César
Tralli, 31, repórter especial do Jornal Nacional, Globo
Repórter e do SPTV, foi correspondente internacional em Londres de 1995
a 2000. Da base
inglesa, ele também viajou nesse período para a Espanha, Líbano,
Israel, Escócia,
Ucrânia, Itália, Turquia, Armênia, Dinamarca e Portugal, sempre busca
de boas
histórias. Tão boas que não couberam na tela, precisaram ser contadas
mais a fundo no
livro "Olhar Crônico" (Globo, 2001), o primeiro de Tralli.

São
40 crônicas que relatam os aspectos inusitados e as impressões
do autor, que como repórter de TV não tinha tempo de contar todos esse
detalhes. É uma
leitura saborosa, reúne a visão de um estrangeiro em terras distantes e
a constante
lembrança da pátria natal. As tristes mães de Chernobyl, os homens
libaneses que se
cumprimentam com três sonoros beijos, o luxuoso e incômodo trem
Expresso-Oriente, as
sangrentas touradas espanholas, a gentil torcida escocesa e a furiosa
dinamarquesa, o
hospital subterrâneo na Armênia, os excêntricos e educados ingleses,
enfim, uma gama de
personagens e situações ricas em vida. A crônica, uma espécie de flerte
do jornalismo
com a literatura, é no Brasil um gênero com muitos adeptos, como Rubem
Braga, Cláudio
Abramo, Zuenir Ventura e Ivan Lessa. Tralli diz querer tentar seguir o
caminho desses
grandes jornalistas e continuar escrevendo.
Sua
carreira no jornalismo começou na mídia impressa, na Folha de S.
Paulo e depois na Gazeta Esportiva. Em seguida, trabalhou na rádio
Jovem Pan AM de SP,
antes de entrar na TV em 1989. Sua primeira experiência foi no SBT,
participando do Aqui
Agora. Optou por sair quando a fase sensacionalista do programa
começou. Depois de uma
passagem pela TV Record, entrou em 1993 na TV Globo. Além das
coberturas internacionais,
Tralli tem se destacado por reportagens investigativas. Uma delas, a
série "Túnel
Superfaturado", ganhou em 2000 o Prêmio Imprensa Embratel na categoria
televisão.
Ele abordou o esquema de superfaturamento de obras públicas durante a
gestão do
ex-prefeito de São Paulo, Paulo Maluf.
Tralli,
que é natural de Jaboticabal (SP), esteve em Bauru no dia 29
de agosto participando da VII Semana da Imprensa e Cidadania. Junto com
o excelente
jornalista José Arbex Júnior (TV Cultura e Caros Amigos), eles
debateram o papel da
imprensa brasileira no mundo. Após o debate, Tralli participou de uma
sessão de
autógrafos de seu livro no estande do Bazarcultura e concedeu uma
entrevista que você
confere abaixo:
Bazarcultura - Um jornalista
brasileiro trabalhando como correspondente
internacional acaba tendo de usar muito as informações das agências de
notícias, já
que você não tem toda a infra necessária fora do Brasil. Como você
procura vencer essa
limitação? Como consegue as fontes?
César Tralli - As agências são inevitáveis a partir do momento
em que
algumas situações você não consegue ter acesso, não consegue estar em
todos os
lugares ao mesmo tempo. O que eu procurava muito fazer lá fora era não
depender de uma
única fonte, de uma única agência. Então, ou eu monitorava três
agências ao mesmo
tempo ou consultava muito a BBC, que praticamente tem correspondentes
em todos os lugares
e é extremamente confiável nas coberturas internacionais. Em algumas
circunstâncias,
procurava conversar com os próprios repórteres da BBC que estavam no
local dos fatos, ou
consultava direto a redação da BBC, via nossa redação em Londres. Era
uma maneira de
minimizar a dependência da Reuters, da France Presse, principalmente
essas, porque elas
nem sempre retratam a verdade dos fatos. E nos países por onde passava
procurava fazer
fontes de alguma forma, ou nas embaixadas ou em alguma universidade,
centro de história,
pessoas do governo, pessoas que acabam ajudando. Na Ucrânia, por
exemplo, a minha fonte
foi um professor de física. Em todos lugares achava alguém para dar uma
força quando
precisava, uma rede de relacionamentos mais vigorosa e mais confiável.
