Tenho tido a oportunidade de conversar
com muitas pessoas acerca de nossa querida Umbanda, e várias dúvidas tem sido
colocadas acerca de nosso culto e filosofia. A maioria das dúvidas porém
referem-se ao aspecto pecuniário.
"Afinal podem ou não
podem serem cobrados os trabalhos espirituais? "
É importante que antes de
entrarmos neste assunto, entendamos o que é um trabalho espiritual!
Para podermos entender
exatamente como as coisas se processam, precisamos antes de mais nada nos
despirmos de preconceitos ou pré-julgamentos e estarmos prontos a entender os
fundamentos particulares de cada religião.
Embora a caridade não comporte
dissidências, em cada filosofia religiosa existe um
entendimento, do que é, e do que consiste um "trabalho espiritual".
Algumas filosofias entendem
que no momento do passe, por exemplo, que é uma das ferramentas para o trabalho
espiritual, há dois tipos de fluidos:
O fluido animal, que é próprio
do homem e o fluido espiritual, que emana dos espíritos. Sendo assim, apesar da
necessidade de aprender como e porque aplicar o passe, o médium, no momento da
aplicação fluídica, terá sempre necessariamente a lhe acompanhar e
influenciar, mas não necessariamente incorporar, um espírito. Sendo assim, o passista apesar
de ser o responsável pelo passe, está sendo apenas um caminho, pois ao seu
fluido humano, está associado o fluido espiritual, o qual é dirigido ao
paciente, pela oração e vontade sincera do passista.. Esse mecanismo de
transmissão fluídica fortalece a posição de que não pode ser cobrado o que
de graça lhe é concedido.
Isso é claro, pois se o
mais importante no momento do passe é o fluido espiritual e esse não é
propriedade do homem, ele não poderia cobrá-lo. Assim é para as demais
atividades espirituais nesta doutrina. A fluidificação da água, os trabalhos
de cura, a própria psicografia e tantos outros, todos particularidades do espírito
e não do homem.
No Candomblé, o que o
simpatizante ou consulente vê quando vai às sessões é o Orixá, que não
fala, não atende, não dá consulta. Quando o Orixá se manifesta nas sessões
ou festas, todo o ritual religioso, o fundamento propriamente dito da religião,
já fora realizado anteriormente e à portas fechadas e ali no salão tem-se na
verdade o coroamento daquele fundamento, com o Orixá manifestando-se para ser
saudado, para dançar, em suma para ser louvado. O atendimento de cura ou solução
de problemas pessoais, é feito pelo Zelador da casa ou de Pai de Santo, como é
comumente conhecido.
Aí as coisas mudam de
figura!
Quem faz o
atendimento, a consulta propriamente dita, é o homem, utilizando seu
conhecimento pessoal.
Ele passou um bom tempo,
durante o seu desenvolvimento, no mínimo por durante sete, longos e sacrificados
anos, aprendendo os passos, os fundamento de cada Orixá, como e o que podem ser
a eles ofertados, afim de liberarem a sua força, o Axé, como é mais
conhecido.
Neste caso, normalmente, o
Zelador tem sua vida voltada completamente para as coisas espirituais. Ele deverá
estar sempre pronto para os que o procuram, não podendo portanto, ter outra
atividade que não a espiritual. Além disso, dentro dos fundamentos do Candomblé,
como na Umbanda também, para a prática de qualquer oferta ou trabalho, existe
a necessidade de resguardos físicos, que obriga os Zeladores a regimes rígidos,
abstenção de relacionamentos pessoais, ou atividades mundanas, como festas ou
comemorações, nos períodos que antecedem e sucedem tais trabalhos. Ora como
poderiam estes Zeladores, fazerem frente aos ditames da vida normal? Como pagar
o aluguel, a escola das crianças, a luz, a água, etc....
Não há como! É necessário
que ele tenha alguma fonte de renda!
Neste aspecto o importante
é verificar como é feita esta cobrança. Se é exagerada, se para os trabalhos
é utilizado tudo o que pede, ou se além da cobrança, é pedido sempre a mais,
para uso particular. E o que é mais importante, se houve alguma melhora para o
consulente.
Costuma-se muito ouvir a
seguinte comparação: Ele vive " Do " ou " Para " o santo?
Se " Do", realmente algo vai errado, mas se a condição é "
Para ", então é necessário que se entenda a sua integração com a
religião e a necessidade de sua manutenção, assim como de sua família.
