BREVE HISTÓRIA DE TAVIRA

INTRODUÇÃO
Algarve é um termo árabe "Al-Garb al-andaluz" que quer dizer "ocidente" ou "região ocidental da Andaluzia". Os árabes estendiam esta denominação às terras da Espanha Ocidental e meridional desde o Promontório Sacro "Sagres" até Almeria e às terras fronteiras de África desde o estreito de Gibraltar, até Tremecem.
Os antigos escritores gregos e romanos fazem menção de vários povos que habitavam esta região. O solo fértil, a cultura, a indústria, o comércio dos seus povos, a temperatura amena, a posição geográfica e a multiplicidade de portos, gados e pescarias, convidaram sucessivamente Fenícios, Cartagineses, Gregos e Romanos, logo seguidos pelos povos godos e por último por árabes a procurar nestas paragens melhores condições de vida e a frequentar as suas costas numa actividade comercial e colonizadora intensa ou a apossarem-se da própria região

RECONQUISTA CRISTÃ

Depois do relativo e temporário sucesso militar de D.Sancho I na conquista de Silves, coube aos Cavaleiros da Ordem de Santiago, a conquista do Algarve.
Cercaram a região por oriente descendo o Guadiana conquistando sucessivamente Mértola, Castro Marim, Ayamonte e Cacela.
No ano de 1239 estão às portas de Tavira e nesse mês de Junho, dia 11, finalmente fazem o decisivo ataque à cidade, como retaliação pela morte dos "Sete Cavaleiros" imolados no sítio das Antas quando se entretinham numa caçada.
Efectivamente os cavaleiros cristãos confiantes nas tréguas estabelecidas com os mouros até ao mês de Setembro para que as colheitas desse ano pudessem ser feitas para as populações não passarem fome, e ao mesmo tempo desprezando os conselhos dos próprios companheiros, tiveram o "desaforo" de passar junto às muralhas da povoação e por esse caminho se dirigirem ao lugar das Antas desfrutando dos prazeres de uma caçada.
Os mouros escandalizados com tal desaforo foram em sua direcção e montaram-lhes uma emboscada.
E foi assim que aqueles sete mártires :

D. Pedro Pais, Mendo do Valle, Damião Vaz, Álvaro Garcia, Estevam Vasques, Valerio de Ossa, e o mercador Garcia Rodrigues

pereceram às mãos dos mouros. Os ossos, para eterna memória, repousam num túmulo colocado no altar-mor, do lado da epístola, da Igreja de Santa Maria do Castelo (*) a antiga mesquita árabe e agora templo cristão.
Os restos mortais ali foram metidos dias depois da refrega e assinalados por uma lápide com sete cruzes vermelhas ( símbolo dos espatários ) com a seguinte inscrição:
 

"AQUI JAZEM OS OSSOS DOS SETE CAVALEIROS,
QUE FALECERÃO NA TOMADA DESTA CIDADE
AOS MOUROS EM 11 DE JUNHO DE 1242"
 

Só uma pequena nota. Rui de Pina, o mais antigo cronista que descreve a maneira como D. Paio Peres Correia conquistou Tavira aos mouros, aponta o dia 11 de Junho de 1242 como a dta desse aconteciemnto.O cronista, do séc. XV, relata esse facto 250 anos depois da conquista, seguem esta opinião entre outros Brandão e Veríssimo Serrão; porém A. Ribeiro discorda e aponta a data de 1238 e Alexandre Herculano, na sua História de Portugal coloca o acontecimento em 1239.D. Paio Peres Correia
Herculano, seguindo os passos de D. Paio Peres Correia e apoiado em documentos espanhóis, prova que entre 1241 e 1242 o Mestre de Santiago, D. Paio, na altura Comendador-Mor de Uclés, estava na reconquista do sul de Espanha, concretamentena Serra Segura, com a expedição e conquista de Chinchila. Desta data até 1243, D. Paio esteve ao serviço do Rei de Castela, pelo que a sua presença, em 1242,  no Algarve, se  põe muito duvidosa. Considerando que em 1242, Tavira foi doada à Ordem de Santiago, inclinamo-nos para uma confusão de datas do cronista Rui de Pina.
Se levarmos em conta que D. Sancho doou aos espatários, em 1240, os Castelos de Cacela e Ayamonte, que haviam sido conquistados em 1238, também será de admitir que Tavira, doada em 1244 pelo mesmo rei à Ordem de Santiago, pudesse ter sido conquistada por D. Paio Peres Correia em Junho de 1239.

