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| Geração anos 90 |
| Juventude marcada pela alienação e desinformação |
A geração 1978-1983 praticamente desconhece a Rádio Cidade original e a Fluminense FM dos primórdios. Se ouviram essas rádios, foi de uma forma bastante vaga, pois eram muito crianças e dependiam do que os pais ouviam para conhecer o que as emissoras de rádio tocavam.
Na adolescência, eles acabaram ouvindo a Jovem Pan Rio e conhecido a Rádio Cidade na condição de um sub-arremedo de rádio de rock, e acabaram defendendo ídolos descartáveis, tendências comerciais e idéias incoerentes e confusas, com a arrogância de quem acha que sabe tudo mas nada sabe.
Trata-se de uma geração marcada pela superficialidade, pelo lazer alienado, pelo consumismo, conformismo e modismo. Ao chegar aos trinta anos, essa geração terá que rever tanto seus valores que quase nada sobrará de suas infâncias e adolescências.
Quando o século XXI começou, vieram ídolos e celebridades juvenis com menos de 25 anos de idade. Contando com uma média de 18 a 23 anos em 2001, esses jovens tomaram o poder da grande mídia voltada para os jovens.
A chamada geração anos 90 atingiu não só a maioridade, como praticamente tomou o poder. É a geração dos atores de "Malhação", das musas dos comerciais de cerveja, da "galera irada" que se ascende na moda, na música, no entretenimento. É a geração de tendências musicais catárticas, como o grunge, a música eletrônica e o hip hop, que menos valem por suas músicas em si e sim pela "energia" que ativam nos jovens durante as festas.
Mas essa juventude, tão badalada pela grande mídia, decepciona no seu perfil e nas idéias. Os jovens nascidos entre 1978 e 2003, para os quais se apostaram muitas expectativas, por ser a primeira geração juvenil da chamada "era da informação" e que praticamente não viveu a ditadura militar - os mais velhos nasceram no ano do desgaste do AI-5, o Ato Institucional que impôs repressão e censura ao país - , se tornaram, no entanto, uma geração alienada, que só mostrou novidades no âmbito das aparências, seja nas gírias, nos hábitos, no vestuário e na aparência física. Em idéias, a maioria dos jovens dessa geração não disse a que veio. Poucos conseguem se sobressair nas idéias e na essência.
Os jovens dessa época não viveram alguns fatos históricos. Não viram o homem pisar a lua, senão em imagens de arquivo. A Contracultura dos anos 60 já era bem distante quando eles nasceram. Não tiveram conhecimento do punk no seu auge. Eram muito pequenos quando a disco music estava no auge. Não tiveram idade para votar para Presidente da República em 1989. Quando crianças, já não puderam viver a fase saudável dos programas infantis, pois Vila Sésamo, Capitão Aza e Capitão Furacão já não eram de seus tempos. Ao invés disso, viram programas pretensamente infantis que lhe apressavam a adolescência alienada e consumista, além de estimular o desejo sexual precoce através das apresentadoras boazudas.
Além disso, esses jovens têm dificuldades para discernir a verdadeira música popular da música popularesca que toma conta das paradas de sucesso, a ponto de muitos desses jovens tomarem por "música sertaneja" o arremedo americanizado e brega de duplas como Chitãozinho & Xororó, Zezé Di Camargo & Luciano e dos cantores Leonardo e Daniel, remanescentes de outras duplas.
Essa geração pecou por superestimar as conquistas audiovisuais. Passaram os anos 90, ainda adolescentes, apegados aos chats da Internet. Atingindo os 20 anos, ainda sentiam necessidade de usar os telefones celulares como verdadeiros brinquedos, graças a recursos lançados por seus fabricantes, como o visual colorido dos telefones, as fotos digitais e os "torpedos" (mensagens escritas enviadas para outros telefones). Essa geração ainda substituiu os termos "turma" e "pessoal" pela palavra "galera", que de tão falada chega a ser uma gíria patética, mas menos do que a ridícula gíria "balada", atribuída às festas noturnas. São tão fascinados pela tatuagem que até para fazer declaração de amor para o(a) namorado(a) se imprime uma mensagem tatuada.
Desperdiçam o potencial de senso crítico para atacarem quem manifesta esse mesmo senso crítico, pois sentem insegurança em questionar o mundo em que vivem, sob o medo de perderem a noção de "felicidade" de suas vidas juvenis. Têm a contraditória sensação de que o mundo não é perfeito, mas "está perfeito assim". Não têm o menor interesse em mudar o mundo, terceirizando a vocação transformadora para as ONG's (Organizações Não-Governamentais). Essa geração, pela sua alienação, conformismo e consumismo, prolongou a adolescência na sua concepção superficial e desprovida de inteligência.
Esses jovens buscam se destacarem pelo visual. Seu estilo é desigual, diversificado. Variam entre o universitário simples, que usa camisas de flanela, jeans e tênis, e visuais arrojados, que podem ser soulman (cabelo grande, encaracolado e redondo), punk (cabelo raspado com piercing no nariz), rasta (penteado rastafári e camisetas com símbolos da cultura reggae), surfista (cabelo parafinado e corpo tatuado), e mais elementos de cultura skatista, ou de hip hop, clubber e outros adereços pop.
Da totalidade de jovens do Brasil, nascidos a partir de 1978, apenas 30% possui um senso crítico em níveis satisfatórios, quando seu nível de desconfiança em relação ao mainstream não é parcial - exemplo dessa parcialidade é abominar uma tendência de gosto duvidoso mas superestimar outra - e sua consciência contestatória abrange a inteligência e a visão objetiva no lugar a predominante tendência do egoísmo opinativo.
