
Por Priit J. Vesilind – Fotografias de Carsten Peter
Impedidos de
prosseguir pelo tornado, os caçadores fazem uma pausa para planejar a rota. Uma
manobra errada poderá ser fatal. Os carros escorregam na estrada lamacenta e a
equipe acelera para ultrapassar o redemoinho e colocar sondas no seu trajeto.
Estreitando-se até assumir a forma de uma corda, o tornado atravessa a estrada,
arrancando tudo o que encontra.
No dia 24 de Junho de 2003, aproximadamente à hora do jantar, a povoação de
Manchester, no estado do Dakota do Sul (EUA) é levantada do solo e desaparece
por completo no ar, levada por um tornado negro e compacto com um quilômetro de
largura. Milhares de objetos ficam a girar, no alto de um turbilhão de vento que
rodopia a 320km/h e varre os destroços da paisagem. A norte da povoação, a quase
dois quilômetros de distância, Rex Geyer, de 36 anos, abre as cortinas da janela
do quarto do primeiro andar e assiste, petrificado, ao desaparecimento de
Manchester. O tornado parece também ficar imobilizado. Não se desloca nem para
um lado nem para outro.
Após um minuto de terror, Rex apercebe-se do significado dessa percepção: ele
encaminha-se na sua direção. Momentos antes, Rex e a mulher, Lynette, grávida de
oito meses, comeram frango frito. “Tínhamos ouvido falar de alguns tornados
terríveis, lá em baixo em Woonsocket, a terra da Lynette”, diria ele mais tarde.
“Enquanto víamos atentamente a televisão, eu ia olhando lá para fora e dizia:
Bem, uau, não me parece assim tão mau.”
Mas agora começa a chover a cântaros, e a tempestade monstruosa que se
aproxima rapidamente da sua casa rural de dois andares obscurece. O irmão de Rex,
Dan, que vive mais adiante, entra de rompante pela casa. “A porta quase saiu das
dobradiças quando ele entrou a gritar: ‘Temos de ir para o abrigo!’ Mas eu
acabara de ver os destroços de Manchester e nunca pensei que sobrevivêssemos no
abrigo. Por isso, metemo-nos todos no carro do Dan.”
“Apago as luzes e a televisão?”, pergunta Lynette. “Não, não! Temos de partir
já!” Fica tudo para trás, exceto um tele móvel.
Enquanto fogem, dois carros descem a toda a velocidade por uma estrada de
terra, na direção oposta. Vão diretos ao tornado. O engenheiro eletro técnico Tim
Samaras, de 45 anos, natural de Denver, e o seu colega caçador de tempestades,
Pat Porter, deslocam-se numa camionete que transporta seis sondas, normalmente
chamadas “tartarugas” – discos planos com 20kg de pesos, semelhantes a discos
voadores. Por meio de sensores incorporados, as sondas conseguem medir a
velocidade e direção do vento de um tornado, a pressão atmosférica, a umidade e
a temperatura. A missão de Samaras é colocar as sondas que acompanhem a
trajetória do funil – e esperar que ele e os instrumentos consigam sobreviver.
O fotógrafo Carsten Peter segue meio pendurado da janela do outro carro que
se desloca a grande velocidade, conduzido por Gene Rhoden, um veterano da caça
às tempestades. Trazem consigo outra espécie de sonda, um armação de alumínio em
forma de pirâmide, no interior da qual se encontra uma câmara de vídeo e três
câmaras fixas de 35mm. A equipe chama a esta armação “Tinman” (“Homem de Lata”),
em homenagem à personagem do filme “O Mágico de Oz”. Nunca ninguém filmou o
interior de um tornado, onde o vento tem força suficiente para arrancar o
asfalto da estrada. Carsten quer ser o primeiro.
Ouvindo o tornado troar como um motor a jato e vendo-o partir ao meio postes
de eletricidade, os caçadores viram para leste, seguindo por uma estrada
asfaltada, passando pelo rancho de Geyer e dirigindo-se diretamente para a rota
do funil. Tim trava para lançar uma “tartaruga”. “Não temos tempo. Não temos
tempo!”, grita Pat. No momento em que o monstro sulca o solo a apenas 90m de
distância e o vento de afluxo (“inflow”) aumenta de velocidade, Tim salta do
carro o tempo suficiente para deixar uma sonda e apressa-se de novo a entrar. À
medida que os caçadores de tempestades se afastam a toda a velocidade, vêem
destroços a voar por cima deles: pregos, arames e ripas de madeira açoitados
pelo vento, que em breve atingirá os 320km/h.
Pouco depois, os carros voltam a parar na estrada. Carsten e Gene arrastam o
“Homem de Lata”, com os seus 45kg de peso, do carro até à beira da estrada e
ligam as câmaras, enquanto Tim coloca outra “tartaruga” – duas instaladas até
agora. Bem bom. Porém, agora é o tornado que os quer caçar...


