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| A 89 FM, se fosse nos anos 60 |
Rádio paulista,
transplantada para o tempo da
Contracultura, estaria mais próxima da cafonice
Este é um novo texto. O texto feito por Zilton Eduardo Rocha Oliveira causou polêmica e, por isso, foi substituído por outro, escrito por Alexandre Figueiredo.
Vamos imaginar como seria a rádio 89 FM se ela tivesse surgido na década de 60. Os mais ingênuos imaginariam que a 89 FM estaria transmitindo ideais de psicodelia, revolução, Contracultura, movimento beatnik, psicodelia e derivados. Mas tal idéia é errada. Mesmo o mais banalizado perfil hippie ainda não seria bem assimilado pela 89 na época.
Vamos supor o surgimento da 89 FM em 1960, portanto, 25 anos antes da data real de seu aparecimento.
Com o rock dos anos 50 tendo sofrido baixas, seja pela conversão musical de seus antigos responsáveis a outros estilos (como o Little Richard para os spirituals e Jerry Lee Lewis para a country music), seja pelo trágico desfecho de Richie Valens, Eddie Cochran e Buddy Holly, que seriam as novas promessas de então, a música ainda teria que produzir figurinhas fáceis, "armações" que diluíram o rock num contexto piegas. Dessa forma, Paul Anka, Pat Boone, Johnny Rivers, Neil Sedaka, Ricky Nelson e outros valiam mais pelos rostos bonitos do que pela "contribuição" (sic) que davam para o rock. Paul Anka, Neil Sedaka e Johnny Rivers ainda seriam admirados como razoáveis compositores pop, sem serem de fato ícones do rock.
Aqui entra a ficção. Cria-se em São Paulo uma emissora de rádio, com o objetivo de explorar o rock dos anos 50 já nos últimos dias do ano de 1960. Para formar sua equipe, foram feitos os seguintes procedimentos:
- Foram chamados para a nova rádio locutores que apresentavam programas dedicados à música romântica ou mesmo à culinária em emissoras AM de menor expressão.
- Foram também escalados estagiários com experiência na reportagem policial em jornais menos expressivos. Estes estagiários passaram a trabalhar no departamento da produção da nova rádio.
- A orientação que os locutores recebiam era imitar a linguagem adotada pelo DJ norte-americano Alan Freed, quando usava o pseudônimo "Moondog", o "padrinho" do rock and roll. Mais tarde, o estilo a ser imitado pelos locutores era o do compositor e radialista Carlos Imperial, um dos incentivadores da Jovem Guarda. Jargões típicos da locução da nova rádio seriam "minha senhora", "meu brotinho", "minha garotada", uma linguagem hoje considerada cafona e associada aos animadores de gincana de então.
Quanto aos ideais de rebeldia evocados, eles passaram mil léguas longe da geração beat, ou seja, geração de escritores (Allen Ginsberg, Jack Kerouac, Ken Kesey, William Burroughs) que se tornaram gurus da cultura alternativa e mentores da Contracultura. Quando muito, a rebeldia dessa rádio tinha mais a ver com os filmes de James Dean e com o famoso The Blackboard Jungle ("Sementes da Violência"), filme norte-americano sobre delinquência juvenil e teve como música-tema a canção "Rock around the clock" de Bill Haley and His Comets. A nova emissora também surgiria divulgando as primeiras gravações brasileiras de rock, nas vozes de Cauby Peixoto e Nora Ney - cantores curtidos pelos adultos na época - além da fase embrião da Jovem Guarda (quando não tinha esse nome) de Sérgio Murilo, Demetrius, Tony & Cely Campelo e outros.
Em relação à surf music, as dificuldades de divulgação não seriam menores. Se até os Beach Boys na sua fase inicial, gravando uma canção do grupo The Surfaris e do cantor Chuck Berry não tinham divulgação garantida na programação normal (quando muito no horário noturno), nomes como Dick Dale e ainda mais Link Wray, The Ventures, The Lively Ones, praticamente não teriam acesso. Com o passar do tempo, pálidas concessões como o sucesso da Jovem Guarda "Exército do surf", versão de uma música jovem italiana, teria alta rotação na rádio.
Seria provável também que o coordenador da rádio tentasse justificar na época que o veto ao disco Pet Sounds dos Beach Boys se dava porque o álbum não correspondia à qualidade da programação dessa "rádio rock". O coordenador argumentaria: "Pera lá! Esse álbum é muito esquisito, não condiz à nossa proposta. Mas não tem problema, a gente toca 'Surfin' USA' e fim de papo".
