstica da vida, o imaterial dos serviços superiores etc. Todo o trabalhador explorado deve encontrar, na sua própria dignidade de trabalho vivo e no reconhecimento da tendência de se tornar plenamente cooperativo e intelectual, a força de desatrelar-se do capital, de ir embora, de levar a luta a um ponto final.
Folha - Como funcionam as relações pessoais no Império? Há ainda sentido em dividir as coisas em termos de "público" e "privado"?
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Folha de S. Paulo 7 de setembro de 1997
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Ilusões de uma história François Furet, ao pensar o comunismo, produziu uma historiografia impotente
No mês passado (agosto de 97) morreu François Furet, o grande historiador revisionista francês. Tive ocasião, nos anos 70, de frequentar suas aulas sobre o jacobinismo, que me influenciaram profundamente. Recentemente, quando o livro foi lançado, li a sua história da idéia comunista no século 20: história de uma ilusão. Este livro monumental não me impressionou do mesmo modo que acontecera por ocasião dos estudos sobre a revolução francesa. Pergunto-me o porquê.
Uma primeira explicação encontro-a imediatamente: é que a crítica do jacobinismo, dirigida contra a historiografia marxista que, sobre a grande revolução francesa (derrotada) tinha moldado a épica da grande revolução russa (vencedora), ainda assim se mantinha no princípio inspirador da história social.
Ainda que o jacobinismo fosse considerado o produto de motivações ideológicas (e não como representação dos interesses das camadas mais exploradas do proletariado ou até como primeiro e consciente aparecimento político destas), mesmo neste caso a determinação material e social do evento histórico era, no entanto, mostrada.
A ideologia não coincidia, no desenho crítico do jacobinismo de Furet, com a estrutura de classe, mas agia dentro desta, configurava o movimento de massa e, justamente por não coincidir, podia deturpá-lo, arrastá-lo para o extremismo e impor ao movimento revolucionário sinais contraditórios e êxitos suicidas.
Mas é através desta maranha que a revolução se torna uma enorme usina de transformação; e é devido à atenção aos elementos de heteronomia, às casualidades indeterminadas, à inextricável singularidade do entrelaçamento entre ideologias, determinações materiais e transtorno das instituições que aquela história furetiana da revolução constituía uma atuação poderosa, uma profunda inovação historiográfica. Por assim dizer, Furet retomava na historiografia aquele sentido da superfície indeterminada do mundo que, no mesmo período, Prigogine e Stengers generalizavam a partir da crise da física moderna.
Por que motivo, então, o grande livro revisionista de Furet sobre a história da idéia comunista no século 20 não me convenceu? Porque, ao contrário de quanto fizera para a revolução francesa, aqui Furet (permitam-me acentuar a polêmica) dá à sua historiografia o cunho de uma história sacra às avessas, monolítica e perversa. É a história de um erro, construído lógica e emocionalmente, que se desenvolve virginalmente -pecado original, pecaminosa e agostiniana cidade do homem, predestinada à perdição. Mais que história de uma ideologia, trata-se de uma patologia epidêmica.
A conclusão revisionista consiste no fato de que o triunfo da ideologia comunista na classe operária e na "intelligentsia" ocidental é identificada numa ambígua e delirante resistência ao fascismo, do qual o comunismo é o espelho deformado. Polêmica à parte, o que falta ao livro de Furet sobre o comunismo é justamente o gosto por uma metodologia da superfície e da contradição: aqui a superfície é plana antes que acidentada, e as contradições são enganos e erros.
Alguém insinuou maldosamente que nesta obra de Furet não haveria muito mais do que havia nos vários "Escolhi a Liberdade", de Koestner ou de Kravtchenko, obras de propaganda nos anos mais sombrios da Guerra Fria. Mas não é verdade. A riqueza da documentação, a extensão da análise, a elegância da argumentação não podem ser subestimadas.
