
O Comendador da Ordem de Santiago, D. Paio Peres Correia, desfere, nesse mesmo
dia, o ataque final e a vila de "Tabira" passa para as mãos dos cristãos.
No ano de 1244, por carta de 9
de Janeiro, D. Sancho II faz doação das terras conquistadas à Ordem dos Espatários.
Em frente da lápide dos "Sete Cavaleiros" e portanto do lado do Evangelho
repousam noutro túmulo os ossos do conquistador como foi seu desejo mas que só
muito tardiamente para aqui foram transladados e em cuja pedra se pode ler:
| "AQUI JAZEM OS OSSOS DE D. PAYO PERES CORREIA GRA M ME. DA ORDEM DE SANTIAGO QVE TO MOV ESTA CIDADE AOS MOVROS FALECEV E M 10 DE FEVR. DE 1275 METERÃO SE AQVI NO AN. DE 1751" |
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Também há dúvidas sobre a data da transladação pois o cronista Rui de Pina, já no
século XV, dá conta de os ossos do grande cavaleiro estarem já sepultados na
Igreja de Santa Maria.
Em 1245, D. Sancho II incorpora o castelo na Ordem de Santiago como
reconhecimento dos serviços prestados na conquista desta parcela do território,
doação confirmada por bula do Papa Inocêncio IV e expedida em 8 de Setembro de
1245.
Mas não finalizavam as disputas da região. Desta vez entre os próprios cristãos.
Afonso X, o Sábio de Castela, invocando direitos sobre as terras do Algarve,
invade Portugal entrando por Alcoutim e acabando por pôr cerco a Tavira no ano
de 1252
Depois de hábeis negociações, Afonso X, desiste das suas pretensões sobre o
Algarve mas o Rei de Portugal obrigava-se a apresentar ao Rei de Castela,
cinquenta cavaleiros e como garantia ficavam os fortes do Algarve na posse do
cavaleiro João Aboim.
Entretanto D. Afonso III casa com D. Beatriz, filha ilegítima do Rei de Castela
(Afonso X) e deste casamento nasce entre outros o futuro rei de Portugal -- D.
Dinis -- que aos sete anos de idade acorre a seu avó com as referidas cinquenta
lanças. Obtém nesta altura a dignidade de Cavaleiro e o real avô dispensa-o de
tal obrigação.
Por tudo isto e para pacificar e unir os cristãos na luta comum contra os mouros
celebra-se em 16 de Fevereiro de 1267 o Tratado de Badajoz estipulando-se que o
Guadiana, desde a confluência do Caia até ao mar, constituiria a fronteira entre
os dois reinos cristãos.
Mais tarde tudo isto é referendado por um tratado celebrado entre ambos os
reinos que definitivamente vai fixar as fronteiras entre os dois reinos ibéricos
-- Tratado de Alcanizes -- no ano de 1297 e já em pleno reinado de D.Dinis.
Mas não cessaram aqui as hostilidades entre os cristãos.
Em 1338, portanto 99 anos após a conquista da cidade de Tavira aos mouros, D.
Afonso XI de Castela, neto do rei português D. Dinis por via de sua mãe D.
Constança de Portugal, que casara com Fernando IV, e na sequência das
hostilidades originadas com o casamento da castelhana D. Constança com o futuro
D.Pedro I de Portugal, o rei, D. Afonso XI, veio pôr cerco à cidade de Tavira.
Mas foi cerco pouco duradouro, porque segundo reza a história (ou a lenda
segundo outros) durante o cerco apareceu sobre o telhado da Igreja de Santa
Maria a visão apocalíptica dos "Sete Cavaleiros". Esta ocorrência aterrorizou de
tal maneira os castelhanos, presuadidos que Tavira estava não só fortemente
guardada pelos vivos mas também por aqueles mártires que, sem darem batalha,
levantaram o cerco e regressaram ao seu território.
Em 12 de Agosto de 1266, D. Afonso III concede a Tavira foral de vila.(*)
Este foral com os de Faro, Silves e Loulé (todos com a mesma data) são os mais
antigos concedidos pelos reis portugueses a povoações do Algarve.
Em 1269, 13 de Agosto, e para proteger as populações mouriscas que aqui
continuaram, é concedido foral aos mouros de Tavira defendendo-se dessa maneira
os seus direitos e garantindo-lhes a necessária segurança.
Tavira também teve papel de relevo durante os anos atribulados da Crise de
1383/85.
Logo no ano de 1383 o Mestre de Aviz restitui a Tavira a regalia de ter
almotaçaria civil e do crime, abolida no reinado anterior.
