O imortal do Bom Fim

Moacyr Scliar conta suas histórias e paixões e encanta o público da II Bienal do Livro de Bauru



"Respeito é pra quem tem, pra quem tem, pra quem tem
Respeito é pra quem tem, pra quem tem, pra quem tem"


Sabotage, "O rap é compromisso", (Cosa Nostra, 2001)


        Certamente, o escritor Moacyr Scliar não sabe quem foi o talentoso rapper paulistano Sabotage, assassinado em janeiro de 2003. São de gerações e mundos diferentes, mas o refrão de uma das músicas do poeta da favela do Canão encaixa muito bem com o caráter do escritor gaúcho. Ele já publicou mais de 60 livros, recebeu prêmios literários como o Jabuti, o APCA e o Casa de las Américas, foi traduzido para 18 idiomas, e no último dia 31 de julho foi eleito para a cadeira 31 da Academia Brasileira de Letras (ABL), na vaga aberta pela morte do mineiro Geraldo França Lima. Mesmo com esse currículo fabuloso, Scliar não esquece por um segundo da sua origem humilde, de suas raízes gaúchas e judaicas, e nem da sua segunda profissão, médico sanitarista. Ele respeita as tradições e legados que fizeram dele um imortal.

        Moacyr Jaime Scliar nasceu em Porto Alegre a 23 de março de 1937, filho de imigrantes judeus da Besarábia que vieram para o RS trabalhar num projeto de colonização agrícola. O projeto já estava terminando quando eles chegaram, então foram viver na capital, no bairro do Bom Fim, onde Scliar nasceu e se formou. É parte da tradição judaica contar muitas histórias e ele cresceu nesse ambiente, com seus parentes e vizinhos se reunindo as noites para bater papo e contar histórias. Além dessa influência inicial, o escritor também teve a ajuda de sua mãe, que era professora no Colégio Ídiche, atualmente o Colégio Israelita Brasileiro. Já criança, Scliar escrevia histórias que passavam de mão em mão no bairro do Bom Fim. Ele era chamado de 'escritorzinho do Bom Fim', apelido que o agradava muito.

        Em 1955, foi aprovado no vestibular de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde se formou em 1962. No final do curso, publicou seu primeiro livro, "Histórias de Médicos em Formação". Exerceu a profissão junto ao Serviço de Assistência Médica Domiciliar e de Urgência (SAMDU). Em 1968, começa sua produção literária de fato, o livro de contos "O Carnaval dos Animais" (Movimento). Não parou mais, publicou romances, contos, literatura juvenil, crônicas e ensaios. É também professor de saúde pública na Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre, e colunista dos jornais Folha de S. Paulo e Zero Hora.

        A literatura de Scliar é muito ligada à imigração, livros como "A Guerra no Bom Fim" (Expressão e Cultura, 1972), "A Majestade do Xingu" (Companhia das Letras, 1997), ou o conto "A balada do falso Messias", tratam de personagens judeus em pleno fluxo imigratório para o Brasil e/ou descrevem seu cotidiano no país. Fatos fora do comum, com uma carga fantasiosa ou insólita, também são naturais em suas histórias, vide o romance "Os deuses de Raquel" (Expressão e Cultura, 1975) e o conto "Pequena história de um cadáver". A essas características soma-se o humor e a descrição da realidade social da classe média urbana brasileira, formas herdadas da tradição literária judaica e do trabalho como médico da saúde pública.

        Na crônica, a partir de 1993, ele escreve semanalmente para a Folha de S. Paulo um texto de ficção baseado em notícias publicadas no jornal, produção que gerou o livro "O Imaginário Cotidiano" (Global, 2001). É um trabalho que o escritor tinha dificuldades no princípio, pois não escolhia as notícias, a própria redação do jornal lhe enviava coisas esdrúxulas, como "Pai mata a família e ouve uma ópera". Hoje, é ele quem escolhe as manchetes e, segundo o autor, geralmente existem aquelas que estão esperando serem contadas por sua curiosidade, verdadeiras "histórias quase prontas", como a notícia de um "homem que cria 70 aranhas em sua casa".

        O lado acadêmico desse escritor aparece em ensaios sobre o judaísmo ("A condição judaica", 1987) e a história da saúde pública brasileira ("Oswaldo Cruz", 1996).

Saturno

"Saturno e Mercúrio são os astros que condicionam o clima emocional do Renascimento. O inquieto Mercúrio convida à descoberta do novo (inclusive de novos mercados para o comércio, como vimos); Saturno induz a ruminação do passado."