O Comendador da Ordem de Santiago, D. Paio Peres Correia, desfere, nesse mesmo dia, o ataque final e a vila de "Tabira" passa para as mãos dos cristãos.  No ano de 1244, por carta de 9 de Janeiro, D. Sancho II faz doação das terras conquistadas à Ordem dos Espatários.

Em frente da lápide dos "Sete Cavaleiros" e portanto do lado do Evangelho repousam noutro túmulo os ossos do conquistador como foi seu desejo mas que só muito tardiamente para aqui foram transladados e em cuja pedra se pode ler:

 

  "AQUI JAZEM
OS OSSOS DE D. PAYO
PERES CORREIA GRA
M ME. DA ORDEM DE
SANTIAGO QVE TO
MOV ESTA CIDADE AOS
MOVROS FALECEV E
M 10 DE FEVR. DE 1275
METERÃO SE AQVI
NO AN. DE 1751"
 
       


Também há dúvidas sobre a data da transladação pois o cronista Rui de Pina, já no século XV, dá conta de os ossos do grande cavaleiro estarem já sepultados na Igreja de Santa Maria.

Em 1245, D. Sancho II incorpora o castelo na Ordem de Santiago como reconhecimento dos serviços prestados na conquista desta parcela do território, doação confirmada por bula do Papa Inocêncio IV e expedida em 8 de Setembro de 1245.
Mas não finalizavam as disputas da região. Desta vez entre os próprios cristãos. Afonso X, o Sábio de Castela, invocando direitos sobre as terras do Algarve, invade Portugal entrando por Alcoutim e acabando por pôr cerco a Tavira no ano de 1252
Depois de hábeis negociações, Afonso X, desiste das suas pretensões sobre o Algarve mas o Rei de Portugal obrigava-se a apresentar ao Rei de Castela, cinquenta cavaleiros e como garantia ficavam os fortes do Algarve na posse do cavaleiro João Aboim.
Entretanto D. Afonso III casa com D. Beatriz, filha ilegítima do Rei de Castela (Afonso X) e deste casamento nasce entre outros o futuro rei de Portugal -- D. Dinis -- que aos sete anos de idade acorre a seu avó com as referidas cinquenta lanças. Obtém nesta altura a dignidade de Cavaleiro e o real avô dispensa-o de tal obrigação.
Por tudo isto e para pacificar e unir os cristãos na luta comum contra os mouros celebra-se em 16 de Fevereiro de 1267 o Tratado de Badajoz estipulando-se que o Guadiana, desde a confluência do Caia até ao mar, constituiria a fronteira entre os dois reinos cristãos.
Mais tarde tudo isto é referendado por um tratado celebrado entre ambos os reinos que definitivamente vai fixar as fronteiras entre os dois reinos ibéricos -- Tratado de Alcanizes -- no ano de 1297 e já em pleno reinado de D.Dinis.
Mas não cessaram aqui as hostilidades entre os cristãos.
Em 1338, portanto 99 anos após a conquista da cidade de Tavira aos mouros, D. Afonso XI de Castela, neto do rei português D. Dinis por via de sua mãe D. Constança de Portugal, que casara com Fernando IV, e na sequência das hostilidades originadas com o casamento da castelhana D. Constança com o futuro D.Pedro I de Portugal, o rei, D. Afonso XI, veio pôr cerco à cidade de Tavira. Mas foi cerco pouco duradouro, porque segundo reza a história (ou a lenda segundo outros) durante o cerco apareceu sobre o telhado da Igreja de Santa Maria a visão apocalíptica dos "Sete Cavaleiros". Esta ocorrência aterrorizou de tal maneira os castelhanos, presuadidos que Tavira estava não só fortemente guardada pelos vivos mas também por aqueles mártires que, sem darem batalha, levantaram o cerco e regressaram ao seu território.

Em 12 de Agosto de 1266, D. Afonso III concede a Tavira foral de vila.(*)
Este foral com os de Faro, Silves e Loulé (todos com a mesma data) são os mais antigos concedidos pelos reis portugueses a povoações do Algarve.
Em 1269, 13 de Agosto, e para proteger as populações mouriscas que aqui continuaram, é concedido foral aos mouros de Tavira defendendo-se dessa maneira os seus direitos e garantindo-lhes a necessária segurança.
Tavira também teve papel de relevo durante os anos atribulados da Crise de 1383/85.
Logo no ano de 1383 o Mestre de Aviz restitui a Tavira a regalia de ter almotaçaria civil e do crime, abolida no reinado anterior.
E quando do levantamento das povoações do reino a favor ou contra o Mestre é nesta cidade e junto à ponte românica que as duas facções do "Reino do Algarve" se degladiam, vencendo as forças favoráveis ao Mestre. Todas as povoações algarvias apoiam o partido nacionalista. Este facto está recordado no painel de azulejos que junto à entrada norte da ponte ali foi colocado

