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CRÍTICA MUSICAL BRASILEIRA NÃO ENTENDE DE CULTURA ALTERNATIVA? Alexandre Figueiredo Nos últimos doze anos, a imprensa musical brasileira se desqualificou. Conseqüência da sofrível formação dos jornalistas atuais, do narcisismo de alguns veteranos, dos deslizes editoriais da imprensa cultural em geral, que não raro deixou de cumprir sua função de apresentar fenômenos culturais relevantes, sejam de qualquer natureza, para sucumbir ora para a iconoclastia, ora para a bajulação, sem considerar valores culturais e por vezes dando relevância a fenômenos mais comerciais. Às vezes um nome da moda é exaltado de forma que parece mais importante do que realmente é, ou que talvez nem chegue a ser. A imprensa musical brasileira, nas caraterísticas contemporâneas, remete ao final dos anos 60. Muitos universitários, zineiros ou simplesmente jornalistas iniciantes, animados com o cosmopolitismo dos movimentos juvenis da época (a Tropicália, por exemplo, reforçou a importância do rock para o público brasileiro), começaram a ganhar notoriedade com suas informações amplas sobre rock internacional, Contracultura e até mesmo o underground da MPB. A partir dessa geração, vieram publicações memoráveis como a revista Rock: A História e a Glória e Geração Pop (antecessora da BIZZ no jornalismo musical da Editora Abril), sem falar dos textos musicais do famoso Pasquim, incluindo os escritos por Luiz Carlos Maciel (alguns podem ser lidos na coluna que dedicamos a ele). Com isso, a imprensa musical brasileira, mesmo em seus momentos eventuais de porralouquice - como no caso do Ezequiel Neves, jornalista que depois se tornaria conhecido como o produtor do Barão Vermelho - , demonstrava suas caraterísticas de inteligência, criatividade, senso crítico. Seja falando de rock, de soul music, de samba, etc.. Era uma imprensa sem medo de falar de Stevie Wonder, Paulinho da Viola, Led Zeppelin, Sá & Guarabira etc., da mesma forma em relação a artistas desconhecidos ou até mesmo esquecidos. Dos anos 70, muitos nomes se tornaram conhecidos. Dois deles são o casal Ana Maria Bahiana e José Emílio Rondeau, que hoje se especializaram em cinema, não somente escrevendo a respeito, mas produzindo até um filme, em fase de acabamento, sobre o Brasil de 1972. Há também o polêmico Maurício Kubrusly, e outros como Okky de Souza, Leopoldo Rey. A dupla central da fase áurea da Fluminense FM, os amigos Luiz Antônio Mello e Maurício Valladares, são jornalistas que começaram nos anos 70 e fizeram parte dessa boa escola que também teve o saudoso Newton Duarte, o "Big Boy", um dos grandes cabeças da divulgação das tendências internacionais no Brasil. O auge dessa fase da imprensa musical brasileira foi no início dos anos 80, com as revistas Roll, Som Três, Pipoca Moderna, entre outras. Uma geração veio seguindo a anterior: Tom Leão, Arthur Couto Duarte, Kid Vinil, Lorena Calábria, Marisa Adan Gil, Carlos Albuquerque, Fernando Naporano, José Roberto Mahr. A BIZZ, nos seus primeiros anos, também seguiu essa boa fase da imprensa, onde se havia a real preocupação de divulgar o novo, sem menosprezar o velho e também divulgando coisas antigas que passaram despercebidas pelo mercado. Na cultura alternativa, o esforço dessa geração oitentista foi responsável pela divulgação de muitas bandas novas. E não se fala só de The Cure, U2, Smiths, Echo & The Bunnymen, Siousxie & The Banshees. Fala-se do pessoal que foi menos massificado, como Felt, Durutti Column, Psychedelic Furs, House Of Love, e nomes bem menos conhecidos ainda, como Wedding Present, Weather Prophets, Icycle Works, Railway Children, Rose Of Avalanche. E, quanto aos nacionais, esses jornalistas buscavam provar que bandas como Fellini, Violeta de Outono, Picassos Falsos, Voluntários da Pátria, Mercenárias e Akira S & As Garotas Que Erraram tinham tanta importância no rock brasileiro quanto Legião Urbana, Paralamas do Sucesso e Titãs. Nos anos 90, a situação mudou. Para pior. A crítica musical aos poucos foi deixando de falar sobre diversas tendências e se concentrou no universo divulgado pela MTV. Ainda havia um bom espaço para os alternativos, a seção "Zona Franca" da BIZZ, mas ela foi se corrompendo dando privilégio ao rock barulhento devido ao modismo grunge, e a revista chegou até mesmo