"Saturno nos Trópicos - a melancolia européia chega ao Brasil", (Companhia das Letras, 2003)

        O último livro de Scliar é um ótimo ensaio que mistura a medicina, história, sociologia e literatura, "Saturno nos Trópicos - a melancolia européia chega ao Brasil", (Companhia das Letras, 2003). O autor vai às origens da Modernidade e ao surgimento de duas das suas principais características, a melancolia e a mania. O fim da Idade Média trouxe transformações profundas na humanidade e a queda de tradições e valores seculares. Os progressos científicos, mudanças econômicas, religiosas e políticas, criaram uma euforia maníaca de descobertas e especulação financeira, mas também introduziram uma incerteza profunda quanto ao futuro. As guerras de formação dos estados nacionais europeus, as epidemias e a caça às bruxas também colaboravam para criar um panorama sombrio.

        As artes, refletindo tudo isso, também tiveram um avanço tremendo representado no Renascimento. Artistas como o pintor Albrecht Dürer (1471-1528), criavam sobre esse momento, sua gravura "Melancolia" apresentava a própria como uma espécie de anjo, sentado em desânimo entre objetos da ciência - como a indicar que o conhecimento não neutraliza a melancolia, ao contrário. Na literatura, revoluções estéticas foram desencadeadas com Shakespeare e Cervantes. Hamlet resume o dilema do suicida potencial: vale a pena lutar contra um mar de adversidades, para manter a vida, essa "história contada por um idiota, cheia de som e de fúria", nas palavras de Macbeth?

Melancolia, de  Albrecht Dürer

        O Novo Mundo herdou essa melancolia européia, como mostra o autor. Sua tese é de que o brasileiro é um povo triste, pois foi formado por três outros assim: os índios (colonizados e assassinados), os negros (escravizados) e os portugueses (melancólicos por natureza desde o Sebastianismo). Mas temos também nossas manias, válvulas de escape para essas tristezas: as artes populares, as festas nacionais e o futebol.

        O ensaio também analisa a nossa literatura, farta de personagens maníacos e melancólicos: Simão Bacamarte, o alienista de Machado de Assis, Brás Cubas (que, morto, escreve com a tinta da galhofa e a pena da melancolia), Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, Macunaíma, de Mário de Andrade, e Macabéa, de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector.

Max e Pi

        Na II Bienal do Livro de Bauru, Scliar honrou sua fama de contador de histórias e falou sobre sua vida e paixões. Um dos mais recentes fatos que contou foi sobre seu livro "Max e os felinos" (L&PM, 1981) e o outro escritor, o canadense Yann Martel, que em 2002 ganhou o prêmio Booker Prize, um dos mais cobiçados da Grã-Bretanha - de cerca de R$ 285 mil e tido como o mais importante depois do Nobel. O livro premiado foi "Life of Pi" ("A vida de Pi").

        Um belo dia, Scliar foi avisado do prêmio de Martel. Até aí tudo bem, mas só que também foi informado de que "Life of Pi" é um plágio de "Max e os felinos", publicado nos EUA em 1990. Depois, o jornal inglês "The Guardian" publicou um artigo defendendo Scliar e acusando Martel de plágio (o canadense apenas cita o brasileiro numa nota introdutória de sua obra). O livro do gaúcho conta a história de um rapaz judeu, Max, que está fugindo e embarca em um navio com destino ao Brasil transportando também os animais de um zoológico. Há um naufrágio criminoso na viagem e Max consegue se salvar, porém um jaguar pula para dentro de seu barquinho. O tema central do livro é essa estranha convivência entre os dois, no meio do nada e presos, com a constante tensão de que a fera vai devorar Max. Martel trocou o jaguar por um tigre e em vez do Brasil o destino do barco é o Canadá. É a mesma história, só muda a conotação: política no caso de Scliar, e religiosa e mística no livro de Martel.

        Mas o que deixou o escritor gaúcho realmente chateado foram as declarações de Martel a respeito: reconheceu ter tomado como mote o livro de Scliar, mas atrapalhou-se na explicação - diz que ficou interessado pela obra por meio de uma crítica negativa de John Updike, publicada pelo The New York Times - só que, ao contrário, Updike elogiou o livro, porém o pior foi que o canadense afirmou ter achado a idéia de Scliar muito boa, mas lamentava que tivesse sido escrita por um escritor tão ruim, por isso ele resolveu reconta-la.

        Mesmo com toda essa confusão, Scliar não vai processa-lo, pensa que despenderia muito tempo e paciência, não valeria a pena. Por essa postura, o brasileiro foi extremamente elogiado no Canadá e foi convidado para dar várias palestras no país. Um caso raro em que o Brasil vira exemplo lá fora.

