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(...) Além do mais, com o pretexto da exigência da curandeira, ele a
colocava dentro do engradado diariamente durante seis horas pelo menos, a fim de
que ela realizasse uma tarefa específica a que ele dava o nome de “recapitulação”.
(...) Explicou que a recapitulação é o ponto forte dos espreitadores, como
o corpo sonhador é o ponto forte dos sonhadores. Consistia em recordar sua vida
até os mínimos detalhes. Para isso seu benfeitor lhe tinha dado aquele
engradado como um instrumento e um símbolo. Era um instrumento que lhe permitia
aprender a se concentrar, pois tinha de se sentar lá durante anos até que toda
sua vida tivesse passado diante dos seus olhos. E era um símbolo dos estreitos
limites da nossa pessoa. Seu benfeitor lhe disse que quando terminasse a
recapitulação quebrasse o engradado para simbolizar que não mais mantinha as
limitações da sua pessoa.
Ela disse que os espreitadores usam engradados ou caixões de terra afim de
se trancarem dentro enquanto estão revivendo, mais que simplesmente
rememorando, todos os momentos de suas vidas. Os espreitadores devem recapitular
suas vidas completamente, porque a dádiva da Águia ao homem inclui a
disposição de aceitar uma conscientização substituta, em vez de verdadeira,
se tal substituição for uma réplica perfeita. Florinda explicou que como a
consciência é o alimento da Águia, ela pode se satisfazer com uma
recapitulação perfeita em lugar da consciência.
Florinda me deu então os fundamentos da recapitulação. Disse que o
primeiro estágio é um breve relato de todos os incidentes da nossa vida, que
se apresentam de uma maneira óbvia para exame.
O segundo estágio é uma recordação mais detalhada, que sistematicamente
vai desde a época anterior ao espreitador ter se sentado dentro do engradado, e
teoricamente se estende ao momento do nascimento.
Ela me assegurou que uma recapitulação perfeita pode mudar um guerreiro
tanto, se não mais, quanto o controle total do corpo sonhador. Nesse
particular, o sonho e a espreita têm a mesma finalidade, entrar na terceira
atenção. É importante, entretanto, que o guerreiro saiba e pratique os dois.
Disse que para a mulher há configurações diferentes do corpo luminoso para se
aperfeiçoar em uma ou em outra. Os homens, ao contrário, podem realizar os
dois com facilidade, mas ao mesmo tempo não podem nunca chegar ao grau de
eficiência que as mulheres atingem em cada arte.
Florinda explicou que o elemento-chave na recapitulação é a respiração.
Respirar para ela era uma mágica, por ser uma função que produz vida. Disse
que essa recordação é fácil se se consegue reduzir a área de estímulo em
volta do corpo. Por isso existia o engradado; a partir daí a respiração
produz memórias cada vez mais profundas. Teoricamente, os espreitadores têm de
se lembrar de cada sentimento que tiveram na vida, e esse processo se inicia com
uma respiração. Ela me avisou que o que estava me ensinando eram apenas
preliminares, que mais tarde, em condições diferentes, me ensinaria as
complexidades do processo.
Florinda disse que seu benfeitor lhe orientou a escrever uma lista de
acontecimentos a serem revividos. Falou que a técnica se iniciava com uma
respirada inicial. Os espreitadores começam com o queixo sobre o ombro direito
e lentamente inspiram à medida que viram a cabeça num ângulo de cento e
oitenta graus. A respirada termina no ombro esquerdo. Uma vez terminada a
inspiração, a cabeça volta a ficar relaxada. Eles expiram olhando para a
frente.
O espreitador então pega o primeiro acontecimento da lista e se concentra,
até que todos os sentimentos que nele se encerram tenham sido recontados.
