Defensor de afiliada da 89 FM não esconde reacionarismo

 

Defensor da Rádio Cidade (RJ) esculhamba a Fluminense FM e não poupa sequer os clássicos do rock

Na coluna da jornalista Magaly Prado, na Folha On Line, um ouvinte da Rádio Cidade (RJ), aquela que se diz “a rádio rock carioca” e é afiliada da rede da paulista 89 FM, mandou uma longa carta criticando a Fluminense FM e defendendo a postura “roqueira” da rádio que ouve. Com uma convicção pedante de quem se acha “dono” da cultura alternativa do Grande Rio, o sujeito acabou mostrando seu reacionarismo e seu perfil conservador.

O sujeito assina como Roger Strauss. O nome coincide com o de um antigo compositor da música clássica alemã. Talvez seja o mesmo sujeito que, em cartas mais amenas à mesma coluna, tenha assinado como Rogério Imbuzeiro. Num blog da Internet, feito por uma produtora da Rádio Cidade que não revela sua profissão mas entende dos bastidores da emissora, cita um produtor da rádio chamado Roger. O que pode ser o sujeito em questão. Pseudônimos são uma rotina entre ouvintes ou defensores em geral da Rádio Cidade, uma minoria que em 1998, quando a emissora dos 102,9 mhz retornou ao pop, fez uma campanha para a rádio retomar o rock.

Essa minoria, composta de playboys quase todos residentes na Barra da Tijuca e no Recreio dos Bandeirantes e filhos de profissionais liberais e empresários, ou então dos chamados “novos ricos”, chegou até a fazer trotes telefônicos, com nome fictício, para dar a impressão de que uma imensa legião de roqueiros queria a Rádio Cidade no gênero, o que de fato não é verdade. Era estranho que mensagens com nomes diferentes na antiga página de recados da Rádio Cidade tenham um conteúdo bem parecido, com mensagens lacônicas e apelativas (por exemplo, uma simples mensagem dizendo “QUERO ROCK ROCK ROCK!!”) que parecem ter sido escritas pela mesma pessoa, ou por um mesmo pequeno grupo de amigos.

Antes de irmos para a carta de Roger Strauss, analisando trecho por trecho, vamos definir o que é a estrutura de profissionais e público da Rádio Cidade hoje (2003). A rádio, que se diz “rock”, só possui uma minoria de pessoas envolvidas no gênero, que trabalham na produção e que são mais fãs do que conhecedores de rock. Não “garimpam” (gíria que quer dizer ir em busca do menos óbvio e até de raridades) e seu nível de entendimento de rock só está dentro da média dos atuais profissionais da MTV, cuja “sapiência roqueira” é muito aquém de um Gastão Moreira, por exemplo.

Na Rádio Cidade, os locutores, sem exceção, não são pessoas relacionadas com rock (o agravante é Rhoodes Dantas, que afirmou que odeia rock, ser a estrela da emissora). E nem mesmo a cúpula, composta do coordenador Alexandre Hovoruski (gerente de rede da paulista 89 FM e que monitora a programação das afiliadas; ele é famoso por produzir coletâneas de dance music da Jovem Pan 2) e por pessoas ligadas à superintendência e direção.

Quanto ao público, seria extremamente demagógico dizer que todo o público da Rádio Cidade é composto por “roqueiros selvagens”. 99% do público da emissora dos 102,9 mhz cariocas é de fãs de pop, que curtem Madonna, disco music e Toni Braxton, e se identificam muito com o pop ameno de nomes como Skank, Pato Fu, Cidade Negra e com cantoras ligadas à MPB moderna, como Zélia Duncan e a falecida Cássia Eller. É um público que aceita ouvir um Iron Maiden inserido entre mil Jota Quest, mas não agüenta ouvir na Rádio Cidade uma seqüência inteira de rock pesado.