|
Como uma flecha |
| Foto de
Carsten Peter |
Varrendo as plantações de Dakota do Sul com
ventos de mais 320 km por hora, um tornado em forma de cunha baixa perto da
cidade de Woonsocket em 24 de junho de 2003. Esse foi um dos 67 tornados gerados
em Dakota do Sul nesse dia por uma gigantesca colisão de umidade e ventos
cortantes nas planícies do norte. Mais de mil tornados são gerados a cada ano
nos Estados Unidos continental.

Em Ação
No Olho da Tempestade
Anotações de campo de Priit Vesilind
O melhor
O fotógrafo Carsten Peter é alemão, e ele gostava de chatear todo mundo com as deficiências
dos carros, da cultura e da política americanos. Mas quando se tratava de
comida, ele parecia um antropólogo maluco; ele não conseguia deixar de
experimentar a "junk food" americana.
Em qualquer posto de gasolina que parávamos – e eram muitos – Carsten saía em busca dos mais
exóticos elementos da nossa dieta de estrada: balas de goma multicoloridas,
batatas chips superapimentadas, a mais nojenta carne seca, e os refrigerantes
mais corrosivos a base de cafeína. Ele voltava para o carro se vangloriando de
suas últimas descobertas ("Vocês não acreditar o que eu encontrar!), e a equipe
toda passava o resto do caminho comendo aquelas coisas terríveis. Tudo sem a
menor culpa, em nome da pesquisa.
O pior
No caminho para o Colorado em nosso terceiro ano de caça a tempestades, Scott Elder, meu parceiro
de caça, e eu demos um pulo até Jackson, Tennessee, onde um tornado havia feito
um estrago uma semana antes. Igrejas, lojas e casas haviam sido desmanteladas.
Por toda parte havia pilhas de dejetos de vidro, metal e madeira. Onze pessoas
morreram.
A poucos quarteirões do centro havia um depósito de carros usados onde todos os veículos
estavam arruinados – os vidros estilhaçados, galhos de árvore atravessando-os.
Uma placa no escritório dizia: "Saqueadores serão baleados", mas a porta estava
aberta e vimos o proprietário sentado em sua mesa. Entrar ali foi como ir a um
velório confortar os enlutados. O rosto do vendedor estava cinza pela perda e
choque, e ele falava naquele tom monótono de alguém em luto. O que ele fazia
ali? Ele tinha medo que alguém roubasse seu computador, e... o que mais a fazer?
Aquilo era sua vida.
Por vezes achávamos que caçar tempestades era divertido, uma aventura, mas em momentos
como esse víamos bem como é importante aprender melhor como prever os tornados.
O inesperado
Voltando da segunda temporada de tornado, Scott e eu paramos em Liberal, Kansas, para
visitar o museu Mágico de Oz. Afinal de contas, foi um tornado que carregou a
pequena Dorothy e seu cão Toto de Kansas até a Terra de Oz.
Dentro de um recinto do tamanho de um hangar de avião, o museu construiu um labirinto de
tijolo amarelo que mostrava cenários onde o filme foi feito em 1939 pela MGM,
começando pelo local aonde Dorothy chegou e conheceu os Munchkins. Havia uma
guia de 14 anos fantasiada de Dorothy. Ela havia decorado bem sua rotina, mas
não se impressionou com a minha imitação da Bruxa. "Eu vou te pegar, lindinha!
He-he-he-he-he! E o seu cãozinho também! Talvez ela já tivesse escutado isso
antes.
Havia também um outro trecho de estrada de tijolos amarelos do lado de fora, e cada um de nós
posou ali com Dorothy, e depois... Bem, não deu para resistir. Nos demos os
braços e descemos estrada afora enquanto Dorothy fotografava. Coisa para mostrar
aos nossos netos.


|
Largar e correr |
| Foto de
Carsten Peter |
A um passo adiante da fera, Samaras se apressa
para depositar uma sonda instrumental na trilha da tempestade de Woonsocket.
Samaras projetou as sondas de aço de 20 kg para que se agarrem ao solo enquanto
registram a velocidade e direção do vento, a pressão barométrica, a temperatura,
e a umidade na passagem do tornado. Essa medida teve sucesso apenas cinco vezes
na última década por causa da imprevisibilidade da trilha do tornado. Samaras se
diz responsável por quatro dessas vitórias.