a esnobar tendências ou bandas mais relevantes. O álbum Meat is Murder, clássico dos Smiths de 1985, foi incluído entre os piores álbuns segundo a redação de Bizz, na gestão de André Forastieri. Sua atuação como editor da BIZZ (depois rebatizada para Showbizz) praticamente desmoralizou a revista, que tentou voltar às origens em 1999 (com o mesmo nome Showbizz, mas depois com novo logotipo destacando a palavra Bizz) mas faliu em meados de 2001. A CRÍTICA ATUAL Os jornalistas musicais brasileiros de hoje até se esforçam em conhecer novidades do exterior. Mas seu desempenho é bastante inferior, em que pese seu senso crítico e suas boas idéias. Ficam "ruminando" o tempo todo sobre algumas bandas que estão na moda no exterior mas não viraram "sucesso" no Brasil. E mesmo quando elas viram hit aqui, ainda há muito lerolero sobre elas. Hoje se vive um período de redundância nos mesmos nomes. É verdade que não pegou a imprensa promover o grunge como se fosse "eternamente alternativo" e o cenário de Seattle dos anos 90 saiu desmoralizado, salvo exceções como Pearl Jam, Mudhoney e Nirvana (apesar dos altos e baixos deste). Mas a imprensa musical parece se fixar sempre numa meia dúzia de "queridinhos" que são eternamente considerados "alternativos", mesmo quando já tenham saído do underground faz tempo. Pegam no pé de qualquer "esquisito da hora", e chegam ao ridículo de ainda falar da dupla pop russa t.A.t.U., que já toca adoidado na Jovem Pan 2 e similares, como se fosse ainda uma revelação do underground. A imprensa tem até um pretenso "deus". O jornalista Carlos Eduardo Miranda, que acabou contribuindo para o declínio do cenário "padrão" do rock brasileiro. Ele é tido pela imprensa brasileira como um "messias", como um "salvador", um "guru do underground". No máximo, ele foi apenas um discípulo "irado" do Carlos Imperial, por transformar o rock brasileiro em uma coisa brega. Se o rock dos anos 80 era amador mas tinha um esforço em lançar boas canções, o rock dos anos 90, salvo exceções, se tornou apenas uma música profissionalmente correta, com excesso de "atitude" (ou pose?) mas pobre em melodias. Miranda se promoveu com uma gravadora pseudo-independente, Banguela, que nos seus CDs não conseguia mascarar a associação explícita com a Warner. O logotipo da companhia norte-americana apareceu nas contracapas em bom tamanho. Apesar disso, a imprensa, ingênua, via a Banguela como "indie mesmo" e quando não deu para esconder a farsa, o selo faliu e Miranda abriu outro, em outra (grande) gravadora. Os discos da Banguela continuam sendo lançados, até hoje, pela Warner. E a imprensa continuou, até hoje, inventando "selos independentes" e considerando a Matador Records, dos EUA, "indie de verdade", mesmo com a participação acionária da Capitol Records, a filial da major inglesa EMI na terra de Tio Sam e George Bush pai e filho. O Radiohead já não é underground desde 1995. Travis e Placebo não são underground há anos. Os White Stripes não são mais alternativos desde 2001. Björk e Massive Attack não fazem rock alternativo nem indie rock, mas música eletrônica, que nem sempre agrada os roqueiros e que já está no mainstream há um bom tempo. Os Strokes já estão se equiparando, em projeção, ao mega-grupo U2. E os Pixies já viraram o "Led Zeppelin" do rock oitentista. Os Yeah Yeah Yeahs não são underground há uns meses. E o Coldplay deixou o underground já no primeiro single. O Pavement, Jon Spencer Blues Explosion e Guided By Voices fazem parte daquele mainstream enrustido e ressentido, aparentemente traumatizado e com mania de ser loser, com seus complexos de se autoproclamar "definitivamente alternativo". O Queens Of The Stone Age só foi underground na sua encarnação anterior, o Kyuss, mas hoje está muito bem, obrigado no mainstream. E o Marilyn Manson nunca foi underground e sim uma grande porcaria, por sinal tão comercial quanto os Backstreet Boys. O System Of A Down só falta ter um "arquivo confidencial" no Domingão do Faustão para atingir o povão definitivamente, mas está perto disso e longe do underground que hoje renega bandas de nu metal, dos queridinhos do Korn e do citado System aos enjoadinhos do Staind e Linkin Park. Enquanto isso, no Brasil, virou moda fingir que o hip hop bem intencionado mas musicalmente maçante dos Racionais MC's se trata