De “roqueiros radicais”, a porcentagem é 1%, é um “clubinho” barulhento, arrogante, fascista, que confunde ser rebelde com ser esquentadinho, como se rebeldia fosse sinônimo de “pavio curto”, enquanto o conteúdo, ou seja, a indignação, a proposta social, sucumbe à confusão e à alienação. Eles se dividem em duas classes. Uma, a de um público esnobe, pouco sutil, que chama de “homossexual” qualquer um que não quer a Rádio Cidade vinculada ao rock. Outra, de um público mais retórico, provavelmente composto pelos próprios produtores da Cidade ou por seus amigos e colaboradores (como o Roger Strauss que analisaremos), que é mais pedante e se esforça para ficar com a palavra final. Entre estes últimos pode-se dividir também entre pessoas que apreciam a Fluminense FM, mas acham que a Rádio Cidade merece o “mesmo caminho”, e pessoas que repudiam a Fluminense e preferem a Rádio Cidade na trilha do rock. Roger parece estar neste grupo, embora se analisarmos seu possível alter ego, Rogério Imbuzeiro, ele parece estar noutro grupo.

Em tempo: quando este texto foi publicado, Roger Strauss escreveu uma carta chamando o autor deste texto de "imbecil". Quando não ficam com a palavra final, se tornam extremamente mal-educados. Mas num país que tem ACM e seus grampos, faz sentido que sujeitos assim prevaleçam sobre os mais sensatos.

REACIONARISMO EPISTOLAR

Analisaremos, trecho por trecho, a carta publicada na coluna de 20 de abril de 2002, portanto há um ano, na coluna da Magaly Prado. Ela é ilustrativa da tendência reacionária de algumas pessoas que se dizem “as mais entendidas de rock”. Em algumas passagens, no entanto, o missivista Roger Strauss, que diz ser músico mas não revelou a banda que integra, parte para ataques a nomes respeitáveis do rock autêntico, posição suspeita para quem se acha “legítimo apreciador de rock”.

“Eu só queria entender um pouco desta cruzada em manchar o trabalho da Rádio Cidade aqui do Rio.”

Simples. A Rádio Cidade adotou um perfil caricato de rádio de rock, com locutores mauricinhos e programação feita para playboy ouvir, e por isso não deu conta do recado como rádio de rock, nos anos em que a Fluminense FM esteve fora do ar. Quem não faz serviço direito merece repúdio. Os incomodados que chorem.

“Sou ouvinte da Cidade, e bem ou mal é a rádio que além de tocar os sons que marcaram a minha geração (Nirvana, Alice in Chains, L 7 ... ) , é a única que toca sons novos como : Linkin Park, Limp Biskit, NickelBack, Creed, The Calling ...e por aí vai.”

O gosto musical que ele citou é de mediano para baixo. O mais digno de admiração é o Nirvana, que não conseguiu evoluir seu talento diante das pressões do show business. O resto, porém, é de nomes de nível mediano do grunge e bandas comerciais de pós-grunge (Creed, The Calling, ambos plagiadores do Pearl Jam) e do nu metal, uma diluição do rap metal lançado por Body Count, Biohazard, Faith No More e outros que, na sua resposta comercial, ganhou um sotaque caricato vindo de nomes como Eminem, Destiny’s Child e outros. Costuma-se dizer que o nu metal é feito por bandas com o corpo de Sepultura e a alma da Destiny’s Child. Se isso é o “som da geração” dele, nossos pêsames por curtir coisas tão superficiais e comerciais.

“Esse saudosismo da antiga Fluminense me irrita profundamente. Pô, pára de reclamar e vão trabalhar . Morei em Cleveland por 3 anos e entendo um pouco de rádio, pois trabalhei por 1 ano na WMMS, a The Buzzard, a rádio rock preferida dos jovens de lá . Aqui no Rio não existe a ultra-segmentação de programação como lá fora em que você tem as Classic's Rock, Modern Rock, Alternative Rock ou Old Rock . Então, não dá pra cobrar de uma rádio a responsabilidade de suprir a carência musical de todo esse público da antiga Fluminense.”

