CENTRAL DE QUADRINHOS BRASILEIROS - CARTILHA 2
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THUTHARELLA. Criação de Rod Gonzalez, aos seus (apenas) sete anos de idade. O guri bolou uma guerreira bárbara que andava nuazinha, apenas com uma espada e um escudo. Por enquanto, ainda não saiu em nenhuma revista, mas pode ser vista pela net, no traço de vários desenhistas. Está em fase de produção o encontro Thutharella & Diamante, esta última criação do Sandro Marcelo Farias . O desenho acima é de Emir Ribeiro. |
Identidade nacional nas histórias em
quadrinhos (Por Felipe Meyer)
1 - Pra começar, um detalhe bastante simples, mas que muitos esquecem.
Dinheiro, por essas bandas, só é verde se for nota de um real. Portanto, ao
fazer transações entre policiais corruptos e traficantes, por exemplo,
pinte o dinheiro de azul ou, no mínimo, amarelo. Esse lance de fazer tudo em
dólar é clichê demais.
2 - Se você conhece bastante sobre quadrinhos, deve saber que o uniforme do
"Super" mais famoso deles criado em homenagem aos lutadores de circo (se não
sabia, matei sua curiosidade). A estrutura dos quadrinhos que conhecemos
hoje vem de uma série de outras influências, como os "pulps" e as "óperas
espaciais". Portanto, é compreensível que os heróis gringos tenham super-poderes
que só a ciência explica (de uma forma nem sempre convincente), uniformes
colantes e coloridos, e combatam o crime somente pelo orgulho em se fazer
justiça. No Brasil, podemos lembrar de influências similares. Ao invés dos
lutadores de circo, temos a luta livre na TV. Ao invés das óperas espaciais,
temos os quadrinhos de terror e o "terrir". E ao invés dos "pulps", temos as
fotonovelas e catecismos. Portanto, antes de criar um personagem super-musculoso
com a cueca por cima das calças e que solta raios dos olhos, eu sugeriria uma
roupa chamativa e mal acomodada no corpo, com as costuras aparecendo; quem sabe
mordido por um vampiro ou possuído por um demônio.
3 - Muitos acreditam que os heróis nacionais, em sua totalidade, são cópias
deslavadas dos gringos. Estes, não sabem do que falam. Muito antes de algumas gringas atuais insistirem em dizer que não são super-heroínas e saírem por aí
querendo fazer dinheiro como detetive particular,
Emir Ribeiro já eliminava os
uniformes de sua personagem Velta ,e cobrava altíssimos preços por seus
serviços. Os gringos nos copiaram?
Fica
dificil comprovar e já passaram-se muitos anos, mas casos parecidos existem
muitos !
Este pequeno exemplo
mostra que, a maior notoriedade de um, acaba ofuscando a maior criatividade de
outro. Casos como esse não são isolados. Vampirella surgiu poucos anos após seu
criador ter conhecido Eugênio Colonnese, que já trabalhava com a vampira Mirza.
O mesmo Colonnese contava ótimas histórias do Morto do Pântano antes que o
Monstro do Pântano desse as caras nas revistas. Gedeone Malagola criou seu
personagem Raio Negro calcado num gringo, mas criou um conceito de patrulha
estelar com muita antecedência aos autores do "copiado". Em 1958 surgia no
Brasil o Justiceiro Fantasma, um motoqueiro que combatia criminosos tendo como
arma uma corrente. Já em 1968, quem dava as caras era o Patrulheiro Fantasma, o
espírito de um patrulheiro rodoviário que fazia justiça pelas estradas
brasileiras em sua moto sobrenatural. Somente em meados de 1973 os gringos iriam
surgir com um seu também "fantasma", andando de moto e com a cabeça chamejante.
Por isso, antes de buscar referências "neles" (os de sempre), lembre que em
várias ocasiões, "nossos quadrinistas são mais criativos que os outros".
4 - Na década de 60, se criou os tais "X " como uma forma sutil de falar sobre
racismo. Até hoje a rivalidade entre o mutantes: professor Xavier e Magneto é comparada às diferenças de discurso de Martin Luther King e Malcon
X. No Brasil, temos Zumbi, Chico Rei, além da velha frase que diz que aqui as
pessoas fingem que não existe preconceito.
5 - Mais além, temos um período negro de nossa história que não equivale a nada
na história americana. Chama-se ditadura. "Subversivos", de André Diniz, para
mim é tudo o que uma história dos "X" seria se fosse criada no Brasil.
