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Lembrança dos cem anos de nascimento
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Alexandre Figueiredo Em novembro de 2003, não apenas o rádio, mas a autêntica música popular de nosso país - que há muito sofre um processo de decadência absoluta, infelizmente - , celebra o centenário de nascimento de um de seus mais prestigiados compositores. Pianista, regente e arranjador, Ary Evangelista Barroso nasceu em 07 de novembro de 1903, na cidade de Ubá, no interior de Minas Gerais. Era filho de João Evangelista Barroso, promotor público daquele município e que chegou a ser deputado estadual. Teve infância e adolescência vividas na pobreza. Com o falecimento do pai e da mãe, Ary, órfão com apenas oito anos incompletos, foi criado por uma avó materna, Gabriela Augusta de Rezende e depois por uma tia, Rita, também professora de piano. Com esta última, Ary desde cedo começou a aprender a tocar o instrumento. Ary foi estudante da Escola Pública Guido Solero, e depois de cursar em outras escolas, terminou o ginásio na Escola Cataguases. Com 12 anos de idade, Ary Barroso iniciou seu currículo de músico trabalhando do Cine Ideal, tocando piano durante as exibições dos filmes mudos naquele cinema. Era uma forma de sustentar a família. Ary não queria, no entanto, ser padre, como era o desejo da avó e da tia. Ary reforçava a economia da casa trabalhando também como caixeiro da loja A Brasileira, aos treze anos de idade. Em 1920, quando Ary tinha entre 16 e 17 anos, o falecimento do tio Sabino Barroso, que foi um Ministro da Fazenda naquele período da República Velha, significou a transmissão da herança do ex-ministro para o jovem estudante. A quantia era em torno de quarenta contos de réis, considerada uma grandiosa fortuna. Ary Barroso utilizou o dinheiro para curtir a vida, mas também para cursar a Faculdade de Direito na então capital do país. Passando nas provas de vestibular, Ary cursou seus dois primeiros anos de curso superior na Faculdade Nacional de Direito. Com o esgotamento do dinheiro da herança, Ary largou temporariamente o curso para ser pianista no Cine Íris, já extinto, localizado no Largo da Carioca. Depois, Ary passou a tocar também em cabarés, fazendo parte de várias orquestras. Entre elas, a orquestra da sala de espera do Teatro Carlos Gomes, sob a regência do maestro Sebastião Cirino. Como antes era desempregado, Ary Barroso aceitava trabalhar por baixo salário, mas com isso adquiriu muita experiência. Em 1928, o jovem pianista foi contratado para tocar piano na orquestra do maestro Spina, em São Paulo. A orquestra realizou, na época, uma escursão que incluiu as cidades de Santos e Poços de Caldas. Neste mesmo ano, Ary inicia suas atividades de compositor. Várias de suas primeiras composições foram feitas durante a excursão da orquestra de Spina. Em 1929 passa a compor para eventos de teatro de revista e vende direitos autorais de suas composições para a editora Carlos Wehrs. Sua estréia foi como autor de músicas da peça Laranja da China, de Olegário Mariano e Luiz Peixoto. Daí até o ano de 1960, foram mais de sessenta peças que ganharam a música de Ary Barroso Ainda em 1929, uma música de Ary se tornou a primeira de seu repertório a ser gravada em disco. Seu colega da faculdade de Direito, Mário Reis, que se tornaria um dos mais prestigiados cantores brasileiros, gravou a referida canção, "Vou à Penha". Depois, o mesmo intérprete lançou o primeiro sucesso da obra de Ary, "Vamos deixar de intimidades". As duas canções fizeram parte da peça Laranja da China. O citado ano também foi o ano em que Ary concluiu o curso de Direito, tendo ele e Mário se formado em bacharelado na mesma turma de 1930. Ary já fazia parcerias musicais, compondo com Cardoso de Menezes e Bittencourt e Olegário Mariano. Compôs valsas como "Labaredas de amor" e marchas como "Dá nela". Através desta última, Ary foi convidado pelo maestro Eduardo Souto (cujo neto, que herdou o nome, se tornou conhecido por trabalhar com Roberto Carlos e fazer o arranjo do tema do festival Rock In Rio) para se inscrever no concurso de músicas