"A
SEMANA DE ARTE MODERNA"
(Neide Resende) A obra é dividida em seis capítulos, seguidos de vocabulário crítico e bibliografia comentada. Não pretende esgotar todas as questões colocadas pela "Semana de Arte Moderna". Todavia, consegue dar um panorama claro dos fatos e pessoas relacionadas ao evento. Em um texto primoroso publicado na contracapa do "Elogio da Filosofia - Discurso da Servidão Voluntária", Etiene La Boétie, brasiliense, 1987, 4ª edição, a organizadora dos textos e autora do texto contracapa, Marilena Chaui, afirma que a revolta é o prenúncio da capitulação. É um pouco disto que nos fala a obra de Neide Resende. Explico:- "A gente se revolta, diz muito, abre caminho e se liberta. Está livre. E agora? Ora essa! Retoma o caminho descendente da vida." Após ler atentamente "A SEMANA DE ARTE MODERNA", escolhi esta frase de Mário de Andrade citada pela autora para resumir o tema abordado. Por que? Porque foi ela que me sugeriu o texto de Marilena Chaui citado. A frase do Mário traz em seu bojo todos os elementos que encerram o evento dentro daquele registro filosófico. Mário fala da revolta de uma geração, da concretização de novas propostas, da liberdade e da perplexidade. E agora? Agora... o novo tornou-se clichê. Depois da revolta, a capitulação. No caso específico da "Semana de Arte Moderna", todos elementos da capitulação já estavam presentes desde o início. Talvez os participantes do movimento não tenham tido consciência disso. Certamente Neide Resente não adota esta perspectiva. Porém, os fatos desnudados através da obra apontam para esta conclusão. Senão vejamos:- Até 1917, ano em que Lobato critica abertamente a exposição de quadros de Anita Malfati, todo debate acerca da arte moderna era restrito a um circulo muito pequeno de pessoas. Referido artigo foi como que o catalisador das aspirações. Foi a partir dele que a revolta tomou corpo, intensificando-se com sua republicação em 1919. A semana de arte moderna, nasceu, portanto, como reação. Não tinha propostas definidas. E justamente por não tê-las, a arte moderna estava fadada a rapidamente vulgarizar-se ou ser vulgarizada. Quem foram os principais artífices do evento:- - Oswald de
Andrade, filho de família rica que já havia viajado
para Europa trazendo na bagagem novas idéias estéticas. É obvio que um grupo tão singular não poderia produzir algo diferente. Desde o início fica claro as relações entre a nova arte e o Estado. A reação se consolida sob o signo da oficialidade, com o discurso de um representante do Estado de São Paulo durante um evento oficial (Manifesto do Trianon) em que era anunciado um monumento criado por um dos membros do grupo. Da pauta dos modernistas não havia nenhuma proposta de natureza política. Nem poderia, já que contava com o apoio de um homem do sistema e da nata da classe média alta e da burguesia paulista. É sintomática a proposta de "independência mental brasileira através do abandono das sugestões européias, mormente lusitanas e gaulesas." Como realizar este propósito se todos os membros do movimento sofriam influência direta das vanguardas européias? "Cerca de um ano depois da Semana, a revista Klaxon, publica, em francês, no seu nº 1 o artigo do crítico belga Roger Avermaete..." Que dizer de um movimento que se legitima através de um crítico francês e numa língua que não é a nossa? A que público se destinava esta revista? Ao povo brasileiro, o mais culto de todos. Bilingüe, por natureza é claro. Há quem diga que toda arte traz em si um componente político, revolucionário. Mesmo que admitamos esta afirmação como verdadeira, e é bem possível que ela seja mesmo, nem a verdade altera um fato essencial. O povo, artífice vital da história, ficou do lado de fora do Teatro Municipal, em cujos interiores acabou sendo apenas retratado segundo as lentes de alguns intelectuais que tinham os pés no Brasil e a cabeça lá fora. O próprio Mário de Andrade somente ganhou notoriedade em virtude dos escândalos jornalísticos criados pelo amigo Oswald. Vítima da segregação social (como Anita Malfati), Mário estava, por isso mesmo, preparando-se para ser redimido, tornando-se aceito. A semana se realizou no Teatro Municipal com o apoio do Estado de São Paulo. Não ocorreu nos porões da metrópole, mas no baluarte da intelectualidade paulista e com apoio oficial. O povo, que os modernistas pretendiam ser o fundador e destinatário da nova proposta estética, ficaria de fora desde o início, ou seja, desde a escolha do local do evento. Futuramente o grupo seria integrado por Graça Aranha, cuja prosa não era e nunca veio a ser moderna. Esta união entre o novo e o velho não foi só conveniente para os dois lados, conferindo notoriedade aos modernistas e revigorando o velho escritor diante dos inimigos literários, mas a emblemática, a sintomática prova de que o movimento, destinado à capitulação, capitulara já no caminho mudando seus rumos. Que rumos, se desde o início não sabia onde queria chegar? A semana foi realizada em 1922 para coincidir com o centenário da independência. Pretendiam os líderes do movimento criticar, até na definição da data, a independência do Brasil. Pretendiam mais que isto, declará-la do ponto de vista estético. Entretanto, as coincidências entre a independência política e a cultural são maiores do que imaginavam:- a) a independência
política veio pelas mãos de um filho de Portugal (que
depois se tornaria seu Rei), a estética através de
intelectuais afinados com as vanguardas européias; Resumindo as obras expostas na semana de 22, temos:- a) conferências
de intelectuais afinados com as vanguardas européias; Além das vaias, nada demais ocorreu naquela semana de 1922. Então porque damos tanta importância a ela? A autora deixa a questão em aberto. Mas registra um fato importante. Todos ou quase todos autores modernistas divulgavam suas obras e idéias através dos jornais. A semana de arte moderna foi coberta pelo "Estado de São Paulo" (o evento contava com o apoio do governo do Estado, portanto, é evidente que nenhum grande jornal se atreveria a omiti-lo ou apenas a atacá-lo). Talvez seja em razão da publicidade dada ao evento que atribuímos a ele uma importância maior do que ele realmente teve. Afinal, se em uma sociedade ágrafa a cultura e a história são transmitidas pela fala, numa sociedade culta a palavra escrita desempenha uma importância vital, de forma que tendemos a tomar os fatos não por eles mesmos mas pela maneira como foram descritos. Começamos e terminaremos com Mário de Andrade e Marilena Chaui. De todos os modernistas, Mário parece que foi o único que se deu conta da real natureza dos fatos ocorridos em 22. Revolta e capitulação. Isto não tira o mérito dos modernistas, afinal assim é a vida. Sem dúvida esta é uma de melhores lições do autor de Macunaíma:- modéstia. Que restou da semana? Histórias... Palavras escritas... É o que sempre sobra, não é. E se o livro de Neide Rezende não é muito feliz ao interpretar os fatos, pelos menos é o registro fiel de muitos deles, possibilitando ao leitor reorganizá-los, repensá-los a partir de outros referenciais. E por isto mesmo atinge seu objetivo.
Rezende, Neide
A SEMANA DE ARTE MODERNA, Ática, Série |