Atualmente temos percebido
entre alguns Umbandistas uma idéia de agrupamento de várias filosofias
religiosas numa só.
Pretendem unir a Umbanda, num mesmo ritual, à outras
filosofias, algumas de caráter espírita como o Kardecismo e outras sem nenhuma
ligação original com a Umbanda como, por exemplo,
as práticas magísticas do Wicca. Essa
atitude vem sendo praticada no seio da Umbanda, baseando-se seus autores, na
hipótese de que estariam promovendo algum tipo de evolução. Ou seja, quem
aceitar que associando-se a Umbanda à práticas mais aceitas socialmente ou
à práticas que se exponham favoravelmente na mídia moderna, estariam
evoluindo efetivamente num processo social quanto espiritual ou religioso,
levando-se em consideração, que por muitos segmentos tanto sociais
quanto religiosos a Umbanda é muito discriminada e denegrida.
Pensando assim é que acabam surgindo, a cada dia que passa, numerosas denominações
para nossa Umbanda. É Umbanda isso, Umbanda aquilo, Umbanda "aqueloutro".
Há, sem sombra de dúvidas, uma grande demonstração de preconceito entre
nossos próprios praticantes ao
demonstrarem aceitar que a Umbanda só será respeitada quando apresentar nomes pomposos ou
doutrinas sócio-elegantes.
A Umbanda é uma religião inegavelmente amalgamada, sincretizada, influenciada
por ritos outros, do Africanismo puro ao catolicismo. Da mesma forma podemos afirmar que
a Umbanda não foi criada por homem algum e o seu desenvolvimento se deu muito
mais através da necessidade do que da intenção. Mas o fato importante é que todo esse processo já passou. Ela já
foi realizada. A Umbanda já é final. É óbvio que evolução acontece a cada
instante, que o esclarecimento é a arma da inteligência e que não se pode melhorar
ou crescer sem estudar.
No entanto é necessário que se reafirme alguns pontos que parecem ser esquecidos
em determinados momentos.
1 - A Umbanda, apesar de não ser Candomblé ou sub-produto dele é originada ou
influenciada inequivocamente pelos cultos negros africanos;
1 - A Umbanda, apesar de ter sido influenciada, na sua origem, por cultos africanos,
teve seu momento particular de socialização e, a partir de 1908, ganhou nome e sobrenome,
ou seja, uma identidade própria, através do evento do Caboclo das Sete Encruzilhadas. A partir dessa data,
passamos a ter algum tipo de aceitação na sociedade atual da época, já que antes,
não só os Umbandistas, mas todos os que professavam quaisquer tipo de atividades
religiosas ligadas à espiritualidade dos ritos negros, sofriam todo tipo de perseguição, até mesmo policial. Apesar
dessa socialização ter sido efetiva, ainda acontecem várias discussões no meio
Umbandista no que tange à práticas ou rituais.
Acredito que já temos trabalho
demais para definir caminhos já existentes e contestados, para ainda ficarmos abrindo novas estradas;
3 - O fato dessa Brasilidade ter acontecido, não tira da Umbanda a Africanidade com que foi
principiada. A
Umbanda é um culto que se utiliza, principalmente do trabalho das Entidades
Espirituais, ou Guias, como são mais comumente conhecidos, para o trabalho de
caridade, mas em aceitando a presença e dando culto aos Orixás, que não são
senão Divindades Africanas, reconhece esta influência e não pode
intentar descaracterizá-los. Os Orixás não são Anjos, não são
Espíritos, não são nada que a mente ocidental possa querer supor ou modificar.
Eles são Divindades, criadas por Olorum, Deus supremo Yorubá, que se
metamorfoseiam nas forças da natureza. Já há diversas discussões sobre quem
seriam os Orixás no próprio meio Afro-descendente devido ao forte sincretismo
criado pelos escravos que se viram obrigados a conviver, no cativeiro, com
etnias completamente diferentes umas das outras e, conseqüentemente com aceitações
diversas sobre suas Divindades locais;
4 - Orixás, se homens tivessem sido, negros com certeza seriam. Acreditar numa
Oxum loira de olhos azuis, num Oxossi branco como o leite ou numa Yemanjá
com seus longos cabelos negros e lisos derramados pelo colo nu é escancarar uma
grande dose de preconceito racial, apesar do discurso de humildade.
Criando-se então, religiões que seriam a aglutinação de várias filosofias numa só,
qual o nome que daríamos para o resultante da somatória?
O da religião original
ou uma soma onomatopaica dos fonemas de cada uma das demais?
E num futuro próximo, qual seria reconhecida como a original?
Poderia ser
desfeita a associação caso não fosse do acórdão de todos os demais praticantes
futuros?
Alguém já imaginou beber somente o leite depois de misturado ao café?
Será que
podemos definir depois de misturado, qual dos dois, café ou leite, fora colocado na xícara primeiro?
Então meus irmãos, tratemos pois de manter nossa evolução através do nosso
trabalho dentro de uma visão de humildade. Já temos onde nos disponibilizar, não
há a menor necessidade de ficarmos criando novas filosofias. Importa mais se dar
ao que já existe, do que se ficar parado um tempo enorme sob a desculpa de
estar-se organizando alguma coisa que talvez não venha dar em nada. Orgulhem-se de serem Umbandistas ou deixem de sê-lo, se assim
o quiserem, é o direito do livre pensar e agir de cada um. Mas não
maculem a Umbanda com suas políticas ou preconceitos puramente humanos.
Nossa religião é linda, é abrangente, é capaz, é final. Tratemo-la com respeito.
Não há como não negar que a origem do Zelador, ou Sacerdote, influencia definitivamente a linha
de ação ou doutrina de determinada casa, vindo diferenciá-la de outras. Mas que essa influência esteja dentro do mote já
conhecido. Que não venha mais ninguém buscando, quem sabe, apenas as luzes dos
holofotes, criar novas aproximações ou junções que só servirão para aumentar o
desprezo daqueles que acham que, além de termos uma religião sem fundamentos, uma
doutrina bárbara, ainda por cima, somos um grupo invejoso que almeja até mesmo a
doutrina alheia.