Turista experimental



"Ali é um comércio. Com várias pousadas, com barzinho oferecendo de tudo, inclusive 'hot shower' que, depois de investigar, descobri que usa um sistema de 'sherpa hidráulico'. Você encomenda o banho, um sherpa esquenta um baldão de água, sobe no chuveiro e joga dentro de uma caixa. Dali, a água sai por gravidade pelo chuveiro e o infeliz turista toma seu 'hot shower'. Com temperatura externa a cinco graus..."

(trecho de "O Meu Everest", de Luciano Pires)


        Pense em um executivo de 45 anos que trabalha com marketing numa multinacional. Ele é casado e pai de dois filhos. Nunca praticou esportes de risco. O que você diria se soubesse que uma pessoa assim resolveu viajar para o Everest, a montanha mais alta do mundo? E mais, que conseguiu?! Parece mentira ou brincadeira, mas essa é a história de Luciano Dias Pires Filho contada no livro "O Meu Everest - Realizando um Sonho no Teto do Mundo" (Geração Editorial, 2002).

        Do dia 2 até 22 de abril de 2002, Pires esteve no Nepal e viu de perto, muito perto, o Everest, o gigante de gelo e pedra de 8.850 metros. Claro que ele não escalou a montanha, isso já seria loucura demais, mas conseguiu ir até o Campo de Base do Everest a 5.356 metros, lugar aonde os alpinistas iniciam a escalada da montanha.

        Seu livro é um relato de viagem pessoal, apenas isso. O autor faz questão de afirmar que não quis apelar para lições místicas ou ideológicas, ou seja, mais um mero livro de auto-ajuda. "São só as percepções naturais de um homem que em vinte dias viveu uma experiência absolutamente fora de seu cotidiano", completa.

        Porém, é essa simplicidade que torna o livro agradável. Pires descreve as cidades do Nepal, as diferenças de cultura, as dificuldades da viagem e a alegria de sua realização pessoal, de uma forma bem solta, sem preocupações estilísticas. São cômicas as passagens em que fala da sua forma física ou da falta de luxos quase supérfluos na cordilheira do Himalaia. Por outro lado, ele também é franco quando narra os perigos da altitude, o histórico de mortes que inclui tanto novatos quanto experientes alpinistas e exploradores.

        Essas características acabam também tornando o livro um bom guia para iniciantes. Pires conta sua história desde a decisão, preparativos, viagem e retorno. Ele fala como uma pessoa pode ser infectada pela "febre do Everest", citando grandes obras sobre as montanhas do Himalaia. Conta como se preparou no Brasil, escalando o "baixinho" Pico das Agulhas Negras, em Itatiaia/RJ, 2.789m. Dá dicas sobre os equipamentos, preços, lojas de trekking (caminhada com mochila às costas), e companhias de turismo.

        Depois das escalas em Johannesburgo e Bangkok, Pires visitou no Nepal as cidades ou povoados de Kathmandu (capital), Lukla, Pahkding, Nanche Bazaar, Tyangboche, Dingboche, Dzugla, Gorak Shep, e o Campo de Base do Everest. Seu trekking foi de 200 km, distância que se torna muito maior no sobe-e-desce das montanhas. Ainda visitou monastérios e conheceu os sherpas, o povo das montanhas do Nepal que auxilia os turistas.

        Pires nasceu em Bauru e é filho do historiador Luciano Dias Pires, do Instituto Histórico Antônio Eufrásio de Toledo. No dia 27 de setembro, ele voltou para a terra natal para lançar seu livro e deu uma entrevista para o Bazarcultura:


Bazarcultura - Você já saiu do Brasil com a idéia de fazer o livro? Se sim, você já pensava nesse formato de relato de viagem e guia, com uma linguagem mais coloquial e relatando suas sensações?
Luciano Pires
- Saí do Brasil com a idéia de anotar minha experiência. Eu tinha lido o livro do Airton Ortiz, "No Caminho do Everest", e achava que ele tinha esgotado o assunto. Mas percebi que havia um espaço, se eu contasse minha experiência do ponto de vista de um novato, que não conhecia nada daquilo. A linguagem coloquial é a forma como eu escrevo normalmente. Apenas deixei fluir.

