CENTRAL  DE  QUADRINHOS  BRASILEIROS - OPINIÃO 4

ULTRAX é um herói Brasileiro que resgata os bons tempos da inocência do tema, nos anos 60. O autor (e excelente desenhista) dele é o veterano E. C. Nickel. Suas HQs virtuais podem ser vistas no "Quadroid". Visitem.

 Brasil comemora as histórias em Quadrinhos... Comemora? (Por Linc Nery)

Conta a lenda que, no dia 30 de janeiro de 1869, no jornal Vida Fluminense, do Rio de Janeiro, era publicada a primeira "tira" de uma história ilustrada intitulada As aventuras de Nhô Quim, ou impressões de uma viagem à corte, que narrava as experiências de um caipira perdido naquilo que se considerava, à época, uma cidade grande (com cerca 500 mil habitantes, a capital do Império era a então a maior cidade do país, posição que continuou a ocupar até o censo de 1960, quando a perdeu para a capital do estado de São Paulo).

Aproveitando esta data, a Associação de Quadrinhistas e Cartunistas do Estado de São Paulo (AQC-ESP) instituiu esse dia como O Dia do Quadrinho Nacional, comemorando, desta forma, o aparecimento da obra que muitos brasileiros consideram como a grande precursora da linguagem dos quadrinhos em a nosso país. Mesmo que existam dúvidas se ela foi ou não tudo isso que sobre ela se alardeia, o certo é que a figura e a obra de Ângelo Agostini merecem certamente figurar como um dos grandes baluartes mundiais da linguagem ilustrada. Se ainda não utilizava todos os elementos que depois vieram a constituir as histórias em quadrinhos, Agostini com certeza lançava mão de enquadramentos, pontos de vista, figurações e estruturas gráfico-narrativas que apenas uma pequena parcela de autores, em quase um século e meio depois do aparecimento de sua primeira história com personagem fixa, conseguiram atingir.

A consagração de uma data a um determinado fato, categoria ou atividade profissional representa uma forma de lembrar a sociedade sobre a importância do alvo dessa comemoração. Pensando nisso, neste ano de 2003, talvez seja oportuno perguntar-nos se o Dia do Quadrinho Nacional, mesmo considerando todas as atividades que nele são normalmente organizadas pela AQC-ESP, tem-se conseguido atingir os melhores resultados possíveis. Neste sentido, uma resposta honesta teria que necessariamente manifestar-se de forma negativa. Para sermos francos, é preciso reconhecer que é muito pouco o que a data mobiliza em termos de interesse público e até mesmo de repercussão na mídia impressa e falada. Um artigozinho ali, uma entrevistazinha acolá, alguns segundinhos de TV mais além... e praticamente acaba aí o que o público em geral recebe a mais no que diz respeito a conhecimento sobre os quadrinhos nacionais no dia 30 de janeiro. E o mesmo se poderia dizer a respeito dos fins de semana imediatamente seguintes, quando normalmente a AQC-ESP realiza a comemoração oficial da data com eventos diversos, como a entrega do Prêmio Ângelo Agostini, palestras de autores consagrados, lançamentos de álbuns, etc. (aliás, este ano essas comemorações ocorrerão no dia 9 de fevereiro próximo, durante o Fest Comix, no prédio do "Gazetão", na Av. Paulista n. 900...).

Em geral, o Dia do Quadrinho Nacional acaba envolvendo apenas aqueles que estão ligados às histórias em quadrinhos por profissão ou paixão, ou seja, desenhistas, editores, colecionadores, leitores e aficionados em geral. Pensando bem, é uma pena. Os eventos atingem prioritariamente aqueles que, se pensarmos bem, não necessitam deles como forma de conscientização ou reconhecimento da importância das histórias em quadrinhos como elemento de importância da comunicação e da vida moderna. Ainda que intuitivamente, já sabem disso. Aqueles que deveriam ser atingidos pela data passam em geral muito longe dela: pais, professores, mães de família, profissionais liberais, estudantes, estudiosos de outras áreas do conhecimento, universitários, população em geral, enfim. É de se perguntar, então, se não haveria maneiras que trouxessem maiores dividendos em longo prazo, para a linguagem e popularização dos quadrinhos no país, em termos de custo-benefício. Este questionamento certamente merece alguma consideração.

Nos Estados Unidos, existe um dia dedicado às histórias em quadrinhos, 25 de setembro. Ou, mais propriamente, às revistas de histórias em quadrinhos, a forma como, naquele país, a linguagem consagrou-se popularmente. Nessa data, os editores e os donos de  lojas especializadas em revistas em quadrinhos distribuem milhares de gibis gratuitamente à população, não só como uma maneira de garantir que todos possam ter contato com o que está sendo publicadas por eles, mas como divulgar o meio de uma forma mais ampla entre aqueles que normalmente não têm o hábito de adquiri-las, lê-las ou mesmo folheá-las. É uma iniciativa interessante, sem dúvida, que, além de tornar os editores simpáticos aos olhos do público em geral, colabora para ampliar o conhecimento geral sobre a indústria e os diversos produtos quadrinhísticos em circulação.

Ainda que uma iniciativa semelhante pareça, em um primeiro momento, impraticável na realidade da indústria e comércio de histórias em quadrinhos do Brasil - os nossos editores de quadrinhos, enquanto empresários, parecem ser muito menos despojados ou ter muito menor visão de futuro do que os norte-americanos... -, talvez uma iniciativa parecida, bem mais modesta, pudesse ser aqui desenvolvida no Dia do Quadrinho Nacional. E talvez a ela pudessem ser também agregadas outras atividades, como a presença de desenhistas e quadrinhistas junto à população, em praças, parques ou shopping centers, mostrando seu trabalho, realizando caricaturas de populares, falando sobre a sua atividade, divulgando a arte dos quadrinhos, enfim, de uma forma mais efetiva do que até hoje tem sido feito naquela que poderia ser considerada a sua data máxima.

Seria sonhar alto demais esperar que os profissionais dos quadrinhos (aqui envolvendo humoristas, cartunistas, chargistas, caricaturistas e todos os outros "istas" que, de uma forma ou outra, se relacionam com a narrativa gráfica) dedicassem um dia do ano à divulgação voluntária da arte à qual dedicam sua vida com tanto afinco e dedicação?

Quem sabe a resposta?

Seja ela qual for, no entanto, o certo é que o desenvolvimento e difusão das histórias em quadrinhos no Brasil merecem o comprometimento daqueles que com elas se identificam. Ao menos na data dedicada à sua comemoração, seria importante ousar um pouco mais, sair da rotina, utilizar o potencial criativo que é inerente à área. Afinal, o sucesso de qualquer iniciativa no âmbito das que foram acima mencionadas repousa, em última análise, em elementos de imaginação. E imaginação é algo que jamais faltou àqueles que se relacionam com as histórias em quadrinhos. LEIA MAIS  >>>>>

Matéria adaptada. Retirada e autorizada pelo autor do sítio http://www.brazilcomics.hpg.ig.com.br

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