Claro, trata-se de materiais publicados e não do resgate das novas (e imensas) fontes de documentação que a queda do Muro colocou à disposição dos estudiosos: isso não significa que a a obra não seja, a seu modo, exemplar. Mas, justamente, repito-me, metodologicamente incorreta, a partir das premissas que sustentavam a obra anterior de Furet e todo o desenvolvimento da historiografia contemporânea.
Mas com que finalidade tratar desta obra se a considero tão incorreta? Por dois motivos. A de Furet é um exemplo de historiografia "reacionária". Amiúde, a reacionária foi grande historiografia. Os livros de Burke contra a Revolução Francesa foram, como Friedrich von Gentz -o seu tradutor alemão- adorava dizer: "Uma obra revolucionária contra a revolução". Estes propunham, através da polêmica, um novo modelo de Estado e insistiam sobre a continuidade histórica e sobre o realismo político.
O modelo contra-revolucionário que auspiciavam tornava-se projeto político para a atualidade: neste, a Santa Aliança dessedentou-se, e a política do imperialismo do século 19 encontrou sólidos alicerces. Nada disso em Furet: sua historiografia é impotente. Não propõe nada. É uma historiografia do "fim da história" -um verdadeiro bate-boca terminológico.
É cega e muda diante do pós-moderno, da mundialização, do fim do Estado-Nação e do colonialismo, isto é, diante dos máximos problemas da atualidade. Age feito uma "vassoura de Átila" sobre o passado, sem nos permitir um presságio do porvir. Esta historiografia apaga as razões da revolta sem fazer com que compreendamos se suas razões persistem. É uma obra impotente.
O segundo motivo que me leva a falar desta obra é puramente subjetivo. Para obter a libertação do cárcere onde estou trancado por motivos políticos, estou a debater, entre outros temas, a memória histórica. Ora, minha memória comunista não pode, de modo algum, nem digo ser criticada, mas sequer abarcada pela definição de comunismo proposta por Furet. Paradoxalmente, os juízes italianos que me mantêm no xadrez (mas que, dia mais, dia menos, irão me libertar) entendem disso mais do que ele.
Porque sabem, ainda que numa frente oposta, o que eu sei: isto é, que a vicissitude da idéia comunista é tão misturada com a longa duração da história -isto é, com as lutas, os desejos, as utopias e os crimes de um século inteiro de nossas sociedades, com os ciclos da história e com a memória ontológica das gerações- que falar disso apenas como uma idéia é um "nonsense". O sonho do comunismo representou uma mutação antropológica: poderemos domá-la, mas de modo nenhum anulá-la.
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Simonetta Persichetti Folha de S. Paulo 28
de janeiro de 1996 |
Ruídos na canção neoliberal
Greves na França trazem distorções ao modelo que passou a vigorar desde a queda do Muro de
Berlim
Paris em greve [2003] O movimento foi reconhecido como de
"interesse geral". A mídia
não conseguiu motivar as pessoas com seus slogans
antigrevistas, e qualquer
iniciativa de organizar a população contra a
greve não deu em nada. Assim, durante um mês,
paralelamente às grandes passeatas dos
sindicatos, um grande número de trabalhadores, que
não estava em greve, tomou
a cidade, não menos ameaçadoramente, durante o
dia e a noite _a pé, de
bicicleta, pedindo carona_ co-produzindo assim o movimento. Uma nova
forma de
luta foi criada: a greve metropolitana.
Lille em Greve [França, 2003] Acontece que, a curto prazo, é
muito improvável que o governo francês
consiga restabelecer um consenso ao seu projeto e ao desenho do
liberalismo
mediado. Poderíamos afirmar que este
extraordinário fato francês ao
expressar, por enquanto timidamente, mas de forma bastante eficaz,
outras
alternativas de desenvolvimento tenha derrubado, ou pelo menos freado,
a tendência
que, desde Thatcher, Reagan e a derrubada do Muro de Berlim, parecia
consolidada
num período secular no plano mundial? A resposta
é incerta. Talvez, como já aconteceu tantas
vezes, quando os movimentos vindos de
baixo contestavam radicalmente o exercício do poder. Mas uma
"ilusão
real".