Bazarcultura - Você começou
na mídia escrita (Folha, Gazeta
Esportiva), e depois trabalhou na rádio Jovem Pan, antes de iniciar os
trabalhos no SBT e
na Globo. Gostaria que você comentasse essa diferença do jornalismo
escrito ou
literário, no qual você pode refletir e descrever mais, e o dinamismo
da TV, em que cada
segundo é muito importante.
Tralli - É uma diferença brutal. Na televisão, você tem que
usar uma
linguagem sintética, absolutamente telegráfica, muito objetiva e clara,
porque você
atinge um público de massa monumental. E no jornalismo impresso é o
inverso. Apesar da
necessidade de você também ser objetivo e responder algumas questões
básicas, você
consegue usar uma linguagem um pouco mais elaborada, fazer um texto com
um pouco mais de
caráter pessoal. Na TV, mesmo nem todos os textos sendo iguais, você
tem algumas
limitações que eu procuro compensar com uma boa edição, uma boa sacada
de reportagem,
uma imagem diferente que peço para o câmera fazer, uma maneira
diferenciada de contar a
história.
E a respeito do livro, eu
peguei gosto pela escrita, o livro representava mesmo um desafio
de poder fazer alguma coisa que fugisse daquela camisa de força da TV,
e como sempre
gostei de escrever, para mim era um desafio tentar desenvolver um texto
mais literário.
Mas como eu sou meio eclético, eu curto os ambos. Gosto da TV pra
caramba e gosto dessa
nova vertente do texto de livros.
Bazarcultura - Nos 5 anos em
que você foi corresponde internacional,
você tinha o costume de fazer crônicas nas horas vagas, ou decidiu
escrever o livro
quando voltou para o Brasil?
Tralli - A decisão foi aqui no Brasil. Eu não escrevia
crônicas com
freqüência lá fora, o que eu fazia era me comunicar com os amigos, e
cada carta era
como uma crônica. No comecinho de 2000, quando voltei, decidi fazer o
livro para não
perder da memória esse período que para mim foi fantástico. Botei no
papel as
histórias que eram mais marcantes para mim desse tempo, de cada país
por onde passei.
Aí depois, eu comecei a fazer um trabalho grande de pesquisa para
relembrar de tudo, me
situar nos locais de novo, e fazer com que as crônicas não fossem
simples
"aventuras de repórter", mas que elas tivessem um pouco mais de
conteúdo.
Bazarcultura - Certos ângulos
das crônicas do livro você não teria
como abordar na TV, como o relato de um vizinho seu na Inglaterra que
se comunicava por
bilhetes ("Dos vizinhos"), ou da ausência de chuveiros e conseqüente
incômodo
no Expresso-Orinte ("Romance sobre trilhos"), por exemplo. Quais
escritores e
jornalistas adeptos dessa mistura deliciosa entre jornalismo e
literatura que você mais
admira?
Tralli - A idéia do livro era colocar no papel tudo aquilo que
não
tinha ido ao ar. Na televisão a gente sempre fala que o melhor não vai
ao ar, porque
são os detalhes que ficam de fora. Então eu quis tocar nesses ângulos
de reflexão
sobre coisas que na TV não pude dizer, porque as reportagens eram
aventuras ou coisas
parecidas. Eu sempre fui fã de crônicas, adoro Rubem Fonseca, Danton
Trevisan, caras que
eu admiro muito nesse tipo de linguagem, e a crônica e o conto mais ou
menos que se
misturam. Na hora de escrever eu procurei até ler muito esses autores
para ganhar alguma
inspiração.