Roger quer impressionar a opinião pública com sua “profunda irritação” (prova de quem confunde rebeldia com pavio curto) e sua argumentação pedante. A argumentação aqui pode ser comparada ao personagem Justo Veríssimo, o personagem fascista criado por Chico Anísio e que fala o bordão “Quero é que pobre se exploda”. Para reforçar seu pedantismo, Roger Strauss cita sua experiência profissional e diz conhecer a “ultra-segmentação” das rádios de rock nos EUA. Se sentindo confortável em seu julgamento de valor, Roger inventa que o Rio de Janeiro não tem condições de ter uma rádio de rock como a dos EUA (em outras palavras, com mais abrangência e autenticidade) e diz que não dá para cobrar da Cidade a responsabilidade da antiga Fluminense. O que Roger, no seu discurso bem construído mas insensato, não sabe, é que cobrar responsabilidade é cobrar competência, trabalho, qualidade, e é por causa de pontos de vista como o de Roger Strauss é que o Brasil está mergulhado nessa onda de imbecilidade que a Rádio Cidade só faz fortalecer, tratando o roqueiro como se fosse um retardado.

“Todo mundo sabe que os Paralamas, bem como bandas novas que tocaram na Fluminense nos anos 80 (Smiths, Cure, Echo and the Bunnymen), só entraram na programação porque tinha um rapaz chamado Maurício Valadares e que apresentava um programa chamado Rock Alive e era alvo de críticas dos ouvintes xiitas que ouviam Led Zepelin e The Whoo e torciam o nariz para qualquer outro som que tenha sido lançado depois disso.”

O sujeito deveria prestar melhor atenção à rádio que ele tanto adora. Na tentativa de crucificar a Flu FM, Roger escreve que se a Fluminense FM tocava novidades, é por iniciativa de um único produtor, Maurício Valladares. Na sua ignorância, Roger esquece que havia Liliane Yusim, Sérgio Vasconcelos, Philipe Johnston e outros, que contribuíram com isso, ao lado de outras pessoas mais tradicionalistas cuja divergência musical só ajudou na riqueza da programação da antiga Flu FM. Era natural que havia pessoas reagindo aos novos, tal como havia gente que reagia aos antigos, entre o público da Flu FM. Enquanto isso, Roger desconhece que nomes como Steve Vai, Hoodoo Gurus, Concrete Blonde, Manowar, Helloween e Angra só entraram na programação da Rádio Cidade por iniciativa de dois ou três produtores que herdaram a metodologia da Monika Venerabile no programa “Cidade do Rock”. Não fosse o esforço desses gatos pingados, a Rádio Cidade só tocaria Skank e Guns N’Roses, ou os melosos Semisonic e The Calling. E o Rhoodes, se não tivesse que seguir uma rígida disciplina, estaria todo dia contando piadinhas depreciativas sobre Bruce Dickinson. Conta-se que nos bastidores da Cidade os locutores fazem piadinha contra bandas de rock. Um detalhe, Roger, no seu nervosismo em atacar bandas privilegiadas, escreveu de forma errada os grupos Led Zeppelin e The Who.

“Magaly, existem várias páginas na internet contra a Rádio Cidade e 89 , criadas por esse Alexandre Figueiredo que nunca sequer mostrou a cara ou a carteira de identidade.”

Roger partiu para a grosseria. É evidente que quem cria um site não faz seu conteúdo para ele mesmo e sim para o público. Portanto, não se preocupa em aparecer tal como num espelho de Narciso. O conteúdo destes sites não é particular e sim de interesse público, portanto eles não são currículos virtuais em que seja obrigatória a exibição do número do RG e da foto 3X4. Pior é Roger Strauss, que diz ser músico e não falou qual a banda que ele integrava. Para seus amigos, talvez seja possível saber, mas para o grande público, para os leitores da Magaly Prado e para os internautas em geral, não. Numa procura feita por nossa equipe em sites de busca, não foi possível rastrear a “banda” que o “esforçado missivista” provavelmente faça parte.

“E me espanta você dar tanto crédito a essa campanha , uma vez que você inclusive contesta a informação do diretor das rádios 89 e Rádio Cidade sobre a audiência por ele informada . Dizem que o jornalista deve ser imparcial , mas não é que está acontecendo com a sua coluna.”