Nas seções de Umbanda, o
atendimento ao paciente através do médium é realizado utilizando-se o fenômeno
da incorporação, onde o espírito, Caboclo/Preto-Velho ou outros, utilizam
a matéria do médium para o trabalho espiritual. Sendo assim, aproveitando o
exemplo do passe, pode-se afirmar que neste caso, tal atividade é
responsabilidade do guia ali incorporado.
Neste caso, não
seria lícito ao médium ou a casa que ele trabalha, cobrar qualquer
atendimento, pois o trabalho também não é seu, é como antes do guia. A única
diferença é que antes o médium foi influenciado pelo espírito, mas está de
posse de todas as suas condições humanas e agora ele é mediunizado pela incorporação. Apesar de estar
ali, não pode controlar seus
movimentos e via de regra não se lembra do que aconteceu.
Além disso, as sessões de
Umbanda são em sua maioria semanais, dando assim ao médium a possibilidade de
ter uma vida normal, ganhando o seu sustento através do seu próprio emprego.
Há muitos
anos se conhece a lei da Salva: Dizia um versinho muito interessante sobre essa
lei:
" DE
QUEM TEM PEÇA UM VINTÉM, MAS DIVIDA COM QUEM NADA TEM "
Essa era a intenção da
cobrança. A salva de anjo de guarda. Onde aquele que fosse atendido pela
entidade, daria um pouco do seu para quem menos tinha, e quem tinha a obrigação
de fazer esta divisão seria o médium, além de possibilitar ao médium a
aquisição de todo o aparato necessário ao seu trabalho. Fumo, velas,
charutos, etc...
Nos tempos modernos, tais
necessidades evoluíram, modificaram. Infelizmente as intenções também
mudaram. E hoje nota-se que muitos, aproveitando-se dos fundamentos mais simples
e singelos, os utilizam para satisfazerem sentimentos particulares e escusos.
Mas devemos entender que o mal médico não desmerece a medicina, assim como o
mau médium, não desmerece a religião.
Ficou claro que é possível,
dentro da humildade necessária para se compreender os pontos filosóficos de
cada religião, entender como pode ser possível a cobrança e porque ela é
feita. É lógico que cada um deverá fazer o seu próprio julgamento. Se acha
que atendimento espiritual não deve ser cobrado, não freqüente onde se cobra
por ele, mas não infame quem, apesar de sua discórdia quantos aos meios,
pratica mais caridade do que muitos que o desabonam.
Outro ponto interessante é
condenar-se o simples fato do médium receber um presente, um agrado por parte
do consulente por um trabalho prestado, tenha sido ele realizado pelo guia ou
pelo próprio médium.
Argumentam contra isso o
mesmo fato. Não podemos receber pagamento por serviço espiritual prestado. Meu
Deus! Um presente não é um pagamento, é uma demonstração de gratidão, de carinho, é demonstração de felicidade!
Ora, deixar de receber um
agrado, é o mesmo que desmerecer o carinho e a gratidão de alguém. É sempre
lembrado nestas ocasiões, presentes de valor, não se lembrando de presentes
pequenos, como uma bolo, uma toalhinha branca bordada com o ponto da entidade, muito utilizada nos terreiros de
Umbanda. E são presentes como quaisquer outros. O que importa nestes presentes não
são seu valores pecuniários, mas sim seu valores intrínsecos. Tais presentes
são do coração,
não oneram o bolso. Por outro lado, se o presente é de muito valor, com certeza
foi dado por quem teria maiores condições para isso e representa a sua
gratidão tanto quanto o
bolo ou a toalhinha para uma pessoa menos favorecida. Não podemos tratar com
descaso os sentimentos de gratidão daqueles que alcançam uma graça, através
do trabalho espiritual que intermediamos. Desmerecer a gratidão, tanto do pobre
quanto do mais abonado, tem o mesmo efeito devastador.
Por isso tudo, é mais
importante que sejamos naturais, participemos da vida espiritual, da mesma
maneira que em nossa vida natural.
Temos a oportunidade de
dividir, integrar, fazer com que segmentos da sociedade se unam, através do
nosso trabalho. Com os que tem menos, podemos dividir o que nos presenteiam. Aos
abonados podemos apresentar quem tem menos. Nossa participação será sempre de
intermediação, talvez aí a incompreensão de muitos. Não vêem méritos em
intermediar, não estão preocupados com o que se dá ou se recebe, mas sim com
o fato de não terem sidos eles a dar ou receber.