CENTRAL  DE  QUADRINHOS  BRASILEIROS - OPINIÃO 3

Uma amostra da arte de  Tati Viana. Mais dela pode ser lido e visto no blog "Riscos e Rabiscos". Visitem.

TATI VIANA  é uma das poucas mulheres a gostar e também produzir quadrinhos no Brasil, e apesar dos seus apenas 22 anos de idade, tem uma pensamento bem à frente da sua idade biológica.  Vimos de longe, na lista de discussão “Ababacados por Velta”, uma amostra de que não é idade e nem sexo que determina o esclarecimento, o raciocínio lógico e a inteligência das pessoas. Achamos que as considerações da Tati mereciam ser vistas por mais gente... e refletidas.  Como o texto é composto de opiniões e comentários esparsos durante uma conversa dentro de uma lista de discussão, preferimos separá-lo por tópicos. Vale a pena ler e tomar como exemplo.

AMPLITUDE - Quadrinho é uma arte fascinante! A gente pode contar qualquer história, seja de ficção ou realidade. O negócio é que a grande maioria dos quadrinhistas é bitolada, e só sabe fazer a mesma coisa... Não cresci lendo só um tipo de HQ. Lia Mônica e tal. Comecei bitolada por mangá,  e quando pequena fazia meus plagiozinhos de X-Men. Eu não me arrependo de ter criado HQs bizarras, chupadas do que eu via na TV ou em revistas. Isso foi legal pra mim, pois eu era criança. Mas comparar uma mocinha de 10 a 12 anos com uns marmanjões profissionais de 25, 30, 40 anos - é dose!  Minha sorte é que li comics, li mangá, li Ken Parker, li tirinhas, li Will Eisner, li Hqs realistas, li fanzines, li até FOTONOVELA ...  E ainda fiz HQ publicitária.  É o que tá faltando no povo: amplitude!  Ter a cabeça voltada para vários gêneros.

INSISTÊNCIA NOS CLICHÊS 1 - Não sei pra quê ainda  há quem insiste nesses clichês de luta conta o mal, mega-corporação (Mega Corporação... aqui no Brasil ?? É mais fácil ter uma mega-corporação de traficantes, seqüestradores), uniformes, poderes, explicações mirabolantes... Fica parecendo os EUA !! Vivem xingando os americanos, reclamam deles, mas fazem TUDO o que eles fazem! Desenham do jeito deles, e se não é isso, é mangá (tudo bem, eu sou suspeita pra falar nisso, mas já superei essa fase) ! Os roteiros, então...

HÁ MERCADO NO BRASIL ?  - Quadrinho brasileiro não tem mercado aqui, e os anos provaram que essas HQs que o pessoal faz não entram na cabeça das pessoas. Desde os anos 60, 70, os artistas mexem com essa coisa de clichês! Estamos em 2005, e ainda não perceberam que o negócio não deu certo?  O caso é delicado, e não é nenhum grupinho de desenhistas-fãs amadores que vai mudar as coisas. Quadrinho é coisa séria! E não vai para frente porque só o levam na brincadeira. Aqui, o artista tem que ir para o exterior, e ter a sorte de se tornar um Deodato da vida, ou fazer cartilhas publicitárias (que dá uma grana tão boa), ou mexer com charges e tirinhas (eu gosto muito de ler essas coisas, e ainda tem jornal que por não ter uma tira pra pôr, ou põe uma que já foi publicada, ou bota uma propaganda). É isso que eu vejo, para quem quer viver de quadrinhos.

Como eu disse, eu mesma não estou a fim de me unir a grupinhos ou sonhar com uma Marvel. Faço HQ para sair do estresse. Não quero me estressar por uma HQ. Vez por outra faço uns bicos, e aproveito meus desenhos pra entrar para a publicidade (que é o forte aqui no Brasil). Algumas empresas gostam de mim por isso.

CABEÇAS BITOLADAS -  Quando você pergunta a um leigo se ele lê quadrinho, ele vai logo dizer "- Ah, eu não gosto desse negócio de heróis, não..." ou "- É coisa de criança", pois acha que se HQ não é coisa de Maurício de Sousa ou Disney, é coisa de Super-Herói. Por isso, o povo pensa que HQ é coisa de criança, porque todo artista só se bandeia para essas "fantasias"!   Se querem fazer um mercado aqui, mostrem que sabem fazer algo mais do que estamos habituados a ver. É sempre o mesmo clichê. E só por que a gente gosta de Super-herói, Mangá ou Faroeste, não pode empurrar nossa preferência goela abaixo dos que não querem isso. As cabeças das pessoas já estão bitoladas com isso, e ao invés da gente modificar isso, ainda vai dar corda?!    Esse é o erro da HQ no Brasil. Tem que aparecer alguma coisa diferente e haver com a cultura brasileira. Falam tanto em levantar a bandeira, mas ao meu ver, a bandeira dessa turma deve ser parecida com uma vermelha e azul... Falam mal dos americanos, dos japoneses, só que fazem a mesma coisa que eles. Só mudam o nome e o local.

