Ele escreve todo dia uma média de 14 horas. Senta em frente o computador de manhã e só pára de noite. Diz que tira uma dor quando escreve, sente prazer nisso, uma verdadeira terapia. Quando a inspiração não vem, ele se "aquece" ouvindo Lou Reed, lendo seus autores prediletos (Camus, Graciliano, Dostoievski, Henri Miller), se masturbando, enfim, procura a emoção para criar. Fernando Bonassi (1962), depois de muitos livros, roteiros, peças, hoje é um escritor brasileiro que consegue viver de sua arte.
Essa conquista da auto-suficiência ele faz questão de enaltecer, não só por vaidade, mas também porque se sente muito feliz com isso. Bonassi vem de uma família paulistana de classe média-baixa da Mooca, seus pais eram metalúrgicos. Conseguiu passar na USP, fez Cinema na ECA. Seu primeiro curta, "Os circuitos do olhar", é de 1984. Mas ele cismou em tentar mais, queria escrever. Pegou esse gosto lá pelos 14 anos, quando escrevia bilhetes para uma garota que não olhava na sua cara. Não deu certo, os bilhetes não foram entregues, nem nunca se olharam, mas Bonassi seguiu escrevendo. Como muitos escritores, começou com um livro de poesias, "Fibra Ótica" (Massao Ohno Editor, 1987). O segundo, agora de contos, levou muitos não, dez para ser exato, algumas editoras até disseram que ele deveria procurar outra coisa para fazer. Finalmente, em 1989, saiu "O Amor em Chamas" (Estação Liberdade).

Depois, veio o primeiro livro do autor de mais repercussão, o romance "Um céu de estrelas" (Siciliano, 1991), que Tata Amaral adaptou para o cinema em 1995. Ganhou prêmios de melhor filme nos festivais de Biarritiz (França), Brasília e Trieste. A história é uma tragédia da Mooca: o metalúrgico Vítor não aceita o fim do noivado com a cabeleireira Dalva, ambos são cheios de sonhos, mas terminam num violento desespero social e emocional.
Dezesseis livros vieram em seguida, seis destes na literatura infanto-juvenil, que o autor confirma serem seus mais vendidos, como "A incrível história de Naldinho - um bandido ou um anjinho?" (Cosac & Naify, 2001), sobre crianças que acabam no mundo do crime. Por abordar temas assim, sua literatura infantil é dita "violenta", porém Bonassi crê que este é um dos enfoques corretos para as crianças das grandes cidades. "Acho a literatura infantil de hoje muito babaca, sem nada da realidade. Não dá para trabalhar só contos de fadas com crianças que vivem num mundo tão desigual", comenta.
Por outro livro infantil, "Declaração
Universal do Moleque Invocado", (Cosac & Naify, 2001), uma
subversão
bem-humorada da Declaração Universal dos Direitos da Criança, o autor
foi indicado como
finalista do Prêmio Jabuti 2002. A cidade de São Paulo, suas ruas,
casas, cortiços e
pessoas, foram inspiração para outro livro do autor que concorreu ao
mesmo prêmio no
ano seguinte, agora na categoria Contos e Crônicas por "São
Paulo/Brasil"
(Dimensão, 2002).

O último livro de Bonassi é "Prova
Contrária" (Objetiva, 2003), uma criação que surgiu de uma lei
sancionada em 1995
pelo então presidente FHC: o Estado passou a reconhecer como mortas as
pessoas
desaparecidas em razão de participação ou acusação, em atividades
políticas, no
período de 1961 a 1979, bem como assumiu a responsabilidade pelas
arbitrariedades
cometidas por seus agentes e estabeleceu indenização financeira aos
familiares das
vítimas. No livro, uma mulher consegue esse dinheiro do governo, já que
seu marido sumiu
durante a ditadura. Ela compra um apartamento e, justamente no dia da
mudança, o esposo
reaparece depois de tanto tempo. Ele não dá só uma explicação para
isto, mas logo
três: ou ele é um fantasma, ou é um traidor da causa revolucionária que
resolveu sumir
todo esse período, ou é um homem que havia se cansado da relação com a
esposa e
abandonou-a.
Berlim
Um fato que marcou a obra de Bonassi
foi uma bolsa de estudos alemã ganha em 1998. O Kunstlerprogramm do
DAAD (Deutscher
Akademischer Austauschdienst) paga aos escritores 2.500 dólares para
escrever um livro e
banca sua moradia por um ano. Ele adorou viver numa "cidade tão louca
como
Berlim", e produziu "O Livro da Vida", projeto de contos curtos com mil
histórias do mesmo tamanho. Algumas delas já foram publicadas no
Brasil: "100
Coisas" (Ed. Angra, 2000) e em "Passaporte" (Cosac & Naify, 2001).
