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| A história da disco music |
Com o declínio do rock psicodélico e sua volta ao underground, graças a eventos trágicos como os de Altamont e Família Manson, além das sucessivas mortes dos ícones ascendentes do rock, a música pop passou por uma ressaca que pedia uma volta ao conservadorismo piegas das baladas românticas.
Dessa forma, vieram as canções com violinos chorosos interpretadas por nomes que, advindos ou não do rock, indicavam uma volta ao romantismo perdido pela psicodelia reinante. Bee Gees, Salvatore Adamo, Herman's Hermits, Mamas And The Papas, Gilbert O'Sullivan, entre muitos outros, faziam sucesso com baladas que, de uma forma ou de outra, falavam de amor ou de outros temas amenos, além de serem acompanhadas por orquestra de cordas que dava um tom melancólico e adocicado às canções.
Paralelamente a esse romantismo, a música soul tinha uma ascensão independente, seja do rock ou do pop romântico, mesmo quando teve o impulso de roqueiros ingleses que admiravam a música negra dos EUA.
A Motown e a Stax lançaram muitos astros, ao longo da década de 60. As duas gravadoras norte-americanas de soul traçaram as linhas da música pop negra dos anos 60 e 70, prevendo muitos sucessos, como o mega-astro Michael Jackson, que em 1968 era apenas o caçula do grupo de irmãos Jackson Five. James Brown já era veterano, Marvin Gaye era um dos grandes nomes do soul ao lado de Steve Wonder e Diana Ross, e Otis Redding comoveu o mundo inteiro com sua tragédia precoce, devido a um desastre aéreo no final de 1967.
Na década de 70, a soul music sofreu transformações profundas. Surgiam novos intérpretes e o patriarca do gênero, James Brown, já havia influenciado muita gente na música mundial. O cantor se tornou uma espécie de patrono das noitadas de funk autêntico nas casas noturnas do mundo inteiro. A partir daí, as origens de um fenômeno que foi denominado como disco music ou discotéque começaram a ser traçadas em 1972.
Naquele ano, vieram intérpretes como Spinners e O'Jays, discípulos dos Isley Brothers, Temptations e Four Tops, artistas grupais de soul. Também era dessa época um sucesso que é considerado o ponto zero da disco music, "Rock The Boat", do grupo Hues Corporation. Naquela época ainda não havia esse nome de disco music, mas outros intérpretes surgidos a partir de então começavam a se identificar com esse estilo de pop, meio influenciado no soul, mas dotado de uma melodia mais alegre e ritmada.
O que influiu bastante no surgimento da disco music foi um movimento de soul chamado The Sound of Philadelphia, que, como diz o nome, surgiu na célebre região dos EUA. Encabeçado pelo maestro Barry White, já falecido, e tendo como ícones o grupo The Three Degrees e os cantores Lou Rawls, Billie Paul, Harold Melvin e a inglesa radicada nos EUA, Tina Charles, o movimento era apelidado de phillis sound, e tinha um estilo diferente daquele promovido pela Motown e Stax.
Em 1973, já apareceram conjuntos como Chic, LaBelle e Sister Sledge, além do inglês Kool & The Gang. Naquele ano já se acumulavam possíveis hits disco nas mentes dos ouvintes. Além de "Rock The Boat" de Hues Corporation, veio "Could it be I'm falling in love", dos Spinners, "Theme from the men" de Isaac Hayes (soulman originário da Stax dos anos 60), "The love I lost", de Harold Melvin & The Blue Notes e a música instrumental "Love's theme", da Love Unlimited Orchestra, sob a regência e os arranjos de Barry White, multiinstrumentista e cantor que se tornaria um dos talentos respeitáveis da era disco.
Em 1975 a disco music começa a ultrapassar as fronteiras do circuito Estados Unidos e Reino Unido e ganha a Europa. Em 1976 domina as pistas de dança européias e sua expansão só é duramente combatida pela explosão do movimento punk, no Reino Unido e EUA. A essas alturas a disco music havia lançado seus personagens principais: Donna Summer, Village People, Chic, KC & The Sunshine Band, Charo & The Salsoul Orchestra, Gloria Gaynor, Earth Wind & Fire, Sister Sleedge, La Bionda, Sylvester, Kool & The Gang, Commodores, Andrea True Connection, McFadden & Whitehead, BB & Q Band (as iniciais vieram de Bronx, Brooklyn & Queens, bairros negros de Nova York), A Taste Of Honey, Michael Zager Band, Ashford & Simpson, Jacksons (o Jackson Five rebatizado e reestruturado como uma potente banda funk).
A disco music ganhou até a adesão do grupo australiano radicado na Inglaterra e depois nos EUA, Bee Gees, até então conhecido pelas baladas do final dos anos 60 como "I started a joke" e "Massachussets". Foram os Bee Gees que cantaram o tema do filme "Saturday Night Fever" (no Brasil, "Os Embalos de Sábado à Noite"), a canção "Stayin' Alive". "Saturday..." foi estrelado por John Travolta que, depois, no filme "Grease", se tornou famoso pelo par romântico com a cantora Olivia Newton-John, que se tornou um grande sucesso do cinema e o primeiro relacionado à onda disco.
