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Transmissão
esportiva também dá em poluição sonora
Virou
um grande clichê na imprensa baiana. Nas reportagens sobre poluição sonora, os
casos citados variam entre uma apresentação de um grupo de axé-music
no Clube Bahiano de Tênis (localizado na Barra, perto da Graça, área nobre de
Salvador) e um "batidão" tipo Furacão 2000 tocado por um rapagão
malhado quando lava um carro. Ou então, um culto evangélico num grande templo
em um subúrbio. No entanto, não há uma menção sequer a respeito das transmissões
esportivas nos rádio-receptores em Salvador. Principalmente agora, que uma
das emissoras de rádio envolvidas é ligada a um dos principais jornais de
Salvador. Num
passado recente, as FMs com roupagem de AM, mais grosseiras do que hoje,
apelavam para qualquer coisa para aumentar a audiência. Uma de suas estratégias,
contam os bastidores, é de arranjar "ouvintes" para circularem
pelas ruas da cidade com as transmissões esportivas sendo ouvidas aos berros.
Curiosamente, valia tudo, de duas barracas sintonizadas no início da manhã na
mesma FM, de rapagões estacionando seus carros num shopping center em
pleno feriado até mesmo a taxistas que abandonam o carro e fecham até as
janelas, tudo protegido, mas com a bateria do carro desperdiçando numa
sintonia em um programa "importante" de tal FM que era ouvido por
ninguém, era só para deixar o aparelho ligado para talvez "ajudar"
na audiência da emissora. Hoje,
no entanto, a situação está mais controlada, até porque as FMs tentam
promover seu "bom mocismo". Mesmo assim, em bares, borracharias e
até em portarias dos prédios, há vestígios moderados, mas mesmo assim incômodos,
de poluição sonora. Até mesmo durante à noite, em que até 23 horas e meia o
sono de muitos é prejudicado pela histeria logicamente obrigatória dos
narradores, que estão comandando um espetáculo radiofônico. O
que leva a imprensa a não classificar alguém ouvindo transmissão esportiva em
alto volume como "poluição sonora" pode ser explicado por alguns
motivos. Um é o fato de seus próprios repórteres gostarem de ouvir transmissão
esportiva. Outro é o comprometimento da imprensa com donos de emissoras de rádio,
potenciais anunciantes da imprensa escrita. Uma
transmissão esportiva em rádio é feita através da voz muito corrida do
narrador. Só isso, mesmo em volumes considerados suportáveis, soa incômodo,
perturba o sono de muitos trabalhadores. Juntando a isso o contraste sonoro
das transmissões esportivas em FM, cujo som continua sendo o de uma AM ruim,
mas pontuada por eventuais vinhetas (essas, sim, em som FM), a coisa fica
mais grave. Uma vinheta da Metrópole FM de Salvador, por exemplo, vale como o
apito de um inoportuno rádio-despertador nos ouvidos de alguém. Futebol
é um espetáculo de lazer, mas cujo processo dá margem a tensões e histeria. A
disputa entre times gera muito nervosismo e euforia, e o oportunismo demagogo
das FMs acaba exaltando demais o clima histérico. Pois, se uma FM normal, sem
apelar para o "AeMão", agride com seus locutores alucinados
gritando no microfone, imagine se juntarmos a isso o costumeiro fanatismo que
ocorre no futebol brasileiro. Em mentes pouco evoluídas, esse clima todo pode
propiciar reações violentas e irritações freqüentes. O
ideal para um ouvinte é usar fone de ouvido para ouvir uma transmissão
esportiva à noite. Ou então que vá para o estádio, se é o caso de uma partida
local. Mesmo moderada, a histeria das transmissões esportivas noturnas de rádio,
caraterizada pela velocidade das locuções, pode impedir que as pessoas,
gostando ou odiando a sintonia do rádio do vizinho, se concentrem adequadamente
ao sono. A voz de um locutor esportivo gritando e falando rápido soa tão
incômoda aos ouvidos quanto o vôo de um marimbondo. E isso pode gerar um péssimo rendimento para o trabalho e os estudos,
e daí para demissões ou reprovação na escola é um pulo. Que a imprensa, em nome de sua função na utilidade pública, possa tornar menos restritivos seus critérios críticos, como os que usa para definir o que é poluição sonora. Afinal, o sono é um direito público, coisa que nenhum BA-VI, Sport-Paissandu ou coisa parecida, com toda sua "vibração", têm direito de violar. Já não basta que, mesmo sem qualquer barulho, uma parcela do povo já sofre de insônia? O
QUADRO DA POLUIÇÃO SONORA RADIOFÔNICA EM SALVADOR DURANTE AS TRANSMISSÕES
ESPORTIVAS 1. VIZINHANÇA - Em certos casos, um vizinho ou grupos de vizinhos sintonizam a rádio em alto volume, como se estivessem na arquibancada de um estádio. 2. PORTARIA DE PRÉDIO - O porteiro parece que está sintonizando a rádio não para ele mesmo, mas sim para os moradores do prédio, mas são poucos os moradores que se sentem felizes com tal "generosidade". A maioria se sente incomodada pelo barulho, porque quer sossego. 3. BOTEQUIM - Um animado botequim com homens tomando cerveja em rodízio abusa da sintonia da rádio em questão e a transmissão esportiva é ouvida a alguns metros de distância, nas residências das pessoas de bem. Não havendo controle, a sintonia barulhenta pode permanecer até depois do fim do jogo, principalmente quando as FMs com roupagem de AM se encanam em prolongar a "jornadas esportivas" com entrevistas supérfluas e debates cansativos. 4. "AVENTUREIRO" EM CARRO ESTACIONADO - O rapagão pode ser um forasteiro vindo de outro bairro, ou então um vizinho dado a ligar seu sonzão no automóvel para situações que para ele soam especiais, mas para nós são incômodas. Geralmente, ele está sozinho ou está lavando o carro, mas há casos em que ele está com os amigos. Quase sempre ele mantém descaso com a vizinhança, e se os vizinhos reclamam, ele vai embora com seu carro, não sem antes fazer um ar desafiador. É bom a vizinhança tomar cuidado. Se for suspeito, chame a polícia ou reclame da poluição sonora para o órgão da Prefeitura competente. 5.
TAXISTAS - Como os "aventureiros" volantes, os taxistas
estacionam com seus carros. Mas o astral mais parece o mesmo dos
botequins, independente do consumo de álcool. Geralmente o taxista
está com alguns amigos, e eles papeiam animadamente, com o locutor
esportivo aos berros e os vizinhos não podendo dormir, por causa
desse barulho que a imprensa faz vista grossa. |