Paris em greve [2003] |
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Folha de S. Paulo 20
de outubro de 1996 |
Estados
chegam à era do Império
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Folha de S. Paulo 22 de novembro de 1998 |
Mundo sem
herói
Mas, contestam-me: com que objetivo se
pôr diante dessas
questões? Certamente há a crise do modelo
liberal, assim como se registra a impossibilidade do modelo do
planejamento central, mas a questão é complexa e
lenta: vamos então nos dar por satisfeitos por termos
consciência do problema e por dirigirmos nossa
ação diária para o fim da
transformação, mas com prudência, sem a
construção de novas ideologias...
Seattle, dezembro de 1999 [clique na imagem acima e leia mais sobre a batalha de Seattle]
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Folha de S. Paulo 29 de junho de 1997 |
Direita e
esquerda na era
pósfordista
Mudanças na esfera da produção levam a novas formas de organização e
atuação políticas
Sociólogos, empresários, políticos,
mas também aqueles filósofos que olham a Terra
antes que as estrelas, parecem ter alcançado um certo acordo
ao definir as características da sociedade produtiva
"pós-fordista". Todos insistem sobre três
elementos.
Velha classe
operária
Sobre estas três constatações parece
haver, então, um amplo consenso. O que significa
distinguir-se, como "direita" e "esquerda", como defensores da
"liberdade do comércio" ou intransigentes operadores da
"igualdade dos cidadãos", como intérpretes dos
interesses do capital privado ou defensores dos explorados, depois que
a definição deste novo campo tenha sido
estabelecida? A "direita" pratica, em nível
mundial, uma feroz
política "desinflacionista" dos custos da
produção da subjetividade, com
consequências terroristas e destrutivas contra a nova
virtualidade produtiva. A "esquerda", ao contrário,
deveria se tornar capaz de impor
o máximo investimento social, em garantia das melhores
condições de produção da
subjetividade da força de trabalho. Mas, para fazer isto,
ela tem de superar todo o resíduo de corporativismo, toda
concepção arcaica, setorial e/ou
previdencialista, da despesa pública; e desenvolver,
então, o ponto de vista da igualdade como motor de
produtividade global do sistema.
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Folha de S. Paulo 22
de fevereiro de 1998 |
Por que
é difícil
esquecer 68 A imagem atual das rebeliões de 30 anos atrás esconde ferida não cicatrizada
Celebra-se neste ano o 30º
aniversário do movimento
de 68. O Estado italiano descobriu uma maneira totalmente paradoxal
para comemorar a ocorrência: os dois líderes dos
movimentos mais importantes daqueles anos (Sofri, de Lotta Continua, e
este articulista, de Potere Operaio) passarão o ano todo no
cárcere. E as condenações
são salgadas: Sofri terá o seu "fim de pena" em
2010, eu em 2005. Claro, de algum modo seremos libertados antes disso
-ao menos espero. Resta o fato desta estranhha coincidência,
evidente demonstração de que, ao menos no que
concerne à Itália, aquela temporada
não terminou. Certamente
há coisas do 68 que devem ser recordadas, como a
mudança na maneira de se vestir (da minissaia aos jeans), a
renova ção da música, uma certa
renovação das estruturas de ensino, a
liberação da mulher (amiúde reduzida
à difusão da pílula), a
difusão das drogas leves (que se podia fumar sem tragar,
dizem Clinton e
Blair) e um certo antiautoritarismo libertário,
tão simpático... Mas, em suma, só
isso.
Se 68 foi um movimento dos filhos contra os
pais, certamente
não foi um movimento romântico; registrava
socialmente e antecipava politicamente um novo regime da
produção. E esses estudantes, fortalecidos por
uma possível hegemonia, não tardam, nos
países europeus, a arrastar consigo, no rompimento do
sistema, o proletariado urbano das fábricas; nos
países americanos, onde as linhas de classe e de cor se
entrelaçam profundamente, a revolta instaura-se na
dimensão cultural das metrópoles. Eis
então um primeiro paradoxo político deste
movimento, eis o motivo por que aindafere.