Enquanto se lembram dos sentimentos que tiveram durante o acontecimento
recordado, inspiram lentamente, movendo a cabeça do ombro direito para o
esquerdo. A função desta respiração é restaurar energia. Florinda disse que
o corpo luminoso está constantemente criando filamentos semelhantes à teias de
aranha, que são projetados para fora da massa luminosa, impulsionados por
qualquer tipo de emoções. Portanto, cada situação de interação ou cada
situação que envolve sentimentos é potencialmente drenada para o corpo
luminoso. Respirando da direita para a esquerda enquanto se lembram de um
sentimento, os espreitadores, através da mágica da respiração, pegam os
filamentos que foram deixados para trás. A próxima respiração imediata é da
esquerda para a direita e é uma expiração. Com ela os espreitadores soltam os
filamentos deixados neles por outros corpos luminosos envolvidos no
acontecimento que está sendo recordado.
Ela declarou que essas eram as preliminares essenciais da espreita que todos
os membros do seu grupo tinham passado como introdução a exercícios mais
apurados da arte. Sem fazer os exercícios preliminares para recuperar os
filamentos deixados no mundo, e particularmente para desprezar o que os outros
deixaram neles, não há possibilidade de manipular a loucura controlada, pois
esses filamentos estranhos são a base da capacidade ilimitada de
auto-importância de uma pessoa. Para exercitar a loucura controlada, já que
ela não visa a enganar ou punir as pessoas ou se sentir superior a elas, tem-se
de ser capaz de rir de si próprio. Florinda disse que um dos resultados de uma
recapitulação detalhada é a graça de se ver face a face com a repetição
monótona da auto-estima de alguém, que está no cerne de toda interação
humana.
Ela enfatizou que o regulamento definia a espreita e o sonho como artes,
portanto, a serem representadas. Disse que a natureza produtora de vida da
respiração é também o que dá sua capacidade de limpeza. É essa capacidade
que faz da recapitulação uma questão prática.
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(...) Recordar não é o mesmo que relembrar - continuou. -
Relembrar é ditado pelo tipo de pensamento cotidiano, enquanto recordar é
ditado pelo movimento do ponto de aglutinação. Uma recapitulação de suas
vidas, que os feiticeiros fazem, é a chave para mover seus pontos de
aglutinação. Os feiticeiros começam sua recapitulação pensando, relembrando
os atos mais importantes de suas vidas. Após apenas pensar a respeito deles,
movem-se então para estar realmente no local do evento. Quando conseguem fazer
isso, estar no local do evento, foi porque moveram com sucesso seu ponto de
aglutinação ao lugar preciso onde estava quando o evento teve lugar trazer de
volta o evento toal por meio do ponto de aglutinação é conhecido como a
recordação dos feiticeiros.
Olhou para mim por um instante, como se tentando assegurar-se
de que eu estava escutando.
- Nossos pontos de aglutinação estão constantemente se
movendo, movimentos imperceptíveis. Os feiticeiros acreditam que, para fazer
seus pontos de aglutinação se moverem a pontos precisos, devemos empenhar
por intento. Uma vez que não há maneira de saber o que é o intento, os
feiticeiros deixam que seus olhos o chamem. (...)
Páginas 166, 167, 168, 169, 170, 206, 207.
(...) - Você não está verdadeiramente pronto para fundir sua realidade de
sonho com sua realidade cotidiana. Precisa recapitular mais a sua vida.
- Mas eu já fiz toda a recapitulação possível - protestei. - Venho
recapitulando há anos. Não há mais nada que eu possa lembrar sobre
minha vida.
- Deve haver muito mais - ele disse, inflexível. - de outro modo não
acordaria gritando.
Não gostei da idéia de ter de recapitular outra vez. Eu tinha feito isso, e
acreditava que fizera tão bem que não precisaria nunca mais tocar no assunto.
- A recapitulação de nossa vida não termina nunca, não importa que
tenhamos recapitulado direito - disse Don Juan. - o motivo das pessoas
comuns não terem vontade própria nos sonhos é nunca terem recapitulado,
e suas vidas ficam cheias até a borda de emoções como lembranças,
esperanças, medos etc., etc.