6 - "Quadrinho nacional tem peito e bunda demais". E daí? Não é nada diferente
do que vemos em nossas televisões todos os dias, nos Big Brothers da vida.
Existe uma grande diferença, porém, entre a pura exploração da sexualidade para
balancear a falta de conteúdo de uma história em quadrinhos; e uma história bem
escrita e empolgante, que utiliza o sexo como recurso secundário para ilustrar
realismo e coerência (afinal, não vá me dizer que Super-heróis que são
casados, não trepam).
7 - Em um país onde o mercado quadrinístico é quase inexistente, fazer sagas
intermináveis chega a ser estupidez. No máximo, fará com que o leitor pegue o
bonde andando em uma revista que provavelmente não terá continuação, e que fará
com que o personagem seja rapidamente esquecido. Se você criou um cenário bem
detalhado, personagens ricos em suas descrições, com tramas complexas e bem
elaboradas, pelo menos certifique-se de que cada história tenha início meio e
fim. Isso garantirá que o leitor se divirta com a revista nas mãos, mesmo que
desconheça o universo do personagem. A edição "30 anos de Velta", de Emir
Ribeiro, é um bom exemplo disso. É a continuação de uma saga criada por Emir
anos antes, e a primeira história da revista já é, por si só, a segunda parte de
uma aventura publicada cinco anos antes. No entanto, ele nos presenteia com
recordações e diálogos do passado, além de textos explicativos entre as
histórias curtas, que colocam mesmo aqueles que nunca ouviram falar de Velta,
completamente sintonizados com as criações do autor.
8 - Lá fora, histórias em quadrinhos são automaticamente ligadas a
super-heróis. Aqui, quadrinhos de super-heróis fabricados em território
nacional, dificilmente são levados a sério. Reflita estas posturas através de
suas histórias. Ao invés de escrever sobre heróis pomposos adorados pelo
público, por exemplo, escreva sobre um mundo onde os super-heróis não existem,
ou se existem, ninguém sabe de (ou acredita em) sua existência. Neste caso, de
quê serviriam identidades secretas, uniformes e máscaras?
9 - Aliás, para que escrever sobre super-heróis? Este é apenas um gênero dos
quadrinhos, e não sua grande identidade. Nada impede que você escreva sobre
homens voadores e alienígenas justiceiros, e ainda assim mantenha uma identidade
brasileira em suas histórias. Mas nada impede também que você ultrapasse essas
definições e escreva sobre policiais, cangaceiros, revolucionários, estudantes,
etc.
10 - Na hora da escolha dos nomes, Paulo, Pedro e Bruno são melhores que
Michael, Bruce e Jack. Ao invés de Nova Iorque, ambiente sua história em São
Paulo (que você pode visitar após uma viagem de ônibus ou simplesmente buscar
referências de prédios e cenários pela internet) ou em sua própria cidade natal.
O que faz de Los Angeles tão melhor que São Francisco do Sul para que um ser
super-poderoso surja em uma e não na outra?
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Urubu do Pescoço Pelado (de Evandro Molina) e O Bucha (de Samuel Bono), no traço do professor Gerson Witte. |
11 - Origens bem detalhadas são apreciadas pelos leitores. Dizer que "o
personagem é assim, porque nasceu assim" demonstra uma grande falta de
criatividade e preguiça em se pensar em coisa melhor, numa época em que os quadrinhistas se acostumaram demais a dizer que todos são "mutantes". Ser picado
por uma barata transgênica também não é um exemplo de grande originalidade.
Lembre que os leitores são menos ingênuos hoje que há 40 anos atrás, e pequenos
acidentes não convencem mais para explicar grandes poderes. Por exemplo, um
personagem como um conhecido monstro verde, se criado no Brasil, poderia ser um
funcionário ocioso de uma usina nuclear que, afetado por um vazamento de
radiatividade, tornaria-se um monstro cancerígeno ambulante, cuja explicação da
grande força (não tão grande quanto a do monstro gringo) seria o descontrole
emocional intenso, e da resistência sobre-humana seria a diminuição da
sensibilidade à dor, causada pelo acidente.
12 - Por fim, lembre-se que a HQ nacional tem uma longa estrada e muita coisa
boa foi escrita e desenhada através dos anos. Mestres como Lourenço Mutarelli,
Flavio Collin e mesmo "iniciantes" como
Gabriel Bá e Fábio Moon certamente são
escolhas melhores no quesito "brasilidade" do que qualquer outros
gringos tidos como consagrados. [Texto adaptado para esta página,
e publicado no
Zuntow
Blogue ].
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