Roger Strauss apelou. A colunista Magaly Prado já deu espaço para a Rádio Cidade e 89 FM, com comentários positivos a seus programas. Só porque ela, eventualmente, deu espaço a visões críticas a essas rádios, Roger, que desejaria ler só elogios (por mais cegos que sejam estes) a essas rádios, acusou de “parcial” a inclusão de pontos de vista que simplesmente vão contra o que ele pensa. Na verdade, se a “parcialidade” rumasse em favor da Rádio Cidade, 89 FM e similares, Roger estaria muito satisfeito com a abordagem.

“Minha banda já tocou na 'A vez do Brasil' no Balroom e ninguém da Rádio Rock nunca me pediu um centavo para eu subir no palco. Um projeto maneiro da Cidade, que acontece todas as sextas-feiras , dando espaço a bandas independentes.”

É evidente que a banda (qual banda?) de Roger Strauss, como outras novatas, não são obrigadas a pagar dinheiro para aparecer no programa “A Vez do Brasil” da rede 89 FM e suas afiliadas. Bandas em seu nascedouro provavelmente não têm esse drama, até porque a rádio tem que se autopromover às custas delas, embora haja boatos de que algumas bandas com alguma consagração no programa tenham que pagar “jabá” para entrar na programação normal. O grosso do “jabá” está nas bandas de rock autênticas, e aqui vale mencionar o esforço com que a Iron Maiden Holdings (empresa que agencia o grupo Iron Maiden), junto à gravadora EMI, em alugar espaço para a banda na “rede rock” da 89 FM. Conta-se que existe uma tabelinha de “jabá” na “rede rock” em que as bandas de maior sucesso e menor talento (tipo um Jota Quest, Bon Jovi e The Calling) custam mais barato e as bandas mais substanciais do rock custam mais caro. Quanto ao “rock independente”, certamente Roger menospreza a história da Baratos Afins, importante e autêntica gravadora indie do país. Autêntica porque não é um escritório de fachada de uma multinacional majoritária coordenado por um jornalista ou produtor de estúdio. A Baratos Afins é coordenada por Luiz Carlos Calanca, um micro-empresário apaixonado por música alternativa.

“Vira a página , a Cidade agora é Rock . Se é farofa ou não, cabe ao público julgar . O que é bom dura ... não foi o caso da Fluminense. Aliás , ninguém fala, mas eu acho a Maldita um saco. Parece um vitrolão da década de 70 e 80.”

Esse discurso de “virar a página” é perigoso. Na maioria das vezes apela pela “memória curta”, pelo esquecimento de fatos e informações que comprometam o sucesso de muitos embustes. É fácil pregar, por exemplo, o esquecimento de um corrupto, que anos depois de seus escândalos retorna vestindo a máscara de “honesto” e “injustiçado e perseguido”. No que diz à Cidade, a tática apela para o esquecimento de sua história e da inutilização do trabalho de sua equipe. Neste caso, Roger fez um ataque indireto às figuras de Fernando Mansur, Romilson Luiz, Clever Pereira e outros que não estavam inclinados para criar uma “rádio rock” – era direito deles, o pop era a opção que eles adotaram – condenando-os ao esquecimento e condenando os muitos anos da Rádio Cidade a serem apagados de nossa memória, como se a rádio que mudou a cultura pop do país nunca tivesse esquecido. Quem age assim vai contra o direito de informação. Outro detalhe: infelizmente, nem tudo que é bom dura e nem tudo que dura é bom. Se verificarmos bem a televisão, por exemplo, uma coisa maravilhosa que foi a programação da TV Excelsior, nos anos 60, perdeu-se no tempo e nas fotos que restam hoje, enquanto aberrações como João Kleber, Sérgio Mallandro e Ratinho vão durar muito tempo na televisão, a não ser que o país reaja contra eles. Quanto ao “vitrolão” da Fluminense, tocar músicas consagradas do rock dos anos 70 e 80 é infinitamente melhor do que as porcarias pós-grunge dos anos 90. A Rádio Cidade hoje é um vitrolão “grunge” dos anos 90. Por sinal, sua programação é um “saco”, pois cansa em duas horas de audição. Surpreende aqui o conhecimento do missivista do termo “farofa”, e aqui teremos que confirmar que a Rádio Cidade é mesmo rádio de rock farofa. Quem entende de rock pode comprovar ouvindo a rádio.

 

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