Bazarcultura - Uma das coisas agradáveis do livro são as ilustrações e caricaturas que você fez. Muitas delas foram feitas durante a viagem. Como foi esse processo de criação? Sempre quando parava para descansar você fazia um desenho ou anotação no diário?
Pires
- Sim. A cada parada, eu colocava em anotações as coisas que achava que valeriam a pena. Os cartuns vinham naturalmente. Eu sou cartunista desde que nasci e aquilo faz parte da minha visão do mundo. Depois que escrevi o livro, fiz uma série deles inspirado nas experiências.

Bazarcultura - No início do livro você ironiza o chamado "período sabático", as férias para executivos estressados, dizendo que sua viagem não se tratava disso, não teve "essa veadagem toda". Por outro lado, no decorrer da história você lamenta e critica a certa banalização turística do Himalaia, com centenas de pessoas indo para lá todos os dias, sujando as montanhas e deixando as cidades do Nepal caóticas. Gostaria que você fizesse um contraponto entre essas duas formas de turismo, o mais pessoal e o totalmente comercial, suas impressões.
Pires
- O que eu critico é essa mania de se colocar rótulos e criar modismos, como esse lance de sabático. Mas tem gente que gosta. Não tenho nada contra as viagens comerciais, acho até que são necessárias e são a única forma que muita gente tem para conhecer lugares interessantes. Eu acho que existe espaço para todo tipo de turismo. O que chama a atenção, e eu lamento, é a falta de educação, o desprezo pelo ambiente, a mediocridade que traz junto consigo o lado ruim do ser humano. Como quando eu critico aqueles latinos fazendo aquela zona num local sagrado. E isso não é diferente em lugar nenhum, seja no grupo que está no Himalaia ou no que foi pra Miami ou para Gramado. A falta de educação e cultura é que mata.

Bazarcultura - Uma coisa que você desmitifica no livro é a relação dos sherpas com os turistas. A impressão de quem assiste documentários ou reportagens sobre o Nepal, é que as populações da montanha são exploradas pelos turistas e alpinistas, tendo de servir de burro de pesadas cargas. Mas você diz que não é bem isso, que eles sentem-se felizes trabalhando para os visitantes e não reclamam do peso. Comente as suas impressões do sherpas e do povo nepales, e como eles se relacionam com os estrangeiros.
Pires
- Como eu conto no livro, não existem no Nepal muitas oportunidade de trabalho. Os dois períodos do ano, Abril e Maio e Setembro e Outubro, quando é alta temporada de turismo, são momentos em que grande parte dos sherpas e carregadores vai ganhar o seu sustento do ano. Para eles aquilo é uma oportunidade, e muitos fazem a trilha seguidamente. Nã se sentem explorados e tratam aquilo como um trabalho qualquer. A questão da exploração existe quando o turista utiliza um carregador e não se preocupa se ele está agasalhado, onde vai dormir, o que vai comer (e isso acontece muito). O relacionamento é de respeito e eles são extremamente gentis e educados.

Bazarcultura - Fale o que é a "febre do Everest". Como ela contamina uma pessoa? No seu caso, parece que foi pelo livro "Ar Rarefeito", de Jon Krakauer, e pelo filme "Everest", de David Breashers.
Pires
- É isso mesmo. Acho que todo mundo tem esse vírus do Everest guardadinho. A gente cresce ouvindo as histórias, esse nome - EVEREST - é legendário, sempre causa um tipo de interesse nas pessoas. Quando você encontra uma obra como as que eu li, ou filme como os que vi, o vírus "acorda" e pronto. Você sente que TEM que ir pra lá. Alguns, com grau avançado da doença, vão.

Bazarcultura - Você é filho de um historiador, e conta que desde a infância se interessou por expedições em florestas, cavernas, montanhas etc. Esse seu gosto veio de casa?
Pires
- Eu, quando garoto, lia muito. Muito mesmo. Foi o gosto pela leitura, pelas histórias fantásticas dos grandes exploradores, que me levou a buscar sempre conhecer mais a respeito. Com a internet, então, foi uma festa... Vem daí, da leitura, esse meu gosto.

Bazarcultura - No livro você não conta como foi a reação dos seus colegas de serviço, antes e depois. Houve gozações e depois, na volta, parabéns ou uma certa inveja deles?
Pires
- Houve espanto o tempo todo. Incredulidade. Um certo olhar de "esse maluco". Na volta houve curiosidade. O livro foi minha forma de contar a história e, depois dele, muitos vieram me procurar. A incredulidade, espanto e gozação se transformaram em admiração.