Poucos anos depois, 15 de Setembro de 1415, Tavira tem o privilégio de receber os heróicos conquistadores da cidade de Ceuta que aqui aportam para em procissão se dirigirem à Igreja de Santa Maria Maior do Castelo (*) para, em acção de graças por tamanha façanha, agradecerem o apoio divino da campanha. Nesta cerimónia são armados cavaleiros os príncipes: D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique e aos dois últimos é concedido, pela primeira vez em Portugal o título de Duque. D. Pedro -- Duque de Coimbra e D. Henrique -- Duque de Viseu e Senhor da Covilhã.

Um pequeno padrão erigido por detrás da Igreja de Santa Maria e em frente ao Castelo rememora esta cerimónia.

Neste século vai chegar a Tavira a época da grandeza e da prosperidade.
Efectivamente com a epopeia gloriosa dos descobrimentos e com a política seguida relativamente à conquista do Norte de África Tavira vai conhecer o período de maior apogeu e que se estende ao longo de dois séculos -- XV e XVI.
E os monarcas lusos reconhecendo os serviços prestados pela tavirenses não perdem oportunidades de os reconhecer, nomeadamente os serviços prestados às navegações e aos socorros que permanentemente partiam para as praças do Norte de África.
O Mestre de Avis, em 1383 restitui a regalia de Tavira ter almotaçaria civil e do crime, isto é um tribunal de pequenos delitos de vendas. Este direito municipal compreendia a fiscalização dos géneros, do seu peso e qualidade.
D. Afonso V isenta Tavira do ofício de adiantado e em 1458 autoriza aos pescadores a venda de peixe onde bem lhes aprouver sem pagamento de qualquer portagem. Neste mesmo ano, Vasco Eanes Corte Real é nomeado coudel (capitão de cavalaria) e em 1464 dá-lhe foros de realenga, ordenando que a vila nunca saísse dos domínios reais..
Este mesmo privilégio viria a ser confirmado por D. João II e mais tarde por Filipe I.
Este progresso social, económico, cultural e religioso, fruto da posição estratégica e do valor das suas gentes, leva a que el-rei D. Manuel lhe outorgue foral novo em 1504, bem como a mais 11 povoações algarvias, e poucos anos depois 1520, dia 16 de Março, a eleve à categoria de cidade.
Às suas gentes também o rei quis conceder dignidade de tratamento a todos os escudeiros, cavaleiros e peões que eventualmente venham a ser presos. Ao povo retira as penas de açoitamento e as degradações dos pregões. Esta é a forma do rei manifestar o seu agradecimento pelos muitos e valiosos serviços prestados pela população tavirense que tanto se notabilizou nas lutas contra os sarracenos, nas conquistas do Norte de África, nas navegações e no socorro que tão apressadamente prestavam às praças do Norte de África. Recordamos que só para socorro à praça de Arzila, el-rei D. Manuel juntou em Tavira cerca de 20 mil homens, além da artilharia e das embarcações necessárias.
Em 1596, quando o corsário inglês Francis Drake atacou Faro, incendiando e pilhando a cidade, foi de Tavira que partiram os socorros terminado por  expulsar os corsário ingleses.
Tavira continua a ser um porto florescente. A actividade comercial e piscatória é intensa. Daqui saem o sal, o peixe seco, frutos secos, vinho e muitas outras mercadorias incluindo escravos que aqui aportavam vindos de África e que depois eram vendidos por todo o reino e para a própria Europa.
O movimento de mercadores, escravos e mercadorias que vinham de África era intenso. Aqui se mercava o mel, cera, couros, pescado seco, tâmaras, cavalos, gado e escravos.
Em 1518 os mareantes são mesmo autorizados a resgatar frutas e azeites na fortaleza de Santa Cruz desde que só trouxessem em troca escravos.
O Cardeal D. Henrique em 1579 autoriza que as naus fossem de 3 em 3 anos a S. Tomé ou a Cabo Verde trazer escravos para Tavira
O movimento portuário era intenso e sempre aumentado pelos almocreves que comerciavam com as terras do interior e por isso não admira que em 1491 fosse concedida licença para a realização de uma Feira que duraria 49 dias por ordenanças de D. João II e que teria começo no dia 1 de Setembro e encerramento a 19 de Outubro. Era esta feira e ainda é hoje a tão conhecida Feira de S. Francisco e que em 1647 foi prolongada até ao mês de Novembro.
Esta feira esteve na origem de um conflito com as gentes de Faro que por motivos de concorrência e coincidência de datas a quiseram furtar a Tavira. Dá-se este conflito no ano de 1662
A população era enorme e a cidade crescia ultrapassando o espaço murado das muralhas.
Nesta época contava-se uma população superior a 6.000 almas sem contar com os soldados.
Era a 5ª povoação do reino em termos populacionais
Também eram frequentas as presenças reais na cidade.
Aqui estiveram Dinis, D. João I, D. Afonso V, D. João II, D. Manuel por duas vezes uma primeira em 1509 dando a Tavira a carta de terra homiziada e outra em 1516. Em 1573 receberam os tavirenses D. Sebastião.
Não admira por isso que começassem a aparecer fortificações de costa .
Em 1573 constrói-se a Fortaleza de Santo António ou do Rato
Em 1672 a fortaleza de S. João da Barra ou S. João Baptista nas Cabanas
Em 1541 a Igreja da Misericórdia com delicada arquitectura renascentista.
Em 1425 uma Albergaria que viria, por união de três confrarias, a transformar-se no Hospital do Espírito Santo ,construído segundo uns em 1498 segundo outros em 1505
 


