Em tempos em que
alguém é chamado de "artista" apenas por ter um rostinho
bonito ou saber rebolar, é reconfortante saber que existe uma pessoa
como Ed Motta. O
músico mostrou seu show "Dwitza" no dia 24 de abril no SESC de Bauru.
Junto com
Renato "Massa" Calmon (bateria), Alberto Continentino (baixo) e Rafael
Vernet
(teclados), Motta, na voz, guitarra e teclados, destilou toda a
genialidade de seu novo
disco.
"Dwitza" (Universal, 2002) - pronuncia-se "duítza" -
é o oitavo CD
de Ed Motta, um grande passeio pelo jazz, soul, samba e bossa-nova,
tudo misturado e muito
bem executado. É um trabalho quase todo instrumental, algo que Motta
queria realizar há
muito tempo. O próprio nome do disco, uma palavra que não significa
nada, mas que tem um
som bonito, reflete suas intenções. A voz como instrumento, os
vocalises ou
"scat-vocals", preenchem quase todas as músicas com um resultado
altamente agradável aos ouvidos - a reação natural é cantarolar os
temas vocais, como se fossem os refrões das canções (pa-pa-pára,
pa-pa-pára, pa-pa-pára).

Motta,
entre uma música e outra no show, falou da alegria que sentia com seu
novo disco e
explicou que os vocalises são antiquíssimos na música. Normal. No
Brasil, um disco
instrumental, ainda mais vindo de um artista pop, causa estranhamento
mesmo, daí as
"justificativas" no meio do show. Em todo caso, foi um show aplaudido
de pé.
Algumas pessoas do público reclamaram, pois esperavam uma apresentação
mais dançante,
o que não foi o caso, já que essas novas músicas de Ed Motta são para
ouvir e relaxar,
haja visto que foi um show preparado com cadeiras no ginásio do SESC.

Mesmo
os grandes hits como "Manuel", "Fora da Lei" e
"Colombina", ganharam arranjos mais lentos, puxados para o jazz. Nesta
fase de
sua carreira, Ed Motta aparece mais maduro. Aos 30 anos, ele já passou
por muitas fases,
desde vocalista numa banda de hard rock em 1982, a Kabbalah, passando
pela Conexão Japeri
num momento funk/soul, e uma carreira solo logo em seguida que o fez
"encontrar"
e se apaixonar pela música brasileira nas suas pesquisas musicais.
Aliás, Motta é um
grande estudioso de todas as vertentes do jazz, funk e soul, tanto no
Brasil como nos EUA.
Impressiona o número de influências descritas nesse novo CD: James
Mason, Norman
Connors, Lonnie Liston Smith, Roy Ayers, Dorival Caymmi, Charles
Mingus, Cecil Payne,
Charles Davis, Tom Jobim etc.
Umas
de suas maiores fontes, "mentor espiritual", homenageado numa ótima
música, "Amalgasantos", é o grande maestro multiinstrumentista
pernambucano
Moacir Santos, um dos gênios da música brasileira radicado nos EUA que
o país não
conhece. No ano passado, Ed Motta e outros grandes intérpretes e
músicos do Brasil
gravaram um excelente disco duplo tributo para Santos, "Ouro Negro"
(Universal).
O "Samba da Bênção", de seu parceiro Vinícius de Morais e Baden Powell,
também o homenageia: "Moacir Santos/ tu que não és um só, és tantos/
como este
meu Brasil de todos os santos".

