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a morta de oswald de andrade

grupo: carmela, iris, pedro e paloma       

 

trechos em áudio da introdução da peça

leitores: pedro, paloma, iris

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Morta, despedaçada...

 

"A Morta" pode ser lida como um espetáculo centrado na capacidade de jogo textual que Oswald de Andrade adquiriu em seus anos de exercício da poesia. Mas pode também, de maneira não menos coerente, ser lida como um sopro final para varrer da superfície da criação artística a fina poeira do romantismo. Afinal, pode ser lida e recortada sob outras mil perspectivas...

Mas o que me interessa o texto hoje, afinal? Com que objetivo se recorta um texto carregado do modernismo antropofágico de Oswald, em uma época de total saturamento das velhas questões modernistas e de "desenquadramento" da arte, não sob o ponto de vista do seu objeto , mas sob o ponto de vista de sua criação, de sua autoria?

É nesse ponto em que começa a aparecer o interesse maior... A moldura!

Tentando (ao seus modos e época) subverter as convenções teatrais, Oswald inaugura seu primeiro ato subvertendo o palco... Coloca sobre ele quatro gigantescas marionetes que se movimentam "fantasmaticamente", e as quatro personagens respectivas à elas no meio do público, dando por microfones as falas das mesmas... "É um panorama de análise", diz a rubrica. Esse primeiro ato ( entitulado "o país do indivíduo") é uma grande autópsia do ser humano, lados e posições se debatem em frases internas. Comentando a "Divina Comédia" de Dante, a personagem Poeta tenta salvar sua musa Beatriz da morte que já é anunciada ao início pela fala do Hierofante, a moral da história como o mesmo se intitula. A Outra de Beatriz, como um duplo negro de sua imagem, expurga suas castidades para cima de sua metade. As personagens se debatem em textos que mais parecem encadeados por monólogos contínuos e rígidos, como pessoas se debatendo em um quarto escuro, tentando impor um ao outro a direção que está seguindo, mesmo sem saber aonde vão chegar.

A divisão do indivíduo em microporções de linhas de força me parece uma boa mergulhada no universo da filosofia pós-estruturalista. Foulcaut , e posteriormete (mas não tanto) Deleuze e Guatarri , chegam a comentar a presença dessa fractalização do indivíduo por suas multiplicidades, e inserem no mundo a questão do movimento de sua moldura. Essa moldura passa a ser não mais um traço codificando uma unidade fixa, mas sim uma neblina que hora (segundo um determinado recorte) se estratifica em uma determinada moldura, um determinado contorno, hora (segundo outro recorte) em outra, completamente diferente. Agora a questão artística não está mais em definir o contorno, mas está em transitar entre eles, no processo de ruptura entre um e outro.

Parece-me mais intrigante hoje, segundo esses parâmetros, a exploração dessas personagens não como molduras fixas, presas em seus contextos e campos rígidos de significados, mas como um aglomerado de freqüências, um conjunto de linhas de força que se evapora e se estratifica em diferentes molduras. O personagem passa a ser então uma espécie de estrutura composta de campos sólidos ,platôs significantes, e grandes lacunas, permeáveis, que garantem o trânsito entre um campo e outro, assim como criando um vazio motor que gera outros novos.

Nesse sentido não se pode levar os personagens para um lado e a encenação para outro. A realização de um espetáculo que comenta esses aspectos deve estar colada nas personagens, atravessando-as, compondo com elas as molduras geradas, deve se confundir personagem, encenação , cenário, sonoplastia, iluminação, público... Falo de uma encenação "neblinosa", uma grande nuvem de vapor que projeta hora certas formas hora outras... Uma máquina de jogo que mistura todos esses elementos.

Por fim, acho possível usar um espetáculo modernista e antopofágico para o fim de explorar certas questões ainda bem importantes e pouco digeridas, mesmo que elas sejam, de certa forma, a total ruína da arte moderna.

 

 

 

Pedro Garrafa

imagens de apresentação no sesc de santos em 3/9/2002

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fotos de lucio agra

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