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"Falação" em FM: manipulação pela "informação" O rádio FM é um meio que se consagrou pela programação musical. Seu espaço permite programação informativa, mas alternando com música, para os ouvintes poderem assimilar uma notícia entre uma canção e outra. Quem quer informação prolongada bastava ligar o rádio AM. Deveria ser assim, mas não é. A insistência obsessiva de transformar emissoras FM em pretensos "AeMões" (arremedos de rádio AM) é um processo bastante suspeito, uma vez que a maioria das rádios deseja lucro, poder, hegemonia. Pior de tudo, as pessoas reclamam, audiência cai, mas a "Aemização" em FM é defendida com mão-de-ferro pelos donos de rádios, que mudam os profissionais, mas não as fórmulas. Aí tem gente defendendo que alguma FM tenha "programa de locutor" ou "programa esportivo". Gente com mil desculpas, mas sem poder esconder alguma relação com o poder vigente, mesmo com todas as contradições existentes nessa relação entre rádio e poder político. Claro que tais emissoras de rádio utilizam o discurso da "cidadania", "serviço social", "idoneidade" ("idôneo" é uma palavra fácil, mas pertencente a um vocabulário rebuscado digno de um Olavo Bilac), para atrair a atenção dos ouvintes. No entanto, é o mesmo tipo do discurso "lava mais branco" das marcas de sabão em pó. Para entendermos o porquê dessa obsessão, cabe observarmos com muita cautela a questão da informação. Quem conhece as questões de Comunicação sabe que o jornalismo é um discurso, é um tipo de construção da realidade, não é simplesmente ver o fato e enunciá-lo, muitos juízos de valor existem para qualificar alguma informação de acordo com interesses específicos de cada indivíduo ou grupo de indivíduos. Além dessa idéia, comparemos o direito à informação com o direito à alimentação. Ambos os direitos são fundamentais, essenciais, indispensáveis. Mas isso não significa que tenhamos que aderir aos excessos. Assim como quem come demais, acaba adoecendo e até abreviando sua vida com aquilo que, em doses moderadas, lhe garante saúde e longevidade, a informação, estando excessiva, provoca alienação, ceticismo, conformismo, faz a pessoa ficar com menos esperanças, porque é informada de tanta coisa ruim, e mais acomodada, porque não tem como refletir profundamente a respeito. Daí que as FMs, ao invés de distribuir melhor o espaço à informação, apostam naquele formato sobrecarregado de jogar falatório incessante para os ouvintes, sobretudo de manhã. São programas que, descontando suas diferenças, acabam alternando notícias e opiniões, tudo sob o véu pretensioso da "objetividade", em uma ou duas horas diárias, às vezes sem poupar feriados nem fins-de-semana. Por que não fazer isso em rádio AM? Se bem que nas melhores emissoras AM a informação é melhor distribuída, mesmo quando a programação não é musical. É o estilo da Amplitude Modulada, em que vinhetas e até o talento do locutor fazem com que a divulgação da informação não seja tão compulsiva, para que o povo não se sujeite a uma espécie de "bulimia intelectual", ou seja, se informa demais e compreende menos, indefeso que está em um falatório ininterrupto que acaba misturando estupradores de subúrbio pernambucano, companhias estrangeiras de balé, políticos norte-americanos e funcionários públicos paulistas. Quem duvida da chamada "overdose da informação", por estar traumatizado pelo passado de censura a que o Brasil viveu e comovido com uma suposta missão heróica de supostos radiojornalistas (independente deles serem ou não realmente jornalistas), vale conferir questionamentos como os de Noam Chomsky, Umberto Eco e Milton Santos, entre tantos outros, que contestam a velocidade das informações, que não favorecem questionamento nem reflexão. Assim, fica mais fácil veículos de comunicação de alguma forma relacionados com o poder jogarem programas de falatório "secos", ou seja, quase sem edição (processo que, utilizado dignamente, pode distribuir melhor os assuntos para não confundir as pessoas), como são os "programas de locutor" das FMs nordestinas. Quase todos estes programas estão centralizados na figura