Bazarcultura - Aqui no
Brasil, parece que você prefere abordar a
reportagem policial ou investigativa, tanto na sua passagem pelo Aqui
Agora como nas
matérias sobre crime e corrupção em São Paulo. Você realmente gosta de
trabalhar com
esses temas? Por quê?
Tralli - No Brasil, eu percebi que ou eu enveredava por uma
linha de
trabalho mais light, que seria fazer reportagens de comportamento, ou
partia para uma
coisa mais hard news, de investigação, policial, e em São Paulo eu vejo
que não há
muito espaço para outro tipo de reportagem que não seja esse segundo.
Acho que em São
Paulo tem uma brecha que precisa ser melhor ocupada nessa linha de
investigação de
crimes financeiros, crime do colarinho branco, e eu gosto, eu tenho
esse espírito meio de
farejador. Eu acho legal entrar nessa vertente de trabalho mais sério,
mais pesado, que
não deixa de fazer parte da coisa da adrenalina, da aventura de
investigar essas
histórias. Eu gosto, seja crime organizado ou crimes do colarinho
branco, áreas que
estou buscando atuar cada vez mais aqui no Brasil.
Bazarcultura - Seus relatos
do conflito no Líbano entre o Hezbollah e
exército israelense passam o clima de perigo constante ("A batalha do
medo"),
que o repórter muitas vezes ignora para conseguir sua matéria. Comente
essa
auto-anestesia do medo.
Tralli - É um pouco assim mesmo. A vontade de fazer um
trabalho e a
emoção de estar no local do acontecimento, no olho do furacão, é tão
grande que você
acaba por alguns momentos se esquecendo de que sua vida corre perigo. O
medo sempre vem
depois, quando você bota a cabeça no travesseiro, ou, em algumas vezes,
vem antes.
Bazarcultura - Em muitas
crônicas você descreve a cidadania dos
ingleses ("Amarga lição"), a honestidade dos armênios ("Quando a
palavra
tem valor") etc., e sempre comparando e lamentando a situação
brasileira. O que
você sente quando volta para casa depois de ver tantas respostas lá
fora para os
problemas do Brasil?
Tralli - Acho que aquela epígrafe do Darcy Ribeiro no livro
resume muito
bem o meu estado de espírito: "Tenho tão nítido o Brasil que pode ser,
e há de
ser, que me dói o Brasil que é". Algumas crônicas tem esse caráter
triste
exatamente para mostrar isso. A gente percebe que nessas sociedades
mais desenvolvidas,
por mais desenvolvidas que sejam estão sempre procurando melhorar
situações,
reconstruir, criar novas oportunidades, trabalhar melhor as coisas, e a
gente vê que aqui
há um estado de absoluta complacência, paralisia, que faz com que até o
próprio
jornalista se sinta frustrado em relação com o que acontece no país.
Bazarcultura - Se esse livro
tivesse sido publicado em 2002, certamente
estaria inclusa uma crônica sobre o pós-11 de setembro, já que você
viajou para Nova
Iorque logo após os atentados. Já pensou sobre a história que contaria?
Tralli - Acho que seria um pouco parecido com o que fiz nas
outras. Iria
pinçar um personagem e escrever sob o prisma e a ótica dessa pessoa,
que estava no olho
do furacão ou de repente foi ver aquela situação. Se você pega um ser,
você acaba de
alguma forma refletindo o estado de espírito coletivo. Iria abordar o
drama de alguém
que estava lá dentro, e que de repente sobreviveu, ou que perdeu tudo,
se sentiu
absolutamente impotente diante de uma tragédia dessa proporção.
Bazarcultura - Você já pensa
em escrever outro livro?
Tralli - Penso sim. Um livro de crônicas de histórias
policiais reais,
mas não só necessariamente que eu tenha participado como repórter.
Algumas histórias
estou trazendo de fora, tem uma da Alemanha, uma da Coréia que eu
trouxe agora da Copa. A
idéia é fazer isso, pegar histórias que de fato aconteceram e botar
nesse estilo de
crônica policial.
(Matéria realizada para o site Bazarcultura)