carnavalescas da Casa Édison (célebre loja de discos e equipamentos de som da época) para o Carnaval do ano de 1930. A canção "Dá Nela" se tornou vitoriosa e seu compositor obteve cinco contos de réis, que deram para pagar suas dívidas e o que sobrou serviu para as núpcias com Ivone Belfort de Arantes, com quem teve dois filhos, Flávio Rubens e Mariúsa. Ary viaja para Belo Horizonte em 1931 e seu tio, Ignacio Barroso, consegue uma nomeação para o sobrinho como juíz municipal de Nova Resende, interior mineiro. Depois de uma cautelosa reflexão sobre o assunto, Ary recusa o cargo e decide regressar ao Rio de Janeiro, retomando as atividades musicais, compondo com mais determinação. Seu ingresso no rádio foi na rádio Phillips, em 1933. A emissora era de propriedade da holandesa Phillips, famosa indústria de eletrônicos que, no seu atual patrimônio, inclui também um selo fonográfico feito em parceria com a Universal (antiga PolyGram). Apresentou vários programas de auditório, como Calouros em Desfile e Encontros com Ary. Sua atuação como descobridor de talentos causava polêmica quando os calouros revelavam um gosto musical diferente do apresentador, o que fez com que Ary fosse temido pelos cantores iniciantes. Ao longo do tempo, porém, vários cantores e músicos lançados por Ary se tornaram célebres na Música Popular Brasileira: Dolores Duran, Lúcio Alves, Elizeth Cardoso e Elza Soares. Ary Barroso também foi locutor esportivo, tendo iniciado a função quando substituía um locutor titular. Foi na transmissão de uma corrida de automóvel na Gávea, ao lado de Gagliano Neto. Nas transmissões de futebol, Ary comemorava os gols tocando gaita, principalmente quando o Flamengo, seu time de coração, realizava a façanha. Num dos jogos em que o Flamengo foi vencedor, Ary largou a rádio cinco minutos antes do fim do jogo e foi ao estádio comemorar a vitória do seu time. Em 1939 Ary Barroso compõe sua canção mais célebre, "Aquarela do Brasil", que se torna mundialmente conhecida. A serviço de um programa de cooperação interamericana promovido pelo presidente dos EUA, Franklin Roosevelt, o produtor Walt Disney ficou impressionado com a música de Ary Barroso e este foi convidado para fazer temas para filmes e desenhos animados. Barroso recebeu o diploma da Academia de Ciências e Artes Cinematográficas de Hollywood. Na volta ao Brasil, Ary se candidata a vereador pelo Distrito Federal (Rio de Janeiro), elegendo-se em 1946 pela União Democrática Nacional (UDN). Criou a lei que autorizou a construção do Estádio Mário Filho (Maracanã), inaugurado em 1950 para a Copa do Mundo. Seu desempenho político foi em prol de eventos culturais e da garantia dos direitos autorais, tendo sido também conselheiro da SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais), fundador da UBC (União Brasileira de Compositores) e mais tarde fundador e presidente da SBACEM (Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Editores Musicais). Em 1950, abandona a política, e em 1953 cria a Orquestra Brasileira de Ritmos, com a qual excursiona por vários países da América Latina. Se torna apresentador de TV, com passagem na TV Tupi e TV Rio. Em 1960 foi vice-presidente do departamento cultural e recreativo do Clube de Regatas Flamengo. Em 1961 Ary adoece de cirrose hepática, e ele passa uma temporada no sítio de Araras (RJ). Compõe mais canções, entre elas "Quero voltar à Bahia", em co-autoria com Meira Guimarães. Depois, relativamente reestabelecido, volta à TV com o programa "Encontro com Ary". Também compõe várias canções com o poeta Vinícius de Morais.. Depois de várias internações, Ary Barroso faleceu na noite de 09 de fevereiro de 1964, mesma noite de domingo em que a escola de samba Império Serrano desfilava com o enredo "Aquarela do Brasil". Nos últimos dias, Barroso ainda pôde telefonar para se despedir do amigo e jornalista David Nasser.. Numa época em que a Música Popular Brasileira passa por um período de reavaliação, a obra de Ary Barroso, nos cem anos de seu nascimento, se torna urgente, não apenas para relembrar os sucessos, mas para apresentar as canções pouco conhecidas do compositor. |