"Gordo, o Filme" está mais próximo do João Gordo
da MTV do que do João Gordo dos Ratos do Porão
 

João Gordo, vocalista dos Ratos do Porão
e apresentador do programa "Gordo, o Filme" e
do programa "Piores Clipes do Mundo" da MTV

A dita "rede rock" da 89 FM tem como um dos programas da fase atual (2001) um chamado "Gordo, o Filme", programa que mescla entrevistas, sátira de filmes e repertório musical, teoricamente dedicado ao underground, tal como o "Noise" do Zé do Caixão.

Todavia, nessa "Jovem Pan com guitarras" chamada 89 FM (no Rio de Janeiro é a Rádio Cidade), não se pode porém esperar muito. "Noise" e "Gordo, o Filme", na verdade, seguem uma lógica da MTV Brasil, em que o rock que deve ser tocado, além de guitarra, baixo e bateria, tem que ter vídeoclipe. Não tendo vídeoclipe, aí fica difícil, meu amigo.

Assim, a programação da 89 e suas afiliadas, que o marketing enganoso celebra como "tudo que rola no mundo do rock", na verdade é cópia de dois programas da MTV: "Uauá" e "Riff". Como havia antes no caso do "Gás Total", que fornecia aquilo que as rádios comerciais pseudo-roqueiras tocavam.

De fato, deve-se ficar claro que João Gordo é um sujeito íntegro, autêntico, divertido, que realiza uma ótima química com o Ferrugem - aquele ator ruivo e sardento que parecia uma criança, e hoje, trintão, parece um adolescente - no programa "Piores Clipes do Mundo", um dos melhores programas da televisão brasileira por justamente triar um excelente sarro daquilo que ocorre de ruim na música. Pensando bem, João Gordo não se vendeu ao mainstream, se deve perdoar até aquela aparição no "Viva a Noite" do Gugu Liberato até porque foi somente uma vez, e, portanto, e não viraram queridinhos do programa. Qualquer Raimundos da vida viraria queridinho nessas ocasiões.

João explicou numa entrevista que ele aceita gravar comercial de sorvetes e carro de empresas multinacionais porque precisa ganhar dinheiro para sobreviver, coisa que ele não consegue ter com os Ratos, quando seus membros tocam por prazer e o único sustento é a venda de discos e camisetas, porque o dinheiro dos ingressos vai tudo para sustentar os custos das excursões. (os Ratos são muito populares na Europa e na Ásia).

Portanto, são realidades distintas em que uma pessoa, sem se corromper ou criar falsas personalidades, tem que encarar. De um lado, o João Gordo como vocalista de hardcore, cantando para seu público. Noutro, o mesmo João Gordo noutra missão, de encarar o mainstream sendo diplomático e até simpático com as pessoas, mas sem ter cumplicidade no esquemão.

Na 89 FM, é este segundo aspecto que fala mais alto, apesar de João poder colocar as bandas que gosta no programa "Gordo, o Filme". Admite-se que o João Gordo possui liberdade para selecionar o repertório, colocando muitas bandas de hardcore que seriam vetadas na programação normal da rádio. Mesmo assim, a lógica do "Riff MTV" continua imperando no programa, regra que também vale para o programa "Noise".

Dessa forma, o "Uauá" oferece material paradeiro para a programação geral da 89 FM e suas congêneres. Muito roque baba, um pouquinho de clássico manjado, um montão de "pópiroque" e só. Já o "Riff" fornece barulheira em geral, se ela puxa um pouco para o punk, vai para o "Gordo pop...", quer dizer, "Gordo, o Filme", e se ela puxa para o heavy metal, vai direto para o "Noise".

Mudando de assunto, se misticismo às vezes é coisa séria, então o "Gordo o Filme" continua infectado pelo vírus pop que ronda a 89 FM desde seus primórdios. Vejamos um detalhe.

Há uma série de histórias que rola no comercial da MTV. Elas se baseiam em fábulas célebres da literatura mundial. Cada historinha conta com alguns nomes da MTV como personagens. Justamente quando o João Gordo (uma excelente figura, no entanto explorada para encher a bola e as boladas dos mauriçolas da rede 89) estava negociando com a 89 para trabalhar lá, rolava uma história do rato e do leão. E, advinha quem era o rato? O João Gordo? Não, ninguém menos que Silvinha Faro, até meados de 2001 apresentadora do "Soda Pop".

E o que foi o "Soda Pop"? Simples, é aquele programa que forneceu material para as paradas das FMs dance do país. João Gordo aparece como o Leão, que, com a pata ferida, pede ao ratinho que a tire. O ratinho, isto é, a Silvinha "Soda Pop" Faro, tira o espeto do Rato do Porão, que não é o rato da história, mas o leão, e ele agradece.

Moral da história: de FM dance poperó, a 89 FM só falta ter o gostinho de soda pop. Será que a Silvinha irá um dia tirar o João Gordo daquela horda de mauriçinhos alucinados? Não perca o próximo capítulo, quando a revolta contra as "rádios roque" atingir índices alarmantes.

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