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A aliança ACM-FHC e a "AeMização" das FMs Última grande aliança da "direita" brasileira se deu junto com a "invasão AM" nas FMs em 2000
Na década de 80, setores moderados da intelectualidade brasileira e vários profissionais do jornalismo brasileiro lançaram a tese da veiculação da programação tipo rádio AM na Freqüência Modulada. Tomando a programação musical como bode expiatório para os males das FMs, essa facção da intelligentzia brasileira, apoiada por professores e por estudiosos da mídia, acreditava que, jogando jornalismo prolongado e jornadas esportivas para as FMs, os males da Freqüência Modulada seriam totalmente eliminados e o rádio passaria por uma "revolução socialista" que iria transformar o "povão" em intelectuais e o Brasil se transformaria num gigantesco fórum de debates. Passado o tempo, a "revolução", depois de alguns ensaios nos anos 90 (época na qual o formato "FM com roupagem de AM" se tornou um dos fenômenos típicos), se instaurou em 2000, quando a dupla transmissão AM/FM se institucionalizou com a CBN e Rádio Bandeirantes (e, depois, com outras rádios regionais pelo resto do país) e foram criados programas esportivos em várias FMs, mostrou suas verdadeiras caraterísticas. O tão anunciado "socialismo" não aconteceu. Quando muitos achavam que o radiojornalismo seria só reportagem investigativa e debates 24 horas por dia, o que veio foi um radiojornalismo correto, mas que se ancora no mesmo noticiário político e econômico que se lê nos jornais e se vê na televisão. Ideologicamente, não podia mesmo esperar que as grandes empresas de Comunicação, que já não faziam de suas emissoras de TV e jornais os olimpos da inteligência socialista, fossem transformar suas FMs em enfants terribles do noticiário convencional. Além do mais, a programação musical que predomina nas FMs de hoje, que estão rodeadas de falatório político, econômico e esportivo, ficou pior do que quando supostamente não havia informação nas FMs. As rádios de "boa música" tocam muita música ruim, geralmente o lixo brega dos EUA. As rádios de rock, antes, eram feitas por conhecedores de rock. Hoje elas são operadas por incompetentes "profissionais de rock" que já recebem tudo pronto das gravadoras e de assessores de imprensa. E a música de gosto duvidoso que os utópicos defensores da "AeMização" das FMs festivamente afirmaram ser banida das FMs, continua tendo o mesmo espaço de antes, e talvez até pior. Afinal, nomes do popularesco brasileiro, de Wando e Sullivan & Massadas a Chitãozinho & Xororó, Zezé Di Camargo & Luciano e Alexandre Pires, cobiçam algum lugar sob o sol refinado das rádios de adulto contemporâneo ou das FMs de Música Popular Brasileira. Enquanto a "AeMização" das FMs era comemorada pela grande imprensa, sobretudo pela Editora Abril, que patrocinou o processo, os partidos políticos que sustentavam o Governo Federal na segunda gestão de Fernando Henrique Cardoso, que iam do PSDB, PFL e PMDB a obscuras legendas da "direita" nacional, promoveram a sua derradeira aliança para as eleições para prefeitos e vereadores. A maioria dos partidos de direita se juntou nesse esquema promovido por FHC e ACM. Um dos fatores que motivou a aliança foi a memória do deputado Luís Eduardo Magalhães, falecido em 1998. Luís Eduardo, filho de Antônio Carlos Magalhães, era grande amigo de Fernando Henrique, que havia se beneficiado da aliança com o PFL para se reeleger presidente. 2000 foi assim um ano forte para a política nacional e os empresários que dela se sustentavam. À grande aliança da "direita" nacional, se apoiaram os empresários das grandes rádios que investiram na "AeMização" das FMs (seja na armação das "rádios AM+FM" ou na criação de programas noticiosos longos e das jornadas esportivas em FM). Junto com eles, graças aos programas esportivos, também se apoiaram dirigentes esportivos e lideranças da CBF (incluindo Ricardo Teixeira), confiantes com a postura "profissional" das FMs com os clubes de futebol, ou seja, uma aparente independência que, se não aponta cumplicidade, também não demonstra combatividade ao poderio dos "cartolas". Dessa forma, a "direita" festejou a virada de 2000 para 2001 acreditando que a trajetória das emissoras AM - que, em tempos democráticos, recebeu o mesmo tratamento de desdém dos tempos da ditadura militar, que era apoiada pela mesma "direita" que criou a superaliança de 2000 - havia terminado. A grande aliança política logo seria dissolvida em meados de 2001, com o escândalo do "painel eletrônico" de Antônio Carlos Magalhães e com outros fatores que comprometeram os vários envolvidos nesse cenário. Em 2002, o Brasil do pentacampeonato batucava axé-music diante de uma mídia FM que sonhava em ver o futebol como um "esporte radical", ora "roqueiro", ora "sambalançante". E a mídia paulistana voltou atrás no desdém às AMs, fazendo suas críticas à antes inatacável dupla transmissão AM/FM. O rádio se livrou daquele carnaval político de direitistas, dirigentes esportivos e da minoria oligopolista das grandes FMs. Aquela festa de patrícios era muito para a opinião pública, que se cansou de assistir a este bacanal de camarote. Cidadania realmente não serve para isso. |