Em 1964 o Brasil passa a viver o período da ditadura militar. A juventude sente indignação pela mudança do cenário político. Os primeiros atos institucionais são decretados, causando revolta entre o povo e a intelectualidade. Mas a "rádio rock" menospreza o problema. Alega o coordenador: "nossa lógica é não envolver com política. Vetamos temas intelectualizados para evitar problemas com a audiência e com o governo. Precisamos nos sobreviver como empresa, o que é muito importante".
Surge o período da Contracultura, com os ideais mais ousados da juventude dos anos 60. E a rádio brazuca em questão, no entanto, não aderiu de corpo e alma a essa rebeldia. Na melhor das hipóteses, a dita "rádio rock" daria espaço a nomes como Bob Dylan, mas só através de músicas mais amenas, como "Lay lady lay" e "Just like a woman". Dos Byrds, a divulgação se resumiria a "Mr. Tambourine Man" (composta por Dylan) que é mais curta e, ainda assim, teria média rotação. Mesmo assim, a programação ainda estaria repleta de The Platters. Neil Sedaka e Johnny Rivers continuariam sendo privilegiados no playlist da emissora, da mesma forma que a Jovem Guarda, que além de estarem na programação da rádio figurariam na "revista rock" que ela preparava, deixando para escanteio a psicodelia reinante mundo afora. Na rádio, esta seria representada eventualmente apenas por Bob Dylan, Joan Baez, Byrds e The Beatles. Não bastasse isso, a "rádio rock" começaria a divulgar o soul da Motown como se fosse rock, mas soul na verdade é outra coisa, totalmente diferente do rock.
Numa única vez a "rádio rock" arrisca a tocar a canção "Champagne", de Pepino di Capri. A audiência não é prejudicada, mas muitos ouvintes telefonam condenando a execução. A emissora deixa de tocar a música, tal como o intérprete no seu todo. A "invasão britânica" tem acesso difícil à programação, sendo tocados somente os sucessos dos Beatles, uns hits dos Animals e o hit "Satisfaction" dos Rolling Stones e coisas leves como Herman's Hermits e Lovin' Spoonful.
1967: auge do psicodelismo no mundo e início do desgaste da Jovem Guarda. Surge o Sgt. Peppers dos Beatles e uma série de álbuns conceituais psicodélicos. Surge o genial guitarrista Jimi Hendrix, antes um discreto músico de estúdio. Mas a "rádio rock" faz sérias restrições ao fenômeno e se restringe a tocar somente a música "Lucy in the sky with diamonds" e "Getting better", do Lp beatleano, mas ainda assim de vez em quando.
Dos demais psicodélicos, Janis Joplin estaria restrita a "Summertime", de Gershwin, e Hendrix com "All along the watchtower", de Dylan. Grupos como Mamas And The Papas, mais leves e menos politizados, teriam amplo acesso. Nada de Yardbirds ("muito nerds", acusaria o coordenador da rádio), nem Doors, Jefferson Airplane, nada de Byrds pós-1966, nem Frank Zappa ("pessoalmente não tenho nada contra ele", afirmaria o coordenador, "mas seu som é muito esquisito, fora do tom, e ele tem um humor muito corrosivo, chato, não é o humor bacana que a gente vê nos saudáveis grupos de rock como Fevers e Renato & Seus Blue Caps").
Uma banda seria radicalmente vetada: Pink Floyd. "Esse tal de Syd Barrett é um maluco, não vou tocar essa bagunça, vou perder meu tempo com um rascunho sonoro de 10 minutos?", diz. Seis anos depois a mesma "rádio rock" tocaria o milionário álbum Dark side of the moon, muito distante das esquisitices do antigo líder.
No final dos anos 60, a tal "rádio rock" celebrava a divulgação de um novo grupo de irmãos: Bee Gees, tocados à exaustão. A rádio daria divulgação relativa ao festival Woodstock, depois de desprezar completamente outro festival, o de Monterey. Mesmo assim o coordenador da "rádio rock" lamentaria a inclusão de tantas bandas desconhecidas no Woodstock e daria tratamento de desdém às mesmas.
Com a 89 FM existente nessa época, ela teria se transformado numa rádio bem banal, menosprezando já na virada dos anos 60 para os 70 tendências fundamentais como o rock progressivo e o heavy metal (este que a 89 FM da realidade de hoje insiste em bajular), sendo esta última surgida em 1970 e alcançando enorme popularidade décadas depois.
Nos anos 70 a 89 FM dessa história, aquela surgida em 1960, teria se transformado, inevitavelmente, numa rádio de música brega, tocando baladas de Roberto Carlos e de outros ídolos. Não haveria possibilidade para a emissora promover uma pretensa imagem de "rádio de vanguarda". Além disso, a emissora não iria aprovar o punk rock de tempos depois. O incrível disso tudo é que, se a 89 FM tivesse surgido em 1960, ela hoje não teria sequer metade da pretensão "roqueira" que a 89 da realidade tanto tem.