“Os feiticeiros, por outro lado, são relativamente livres de emoções
pesadas e opressivas, por causa da recapitulação. E se alguma coisa faz
com que eles fiquem bloqueados, como está acontecendo com você, a
suposição é que ainda existe alguma coisa neles que não está
suficientemente clara.
- Recapitular é um negócio envolvente demais, Don Juan. Talvez exista
outra coisa que eu possa fazer.
- -Não, não existe. Recapitular e sonhar andam lado a lado. À medida
que regurgitamos nossas vidas nós ficamos mais e mais leves.
Don Juan me dera instruções detalhadas e explícitas sobre a
recapitulação. Consistia em reviver a totalidade das experiências de vida
lembrando-se de cada detalhe possível. Ele via a recapitulação como fator
essencial na redefinição e reestruturação da energia do sonhador.
- A recapitulação liberta a energia aprisionada dentro de nós, e sem
essa energia liberada o sonhar não é possível.
Anos antes Don Juan me levara a fazer uma lista de todas as pessoas que
conhecera na vida, começando no presente. Ele me ajudou a arrumar a lista de
modo ordenado, separando-a por áreas de atividade, como os empregos que eu
tivera, as escolas onde estudara. Em seguida guiou-me para ir, sem qualquer
desvio, da primeira pessoa em minha lista até a última, revivendo cada uma das
interações que eu tivera com elas.
Explicou que a recapitulação de um evento começa com a m,ente arrumando
tudo que tem a ver com o que está sendo recapitulado. Arrumar significa
reconstruir o evento, peça por peça, começando pela lembrança dos detalhes
físicos ao redor, e em seguida passando à pessoa com quem compartilhamos a
interação, e em seguida para nós mesmos; para o exame de nosso sentimentos.
Don Juan me ensinou que a recapitulação é realizada junto com uma
respiração natural e rítmica. São feitas longas expirações enquanto a
cabeça se move devagar e suavemente da direita para a esquerda; e são tomadas
longas inalações quando a cabeça se move da esquerda para a direita. Ele
chamava de “arejar o evento”, esse ato de mover a cabeça de um lado para o
outro. A mente examina o evento do princípio ao fim, enquanto o corpo ventila
tudo em que a mente se concentra.
Don Juan disse que os feiticeiros da antiguidade, os inventores da
recapitulação, viam a respiração como um ato mágico, vivificante, e
usavam-na como um veículo de magia; a expiração era usada para ejetar a
energia estranha deixada neles enquanto a interação era recapitulada, e a
inalação servia para recuperar a energia que eles tinham deixado para trás
durante a interação.
Devido aos meus estudos acadêmicos tomei a recapitulação como o processo
de analisar a própria vida. Mas Don Juan insistiu que havia mais coisa
envolvida do que uma psicanálise intelectual. Ele postulava a recapitulação
como uma manobra dos feiticeiros para induzir um deslocamento minúsculo, porém
firme, do ponto de aglutinação. Disse que, sob o impacto de rever sentimentos
e ações do passado, o ponto de aglutinação fica indo e voltando do
posicionamento atual para o que ele ocupava quando aconteceu o evento que está
sendo recapitulado.
Don Juan afirmava que o raciocínio dos feiticeiros antigos, para explicar a
recapitulação, era sua convicção de que existe uma inconcebível força de
dissolução no universo, que faz os organismos viverem emprestando-lhes
consciência. A mesma força também faz os organismos morrerem, para extrair
deles a mesma consciência emprestada, que os organismos aprimoraram através de
suas experiências de vida. Don Juan explicou o raciocínio dos feiticeiros
antigos. Eles acreditavam que, como essa força estava atrás de nossa experiência
de vida, era de supre importância o fato de que ela poderia se satisfazer com
um fac-símile de nossa experiência de vida: a recapitulação. Ao receber o
que deseja, a força de dissolução deixa os feiticeiros livres para expandir
sua capacidade de perceber e de chegar com ela aos confins do tempo e do
espaço.