E quando do levantamento das povoações do reino a favor ou contra o Mestre é
nesta cidade e junto à ponte românica que as duas facções do "Reino do Algarve" se
degladiam, vencendo as forças favoráveis ao Mestre. Todas as povoações algarvias
apoiam o partido nacionalista. Este facto está recordado no painel de azulejos
que junto à entrada norte da ponte ali foi colocado
Poucos anos depois, 15 de Setembro de 1415, Tavira tem o privilégio de receber
os heróicos conquistadores da cidade de Ceuta que aqui aportam para em procissão
se dirigirem à Igreja de Santa Maria Maior do Castelo (*) para, em acção de
graças por tamanha façanha, agradecerem o apoio divino da campanha. Nesta
cerimónia são armados cavaleiros os príncipes: D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique
e aos dois últimos é concedido, pela primeira vez em Portugal o título de Duque.
D. Pedro -- Duque de Coimbra e D. Henrique -- Duque de Viseu e Senhor da
Covilhã.
Um pequeno padrão erigido por detrás da Igreja de Santa Maria e em frente ao
Castelo rememora esta cerimónia.
Neste século vai chegar a Tavira a época da grandeza e da prosperidade.
Efectivamente com a epopeia gloriosa dos descobrimentos e com a política seguida
relativamente à conquista do Norte de África Tavira vai conhecer o período de
maior apogeu e que se estende ao longo de dois séculos -- XV e XVI.
E os monarcas lusos reconhecendo os serviços prestados pela tavirenses não
perdem oportunidades de os reconhecer, nomeadamente os serviços prestados às
navegações e aos socorros que permanentemente partiam para as praças do Norte de
África.
O Mestre de Avis, em 1383 restitui a regalia de Tavira ter almotaçaria civil e
do crime, isto é um tribunal de pequenos delitos de vendas. Este direito
municipal compreendia a fiscalização dos géneros, do seu peso e qualidade.
D. Afonso V isenta Tavira do ofício de adiantado e em 1458 autoriza aos
pescadores a venda de peixe onde bem lhes aprouver sem pagamento de qualquer
portagem. Neste mesmo ano, Vasco Eanes Corte Real é nomeado coudel (capitão de
cavalaria) e em 1464 dá-lhe foros de realenga, ordenando que a vila nunca saísse
dos domínios reais..
Este mesmo privilégio viria a ser confirmado por D. João II e mais tarde por
Filipe I.
Este progresso social, económico, cultural e religioso, fruto da posição
estratégica e do valor das suas gentes, leva a que el-rei D. Manuel lhe outorgue
foral novo em 1504, bem como a mais 11 povoações algarvias, e poucos anos depois
1520, dia 16 de Março, a eleve à categoria de cidade.
Às suas gentes também o rei quis conceder dignidade de tratamento a todos os
escudeiros, cavaleiros e peões que eventualmente venham a ser presos. Ao povo
retira as penas de açoitamento e as degradações dos pregões. Esta é a forma do
rei manifestar o seu agradecimento pelos muitos e valiosos serviços prestados
pela população tavirense que tanto se notabilizou nas lutas contra os
sarracenos, nas conquistas do Norte de África, nas navegações e no socorro que
tão apressadamente prestavam às praças do Norte de África. Recordamos que só
para socorro à praça de Arzila, el-rei D. Manuel juntou em Tavira cerca de 20
mil homens, além da artilharia e das embarcações necessárias.
Em 1596, quando o corsário inglês Francis Drake atacou Faro, incendiando e
pilhando a cidade, foi de Tavira que partiram os socorros terminado por
expulsar os corsário ingleses.
Tavira continua a ser um porto florescente. A actividade comercial e piscatória
é intensa. Daqui saem o sal, o peixe seco, frutos secos, vinho e muitas outras
mercadorias incluindo escravos que aqui aportavam vindos de África e que depois
eram vendidos por todo o reino e para a própria Europa.
O movimento de mercadores, escravos e mercadorias que vinham de África era
intenso. Aqui se mercava o mel, cera, couros, pescado seco, tâmaras, cavalos,
gado e escravos.
Em 1518 os mareantes são mesmo autorizados a resgatar frutas e azeites na
fortaleza de Santa Cruz desde que só trouxessem em troca escravos.
O Cardeal D. Henrique em 1579 autoriza que as naus fossem de 3 em 3 anos a S.
Tomé ou a Cabo Verde trazer escravos para Tavira
O movimento portuário era intenso e sempre aumentado pelos almocreves que
comerciavam com as terras do interior e por isso não admira que em 1491 fosse
concedida licença para a realização de uma Feira que duraria 49 dias por
ordenanças de D. João II e que teria começo no dia 1 de Setembro e encerramento
a 19 de Outubro. Era esta feira e ainda é hoje a tão conhecida Feira de S.
Francisco e que em 1647 foi prolongada até ao mês de Novembro.
