kaf.ki.a.no
adj
Relativo a Franz Kafka, escritor nascido na Tchecoslováquia
(1883-1924), que usava a
língua alemã. sm Admirador ou estudioso de Kafka.

Quando
a obra de um escritor causa muita influência entre seus
leitores, ela geralmente se transforma em adjetivo. Mais ainda:
determinados autores têm
seus estilos e idéias tão disseminados que, mesmo as pessoas que não os
leram, aprendem
que certas ocasiões da vida representam a obra daquele escritor. O
termo kafkiano é um
dos maiores exemplos. Verdadeiro lugar-comum usado sempre quando
aparecem situações
absurdas no cotidiano humano.
Os
contos e romances de Kafka contam histórias de pessoas oprimidas
pela família, pelo Estado, pela justiça ou burocracia, enfim, todo os
mecanismos sociais
que alienam o homem e atacam sua individualidade com o intuito de
manter normas e condutas
preestabelecidas. Essas formas de coerção nos escritos de Kafka
apresentam-se nas formas
mais bizarras possíveis, de modo que à primeira vista parecem
completamente
inverossímeis. Mas então por que muitas vezes nos sentimos tão próximos
de seus
personagens e conflitos?
O
mundo contraditório e traumático que Kafka descrevia em seus livros
era seu próprio mundo. Com a leitura das cartas a seus parentes, amigos
e mulheres, e
sobretudo lendo seu diário, descobre-se que a literatura de Kafka era
um reflexo quase
que completo de sua vida. Primeiro a difícil relação com seu pai,
Hermann Kafka,
comerciante de Praga avesso às artes, descrito como autoritário,
explosivo e mesmo
agressivo. Em 1919 Kafka enviou uma carta a seu pai, onde expôs toda a
dor dessa
relação. Mais tarde ela foi transformada em livro, "Carta ao Pai". Um
fragmento revelador fala da submissão do jovem Kafka: "Quando começava
a fazer algo
que não era do teu agrado, e me ameaçavas com o fracasso, o respeito
por tua opinião
era tão grande que implicava, embora fosse mais tarde, que o fracasso
era irremediável.
Perdi a confiança em minha ação."
Kafka
dizia abertamente que queria sair dos domínios de seu pai, e
para isso acabou optando por uma profissão que não era de seu agrado.
Formou-se em
Direito e trabalhou por 14 anos em uma companhia de seguros contra
acidentes do trabalho.
Ocupação para ele alienante e burocrática, da qual se queixou em seu
diário no ano de
1913: "Meu emprego é insuportável porque se opõe ao meu único desejo e
minha
única vocação, a literatura. Como eu não sou outra coisa que
literatura, e não posso
e nem quero ser outra coisa, meu emprego nunca conseguirá apoderar-se
de mim, ainda que
possa a chegar a destroçar-me totalmente. Não falta muito para isso."
Desse
modo as histórias fantásticas de Kafka, com inocentes sendo
condenados pela justiça, homens se transformando em insetos, leis
estúpidas e sem
sentido, órgãos do Estado reprimindo pessoas abertamente e naturalmente
etc. são
metáforas de sua vida. Para Kafka escrever, como ele dizia, era um
exercício de
conscientização de sua situação. Uma espécie de fuga da realidade
opressora, um
próprio mergulho no subjetivismo. Entretanto os escritos kafkianos
desenvolvem uma
estrutura mítica onde, partindo de seu individualismo, se chega ao
universalismo. Isto
é, Kafka representando sua própria vida em sua literatura também mostra
a vida das
sociedades ocidentais deste século. É uma própria síntese de um
universo repressor e
absurdo.
Kafka
passou a maior parte de sua vida na Tchecolosváquia, então
pertencente ao Império Austro-Húngaro, mas o que ele escreveu não dizia
respeito apenas
a seu lugar e época. O simbolismo de suas obras diz respeito a qualquer
opressão da
consciência humana em qualquer sociedade reificada ou coisificada que
seja dominada por
mitos do poder, seja em regimes capitalistas ou socialistas.
"Alguém
devia ter caluniado a Josef K., pois que sem
este tivesse feito nada de mal foi detido uma certa manhã". Assim
começa o que para
muitos é o melhor romance de Franz Kafka, "O Processo". O autor não
chegou a
terminá-lo, foi publicado postumamente por seu amigo Max Brod em 1925.