        Leia a seguir uma entrevista com o escritor Moacyr Scliar:


Pergunta - O sr. dedicou sua eleição na ABL ao poeta Mário Quintana, também gaúcho, que por duas vezes se candidatou a ABL, mas não foi eleito. Aconteceu uma injustiça com ele?
Moacyr Scliar
- Eu acho que naquele momento ele teve adversários muito fortes, e de outra parte o Mário não dava muita bola para eleições. Como bom poeta, ele era uma pessoa que vivia distante das coisas terrenas. Porém, acho que a Academia perdeu com o fato de não o ter acolhido, e também creio que a minha candidatura ao ser vitoriosa teve um pouco do sentido de indenizar o Rio Grande do Sul, que se sentiu muito frustrado com a não eleição do Mário Quintana.

Pergunta - Ainda sobre a eleição na ABL, o sr. também declarou ser o primeiro acadêmico gaúcho que mora realmente no RS. Hoje, o outro imortal gaúcho, o poeta Carlos Nejar, reside no ES.
Scliar
- Sim, o Nejar mora no ES, embora seja muito ligado ao RS. Mas os gaúchos querem ver o seu escritor lá por perto, caminhando nas ruas de Porto Alegre, aparecendo nas emissoras de rádio e TV, e eu não penso em sair de lá.

Pergunta - Outro legado importante na sua obra é o judaísmo, sobre o qual até já escreveu em "Entre Moisés e Macunaíma - Os Judeus Que Descobriram o Brasil", juntamente com Márcio Souza. Comente essa influência.
Scliar
- A minha vinculação ao judaísmo é cultural, não sou religioso, não sou ortodoxo. A cultura judaica é muito rica, sobretudo do ponto de vista literário, produziu grandes escritores que me influenciaram muito. A literatura judaica tem coisas muito características, como um humor muito peculiar, meio amargo, meio melancólico, que na minha obra eu sei estar inevitavelmente presente.

Pergunta - O sr. tem diversos livros de ficção, mas ao mesmo tempo faz ensaios sobre saúde pública, sobre a história da medicina na literatura, sobre a condição judaica e o judaísmo, e recentemente sobre a melancolia. Quais são os prazeres e as diferenças entre a ficção e o ensaio?
Scliar
- A ficção te proporciona mais campo para a imaginação, tu pode inventar mais. No ensaio, tu tem que ser objetivo expressando suas idéias, mas nem por isso ler ou escrever um ensaio deixa de ser uma coisa prazerosa, porque idéias colocadas de uma maneira muito acessível, agradável, sem serem simplórias, também constituem grande literatura.

Pergunta - Depois de escrever seu último ensaio, "Saturno nos trópicos", o sr. entende melhor as suas próprias melancolias e manias?
Scliar
- Claro, claro (risos). Mas na verdade isso eu já tinha entendido desde o tempo em que era estudante de Medicina. Porém, é fascinante ver que os problemas emocionais que as pessoas têm podem também ser os problemas emocionais de uma sociedade, de uma época. Quando me dei conta de que a modernidade é bipolar, oscilando entre melancolia e mania, eu vi nisto algo que explica muito a situação em que estamos hoje em dia e quis passar para o leitor essas idéias.

Pergunta - Trabalhar com medicina e saúde pública foi importante na obra literária do sr.?
Scliar
- Foi decisivo, porque embora venha de uma família pobre, eu não conhecia a realidade social brasileira, a miséria brasileira, até começar a trabalhar com saúde pública. Foi para mim uma porta de entrada para a realidade do país, me dei conta da desigualdade social, da injustiça social, exatamente trabalhando nas vilas populares, entrando nos casebres, conheci a realidade sanitária da nossa gente. O cuidado com a saúde pública, com a rede de saneamento, é importante do ponto de vista médico porque você combate as doenças mais freqüentes, e também é essencial pelo lado humanitário. O escritor como um humanista precisa também estar consciente desta realidade.

Pergunta - O que o Sr. acha dos jovens escritores que estão surgindo no Rio Grande do Sul, como o Daniel Galera e Daniel Pellizzari?
Scliar
- Estes são dois garotos muito talentosos e tenho certeza de que rapidamente serão nomes nacionais. Eles até criaram uma editora própria, a Livros do Mal (www.livrosdomal.org), o que acho uma boa iniciativa, novos escritores têm que buscar alternativas, inclusive, inventar maneiras de usar a internet na literatura.


Sobe

 

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COPYLEFT © 2003 Reinaldo Chaves da Silva
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