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Folha de S. Paulo 10
de maio de 1998 |
Antonio Negri relembra os protestos de 68 na Itália,
quando
lecionava em Pádua Em 1968 eu tinha 35 anos. Era comunista, «comunista de esquerda". Era, havia cinco anos, professor titular na Universidade de Pádua - "barão", como justamente se dizia naquela época. O ano de 68, ou seja, a coisa que mais teria desejado poder prever e ver acontecer, pegou-me, inesperadamente, naquela situação paradoxal: era o inimigo (enquanto professor), era o companheiro e o ator (enquanto comunista e homem).
Durante horas nos contaram suas
experiências berlinenses, nos
falaram de Rudi Dutschke e nos descreveram como o proletariado juvenil
berlinense tinha sido agrupado sob as bandeiras da juventude
revolucionária estudantil. Pela primeira vez ouvimos falar
das "comunidades" onde os jovens viviam juntos, na vida, na
política e no amor. Pela primeira vez tivemos a
narração de como se organizavam os choques com a
polícia, de como se libertavam os bairros e de como se
realizavam as expropriações
proletárias, já que "fundar um banco é
um ato muito mais criminoso do que assaltá-lo" (como dizia
Bertolt Brecht).No final de junho voltaram da França os
primeiros companheiros que participaram da
insurreição' parisiense. Vieram a
Pádua e Veneza. Sergio Bologna e Giairo Daghini escreveram
sobre o "Maio parisiense" o mais belo texto - ao mesmo tempo
histórico e crítico que eu conheço.
Nós tiramos milhares de cópias, que foram
distribuídas nas universidades e nas fábricas.
Depois do verão, naturalmente, a
universidade tornou a abrir
as portas, sob a direção dos estudantes dos
comitês de ocupação. Finalmente pude
começar a ensinar de novo. Mas tinha de ensinar o que os
estudantes me pediam para ensinar Tinha de estudar muito para responder
às suas solicitações, mas era muito
bonito ter diante de si homens vivos e não almas mortas. O
outono foi praticamente sem história, tantas as coisas que
se acumulavam, tal era o ritmo de aprofundamento da
consciência coletiva, a extensão das
experiências de vanguarda (nas universidades, nas
fábricas, nas comunas). Havia um ar estranho: a
revolução inesperada arrastara o
adversário, tudo era permitido, a felicidade coletiva era
desenfreada.
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Folha de S. Paulo 10 de agosto de 1997 |
Vestígios
de um lugar de
liberação Este é o meu primeiro artigo do cárcere de Roma. Mas não quero voltar aqui às razões desta procedência estranha: outros já o fizeram nas páginas de crônica, com maior objetividade e distanciamento do que o autor poderia colocar em suas palavras. Mencionar o acontecimento que se deu
será suficiente: Toni
Negri, depois de 14 anos de exílio na França (em
decorrência de condenações
políticas depois das lutas dos anos 70, depois de
já ter cumprido quatro anos e meio de prisão
preventiva, depois de ter saído da prisão em
decorrência de sua eleição a deputado),
então voltou à Itália para se entregar
à Justiça. Foi um ato voluntário,
impelido por uma única necessidade: resolver, junto com o
seu problema, o de outras centenas de companheiros seus, que ainda
estão languescendo nas cadeias pátrias e no
exílio; para levantar, deste modo, o tema da anistia. "Sed
de hoc
satis!" Há um problema, subjacente a este acontecimento, do
qual gostaria de falar aqui, e é o da
relação entre memória e
justiça. Eu realmente não sei se esta
seria a resposta à questão posta. Talvez seja
somente a indicação de um lugar de
liberação. Ainda que seja no fundo de uma cadeia |