Mas o mais importante dessa temporada alemã
é que depois Bonassi decidiu de vez ser um escritor. Ele conta que
resolveu abrir mão de
alguns confortos materiais e salário burguês, hoje prefere viver
modestamente fazendo
aquilo que ama, escrever. Tanto que vai abandonar sua coluna "Macho" na
Folha de
S. Paulo por não se sentir mais feliz com ela. A propósito, declara que
o jornalismo e a
propaganda são a morte do escritor. "Para falar a verdade, eu odeio
patrão",
completa.
Leia um dos contos de
"100
Coisas":
"Antes de
casar, Zeca escolheu muita mulher até escolher
Silvia, que engordou. Já Hirani escolheu muito marido até escolher
Dario, que bate nela.
César escolheu muito amigo até escolher Wilsinho, que o levou à cadeia
nuns lances aí.
Cristina escolheu várias amigas até escolher Hirani, que roubou seu
marido. O marido de
Hirani escolheu muitas amantes até se apaixonar por Silvia. Cristina
escolheu muitos
amores até escolher Wilsinho, que está preso. César escolheu muitos
companheiros de
cela, até encontrar Genésio, que o fez descobrir um outro lado de si.
José Carlos
escolheu ser corno."
Faça sua escolha - conto retirado de "100 coisas", de Fernando Bonassi
(Angra,
2000)
Aqui e Agora
No Salão de Idéias da II Bienal do Livro de
Bauru, o tema proposto para Bonassi foi "Literatura Aqui e Agora",
claro, um
trocadilho com sua obra tida, às vezes, violenta e o extinto programa
mundo cão da TV.
Ele não nega totalmente esse título fácil, pois parte de sua obra
aborda temas
violentos sim, como a participação no roteiro de "Estação Carandiru",
de
Hector Babenco. Por sinal, um trabalho que Bonassi tem duas visões. A
primeira, uma
grande experiência pessoal trabalhando no Carandiru durante a
roteirização com o
próprio Babenco e Victor Navas (por um ano e meio Bonassi ajudou os
detentos a escreverem
cartas). A segunda, o desagrado com o resultado final, "um filme muito
acadêmico,
como novela das oito", segundo sua opinião.
Mesmo assim ele exalta o sucesso de obras
como "Estação Carandiru", "Os Matadores" (co-roteirização dele
também) e "Cidade de Deus". "É uma abertura para os problemas sociais.
As
pessoas escolheram ver as mazelas nacionais, esse novo governo
representa isso",
analisa.
Em relação a outros temas, o autor citou
seu romance "O amor é uma dor feliz" (Moderna, 1997), uma obra quase
autobiográfica narrada por um garoto que cresce num bairro operário
decadente, mas que
consegue passar no vestibular para cinema e vai estudar na melhor
universidade pública do
país. "Nesse livro, tudo o que escrevi é verdade, principalmente o que
eu
inventei", brinca.
Em relação à "Geração 90", um nome inventado pela imprensa para designar os novos escritores que entraram em evidência na última década do século passado, como Marçal Aquino, José Roberto Torero, Marcelo Mirisola, Bonassi opina que é mais reducionista do que fiel à realidade. "Eu, por exemplo, formei minha cabeça durante a década de 70 e comecei a publicar já nos anos 80. É mais um recorte da mídia. Alguns jornalistas e/ou críticos dizem que uma característica que une todos esses escritores é o extremo realismo nos textos, o que não é verdade. 'O fluxo silencioso das máquinas' (Ateliê Editorial, 2002), de Bruno Zeni, para mim o melhor autor da atualidade, não tem nada de realismo. São descrições de rostos dos usuários do metrô", comenta.
E a literatura de Bonassi também não pode
ser facilmente inscrita em um estilo. A maneira como ele escreve,
muitas vezes sem dar
nome aos personagens, pouca descrição, frases curtas, que lembram uma
poesia crua,
lembra muitas vezes o cinema, ou até letras de músicas. "Gosto dos
personagens em
ação com uma descrição bem enxuta. Não gosto de narradores oniscientes,
não acredito
nisso. O leitor é que deve fazer suas escolhas e criar suas opiniões",
afirma.
Os próximos planos de Bonassi são um livro
infantil, "Declaração Universal da Menina Esquisita", e a participação
num
projeto editorial que pretende contar várias histórias sobre lugares
que estão sumindo
em São Paulo, como os parques de diversões, locais que o escritor vai
transformar em
livro.