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Puritanismo nas FMs com roupagem de
AM
Com o recente fenômeno da "Invasão AM" nas FMs, sobretudo de caráter político, o perfil populista e grosseiro do rádio FM passou a ser dissimulado por um marketing modernizante. FM que tem "perfil" de rádio AM - a palavra "perfil" aparece entre aspas, porque esta atitude nem de longe segue a segmentação radiofônica, que em seus critérios prioritários, determina a diferença entre AMs e FMs - é um fenômeno que vem dos tempos da ditadura, em pleno AI-5, que se consagrou com o tricampeonato brasileiro em 1970. Não é um fenômeno recente, não corresponde à vanguarda do rádio e nem é um fenômeno inerente ao rádio brasileiro. Se existe o rádio AM para trabalhar programação esportiva, para que FM? Aí entra todo um esquema de politicagem que só uma investigação séria iria detalhar melhor. Essas FMs tinham um caráter assumidamente populista, grosseiro. Era aquela coisa de "povão" mesmo, com provincianismo assumido e tudo. Os locutores não tinham voz articulada e falavam até erros de português. O dono exibia escancaradamente a sigla do partido em que era filiado. A preocupação com a informação era ínfima, até mentiras e calúnias eram veiculadas como se fossem "informação", tudo para atrair os anseios grotescos dos donos na época. Hoje, mais precisamente a partir do ano 2000, as FMs que se encanaram em passar programação esportiva (mesmo aquela com ranço populista explícito mas menos grosseiro), passaram a absorver os ventos da ideologia politicamente correta que vingou nos EUA. Chama-se "politicamente correta" toda atitude de pessoas conservadoras ou dotadas de defeitos morais notáveis que possa forjar a elas uma imagem de "corretas e avançadas". Por exemplo, é quando um moralista ferrenho defende a poligamia para satisfazer seus instintos sexuais particulares, mas que para o povo soa como se ele fosse um "moderno que deixou de ser careta". Outro exemplo, mais típico, é um ator convencional de cinema norte-americano fazer longos discursos sobre política e meio-ambiente em suas entrevistas, como se ele não fosse ator e sim um ativista político, o que é outra coisa. Essas FMs passaram a adotar uma atitude incoerente. Vemos o exemplo da Metrópole FM, de Salvador (BA). Seu dono, Mário Kértesz, foi uma das crias do carlismo (grupo político liderado pelo hoje senador Antônio Carlos Magalhães) que cometeu corrupção quando era prefeito da capital baiana, nos anos 80, e foi responsável pela decadência e agonia do Jornal da Bahia, que surgiu em 1958 como excelente jornal e que, com o boicote publicitário pregado por ACM, acabou por naufragar o jornal, nas mãos de Kértesz (ex-secretário de Magalhães), que passou por uma fase populista-policial. Hoje Mário Kértesz voltou à cena não mais como político, mas como dono de rádio e apresentador de programas. Fazia um arremedo grosseiro de AM na sua antiga propriedade, a Itaparica FM, que a Justiça tirou das mãos do dono - que chegou a ter registro de radialista cassado, mas recorreu da sentença e manteve o registro - para vender para o grupo Lomes (do interior da Bahia), que depois vendeu para o conjunto Chiclete Com Banana. Hoje no entanto Kértesz é estrela de sua própria rádio, a Metrópole (ex-Rádio Cidade), que é um típico exemplo de esquizofrenia crônica. Lá o formato de rádio pode até ser tudo, menos segmentado. A rádio quer ser popular com transmissão esportiva, mas nas horas vagas se recusa a tocar popularesco. É politiqueira - Kértesz, em seu programa, defendeu até o "anão do Orçamento" Genebaldo Correia - , mas o dono se diz "apolítico". Formalmente, é uma rádio FM, mas sua programação é o que pejorativamente se chama de "Aemão" (alusão ao rádio AM tendencioso). E na sua programação cabe até programas de rock e reggae, os únicos decentes da emissora, que por isso soam como verdadeiras ovelhas negras de uma empresa tendenciosa que por desrespeito ao rádio AM comprou metade da equipe esportiva da Rádio Sociedade da Bahia (uma das mais antigas e tradicionais do país que, mesmo tendo como dona a Igreja Universal do Reino de Deus, mantém sua linha popular de sempre) para promover o ego do dono da Metrópole FM. Um outro caso de esquizofrenia é a Nova FM de São Paulo. Sua equipe esportiva, liderada por Jorge Kajuru e tendo Juarez Soares (ex-TV Band) como um dos locutores, é considerada uma das mais populistas do rádio. Mas a Nova FM, estranhamente, toca MPB nas horas vagas, ainda que seja uma MPB que aparece na MTV ou nas trilhas de novela da Rede Globo. Como se, na visão estreita dos atuais sócios da Nova (que até recentemente era do político Orestes Quércia; mas dizem que ele não deixou de ser dono da emissora, apenas reduziu seu poder acionário e nomeou terceiros para faturarem em seu nome), o típico torcedor de futebol esteja interessado na marca da guitarra do Lenine, nos poetas que Adriana Calcanhoto costuma ler ou nos músicos que acompanharam Tom Jobim em sua carreira. Nada disso: se um típico torcedor de futebol ouviu falar em João Gilberto, foi através daquele escândalo no Credicard Hall, em São Paulo, onde o grande músico da Bossa Nova foi tocar num ambiente inadequado para as exigências dele (que tem sensibilidade na compreensão acústica incomum) e foi vaiado porque pediu para desligarem o ar condicionado (que atrapalha a vibração sonora perfeita dos instrumentos), entre outras coisas. Torcedor esportivo na sua maioria esmagadora quer saber do popularesco mesmo, seja axé music, pagode e miami bass (o dito "funk de subúrbio"). Ou alguém viu torcida organizada de time de futebol cantarolar uma música do compositor clássico Franz Liszt nos estádios? Desconfia-se que, se avançarem essas FMs puritanas - que se comportam como as prositutas que fazem tudo para parecerem freiras de convento - , pode haver no Brasil o mesmo fenômeno que o comentarista esportivo Tostão (mineiro que foi jogador do Brasil no Tri de 1970) teme ocorrer na Europa: o da elitização das torcidas esportivas. Com tanta pompa, tanto falso refinamento, essas FMs que não sabem se são feitas para o povo ou para as "famílias", vão acabar naufragando, porque elas criam seus próprios preconceitos, parecendo sempre fugir do mesmo espelho de Narciso a que elas se miram. É por isso que, se toda essa programação esportiva ficasse só no rádio AM, não precisava ser feito esse puritanismo todo que só faz criar mentira atrás de mentira. Rádio AM é popular, sem ter vergonha, sem adotar pretensos populismos nem falsos luxos, falsas sofisticações. |