Salve as minhas santas almas queridas,
minhas almas trabalhadeiras, minhas almas caridosas, minhas almas rezadeiras. Salve os Pretos e Pretas-Velhas que nos acompanham, nos
protegem, que rezam e trabalham duro na espiritualidade por todos nós.
Essa poderia ser uma oração
poderosa, uma louvação forte aos nossos queridos e amados Pretos-Velhos, mas
é somente uma constatação. É assim mesmo que os vejo, da maneira que os
descrevi acima e sem sombra de dúvidas é assim que eles se posicionam na vida
de todos que deles necessitam, e sem que nem mesmo creiam neles.
Essas entidades denominados
Pretos-Velhos, são formadores de uma falange de espíritos, que quando
encarnados sofreram na condição de escravos. Porém como nas demais falanges
espirituais, poderá haver inclusos entre eles, algum outro espírito, nem preto
ou escravo, trabalhando lado a lado nesta condição espiritual, por devoção
ou determinação superior.
São extremamente bondosos,
normalmente chamados por Pai, Vovô, Vovó, e até Tia. São conhecidos como os
psicólogos da Umbanda, o sofá de análise dos menos favorecidos. Ouvem com
paciência queixas e dores, e por intermédio de rezas, banhos, passes, defumações
e conselhos, vão curando, unindo e protegendo.
Vestem-se normalmente de
branco, usam bengalas, alguns usam chapéus, outros um pano enrolado na cabeça.
Fumam cachimbo ou charutos, bebem preferencialmente vinho, mas podem preferir o
café amargo e até mesmo a aguardente. Gostam de guias (colares) de sementes ou
miçanga preta e branca. Nas festas usam roupas feitas em padronagem xadrez, nas
cores preto e branco. Gostam de rapadura, tutu de feijão, feijoada, e muita
comida mineira.
Alguns guardam a lembrança
da crueldade dos senhores e feitores, como lesões nas pernas que os obrigam a
andar de joelhos ou alquebrados, apoiando-se em bengalas, outros usam tipóias
para segurar os braços torturados e machucados. Sua força e grande poder
espiritual, vem do sofrimento que lhes foram impingidos no passado , mas isso não
diminui a determinação em praticarem a caridade para todos os filhos, de todas
as raças humanas, que os procuram.
Chora meu cativeiro, meu
cativeiro, meu cativeirá.
No tempo do cativeiro, Quando o senhor me batia,
Eu rezava pra nossa senhora,
meu Deus, como a pancada doía.
Chora meu cativeiro, meu
cativeiro, meu cativeirá
O branco batia no negro, de tarde, de noite, de dia.
E o negro amarrado no tronco chorava e rezava pra virgem
Maria
Chora meu cativeiro, meu
cativeiro, meu cativeirá
A lágrima é branca do branco, é branca do negro também
Se o sangue do negro é
vermelho, do branco é vermelho, do Cristo é também.
Assim como nessa cantiga
triste segue a lembrança dos Pretos-Velhos. É impressionante que após tanto
sofrimento ainda tenham vontade e determinação em auxiliar, quem talvez em épocas
passadas foram os causadores de suas dores. Aí reside sua grande força e evolução
espiritual. E os que não são negros, não foram escravos e militam nessa
falange, tem exatamente em seus conceitos de evolução espiritual, o valor do
amor dessas queridas entidades que lhes abriram a possibilidade de trabalho tão
lindo. Salve os Pretos-Velhos, sendo Pretos ou não!
Os Pretos-Velhos tem nomes
comuns, Pai João, José, Maria, Catarina, ou Cambinda, Rei do Congo,
Chico-Preto, mas em comum sempre a mansidão e a caridade.
Alguns alquebrados,
sentados em seus banquinhos, outros mais vistosos, andando para lá e para cá,
lembrando um Caboclo, outros até dançam nas festas, são alegres e gostam
muito de crianças. Não é raro em festa de Ibeijadas, as crianças
espirituais, ver-se a figura do Preto-Velho presidindo a farra dos meninos.
Chico-Preto é preto, nas é um preto dengoso.
Pimenta do reino é preta, mas faz um papá gostoso.
Quem pede as almas, as almas dá.
As almas dão pra quem sabe
aproveitar.
Cantigas simples, sem
vocabulário pesado, algumas do ponto de vista poético, pobres de rima e com
alguns erros de concordância. Mas quem se importa? O importante é que com
essas cantigas, simples, mas entonadas do fundo do coração, o filho, o médium,
o assistente, conseguem se colocar lado a lado com essas entidades maravilhosas
que sempre estão prontas a nos ajudar.