Em Ação
No Olho da Tempestade
Anotações de campo do fotógrafo Carsten Peter
O melhor
Chegar tão perto de um tornado e presenciar a força da natureza foi emocionante. Ficamos bem
perto daquele que atingiu Manchester, Dakota do Sul, talvez a menos de 182
metros de distância. Estávamos um minuto à frente do tornado, e o caçador de
tempestades Tim Samaras ia colocando sondas em sua trilha enquanto eu tirava
fotos e posicionava uma câmara blindada que chamamos de Tinman.
Eu ouvi um som incrível de árvores se partindo e da força arrebatadora. Era como o ruído de uma
grande cachoeira ou de um motor a jato. Vi um monte de dejetos voando que de
longe parecia uma estranha nuvem de poeira. Mas só quando vi que se tratava de
objetos enormes como telhados e árvores que percebi a verdadeira força de um
tornado.
O pior
Foi triste ver o sofrimento das pessoas que perderam tudo que tinham com o tornado. Encontrei
algumas famílias, muitas delas de idosos, limpando os escombros das casas. De
uma hora para outra eles ficaram sem nada. Mas essas pessoas aceitavam aquilo de
maneira impressionante, e não se importaram por estar fotografando. Eles
pareciam até contentes com o meu testemunho ocular e com a atenção que poderiam
ter com isso. A força com que lidaram com seu infortúnio foi realmente incrível.
O inesperado
O Tinman (O Homem de Lata) é uma estranha armação em aço para proteger a câmera do tornado. Ele é grande e
pesado, e era preciso duas pessoas para levá-lo e tirá-lo de todo lugar que
ficávamos. Ele parece um OVNI. Imagine quantas pessoas não ficaram curiosas em
saber o que era aquilo e o que estávamos fazendo com ele. Teve gente que olhava
para nós como se fossemos terroristas ou aliens. Nos fizeram muita pergunta
estranha como, "Isso é um instrumento para matar insetos?"


|
Estrago à vista |
| Foto de
Carsten Peter |
Uma paisagem devastada recebe Samaras e seu
parceiro de caça, Pat Porter, após um terrível tornado ter destruído o vilarejo
de Manchester, Dakota do Sul, e seus arredores em 24 de junho de 2003. Numa
escala de classificação de danos de um tornado que vai de F1 a F5, esse foi um
F4 – o que significa ventos de no mínimo 322 km por hora capazes de danos
catastróficos. O tornado destruiu as seis casas de Manchester e arrasou essa
sede de fazenda no norte da cidade. Samaras e Porter estavam entre os primeiros
a chegar lá, e temiam pelo que poderiam encontrar entre os escombros. Embora
muitas pessoas tenham ficado gravemente feridas, ninguém morreu na tempestade de
Manchester.

Você sabia?
O tornado que passou por Manchester, Dakota do Sul,
em 24 de junho de 2003, foi um dos 67 que atacaram o estado naquele dia, batendo
o recorde nacional de tornados em um só estado no período de 24 horas. O recorde
anterior data de 20 de setembro de 1967, com a chegada do furacão Beulah chegou
perto de Brownsville, na costa do Texas, adentrando depois o estado. Embora o
National Weather Service (Serviço Nacional de Meteorologia) registre o número
diário de tornados em um estado segundo as 24 horas do calendário, seus
registros mostram que os tornados do Beulah ocorreram no período de 20 horas
entre 3:00h e 23:00h. Segundo os registros do escritório do NWS em Sioux Falls,
o primeiro tornado de Dakota do Sul ocorreu logo após as 17:00h, e o último
antes das 23:00h, deixando os moradores do leste de Dakota do Sul com lembranças
de um incrível período de seis horas.

|
MULTIMÍDIA
|
|
Siga a trilha
de um tornado com a correspondente do Ultimate Explorer da National
Geographic, Lisa Ling, o pesquisador de tempestades Tim Samaras, e o
fotógrafo Carsten Peter e veja uma filmagem de um tornado F4 (em inglês) |

Veja:
Como se Forma um Tornado
Galeria de Tornados
É mais verdade do que ficção...
Cronologia - Século 20
Especial: Tornado

© Equipe Starnews 2001 - National Geographic Society.