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Rádio Cultura completa meio século no ar

Nelson Varón Cadena
Extraído do caderno Folha da Bahia
do jornal Correio da Bahia.
Salvador, 16 de agosto de 2000.

A estréia da Rádio Cultura da Bahia, em agosto de 1950, há meio século, provocou uma reviravolta no rádio baiano. Era uma concorrente de peso, diferente da Rádio Comercial (de vida efêmera) e da extinta Rádio Clube, durante muito tempo dirigida por um capitão do Exército. Diante disso, as rádios Sociedade e Excelsior investiram em equipamentos, reorganizaram o rádio-teatro e até promoveram aumento de salários. A Rádio Cultura era uma iniciativa de empresários mineiros que acenavam com uma emissora moderna, integrada a uma futura rede radiofônica.

Uma pedra no caminho - "Tudo aqui tem sido feito às custas de tremendas dificuldades", desabafava José Ribeiro da Rocha ao dar por inaugurada, aos trancos e barrancos, em 20 de agosto de 1950, a Rádio Cultura da Bahia. O empresário mineiro, proprietário da emissora, então empenhado em criar uma rede radiofônica, referia-se à má vontade do poder público (possivelmente instigado pela concorrência) em relação ao empreendimento.

A verdade é que tudo foi feito, às claras e nos bastidores, para que a Rádio Cultura adiasse as suas operações, inicialmente previstas para o mês de março. A começar pelo veto do Ministério da Viação à torre instalada em Amaralina, sob o pretexto de interferir nas comunicações da Estação dos Correios e Telégrafos. A mesma Estação de Amaralina onde, em 1924, a Rádio Sociedade foi buscar o sinal, enquanto o Governador Góes Calmon empenhava-se em liberar os transmissores, durante meses retidos na alfândega.

Somente depois de construída a torre da Cultura, um senhor investimento, é que o Ministério descobria a possível interferência. A colocação de um filtro teria resolvido o problema, mas o Rocha optava por relocar a torre, pela sua "própria iniciativa" como mineiramente diria, para não entrar na briga. Mas novos problemas surgiam com as linhas telefônicas e se o governo, assim, contribuía para adiar a entrada no ar da emissora, a equipe do Rocha também dava o seu jeitinho.

Instalados os estúdios no Palacete do Campo Grande, os técnicos descobririam a interferência do barulho dos bondes que passavam bem em frente à sede da rádio, a cinco metros de distância, se muito. O revestimento dos estúdios com Celotex não era o suficiente, segundo especialistas, mas de alguma maneira o problema seria contornado.

Guerra dos salários - As dificuldades não pararam por aí. O processo de seleção de locutores e artistas para a nova emissora deflagrava uma guerra de bastidores entre a Cultura e as rádios Sociedade e Excelsior. A recém-chegada, através de Reginaldo dos Santos, seu diretor artístico, oferecia de início salários acima da média, numa tentativa de seduzir os melhores quadros do rádio baiano.

Mas Reginaldo desentendeu-se com o patrão por questões financeiras e fez as malas, praticamente às vésperas da inauguração, em julho de 1950. O seu sucessor, é claro, tinha carta branca do Rocha para fazer as mudanças necessárias. Era o Otávio Augusto Vampré, autor de novelas e ex-diretor de teatro das Emissoras Unidas, o consórcio paulista liderado por Paulo Machado de Carvalho.

“Com espírito bastante aventureiro, segui para a Bahia e fundei a Rádio Cultura da Bahia e, mais tarde, com proposta mais interessante, fui para Recife como diretor artístico da Rádio Clube”, declarava Vampré em entrevista à revista Propaganda, em 1983. Ele de fato montava uma nova equipe, mantendo, contudo, o time já escalado para a área de esportes: Edson Owyer, Antônio Pelegrino, Antônio Sampaio e Manoel de Souza Duran.

O fato é que muita gente foi contratada e descontratada e muitos imaginaram ser contratados, por conta dos boateiros de plantão, nos mais de seis meses de seleção. O cast que a Cultura informava estar definido em maio não era exatamente o mesmo com que a emissora iria ao ar, em 20 de agosto. Data em que começava a operar comercialmente, a partir das 10h e até as 22h.

Nas ondas da Cultura

A Rádio Cultura estreou com três radionovelas de peso: Consciências mortas, de Ciro Basini, Quando fala o coração e Conflitos. Tinha, também, Baianos de todos os tempos, a crônica do meio-dia do Otávio Augusto Vampré. O público feminino contava, ainda, com o Programa de Judi, festejada escritora do Rio, naquele tempo residindo na Bahia, e o melodrama Encruzilhadas da vida, com situações da vida real expostas pelos ouvintes, para deleite dos consultores sentimentais.

Aos domingos, tinha O mundo da carrocinha e Pelo bem do próximo, este um programa assistencialista com apoio dos professores e alunos do Colégio Antônio Vieira. E mais os jogos de futebol irradiados diretamente do Campo da Graça, Conversa sobre literatura, Vultos e fatos da Bahia, com Anísio Melhor, Ronda musical, Grande jornal Cultura... O povo encantava-se com a programação musical, sem anúncios no intervalo, em especial as transmissões ao vivo da Boite Oceania.

Um ano após a sua estréia, em que pese a programação, a Rádio Cultura estava longe de ser a líder de audiência, posição que era da Rádio Sociedade, segundo o Ibope. Dados contestados pela Standard Propaganda, que apostava na liderança da nova emissora. O certo é que cinco anos se passariam até a Cultura assumir de fato a liderança, incontestável por algum tempo; números revelados pelo mesmo Ibope no conceituado Anuário do Rádio.

A reação da concorrência

A concorrência não ficava de braços cruzados. Ainda no dia da inauguração da Cultura, a Rádio Sociedade programava para o seu auditório um especial duplo. Primeiro, a apresentação de Laura Bastiani, que se denominava “A loira mais perfeita do rádio”, com seu figurino de shortinho apertado nas coxas e bustiê de couro, barriguinha de fora com as gordurinhas à mostra, calçando um sapato de oito centímetros de salto, no mínimo. Encerrava a programação o recital do tenor mexicano Alfonso Tirado.

A cantora internacional Carmen Rodrigues, Trio Marajó e Frei Mojica, o show-man recém-ordenado pelos fransciscanos, eram algumas das atrações com que a Sociedade cativava o seu público nos dias próximos à inauguração da Rádio Cultura. Frei Mojica causava verdadeira comoção em Salvador com sua Danza de los Llaneros, Canción Mixteca, Alvorada de San Francisco, Um sueño e Cholita, dentre outros sucessos.

A Rádio Excelsior, por sua vez, incrementava a sua programação artística nos novos estúdios da Lemos de Brito, inaugurados em setembro de 1949, lançando a radionovela Seis cartas, de Amaral Gurgel, com Alzira de Olivera, Solange Brasil e Almeida Castro. Estreava, ainda, o Vesperal elegante, programa de variedades com distribuição de brindes e sorteio de prêmios.

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