de um apresentador, ora veiculado como "polêmico", ora veiculado como "independente", esses programas acabam servindo como uma espécie de doutrinação ideológica dos ouvintes, o que podemos classificar tais locutores, numa comparação aproximada, como "capatazes eletrônicos", a guiarem o rebanho do público não para exatamente pensarem como os apresentadores, mas para pensarem de modo mais conformista e imediato, sem aprofundarem o senso crítico. O discurso jornalístico, mal utilizado, pode trair seus princípios de informação autêntica e utilidade pública, se observarmos, apenas formalmente, seu conteúdo. Na pior das hipóteses, tal discurso "objetivo" permite esvaziar todo o potencial crítico, principalmente quando fala de criminosos impunes. Dá até para justificar um poderio político sendo "imparcial" diante dele, neutralizando um provável escândalo de corrupção ao noticiar com ênfase, por exemplo, os poucos pontos positivos do governante corrupto, ou até mesmo fazer uma entrevista de página inteira com ele, aceitando qualquer desmentimento do entrevistado a respeito de acusações comprovadas pela Justiça. Dois outros aspectos também apontam para questionar o mito "heróico" da "Aemização" das FMs. Um é quando se refere ao radiojornalismo esportivo. Comparado com o radiojornalismo geral, o esportivo é o mais alienante, e a defesa por uma "programação esportiva em FM" atenta para um esquema de alienação muito maior do que qualquer programação musical, mesmo aquela descuidada e farsante (que lança artistas postiços inventados pela indústria fonográfica). Diante dos fatos relacionados com a CPI do Futebol, incluindo aqueles que não aparecem na grande imprensa, para não ferir outros dirigentes esportivos (a "artilharia" se limita a apenas duas pessoas, Ricardo Teixeira e Eurico Miranda, enquanto outros, entre comparsas e até desafetos, são ocultados pela mídia "investigativa"), os programas esportivos em FM dificilmente aparecem sem alguma gorjeta de um clube de futebol ou de uma barganha política. Afinal, com tanta emissora AM para veicular esporte, o que faz esse pessoal em FM? Promover uma revolução bolchevique? Não, se pensarmos que FM com roupagem de programação AM é comercial do mesmo jeito, até quando tenta questionar as relações de poder político em que tal emissora está inserida. Outro ponto é menosprezar a música como outro tipo de informação. É muito comum os defensores da "Aemização" das FMs falarem em "jabá", "canção de ninar", "música o tempo todo não dá", tudo para desqualificar a programação musical, sob o pretexto de "moralizar" o rádio FM. Só que todo esse discurso, supostamente evocado para expulsar a chamada "música ruim" (aquela música postiça de artistas inventados pela fraude das grandes gravadoras), não atinge tal objetivo. Pelo contrário, acaba impedindo a implantação de propostas de segmentação musical nas FMs. É só pensarmos bem. O sujeito que quer implantar uma programação de rock numa rádio de Salvador, ou então colocar uma rádio de MPB de raiz no interior do Maranhão, vai ter que juntar muito dinheiro (nada menos que R$ 200,00) para alugar, por mês, uma hora semanal de programa. Se quiser um horário maior, paga mais. Enquanto isso, um sujeito que quer implantar um "programa de locutor", com duas horas cada de segunda a sexta, e coloca num "pacote" mais duas outras de esportes, paga até menos e ainda por cima ganha um "pistolão" de políticos, fazendeiros, etc., apoio atualmente camuflado em verbas publicitárias. A "Aemização" das FMs, dessa forma, não impede a existência do mesmo esquema popularesco que diz combater. A indústria do "jabaculê" musical não quer perder dinheiro e, por um lado, fixa "terreno" em FMs popularescas já existentes e, em outro, nas FMs consideradas "segmentadas", que descaraterizam seu estilo em prol dos "restos" musicais que as FMs ditas "normais" despejam por causa de falatório e transmissões esportivas. Com isso, o blábláblá das FMs continua se impondo, e, enquanto as pessoas se julgam "informadas", deixam de ser informadas de toda a politicagem que ameaça não somente o rádio AM, mas a democracia em geral no Brasil. |