A disco music se dividiu em várias vertentes. Duas se destacaram. Havia o disco funk, feito por grupos liderados por arranjadores ou músicos, dos quais se destacam Earth Wind & Fire, Kool & The Gang, Jacksons, Chic, Sister Sleedge, A Taste Of Honey. Mas havia também a disco music cafona, de intérpretes como Charo & The Salsoul Orchestra, Village People, La Bionda, Sylvester. Havia também a disco feita por produtores que se tornaram intérpretes, como Cerrone, Giorgio Moroder e Patrick Hernandez. Havia também a música orquestrada de Barry White e os mega-sucessos de Bee Gees, Donna Summer e Gloria Gaynor. Houve também o quarteto ABBA, formado por dois casais (atualmente divorciados) de uma cantora e um músico cada, vindo da Suécia e que se tornou estrondoso sucesso mundial.
Houve também as picaretagens grotescas, como o grupo alemão Boney M., responsável pelos sucessos "Ma Baker", "The Rivers of Babylon" e "Hooray, hooray!! It1s a Holy Holiday". O Boney M. era liderado pelo produtor Frank Farian, que em 1991 foi acusado de fraude com o Milli Vanilli, sucesso três anos antes com "Girl you know is true" e "Don't forget my number". O sucesso acabou quando foi descoberto que dois modelos dublavam outros cantores, o que obrigou a devolução do prêmio do Grammy de 1990; os verdadeiros cantores e músicos tentaram lançar um disco sem dublês, também em 1991, mas fracassaram e o grupo acabou. Um grupo parecido com o Boney M. foi inventado no Brasil, o Gengis Khan, com atores dublando cantores que até gravou versão de "The Rivers of Babylon", entre outras picaretagens disco alheias ou compostas especialmente para o grupo brasileiro, cujo ocaso musical se deu a partir de uma música infantil, cujo refrão se tornou célebre ("Comer, comer / comer, comer / É o melhor para fazer crescer").
O fenômeno disco seduziu alguns nomes do rock, como Rolling Stones, Blondie, Kiss, Pink Floyd, Paul McCartney e Rod Stewart. Este último criou uma disco plagiando descaradamente a canção do carioca Jorge Benjor (quando este se chamava Jorge Ben), "Taj Mahal". Com o surgimento do hip hop, o crossover com a disco music veio através de "Rapper's Delight", do Sugarhill Gang. No início dos anos 80 a onda das discotecas inspirou o som do new romantic, facção do tecnopop surgida na Inglaterra logo após a cisão do movimento punk em tendências das mais dispersas. Depois do fim trágico do Joy Division, o grupo de Manchester New Order também promoveria a fusão entre rock e disco music para o público dos anos 80.
No Brasil, a disco music foi difundida a partir da novela da Rede Globo, "Dancin' Days", estrelada por Sônia Braga. A Rádio Cidade também foi pioneira na divulgação maciça e sistematizada do gênero, criando o programa "Cidade Disco Club" para tal função. As Frenéticas foram o primeiro grupo a adotar esse gênero, enquanto intérpretes como Rita Lee, Guilherme Arantes, Belchior, Gilberto Gil e Caetano Veloso. O popularesco brega veio com a rebolativa Gretchen, cantora cuja imagem erótica foi trabalhada pelo DJ Mister Sam, e com os grupos concorrentes Harmony Cats e a Patotinha.
Quando os primórdios da disco music ainda estavam para ser assimilados pelos brasileiros, houve quem pensasse que a disco era uma divisão do rock, impressionado talvez pela adesão dos Rolling Stones - maior ícone do rock, entre os brasileiros - com a música "Miss You". No entanto, a disco music era hostilizada pela maioria dos roqueiros, principalmente aqueles que integraram a revolta punk naqueles idos de 1976 e 1977.
A decadência da disco music, gênero que abriu muitas casas noturnas pelo mundo e provocou gigantescos índices de venda de discos a ponto de favorecer o sucesso até de nomes obscuros (alguém se interessaria, por exemplo, na carreira de Charo, La Bionda ou quem estava por trás da BB & Q Band?), se deu em 1980, oficialmente. Mas o fôlego, segundo os especialistas, da disco music enquanto movimento, se encerraria em 1983, um ano após um dos últimos sucessos disco, a regravação de "Can't take my eyes off of you", do grupo sessentista Frankie Valli & Four Seasons, pelo Boys Town Gang; Valli também aderiu à disco nos anos 70. Naquela época, os sintetizadores fizeram a disco se transformar simplesmente na dance music contemporânea, enquanto o hip hop criava uma nova onda nas pistas de dança, através da prática do break, quando dançarinos faziam malabarismos com o corpo deitado no chão.
Atualmente a disco music anda injustiçada, seja no sentido da adoração e da rejeição. Alguns tratam o gênero com importância maior do que realmente tinha, favorecendo oportunistas da indústria e da mídia que boicotam o jazz e o blues e vendem a disco music como se fosse "música altamente sofisticada". Outros tratam o gênero como um lixo generalizado, completamente abominável, pregando irracionalmente a hegemonia roqueira como forma de intolerância para outros segmentos. Enfim, falta uma mídia que valorizasse a disco music como realmente é, um ritmo dançante, comercial, de fácil composição e assimilação e que, longe de ser um "fenômeno artístico de gosto refinado", é uma tendência pop que pode agradar a juventude e proporcioná-la prazer em ouvir e dançar.