Outras
faixas de "Dwitza" trazem outras pérolas: solos com grandes
improvisações como em "Um Dom pra Salvador" (sax-soprano de Lelei),
"Lindúria" (guitarra de Paulinho Guitarra) e "Papuera" (trompete de
Jessé Sadock Filho); "Valse au Beurre Blanc" e "Madame pela Umburgo"
têm um clima encantador de cinema francês antigo, com direito a cravo,
acordeom e
violoncelo; belos arranjos de metais de Ed Motta e Jessé Sadock Filho;
e sim, duas boas
canções pop-românticas, "Doce Ilusão" (letra de Nelson Motta) e "Coisas
Naturais", as duas únicas do disco com letras.
Um
inconveniente do show é que na turnê não é possível reunir o grande
número de
músicos do CD, é uma pena escutar as músicas sem a metaleira. Porém,
fica guardado na
memória a apresentação de Ed Motta, um músico que entra em estado de
transe quando
toca e põe muita emoção em sua voz. O trio de músicos que ele escolheu
também merece
muitos elogios, principalmente o baterista Renato "Massa".
É
muito interessante e benéfico o que Ed Motta conseguiu com seu novo
disco: por ser um
cantor popular, ele consegue reunir muito público, assim é fantástico
que novas pessoas
estejam conhecendo a boa música instrumental brasileira.
Ed Motta comenta as faixas de "Dwitza":
+ Um Dom pra Salvador
Dedico esta música a Dom Salvador, pianista brasileiro radicado há anos
nos
EUA. Tive a oportunidade de mostrar esta composição para ele quando se
apresentou no Carnegie Hall, em Nova York, abrindo os shows da turnê de
Ivan
Lins, que passou por mais de 20 cidades americanas. O solo de
sax-soprano de
Lelei tem a influência direta de Yusef Lateef, seguindo a tradição do
afro-jazz.
+ No Carrão eu me Perdizes na Consolação
Eu sempre quis homenagear São Paulo, pois apesar de eu ser carioca acho
que é
a cidade que mais tem a ver com meu estilo de vida. Uma introdução
impressionista abre este samba-jazz e o solo de flauta de Marcelo
Martins
completa o clima de programa de televisão da década de 70.
+ Sus-tenta
Uma música de harmonia minimalista, feita do início ao fim com acordes
"sus-4". O clássico "Maiden Voyage" de Herbie Hancock é um
marco nesse tipo de harmonização. Apesar de todas as músicas terem tido
seu
início com a marcação das baquetas, apenas nesta ela é audível.
Completamente influenciada por James Mason, Norman Connors, Lonnie
Liston Smith,
Roy Ayers... Aqui, no comando de um piano Wurlitzer, registro a
influência de
João Donato na minha maneira rítmica de tocá-lo.
+ Doce ilusão
Foi inspirada em Suely Costa e Dorival Caymmi, esta é uma das duas
únicas músicas
do álbum com letra. Nelson Motta letrou a minha melodia com perfeição e
o
final jobiniano intensifica essa balada Nouvelle Vague. O solo vocal
foi gravado
de uma só vez.
+ Lindúria
Esta música foi composta no dia de aniversário da Edna, minha esposa,
que
nasceu no mesmo dia que o John Coltrane. O swinging-london de Brian
Auger, o
pop-jazz do Steely Dan e os Boogaloos dos anos 60 deixam marcas
evidentes nesta
faixa. Paulinho Guitarra demonstra todo seu conhecimento na arte dos
"bends" de guitarra num solo melódico e com pegada de blues, gravado
também no primeiro take. E eu canto num inglês que não existe, só em
"Dwitza".
+ Valse au beurre blanc
Do inglês fake ao faux-français, caímos diretamente no universo
chansonnier
francês com direito a coral lírico e acordeon de Agostinho Silva. A
letra é
uma relação de queijos e vinhos da melhor estirpe. Livarot e Chambertin
são,
respectivamente, bons exemplos. Adoraria ter a música incluída na trilha
sonora de algum filme de Jacques Tatit, mas como não é mais possível, me
contento em embalar a trama de um de seus possíveis seguidores.
+ Amalgasantos
Não é preciso ser nenhum connaisseur para captar a intenção de
homenagear
Moacir Santos, o mentor espiritual deste disco. Esta música foi
composta em
compasso 6/8, definindo claramente seu fio condutor afro-soul-jazz. O
solo de
vibrafone é de Jota Moraes, colaborador fundamental desde "Entre e
Ouça",
de 1992.
+ A balada do mar salgado
Como sou leitor compulsivo de histórias em quadrinhos, pesquei o nome
desta música
de um dos livros da série "Corto Maltese", de Hugo Pratt. A alegria
italiana contrasta com o clima de balada soturna de jazz, à la Charles
Mingus.
Tensão e relaxamento se alternam no dueto com Leila Maria - uma das
minhas
cantoras preferidas e a primeira cantora que participa de um CD meu - e
no duelo
de melofone, bombardino, trombone e trumpete.
+ Coisas naturais
Como o título sugere, esta é a segunda exceção do álbum, em que assino a
composição da música e tenho a parceria de Ronaldo Bastos na elaboração
da
letra. Com quatro músicos tocando pratos, timbales, congas e bongos,
entre
outros instrumentos de percussão, embarquei num clima de Marcos Valle,
Donato e
Cal Tjader. Destaco o Chico Batera, que já havia participado do álbum
"As
segundas intenções do manual prático...".
+ Malumbulo
O solo de sax-barítono é a marca registrada dos álbuns de Cecil Payne e
Charles Davis para o selo Strata East, que adoro. O baritonista Teco
Cardoso deu
conta do recado neste free-jazz, bem ao meu estilo.
+ Madame pela umburgo (no seu teatro dos olhos)
É uma personagem fictícia de filme mudo do expressionismo alemão,
possível
amante do Dr. Mabuse, coisa do meu lado cinéfilo. Nem é preciso dizer
que esta
faixa poderia integrar alguma trilha sonora; na verdade, ela já faz
parte, só
falta realizar o filme. A rara mistura de cravo (Marcelo Fagerland),
violão de
12 cordas (Jaime Alem) e violoncelo (Jaques Morelenbaum) dá o tom de
tristeza
do leste europeu em contraste com a animação italiana. Traduzindo em
influências:
a música passa pelo produtor e arranjador americano David Axelrod aos
mestres
das trilhas Mancini e Morricone.
+ Cervejamento total
É samba-psicodélico. Ouvindo com cuidado, os sintetizadores antigos,
analógicos,
insinuam uma insondável influência do rock progressivo nesse
samba-jazz. O
percussionista Pirulito faz uma escola de samba sozinho.
+ Papuera
O compasso desta música é 5/8, o que a deixa praticamente impossível de
dançar.
Mas mesmo assim, o groove soul-jazz desta faixa é capaz de fazer
milagres. Jessé
Sadock Filho evoca Charles Tolliver e Jimmy Owens num improviso lindo.
+ Instrumetida
Não poderia haver título melhor para quebrar a resistência de alguns em
relação
à música erudita. "Instrumetida" é uma das faixas musicalmente mais
complexas de "Dwitza". Não bastasse isso, ela conta com a participação
de uma orquestra de 18 músicos, que gravaram simultaneamente, do oboé
(compondo a melodia) à tuba (fazendo a cama com o trombone). Scriabin e
Honneger são os compositores contemporâneos do gênero que mais admiro.
Jessé
Sadock Filho encarregou-se de transformar meus sonhos em realidade.
(Comentários
extraídos do site www.edmotta.com
- vale a pena visitar, além de saber tudo sobre sua carreira, você
conhece um pouco das outras paixões de Ed Motta - quadrinhos, vinhos,
culinária, design e cinema. Uma pequena enciclopédia on-line).
Fotos: Rodrigo Pereira
(Matéria realizada para o site Bazarcultura)