Ronald
Biggs foi embora. A história desse inglês sempre me
interessou. Acho que o que ele fez tinha algo de especial para nós
brasileiros, pois ele
foi uma das pessoas que exportaram a ilusão do Brasil ser um paraíso. A
impressão de
que o nosso país é uma terra de alegrias e prazeres cresceu muito
quando, em 1974, o
assaltante Biggs, fugitivo da até então infalível Scotland Yard,
apareceu no Brasil com
uma namorada e filho brasileiros. Era a realização de um sonho de todo
o estrangeiro:
ficar rico e ir morar no Brasil.
Outro
gringo, o diretor de cinema norte americano Terry Gilliam,
integrante do histórico grupo humorístico inglês Monty Python, também
exaltou o país
no belíssimo e excessivo filme "Brazil" (1985). O título vem de
"Aquarela
do Brasil", de Ari Barroso, música que conforta o personagem principal
da trama,
Jonatham Pryce, funcionário de um Estado futurista totalitário e
super-burocrático.
Pryce se apaixona por uma mulher que vive à margem de um mundo obscuro
e opressor, uma
revolucionária, vivida por Katherine Helmond. No filme, todas às vezes
que o casal se
encontra "Aquarela do Brasil" é tocada ao fundo, símbolo do amor e da
liberdade.
Indo
bem mais longe, séculos atrás, quando o Brasil ainda nem
tinha sido descoberto, pasmem, essa terra já tinha fama de bela e
mágica! É que o nome
Brasil originalmente pertenceu a uma lenda irlandesa do século 9º: em
565 o monge celta
São Brandão teria partido da Irlanda para evangelizar terras e povos
que achasse pelos
Oceanos afora e, após muitos anos de viagem, encontrou a mítica Hy
Brazil, uma ilha
movediça descrita em outras lendas dos gaélicos, povo primitivo que deu
origem aos
irlandeses. Essa ilha seria uma "terra de leite e de mel" num ponto
indeterminado dos mares. Alguns filólogos garantem também que para os
gaélicos,
"brasil" derivaria de "brés", significando "nobre" ou
"afortunado", ou ainda podendo ser entendido como "feliz" e
"encantador".
Você
até esse ponto do texto deve estar se perguntado onde eu
estou querendo chegar com toda essa introdução. Bom, para a maioria das
pessoas que
nasceu aqui essas coisas parecem bobagens, coisa de gringo mesmo.
Sabemos muito bem da
pobreza e injustiça de nosso país, e sobretudo que o brasileiro só é
cordial quando
lhe interessa. Mesmo a história de Biggs não foi tão bonita assim. Ele
não veio para o
Brasil com o dinheiro que roubou do trem pagador inglês, e antes de
retornar para seu
país passava por dificuldades financeiras. Voltou para a Inglaterra
porque o jornal
sensacionalista "The Sun" lhe ofereceu dinheiro.
Mas
sabe, mesmo com tudo isso eu lamento o esgotamento dessa boa
aura que rondava o imaginário sobre o Brasil. Não é nem preocupação com
a imagem do
Brasil no exterior. O que mais me deixa triste é perceber que não há
mais nenhum lugar
para essa ilusão de paraíso na terra. O Brasil e o mundo não inspiram
mais lendas ou
aspirações, parece que tudo é falso. Sinto saudade de algo que só me
contaram. Um
tempo onde tudo parecia mais feliz e simples.
Agora
realmente digo. Essa minha nostalgia se parece com a do meu
pai que acha a sua época de jovem melhor do que esta. Pode ser, mas
acho que o maior
absurdo nessa história é que me limito a concordar com ele, apesar da
nossa diferença
de idade. É uma das coisas mais horríveis da minha geração: não saber
como subverter
e revolucionar as idéias do passado. Fazer melhor. Matar todos os pais,
superá-los. Eis
o ponto. O inicial.