Como a maior parte
das obras que escreveu, Kafka desejava que ela fosse destruída.
"O Processo" conta a história de um procurador de um banco
de Praga, Josef K., subitamente exposto a um processo judicial sem
aparentes motivos. Com
efeito, o protagonista nunca chega a saber do que está sendo acusado,
pois a justiça
não lhe permite isso. Nesse teatro do absurdo o herói não poderia
deixar de ser
imperfeito e tolo: Josef K. aceita a incoerência desse caso e toma para
si as formas que
a justiça usa em seu dia-a-dia - a burocracia e a corrupção.
É
importante perceber que o principal motivo dessa submissão a um
processo ilógico vem da própria existência alienada de Josef K. Ele é
descrito como um
solitário homem de negócios entregue a seu trabalho no banco, onde se
sente seguro, pois
conhece todas as estruturas de seu funcionamento: "Todo o momento que
passava fora do
escritório lhe causava enormes inquietações; já não podia empregar seu
tempo de
trabalho de um modo tão útil quanto antes; passava muitas horas apenas
fingindo que
trabalhava; sua inquietação era ainda maior quando não se encontrava no
Banco."
Como
vários estudos marxistas apontam, o homem oprimido e alienado,
seja pelo seu trabalho ou pelo Estado, perde a noção do real e passa a
aceitar sua exploração.
Primeiramente, Josef K. tinha uma existência centrada em seu trabalho
repetitivo e
formal, o que lhe acarretava uma postura não menos fria e sem sentido.
Depois, quando seu
processo e sua posterior burocracia judicial o atingem, ele não tem
consciência do
absurdo de sua nova situação, já que se encontra alienado. Não contesta
sua
situação, pelo contrário, procura aprender como funcionam os mecanismos
da justiça,
não para destruí-la, mas para se adaptar a ela.
Nessa jornada pela justiça, Kafka descreve literalmente seus
corredores sinistros. Buscando informações sobre seu processo, Josef K.
entra em
prédios do Poder Judiciário que são verdadeiros labirintos escuros e
desorganizados,
onde ninguém sabe lhe informar nada com segurança. O ambiente desses
lugares chega mesmo
a causar vertigens e desmaios no personagem principal. Esse ponto do
romance, muito
similar à realidade, é exemplo do funcionamento dos órgãos
burocráticos: o uso do
segredo ou mistério. Esse caso retrata a burocracia judicial que, na
maioria das vezes,
fecha a justiça em si mesma, e não permite que ninguém saiba como ela
funciona.
O caso de Josef K. é um exagero desse caráter opressor da justiça,
mas não deixa de ter semelhança com os trâmites usados pela justiça
real. No romance,
Josef K. descobre que a hierarquia da justiça é composta por graus
infinitos, pessoas
nunca vistas, completamente inacessíveis ao público. Tudo muito
parecido com certos
magistrados da vida real, postos em verdadeiros pedestais quase
inalcançáveis.
Josef
K. nunca chega a ultrapassar a barreira da burocracia judicial.
Seus mistérios e segredos são a forma de ela manter seu grande poder.
Para isso ela
serve-se da mudez de seus funcionários, das suas considerações
secretas, da linguagem
hermética de seus códigos e de seus procedimentos ardilosos.
Por
último ressalta-se no romance a característica corrupta que uma
justiça decadente atinge. O pouco que Josef K. chega a descobrir é que
ela recompensa os
homens que conseguem ter boas relações com seus escalões acessíveis e
mais nobres.
Primeiro seu advogado lhe confessa isso e depois essa idéia é reforçada
pela estranha
figura de um pintor retratista de juízes, Titorelli: "Por certo não li
em nenhuma
lei, apesar de que naturalmente tem que estar estabelecido ali que o
inocente tenha de ser
absolvido e, imediatamente não se estabelece nela que se possa influir
sobre juízes por
meio de relações pessoais. Agora bem; precisamente me inteirei de que
ocorre todo o
contrário, porque o certo é que não tenho conhecimento de nenhuma
absolvição real,
mas sim de muitos casos de influências pessoais."
Franz
Kafka morreu tuberculoso em junho de 1924 num sanatório em
Kierling, perto de Viena. Seus contos, romances, cartas e diários
permanecem como
retratos da triste condição humana, presa em sua própria contradição.