A DECADÊNCIA

Da vida florescente do séc. XV e primeira metade do séc. XVI em que o desenvolvimento agrícola, comercial, piscatório, cultural e religioso ainda hoje se pode recordar em tantos vestígios que se espalham pela cidade: conventos, igrejas, palácios, casas apalaçadas, fortalezas, etc os finais do séc. XVI, com as modificações operadas na vida do reino, nomeadamente o abandono das praças do Norte de África e o começo da colonização do Brasil trazem a ruína social e económica ao burgo.
Houve neste findar do século uma intensa emigração dos tavirenses, quer dos comerciantes quer dos artesãos, quer da gente fidalga, na procura de melhores condições de vida.
Agora era a Índia mas sobretudo o Brasil que chamava a atenção das gentes.
O comércio foi-se reduzindo, a mão de obra escasseava, a barra ia-se assoreando e o porto ficava abandonado. A população ficava reduzida aos frades e freiras dos conventos e a alguns militares ... a população reduzia-se ao mínimo.
Desta situação se dá conta o prior que proferiu as palavras de boas-vindas ao rei D. Sebastião a quando da visita que à cidade fez em 1573

"... não desmerece a Vossa Alteza erguer os seus olhos misericordiosos e pô-los nela para que veja as quebras, faltas, ruínas e perdição que nela vai, que é tanta que não enxergará Vossa Alteza mais que a pintura, obra e figura do que antes foi..."

E a situação de desgraça ainda mais se agravou no tempo dos "filipes". Em 1609 a vereação de Tavira em carta dirigida à capital do reino queixava-se que a cidade tinha tanta ruína que mais parecia uma aldeia que uma cidade.
Neste período e pela inactividade do comércio marítimo agravado com o assoreamento do rio, da ria e do porto, Tavira regressa à sua economia mais tradicional: a agricultura do o figo e pouco mais ...
E como uma desgraça não vem só também outras calamidades desabaram sobre a população. Umas vezes as pestes (1645/46, ) outras vezes os maus anos agrícolas e a consequente fome ( 1521 ) e até uma praga de gafanhotos não faltou (1583).
A própria cultura e a pompa das festas religiosa quase desaparece. Mantêm-se com alguma tradição as festas de Nossa Senhora das Angústias (que se celebrava no sítio de S. Pedro) e das festas profanas mantinham-se os tradicionais festejos de S.João.
Por isso foi com muita júbilo que o povo de Tavira recebeu a notícia da Restauração de 1640 mas nem por isso a situação social e económica viria a melhorar.
Muito embora Tavira tivesse sido um baluarte na defesa da independência adquirida e D.João IV providenciasse a construção de mais uma defesa de costa:(Fortaleza de S. João da Barra ou Baptista) (*) na povoação das Cabanas/Conceição a prosperidade da era de quatrocentos e de quinhentos dá lugar a uma evidente decadência que se prolonga até ao século XVIII.

