Perspectivas dos Cuidados Nutricionais nas
Doenças Crônico-Degenerativas
Prof. Dra Nelzir Trindade Reis – Nutricionista e Médica.
Prof. Adjunta de Nutrição Clínica e Coordenadora da
Pós-Graduação em Nutrição Clínica
da Universidade Gama Filho. Livre Docente em Nutrição Clínica
pela Universidade Gama Filho e autora do livro "Nutrição Clínica
na Hipertensão Arterial"
Existem diferentes tipos de classificação para as Doenças
Crônico- Degenerativas ( DCD).Uma delas é a divisão em
Doenças Crônicas Transmissíveis ( DCT) e Doenças
Crônicas Não Transmissíveis ( DCNT ).Em ambas, encontramos
um grande número de patologias a serem estudadas e que sofrem influência
direta da Nutrição Clínica.
Desta forma e, vamos abordar um dos grupos das DCNT, constituído pela
obesidade, hipertensão arterial, doença cardiovascular e diabetes,
que constituem a chamada Síndrome Plurimetabólica.
Sabemos que o conhecimento da inter-relação da obesidade, gota,
hipertensão arterial e infarto com o comer e beber excessivamente,
existe há inúmeros anos, mas foi no Século 20 que surgiu
o conceito de Síndrome Plurimetabólica, através de Maranon
em 1922 e Himsworth em 1936 que estudaram os primeiros sintomas que caracterizaram
a síndrome. Os estudos continuaram com Vague e Albrink reconhecendo
a associação entre obesidade, hiperlipoproteinemia e arteriosclerose.
Em 1965, Avogaro e Crepaldi descreveram pacientes apresentando obesidade,
diabetes, hiperlipoproteinemia, hipertensão arterial e isquemia cardíaca
e chamaram a este conjunto de patologias crônico-degenerativas de Síndrome
Plurimetabólica, provocada principalmente por hábitos alimentares
e estilo de vida inadequados. Eles revelaram ao mundo, um problema antigo
que, somente neste século está sendo considerado em conjunto,
a Síndrome Plurimetabólica, uma epidemia dos nossos dias.
A industrialização, a má educação nutricional,
o sedentarismo, a agitação da vida moderna, o uso de bebida
alcoólica, dentre outros, levam a má nutrição
e, consequentemente, a uma maior exposição aos fatores de risco
para as DCNT em questão, que constitui um grave problema de Saúde
Pública.
O número de pacientes portadores de doenças crônico-degenerativas
tem crescido nas últimas décadas. É claro que a indústria
farmacêutica também cresceu neste período e novas drogas
surgiram para o tratamento destes pacientes, mas não podemos esquecer
que, com elas, surgiram, também, outros efeitos colaterais que, em
segunda intenção, interferem na nutrição do indivíduo,
bem como sérias interações entre os fármacos
e os nutrientes, gerando alteração na ação e
efeito da droga, alteração do estado nutricional do paciente
e, automaticamente, alteração na qualidade de vida. No mundo
inteiro, a preocupação com o estudo das interações
drogas e nutrientes tem aumentado significativamente. Infelizmente no Brasil
as informações ainda são limitadas e desconhecidas da
maioria dos profissionais de saúde, retardando a recuperação
do paciente. É preciso que estudos nesta área, ao nível
nacional, se desenvolvam e se tornem públicos a fim de que os pacientes
tenham um melhor prognóstico e um nível de bem estar físico
mais adequado.
O processo saúde – doença sempre foi um dos pontos de destaque
na cultura humana. Desde os povos primitivos, até hoje, tem-se buscado
mecanismos que conduzam e mantenham o equilíbrio corporal, evitando-se
e/ou minimizando-se os processos patológicos. No anseio de se buscar
o completo bem estar geral do indivíduo, várias terapias têm
sido propostas e validadas, entre elas a Nutrição Clínica,
através de uma conduta dietoterápica individualizada e adequada
ao quadro clínico e ao tratamento farmacológico que o paciente
está sendo submetido. O emprego da dietoterapia tem sido ampliado
nas últimas décadas ao se comprovar que a Nutrição
adequada melhora o prognóstico e evita o surgimento de diversas complicações
patológicas.
Assim, ao se propor a prescrição de uma conduta dietoterápica
para o indivíduo portador de doença crônico-degenerativa
( DCD ) busca-se não só atuarmos sobre a patologia em si, como
também diminuirmos o risco global do paciente, seguindo os seguintes
passos :
1 - Estabelecimento do Diagnóstico Nutricional através de uma
Avaliação Nutricional criteriosa que contemple, a História
Dietética; a Avaliação Antropométrica, Bioquímica,
Imunológica, Clínico-Nutricional, Social/ Econômica e
Psicológica; Fármacos em uso e suas interações
com os nutrientes, bem como seus efeitos colaterais, como ocorre com o uso
de - Hipoglicemiantes orais , Diuréticos , Antihipertensivos , Antigotosos,
Antilipemiantes , Analgésicos salicílicos ,e outros
2 - Determinação dos Objetivos a serem alcançados, destacando-se
entre outros :
Corrigir a obesidade, sobretudo a de elevado ICQ e controlar e manter o peso
ideal a cada caso; Satisfazer os requerimentos nutricionais necessários;
Garantir a normalização da função do trato gastrointestinal
( TGI ); Prevenir e minimizar as complicações oriundas das
patologias e das drogas em uso; Controlar a pressão arterial; melhorar
os níveis de HDL; reduzir a uricemia, a glicemia e os lipídios
séricos ( especialmente o colesterol total, LDL e triglicerídeos
) para diminuir o risco de ICC e AVC; Corrigir os níveis elevados
de homocisteína, que atua como fator de risco para doença cardíaca;
Promover a Educação Nutricional
3-Prescrição dietoterápica com estabelecimento das características
químicas e físicas da dieta para cada caso, não esquecendo
das interações entre os nutrientes e os fármacos, suas
colateralidades, as recomendações e orientações
específicas, como por exemplo:
VET – ajustado às necessidades do paciente ( ANP ) visando a manutenção
do peso corporal ligeiramente abaixo do ideal ( 5 a 10% ), para melhorar
o funcionamento do músculo cardíaco, musculatura diafragmática,
principalmente para o controle da hipertensão arterial e da hiperlipoproteinemia
PROT – normo , retirando os alimentos fonte de colesterol e ácido
úrico, bem como ajustadas às alterações hepáticas
e renais e aos fármacos que tenham ou não capacidade ligante
à proteína. Nos casos de artrite gotosa ter atenção
para o tipo de proteína animal
GLIC – ANP, observando-se a intolerância à glicose e a hipertrigliceridemia
induzida ou não por alguns fármacos e o diabetes mellitus (
ênfase na utilização dos glicídeos complexos e
sem concentração de dissacarídeos )
LIP – hipo com relação P/S = 1, visando normalizar os limiares
lipídicos; estimular a secreção de prostaglandinas vasodilatadoras;
aumentar a utilização de ácidos graxos cis-monosaturados
( óleo de girassol, canola, açafrão, azeite de oliva
) e hipocolesterolêmica (250 a 500mg/dia )