A maioria desses jovens não gosta de ver seus ídolos sendo criticados, mesmo de forma construtiva, e alguns deles se sentem felizes pela simples capacidade de ficarem irritados, por acreditar que isso significa, na visão limitada deles, uma forma de auto-afirmação e de rebeldia desafiadora, mas que demonstra ideais conservadores e um espírito altamente reacionário. É como se vê, por exemplo, nos ouvintes da atual Rádio Cidade do Rio de Janeiro (a dita "rádio rock") e nos fãs de bandas como Charlie Brown Jr..
Esses jovens, geralmente, contam com uma formação escolar medíocre, mesmo os jovens de classe média que estudaram em escolas particulares. Não apreciam uma leitura constante de livros, tão acostumados estão em assimilar imagens, e não palavras. Quando saem das Universidades, salvo exceções, ainda agem como principiantes mesmo com quatro anos de experiência profissional. Precisam se apegar muito às lições dos mais velhos, e isso a maioria tende a desempenhar com muita dificuldade.
Acham natural a impunidade de corruptos e criminosos ricos. Acham normal o crescimento do ensino superior particular, coisa que era vista como catástrofe para os jovens de 1968. Não fazem distinção entre arte e mercado, nem entre cultura e entretenimento. Não sabem o que é a verdadeira cultura alternativa, e mesmo o hit-parade lhes é um universo pragmático, dotado de idéias aparentes e imediatistas. Perdem o tempo, durante as conversas entre amigos, dizendo fofocas dos colegas e professores e em marcar a próxima noitada do final de semana.
Suas principais carências são o senso crítico e o aprofundamento e a correção das informações antigas que recebem. Muitas das referências antigas eles desconhecem, e as que conhecem acabam entendendo de forma distorcida. Como é o caso da superestima da disco music, vista como se fosse uma música altamente sofisticada, quando é apenas um agradável pop comercial, ancestral da dance music de hoje em dia.
O caráter superficial dessa geração se agrava quando se compara os nascidos entre 1968 e 1973 com o do pessoal dez anos mais novo. Os primeiros, que não viveram a década de 60 (os nascidos em 1968-1969 eram muito bebês então), no entanto tiveram grandes chances de compreendê-la melhor e a maioria dos personagens daquele tempo já lhes era bastante conhecida. Já os segundos, que viveram a infância na década de 80, pouco conhecem desta mesma década, visto que na adolescência foram induzidos a desprezar seus personagens, salvo aqueles que continuaram no mainstream. Outra comparação grave: é tendência predominante de um secundarista típico de 1968 ser mais inteligente e ter mais senso crítico do que um universitário típico de 2003.
As campanhas da mídia contra os anos 80 prejudicaram tal geração que acabou por menosprezar não somente a década de sua infância, mas também as décadas anteriores. Isso dificulta até na assimilação de conhecimentos essenciais, ou mesmo básicos. É comum, nos game shows em geral, haver jovens confundindo coisas inócuas, como achar que a África é um país, ou não saber quem foi Albert Einstein ou quem foi o inventor do relógio de pulso (que foi o mesmo do avião, o engenheiro mineiro Alberto Santos-Dumont).
Outro aspecto negativo é a obsessão pela diversão, que chega ao ponto da alienação juvenil. Levam ao extremo um lazer que, moderado, é bastante saudável, mas, excedido, torna-se nocivo. A maioria dos jovens confunde vida inteligente com vida movimentada. Modistas, seguem o que a grande mídia lhes determina. Preenchem suas rotinas com festas noturnas, desfiles de moda, se limitam a fazer bate-papos na Internet (agora tem o novo modismo do Orkut) e esperam que a sabedoria caia do céu numa prática constante de esportes radicais ou numa freqüência mais do que assídua às areias da praia.
Os jovens dessa geração cultuam demais o corpo, mas não cultivam a capacidade de raciocinar como deveria. Se consideram os mais sábios, só porque vivem na chamada "era da informação" e menosprezam as referências antigas (sobretudo os valores e informações anteriores a 1975), com a arrogância de quem pensa que já sabe tudo e não quer aprender aquilo que julga ser óbvio mas que ainda lhe é desconhecido.
Pior é que a geração "anos 90", ou os jovens nascidos entre 1978 e 1983, já está servindo de péssimo exemplo para os jovens nascidos a partir de 1984. Arrogantes, os jovens pós-1984 já defendem com mãos de ferro ídolos descartáveis adolescentes, idéias medíocres e valores confusos, gostando até de música brega como se ela fosse underground. Nas Universidades, essa "galera" precisa triplicar sua atenção no aprendizado e na pesquisa, mais do que as gerações anteriores.
Quando chegar aos 30 anos, a geração 1978-1983 terá que assimilar corretamente as referências e informações antigas que, se assimilaram, foi de forma confusa e superficial. Terão que correr para recuperar o tempo perdido pela overdose de festas noturnas e esportes radicais. Firmando-se no mercado de trabalho, eles terão que provar que são tão inteligentes quanto os colegas mais velhos, e aprenderão a ouvir dos patrões lições que antes esses jovens menosprezaram.
Tendo consumido muito lixo cultural, essa geração terá que revisar constantemente sua discoteca e sua galeria dos ídolos e não será surpresa que, quando chegarem aos 40 anos, seus maiores ídolos serão ícones da década de 60. A discoteca da geração "anos 90", em 2020, tende a ser totalmente diferente da discoteca que os mesmos indivíduos acumularam em 2000.
Certamente, muita coisa de suas adolescências e infâncias será descartada na posteridade. Muito pouca coisa dessas fases permanecerá, serão poucos os ídolos duráveis desse tempo. A geração 1978-1983, conhecida como a "geração anos 90", será uma geração que não sentirá muita saudade de sua juventude e terá problemas para transmitir referenciais para seus filhos.