Esta feira esteve na origem de um conflito com as gentes de Faro que por motivos
de concorrência e coincidência de datas a quiseram furtar a Tavira. Dá-se este
conflito no ano de 1662
A população era enorme e a cidade crescia ultrapassando o espaço murado das
muralhas.
Nesta época contava-se uma população superior a 6.000 almas sem contar com os
soldados.
Era a 5ª povoação do reino em termos populacionais
Também eram frequentas as presenças reais na cidade.
Aqui estiveram Dinis, D. João I, D. Afonso V, D. João II, D. Manuel por duas
vezes uma primeira em 1509 dando a Tavira a carta de terra homiziada e outra em
1516. Em 1573 receberam os tavirenses D. Sebastião.
Não admira por isso que começassem a aparecer fortificações de costa .
Em 1573 constrói-se a Fortaleza de Santo António ou do Rato
Em 1672 a fortaleza de S. João da Barra ou S. João Baptista nas Cabanas
Em 1541 a Igreja da Misericórdia com delicada arquitectura renascentista.
Em 1425 uma Albergaria que viria, por união de três confrarias, a transformar-se
no Hospital do Espírito Santo ,construído segundo uns em 1498 segundo outros em
1505
A DECADÊNCIA
Da vida florescente do séc. XV e primeira metade do séc. XVI em que o
desenvolvimento agrícola, comercial, piscatório, cultural e religioso ainda hoje
se pode recordar em tantos vestígios que se espalham pela cidade: conventos,
igrejas, palácios, casas apalaçadas, fortalezas, etc os finais do séc. XVI, com
as modificações operadas na vida do reino, nomeadamente o abandono das praças do
Norte de África e o começo da colonização do Brasil trazem a ruína social e
económica ao burgo.
Houve neste findar do século uma intensa emigração dos tavirenses, quer dos
comerciantes quer dos artesãos, quer da gente fidalga, na procura de melhores
condições de vida.
Agora era a Índia mas sobretudo o Brasil que chamava a atenção das gentes.
O comércio foi-se reduzindo, a mão de obra escasseava, a barra ia-se assoreando
e o porto ficava abandonado. A população ficava reduzida aos frades e freiras
dos conventos e a alguns militares ... a população reduzia-se ao mínimo.
Desta situação se dá conta o prior que proferiu as palavras de boas-vindas ao
rei D. Sebastião a quando da visita que à cidade fez em 1573
"... não desmerece a Vossa Alteza erguer os seus olhos misericordiosos e pô-los
nela para que veja as quebras, faltas, ruínas e perdição que nela vai, que é
tanta que não enxergará Vossa Alteza mais que a pintura, obra e figura do que
antes foi..."
E a situação de desgraça ainda mais se agravou no tempo dos "filipes". Em 1609 a
vereação de Tavira em carta dirigida à capital do reino queixava-se que a cidade
tinha tanta ruína que mais parecia uma aldeia que uma cidade.
Neste período e pela inactividade do comércio marítimo agravado com o
assoreamento do rio, da ria e do porto, Tavira regressa à sua economia mais
tradicional: a agricultura do o figo e pouco mais ...
E como uma desgraça não vem só também outras calamidades desabaram sobre a
população. Umas vezes as pestes (1645/46, ) outras vezes os maus anos agrícolas
e a consequente fome ( 1521 ) e até uma praga de gafanhotos não faltou (1583).
A própria cultura e a pompa das festas religiosa quase desaparece. Mantêm-se com
alguma tradição as festas de Nossa Senhora das Angústias (que se celebrava no
sítio de S. Pedro) e das festas profanas mantinham-se os tradicionais festejos
de S.João.
Por isso foi com muita júbilo que o povo de Tavira recebeu a notícia da
Restauração de 1640 mas nem por isso a situação social e económica viria a
melhorar.
Muito embora Tavira tivesse sido um baluarte na defesa da independência
adquirida e D.João IV providenciasse a construção de mais uma defesa de
costa:(Fortaleza de S. João da Barra ou Baptista) (*) na povoação das
Cabanas/Conceição a prosperidade da era de quatrocentos e de quinhentos dá lugar
a uma evidente decadência que se prolonga até ao século XVIII.
O RENASCER
O reinado de D. José veio de alguma forma reanimar a vida económica e social de
Tavira, sem todavia se aproximar do prestígio alcançado nos anos de quatrocentos
e quinhentos.
Pese embora a catástrofe ocasionada pelo "terramoto" na fazenda das pessoas e
das instituições nomeadamente as religiosas com a reconstrução muito havia a
mudar.
E disso é prova a construção de mais alguns belos templos religiosos na cidade.