 SUPER-HERÓI AMERICANO VENDE ? -  Ainda vende, uma pinóia! Como dito, até nos EUA a coisa não está indo bem, e para continuar vendendo, estão até escondendo as revistas brasileiras... Estão pedindo arrego!!!     Maurício de Souza é o maior exemplo de revolução no mercado que eu já vi! Ele pegou uma idéia original, usando personagens genuinamente brasileiros (e com vidas de brasileiros) e até hoje está vendendo!! Tem parque de diversões e tudo! Por que será, hein?? Sejam INDEPENDENTES, pessoal!  O problema dos artistas é, como Emir falou: preguiça. Tem preguiça de pesquisar, de estudar... E aí inventam coisas que saem da cabeça, acostumados a sempre lerem a mesma coisa. Já fiz muito isso... Porém, são águas passadas (ainda bem!). É como nos filmes. O autor não faz um filme sem pesquisa. Os atores fazem "laboratórios", estudam seus personagens e a história... O quadrinhista não. Ele quer fazer o que dá na cabeça. Como o filme de Hitler, por exemplo. O cara não vai fazer um filme só com o que aprendeu no colégio. Aí, vai fuçar toda a vida do homem...

 EGO ENORME -  Gosto da idéia de cooperativa. Já é um bom começo! Só fico cabreira com o conteúdo, que é chupado das coisas que já rolam por aí. E as pessoas que não gostaram de determinada revista dizem: "Oh! A sua revista é maravilhosa! Muito boa!". Não tiveram coragem de dar seus pitacos. Falam mal por trás, e ficam caladas na frente dos caras. E isso é muito errado, pois ao invés de tentarem melhorar, os autores da revista se acham o máximo e pensam que tão abalando!     Enfim, quem quer mesmo entrar no negócio de HQ independente, tem que ter jogo de cintura! Se continuar assim, só nos clichês, vão ter que ficar de prontidão numa banca, pra tirar as revistas gringas da frente da sua revista...     Acho que esse país não vai pra frente nunca... Enfim, não sou eu quem vai mudar pensamentos...  Fizeram uma lavagem cerebral muito doida!!

 HQS BRASILEIRAS - FAÇAMOS HQS BRASILEIRAS PRA BRASILEIROS!!! Exemplo: as pessoas gostam de novela. Por quê? Por que as novelas tratam de histórias brasileiras, como tráfico de drogas, um cara desempregado, empresas multinacionais, gravidez de menininhas, políticos, crentes, macumbeiros... E ainda fazem personagens que se identificam com quem assiste. COISAS QUE ACONTECEM NO BRASIL!!   E outra: não é só a mulherada que assiste novela. Já vi muito cara de boteco comentando o capítulo passado de “Senhora do Destino”!    Mas, quando um artista desenha uma HQ, é: super-herói, história medieval baseada em RPG, grupo de robôs num futuro distante... E isso é como se andasse em círculos.

Adorei a Revista “Front”. Ela unia vários artistas e tinha um assunto: amor. Tinha história de um casal, onde a mulher tinha que viajar pro exterior por causa de um projeto dela, mas no fim (sim, adoro contar o fim!) ela fez isso apenas pra saber se o homem a esperaria, se ele ainda a ama. Outro, de Fábio Moon e Gabriel Bá, contava sobre um rolêzinho de um rapaz e uma moça muito mais jovem, que nem sabia o nome... E os desenhos variam muito! Alguns eram muito bons. Alguns eram rabiscados. Outros com colagens... Enfim, amo isso!    É o que eu penso. O Quadrinho Nacional precisa de coisas assim. Histórias que dêem prazer pra ler e que atinja vários tipos de pessoas.  

AUTENTICIDADE -  Desculpem meu jeito. Mas é que euu odeio regrinhas e fazer o que todo mundo faz!!  Tati, em defesa de um quadrinho que preste...      LEIA MAIS  >>>>>

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