Ele nasceu em Araraquara (1936) e é autor de contos, romances, livros
infanto-juvenis, crônicas e biografias. As situações absurdas que seus
personagens enfrentam são alegorias de um estado autoritário ("Zero",
Brasília/Rio, 1975) ou dos seres sem-rosto de um mundo ultra-urbano ("O
homem que odiava a segunda-feira", Global, 1999). Seu último livro, "O
Anônimo Célebre" (Global, 2002), é resultado de observações do mundo
"fake" das celebridades. Trabalhando como editor da revista Vogue,
Ignácio de Loyola de Brandão conhece de perto a busca insana e ridícula
dos anônimos pela fama. É uma obra engraçada, sensual e cruel, um
verdadeiro (anti)manual para quem quer ser famoso.
Confira uma entrevista exclusiva que o escritor deu na II Bienal do
Livro de Bauru a respeito de sua obra e formação:
Pergunta -
O pai do Sr., que chegou a publicar histórias em jornais locais de
Araraquara e formou uma biblioteca própria, participou da sua formação
literária? Ele incentivou o Sr.?
Ignácio de Loyola Brandão - Meu pai influenciou, incentivou e
orientou minha obra. Ele lia muito, a biblioteca dele era muito
variada, tinha Graça Aranha, Machado de Assis, Balzac completo, enfim,
era um homem interessado em livros, interessado na palavra. Ele
escreveu alguns contos, publicou nos jornais de Araraquara, e fazia os
discursos na igreja, no lugar dos padres. Eu via muito meu pai escrever
e ele me orientava dizendo, escreva com poucas palavras, use o mínimo
de palavras que você puder e o máximo de idéias que estiverem dentro de
algo. Um conselho que até hoje mantenho.
À medida que fui escrevendo
livros e publicando, eu senti nele uma espécie de realização. Talvez o
escritor que ele queria ser, o filho estivesse sendo. Então foi sempre
uma relação muito legal, muito gostosa, muito bonita, que se prolongou
até ele morrer em 1996.
Pergunta -
Quando criança, o Sr. chegou a trocar com seus colegas de classe
palavras por bolinhas de gude e figurinhas. Como é essa história?
Brandão - Sim, depois até virou um conto, meu primeiro conto,
chamado "O menino que vendia palavras", publicado numa revista. Foi um
episódio da minha infância, meu pai me ensinou a ler dicionários, eu
lia palavras diferentes e anotava. Acabei conseguindo um grande arsenal
de sinônimos, palavras que ninguém conhecia. Quando a professora dava
trabalhos de sinônimos, nas aulas diárias de português, meus colegas
vinham pedir ajuda e eu fazia os trabalhos deles. Mas nunca fiz de
graça, trocava por bolinhas de gude, tampinhas, pipas, carretel de
linha, gravuras tiradas de jornais ou revistas. Então, no fundo fui
profissional desde o início.
Pergunta -
Desde muito cedo o Sr. também começou a trabalhar com jornalismo, em
agosto de 1952 aos 16 anos, e continua até hoje. Por que escolheu essa
carreira?
Brandão - Por uma coisa muito simples, eu gostava muito de cinema,
lia muito sobre, críticas, livros, e aí um dia resolvi escrever uma
crítica. Mostrei para os meus amigos de escola do Científico, gostaram
e passei toda a semana fazer uma crítica para os colegas de escola.
Depois, sugeriram-me levar esses textos para o jornal, que publicou.
Primeiro foi a "Folha Ferroviária", depois o "Correio Popular", que
eram do mesmo dono. Incentivaram-me a continuar, tomei gosto pela
crítica. Passei para um jornal diário em Araraquara, comecei a fazer
reportagens e entrevistas, adorava aquilo, conhecia gente, ficava
andando de um lado para o outro. Eu pensava, esse é um emprego no qual
eu não fico fechado dentro de um escritório. Meu pai era ferroviário,
trabalhava em escritório, todo dia era a mesma coisa, não queria isso
para mim. O jornalismo me deu uma variedade enorme de possibilidades.
Comecei e não parei até hoje.
Pergunta -
Uma história curiosa sobre o Sr. e o cinema é a respeito de sua grande
veneração pelo filme "8 ½" (1963), de Federico Fellini. O Sr. já o
teria assistido 53 vezes. Como o cinema influenciou sua literatura?
Brandão - Assisti "Oito e meio" muitas mais vezes. Hoje, já deve
ter passado de oitenta. É um filme que eu vejo e revejo, foi muito
importante para mim, pois eu descobri a extrema liberdade que o Fellini
usou. São vários planos, o da imaginação, do sonho, da realidade, da
idealização. No filme, a história de um diretor de cinema que não
consegue fazer seu longa-metragem é o tema do processo da criação. Isso
me fascinou profundamente.
Pergunta -
Recentemente entrevistei o escritor Fernando Bonassi e ele falou da
experiência de viver e trabalhar na Alemanha, já que em 1998 ganhou a
bolsa do Kunstlerprogramm do DAAD (Deutscher Akademischer
Austauschdienst). Ele adorou viver em Berlim e produziu um livro de
contos ("O Livro da Vida"). O Sr. também ganhou essa bolsa e viveu em
Berlim, como foi sua experiência?
Brandão - Eu fiquei quase dois anos na Alemanha, mais do que o
Bonassi. Fui o primeiro escritor brasileiro a ganhar essa bolsa, foi
antes da queda do Muro. Eu vivi na Berlim dentro do Muro, que era
realmente uma cidade louca. A experiência não só foi muito boa, como
rendeu dois livros, "O beijo não vem da boca" (Global, 1985) e "O verde
violentou o muro" (Global, 1984). Este último acabou sendo um
best-seller, pois foi o primeiro livro brasileiro que falou sobre o
Muro de Berlim, como se vivia dentro do Muro, a paranóia do Muro e tudo
mais. Eu diria que foi um dos períodos mais felizes da minha vida o
tempo que morei em Berlim.
Pergunta -
Na II Bienal do Livro de Bauru o Sr. veio debater literatura e temas
relacionados a sua obra com o escritor Antônio Torres. Nos anos 70,
vocês dois mais o João Antonio faziam o mesmo, viajando pelo Brasil e
discutindo literatura e política durante a ditadura. Que recordações o
Sr. tem desse período?
Brandão - Andamos pelo Brasil inteiro, era uma época de ditadura,
de repressão, de medo, porque às vezes estávamos falando para uma
platéia e a polícia estava junto anotando tudo. De qualquer forma
viajamos muito e discutíamos muito mais política e a situação do Brasil
do que literatura. Foi um período em que a gente acabou conhecendo o
Brasil e isto, claro, se reflete na nossa produção literária.