Bazarcultura - Sua exposição de fotos e cartuns da viagem vai vir até Bauru?
Pires
- Se aparecer um patrocinador, para bancar os custos que são ridiculamente baixos, ela vem sim. E é muito bonita. O pessoal da Giramundo estava tentando conseguir alguém disposto a patrocinar, mas você sabe como andam os investimentos hoje em dia.

Bazarcultura - Na sua obra, você diz ter ficado muito feliz com viagem, e também agora, divulgando seu livro, contando sua experiência, também parece estar. Toda a grande viagem deixa marcas e lembranças. Quais foram as suas que mais gosta de citar? E aquelas que menos gosta?
Pires
- Pires - Gosto de citar o processo de preparar a viagem. Das pessoas e coisas que conheci. Gosto de citar a sensação de olhar para cima e dizer "olha só onde é que eu estou!". Gosto de relembrar cada momento, cada por do sol, cada despertar. O que menos gosto é da sensação de impotência, quando tento contar para as pessoas o que vivi e sei que só consigo, por mais pirotecnias que faça, passar uma pálida idéia do que vi no Himalaia. Uma foto maravilhosa, é só um pedaço insignificante daquela realidade. Não dá idéia da dimensão, dos cheiros, sensações, cores e ruídos. Só quem viu o que eu vi sabe do que estou falando.

Bazarcultura - Você já fez outro trekking depois da viagem ao Everest?
Pires
- Trekking ainda não. Fiz um curso de escalada em rocha. Outro momento maravilhoso. Chegar ao alto de um paredão quase vertical, de 50 metros, vencendo todas os lances que parecem impossíveis, é uma sensação única.

Bazarcultura - Gostaria de dar um recado para aqueles que se interessam em viajar para o Himalaia, ou qualquer outro lugar dos sonhos de uma pessoa?
Pires
- Visite meu site www.omeueverest.com. Compre meu livro "O MEU EVEREST", e me mande um mail dizendo o que achou. Monte seu plano, grude-se nele...e vá prá lá. Não deixe para amanhã. E, seja qual for sua viagem, respeite a montanha, o mar, o rio, o lago, as rochas, os animais, os moradores. Respeito é a única coisa que vai manter esses lugares maravilhosos vivos para seus filhos e netos.

Bazarcultura - Planeja uma próxima viagem a montanhas, ou mesmo escrever outro livro?
Pires
- Outro livro é certo que sim. É só passar o período de lançamento deste, que acho que vai durar um ano, e entro de cabeça em mais um. Outra viagem, também. Mas não decidi para onde nem quando ou como. São as oportunidades que aparecem que vão dando para a gente o gostinho de permanecer vivos. Por enquanto é foco n'O MEU EVEREST. Por falar nisso, convido a todos os leitores para a palestra que vou fazer no dia 30 de outubro, na ADVENTURE SPORTS FAIR no pavilhão da Bienal em São Paulo. Essa feira é o maior evento dedicado aos esportes de aventura na América do Sul, e é imperdível para quem gosta.

       Se vocês tiverem espaço, permitam-me terminar a entrevista com um texto de Pablo Neruda que eu uso para encerrar minha palestra:

       "Morre lentamente quem não troca de idéias, não troca de discurso, evita as próprias contradições.
       Morre lentamente quem vira escravo do habito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto e as mesmas compras no supermercado.
       Quem não troca de marca, não arrisca vestir uma cor nova, não da papo para quem não conhece.
       Morre lentamente quem faz da TV o seu guru e seu parceiro diário.
       Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o "preto no branco" e os "pingos nos is" a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam o brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.
       Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
       Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não acha graça de si mesmo.
       Morre lentamente quem destrói seu amor próprio, quem não se deixa ajudar.
       Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de iniciá-lo, não perguntando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.
       Evite a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar!"

       Quem quiser me mandar um e-mail, pode fazê-lo pelo lucianopir@yahoo.com.br. Responderei com prazer.


       "Existem vários Everest. Pode ser aquele maciço de pedra, considerado o ponto mais alto do planeta, com seus 8.850 metros. Pode ser aquela montanha mística que embalou os sonhos de milhares de aventureiros, fazendo a fama de alguns e a desgraça de outros. Pode ser o ícone que separa a China do Nepal e que reina soberano sobre as rotas de fuga dos tibetanos que tentam buscar um futuro melhor 'do lado de cá'. E pode ser O MEU Everest."

(trecho de "O Meu Everest", de Luciano Pires)



(Matéria realizada para o site Bazarcultura)

Sobe

 

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