Três liras

 

I

 

Então alçar as velas em tua noite,

cerzindo-as junto ao corpo. Eras segredo

e o mar lançou-nos queda na extensão da noite.

 

Assim vimos dobrar nossos silêncios,

lancinando-os com o fogo de outras sombras.

 

Abraçaras-me.

 

Então se fez tremor e era outono.

E ele luziu uma flor em nossos seixos.

 

 

II

 

Abriste tuas asas ao róseo da alba.

 

Doces teus olhos, de que sonho

te ergueste assim como a noite?

 

Tuas trevas densas.

 

Deixaste a luz adormecer teu rosto.

 

E adentraste o meu sono com teu sono.

E dividimos luz em teus açoites.

 

 

III

 

A inclinação dos pássaros, asas fendidas.

 

Riscaram o horizonte anterior ao sono.

 

Ali estiveras também com tuas asas,

talhando este vento com que vimos tocar-nos.

 

Ventos de cigano e de ágora, azulam

a peregrinação do fogo em nossas mãos,

e os umbrais do silêncio repousados.

 

 

 

 

 

 

 

Pablo Simpson

 

      Nasceu no Rio de Janeiro. Autor de Flor suspensa (poesia, 1997). Editor da revista Lagartixa, com Pedro Marques e Caio Gagliardi. Organizou as Espumas Flutuantes e Os Escravos de Castro Alves com Luiz Dantas (Martins Fontes, 2001).  Doutorando em Literatura Comparada pela Unicamp, com a tese Rastro, hesitação e memória: o lugar do tempo na poesia de Yves Bonnefoy. Publica semanalmente em http://www.eutrapelias.blogspot.com/

 

 

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