Em 1745 constrói-se a Igreja do Carmo e a própria Câmara abalança-se na
construção da Igreja de S. Sebastião na Atalaia.
Também e ainda em consequência do terramoto de 1755 que se fez sentir de modo
gravoso por todo o Algarve o Rei ordena que o Governador Militar passe a ter
residência permanente em Tavira indo instalar-se no Alto de Santana em
instalações que ainda há pouco eram o aquartelamento da PSP.
Pouco depois (1769) e por alvará real permite-se o aforamento dos sapais para
nelas se fazerem mais salinas e autoriza a venda livre do sal e extinguindo o
monopólio régio da extracção deste produto
O rei a política pombalina fez-se sentir no Algarve e em 1773 por alvará real de
15 de Janeiro reanima-se a pesca com a criação da companhia que se denominou de
Reais Pescarias.
Também há alguma animação no comércio marítimo que para além da tradicional
exportação de frutos secos agora vê aumentada com a venda de um produto
tintureiro -- a grã ou kermes -- esta semente era colhida em quantidade na serra
algarvia e daqui seguia com destino a Gibraltar, Marselha e Norte de África.
Até no campo da indústria Tavira conhece alguma animação pela concessão real
para o funcionamento de uma fábrica de lã e seda; é desta época (1776) também a
chegada de uma nova árvore à região: a amoreira que foi plantada com alguma
abundância para alimento do bicho da sêda.
Pela importância militar da cidade, aqui é construído em 1760 um Hospital
Militar que se instalou onde actualmente está a Messe de Oficiais e Sargentos,
no Largo do Cano.
Também nesta época Tavira vê surgir um novo e moderno aquartelamento (1795). É o
Quartel da Atalaia.
No século seguinte (XIX) o reino e o Algarve muito vão sofrer com as Invasões
Francesas. Na verdade as tropas napoleónicas pilham e destroiem tudo à passagem
sendo muitas vezes as próprias populações que têm de organizar a defesa como
aconteceu com o povo da Luz de Tavira que perseguiu soldados napoleónicos para
recuperar a custódia da igreja matriz o que viria a acontecer já perto de
Tavira.
Por cá as coisas não correram melhor e muito embora se tivessem mantido as mesmas
autoridades na cidade ainda hoje são visíveis as delapidações que fizeram nos
símbolos reais como é o caso das armas na Porta de D. Manuel, nas da Igreja da
Misericórdia, na entrada da fortaleza de S.João nas Cabanas e tantas outras.
E apesar de algumas vozes se ouvirem a favor da concórdia com os franceses a
verdade é que a população não se deixava subjugar e rebenta uma primeira revolta
popular em Olhão (1808) apoiada pelo povo de Tavira. E as milícias comandadas
pelo capitão Sebastião Martins Mestre navega a bordo de um caíque ao encontro de
tropas que rumavam em direcção a Faro e as aprisiona. Este mesmo capitão meses
antes (13 de Abril 1808) tinha retomado a fortaleza de S. João da Barra nas
Cabanas
Com estes exemplos heróicos todo o Algarve se levanta contra o estrangeiro numa
luta sem tréguas. Em Junho novo recontro das nossas milícias que em Quelfes fazem
debandar uma coluna francesa que vinha de Vila Real deixando na refrega 18
mortos e 10 feridos.
Este século tão atribulado para a vida nacional deixou marcas na vida dos
tavirenses.
Expulsas e derrotadas as tropas napoleónicas, a família real no Brasil, e o
reino nas mãos dos ingleses, a que se seguiu o período atribulado das Lutas
Liberais, não foi propício para as gentes de Tavira que de certo modo viviam
fechadas sobre si mesma, à sombra dos velhos privilégios. Estava decadente a
burguesia comercial e conservadora, e, arruinada a burguesia rural. De um modo
geral a população apoiava D. Miguel. O Regimento de Infantaria 14 de Tavira com
o regimento de Caçadores 4 de Castro Marim e com o apoio de Espanha sublevam-se.
Não apoia esta posição o Governador do Algarve, Conde de Alba.
D. Miguel com este apoio, proclama-se Rei Absoluto enquanto os Liberais
organizavam a resistência no norte.
Em 1826 os realistas algarvios pronunciam-se a favor de D. Miguel. Em Tavira e à
frente do Batalhão da cidade está o visconde de Molelos.
O Duque da Terceira em apoio do movimento liberal desembarca em Cacela. A
comandar a 2ª Brigada da Divisão Operacional vem o general tavirense António
Pedro de Brito Vilas-Boas (mais tarde Barão de Cacela) e derrota sem combate o
Visconde de Molelos no Almargem. Seguidamente dirige-se para Faro ocupa a cidade
e é nomeado Comandante do Algarve.
Com a Convenção de Évora Monte termina o conflito.