de um "baita rock independente de uma banda underground". A imprensa, falando assim, parece imaginar que os Racionais são um misto de Inocentes com Fellini e Beastie Boys. Como se o Mano Brown fosse o novo Cadão Volpado, o que nada tem a ver. Também o (brega) rock gaúcho, com suas piadinhas e tietagens explícitas à Jovem Guarda, não deve ser confundido com underground só porque atingem apenas três Estados brasileiros e, de raspão, a capital paulista. Até porque na região Sul eles são puramente mainstream e qualquer Transamérica, se quiser, toca rapidinho essas bandas, até mesmo no Norte/Nordeste. Chamar o Bidê Ou Balde para um evento com bandas de axé-music de Salvador é mole, mole. Mas é esse pessoal que fica sempre fazendo o "eterno elenco dos alternativos" segundo alguns jornalistas "antenados" ou "descolados". O público cai na armadilha e vemos também zineiros e similares falando os mesmos nomes, os mesmos figurões. Aquele colega seu de escola que escreveu num fanzine uma resenha ótima do Syd Barrett, na edição seguinte sai escrevendo louvores desnecessários ao novo disco do Marilyn Manson, algo comparável a um articulista da revista Contigo exaltar o novo disco do "gênio" Alexandre Pires (aquele que surgiu só para contrariar o samba brasileiro). Marilyn Manson é coisa que devia cair no esquecimento, esse sujeito já devia ter se aposentado, e qualquer elogio a qualquer coisa feita por essa armação do pós-grunge é uma ofensa à essência do rock autêntico, pois, com tanta coisa boa para falar, o pessoal perde tempo falando nesse embuste. Alternativo não é gênero musical. Denominá-lo assim é um grande equívoco. Qualquer figurão do hit parade hoje pode ser "esquisito", "anormal", "problemático". Ficou muito fácil fazer barulheira sonora nas Ilhas Caras. Alternativo é uma situação de projeção em relação à mídia e público, aliada aos objetivos sinceros do artista em não querer fazer parte do esquemão do hit parade, incluindo grandes gravadoras e grandes veículos de comunicação. Isso nem de longe quer dizer, necessariamente, falta de popularidade. Ter público restrito nem sempre é ser alternativo, pois neste caso falta filosofia, estado de espírito. Se o sujeito é medíocre e impopular, não é por ser alternativo e sim por ser ruim mesmo, como o grupo Genitortures. Músicos como Stan Ridgeway, ex-vocalista do Wall Of Voodoo, e Peter Astor (ex-Weather Prophets) são alternativos porque têm uma filosofia que vai fora do mercado, não depende de massificação de público e não precisa de badalação da mídia, nem mesmo para tirar sarro dela. O mesmo com a dupla Cadão Volpato e Thomas Pappon, do Fellini. Já as amiguinhas coloridas do t.A.t.U., o vocalista de barba exótica do System Of A Down e o boa-praça Stephen Malkmus (ex-Pavement) não são alternativos porque já integram o mainstream, sendo Malkmus de forma despretensiosa. Stephen Malkmus e Radiohead podem não ser comerciais, mas também já não são mais alternativos. Por isso é que esse mainstream de centro-esquerda, juntamente com esse "pópirroque" postiço de bandinhas de nu metal, poppy punk e outras tendências comerciais, faz o gosto musical dessa juventude, que consome apenas uma minoria de intérpretes marcados pela esquisitice ou pela barulheira. E nossos jornalistas ficam falando a vida toda que tais intérpretes são "alternativos". E, por outro lado, cadê o som do The Healers? Cadê os projetos dos ex-integrantes do Felt? E como vão o Wedding Present e Catherine Wheel, que prosseguem sua carreira? Os grupos Guess Who, Blue Oyster Cult e Wishbone Ash estão na estrada e cadê algum comentário? Como vão o Real People, o Animalhouse, o Billy Bragg, o Wire? Quais os novos projetos de Stan Ridgeway? Enquanto nenhum "alternativo corajoso" se encoraja a falar sobre o que ocorre de realmente alternativo lá fora (do Brasil e dos holofotes da grande mídia) e que não passa na imaginação da meia dúzia de jornalistas "descolados" que costumamos ler em jornais, zines e sites, os "cabeças de rádio", "ataques massivos" e "rainhas da idade da pedra" da vida terão que esperar por uma premiação no Grammy (de preferência em mais de uma categoria, no mínimo três) para que a "galera" daqui reconheça sua posição no trono já quentinho do mainstream. O mundo gira, os críticos musicais parecem pouco se importar com isso. |