O RENASCER

O reinado de D. José veio de alguma forma reanimar a vida económica e social de Tavira, sem todavia se aproximar do prestígio alcançado nos anos de quatrocentos e quinhentos.
Pese embora a catástrofe ocasionada pelo "terramoto" na fazenda das pessoas e das instituições nomeadamente as religiosas com a reconstrução muito havia a mudar.
E disso é prova a construção de mais alguns belos templos religiosos na cidade. Em 1745 constrói-se a Igreja do Carmo e a própria Câmara abalança-se na construção da Igreja de S. Sebastião na Atalaia.
Também e ainda em consequência do terramoto de 1755 que se fez sentir de modo gravoso por todo o Algarve o Rei ordena que o Governador Militar passe a ter residência permanente em Tavira indo instalar-se no Alto de Santana em instalações que ainda há pouco eram o aquartelamento da PSP.
Pouco depois (1769) e por alvará real permite-se o aforamento dos sapais para nelas se fazerem mais salinas e autoriza a venda livre do sal e extinguindo o monopólio régio da extracção deste produto
O rei a política pombalina fez-se sentir no Algarve e em 1773 por alvará real de 15 de Janeiro reanima-se a pesca com a criação da companhia que se denominou de Reais Pescarias.
Também há alguma animação no comércio marítimo que para além da tradicional exportação de frutos secos agora vê aumentada com a venda de um produto tintureiro -- a grã ou kermes -- esta semente era colhida em quantidade na serra algarvia e daqui seguia com destino a Gibraltar, Marselha e Norte de África.
Até no campo da indústria Tavira conhece alguma animação pela concessão real para o funcionamento de uma fábrica de lã e seda; é desta época (1776) também a chegada de uma nova árvore à região: a amoreira que foi plantada com alguma abundância para alimento do bicho da sêda.
Pela importância militar da cidade, aqui é construído em 1760 um Hospital Militar que se instalou onde actualmente está a Messe de Oficiais e Sargentos, no Largo do Cano.
Também nesta época Tavira vê surgir um novo e moderno aquartelamento (1795). É o Quartel da Atalaia.
No século seguinte (XIX) o reino e o Algarve muito vão sofrer com as Invasões Francesas. Na verdade as tropas napoleónicas pilham e destroiem tudo à passagem sendo muitas vezes as próprias populações que têm de organizar a defesa como aconteceu com o povo da Luz de Tavira que perseguiu soldados napoleónicos para recuperar a custódia da igreja matriz o que viria a acontecer já perto de Tavira.
Por cá as coisas não correram melhor e muito embora se tivessem mantido as mesmas autoridades na cidade ainda hoje são visíveis as delapidações que fizeram nos símbolos reais como é o caso das armas na Porta de D. Manuel, nas da Igreja da Misericórdia, na entrada da fortaleza de S.João nas Cabanas e tantas outras.
E apesar de algumas vozes se ouvirem a favor da concórdia com os franceses a verdade é que a população não se deixava subjugar e rebenta uma primeira revolta popular em Olhão (1808) apoiada pelo povo de Tavira. E as milícias comandadas pelo capitão Sebastião Martins Mestre navega a bordo de um caíque ao encontro de tropas que rumavam em direcção a Faro e as aprisiona. Este mesmo capitão meses antes (13 de Abril 1808) tinha retomado a fortaleza de S. João da Barra nas Cabanas
Com estes exemplos heróicos todo o Algarve se levanta contra o estrangeiro numa luta sem tréguas. Em Junho novo recontro das nossas milícias que em Quelfes fazem debandar uma coluna francesa que vinha de Vila Real deixando na refrega 18 mortos e 10 feridos.
Este século tão atribulado para a vida nacional deixou marcas na vida dos tavirenses.
Expulsas e derrotadas as tropas napoleónicas, a família real no Brasil, e o reino nas mãos dos ingleses, a que se seguiu o período atribulado das Lutas Liberais, não foi propício para as gentes de Tavira que de certo modo viviam fechadas sobre si mesma, à sombra dos velhos privilégios. Estava decadente a burguesia comercial e conservadora, e, arruinada a burguesia rural. De um modo geral a população apoiava D. Miguel. O Regimento de Infantaria 14 de Tavira com o regimento de Caçadores 4 de Castro Marim e com o apoio de Espanha sublevam-se. Não apoia esta posição o Governador do Algarve, Conde de Alba.
D. Miguel com este apoio, proclama-se Rei Absoluto enquanto os Liberais organizavam a resistência no norte.
Em 1826 os realistas algarvios pronunciam-se a favor de D. Miguel. Em Tavira e à frente do Batalhão da cidade está o visconde de Molelos.
O Duque da Terceira em apoio do movimento liberal desembarca em Cacela. A comandar a 2ª Brigada da Divisão Operacional vem o general tavirense António Pedro de Brito Vilas-Boas (mais tarde Barão de Cacela) e derrota sem combate o Visconde de Molelos no Almargem. Seguidamente dirige-se para Faro ocupa a cidade e é nomeado Comandante do Algarve.
Com a Convenção de Évora Monte termina o conflito.



1