Quando comecei a recapitular de novo tive a grande surpresa de ver meus
treinamentos de sonhar suspensos automaticamente. Perguntei a Don Juan sobre
esse recesso indesejado.
- o sonhar exige toda a energia disponível - respondeu ele. - se
houver uma preocupação profunda em sua vida, não existe possibilidade
de sonhar.
- Mas eu já estive profundamente preocupado antes, e meus treinamentos
nunca se interromperam.
- Pode ser então que, toda vez que você achou que estava preocupado,
estivesse apenas egomaniacamente perturbado - ele disse rindo. - para os
feiticeiros, estar preocupado significa que todas as nossas fontes de
energia foram utilizadas. Essa é a primeira vez que você envolve a
totalidade de suas fontes de energia. No resto do tempo, mesmo quando
recapitulou antes, você não estava completamente absorvido.
Dessa vez Don Juan me deu um outro padrão de recapitulação. Eu deveria
construir um quebra-cabeça recapitulando, sem qualquer ordem, recapitulando
diferentes fatos de minha vida.
- Mas vai ser uma confusão - protestei.
- Não, não vai - ele assegurou. - será uma confusão se você deixar
sua mesquinharia escolher os eventos a serem recapitulados. Em vez disso
deixe o espírito decidir. Silencie, e em seguida vá até o evento que o
espírito escolher.
Os resultados desse padrão de recapitulação foram chocantes em muitos
níveis. Achei impressionante descobrir que, toda vez que silenciava meus
pensamentos, uma força que parecia independente lançava-me de imediato numa
lembrança detalhada de algum evento da minha vida. Mas foi ainda mais
impressionante descobrir que aquilo resultava de uma configuração bastante
ordenada. O que imaginei que seria caótico acabou mostrando-se extremamente
eficaz.
Perguntei a Don Juan porque ele não me fizera recapitular daquele jeito
desde o início. Ele respondeu que existem dois ciclos básicos para a
recapitulação: o primeiro era chamado de formalidade e rigidez, e o segundo de
fluidez.
Eu não tinha a menor idéia de como minha recapitulação seria diferente. A
capacidade de concentração, que eu adquirira através dos treinamentos de
sonhar, permitiu-me examinar minha vida numa profundidade que nunca imaginaria
possível. Demorei mais de um ano para ver e rever tudo que podia sobre minhas
experiências. No final precisei concordar com Don Juan: eu tinha uma imensidão
de emoções escondidas tão profundamente a ponto de se tornarem virtualmente
inacessíveis.
O resultado de minha nova recapitulação foi uma atitude nova e mais
relaxada. No primeiro dia em que voltei aos exercícios de sonhar eu sonhei que
me vi dormindo. Vieri-me e saí ousadamente do quarto, descendo penosamente um
lance de escadas até a rua. (...)
(...) Don Juan explicou que o uso da consciência como um elemento
energético do universo era a essência da feitiçaria; que em termos práticos
a trajetória da feitiçaria era, primeiro, libertar a energia existente em nós
(através da recapitulação)* e seguindo implacavelmente o caminho dos
feiticeiros; segundo, usar essa energia para desenvolver o corpo energético
através do sonhar; e terceiro, usar a consciência como um elemento do ambiente
para entrar com o corpo energético e toda a nossa fisicalidade em outros
mundos.
* Esta parte somente existe na versão espanhola, e não na brasileria, é
necessário checar o original em inglês.
-Ya es tiempo que empieces uno de los proyectos mayores de la
brujería -dijo don Juan.
-¿A qué proyecto de la brujería se refiere usted, don
Juan? -le pregunté.
-Se llama la recapitulación -me dijo-. Los antiguos
chamanes lo llamaban hacer el recuento de los sucesos de tu vida y para
ellos empezó como una técnica sencilla, una estratagema para ayudarles a
recordar lo que estaban haciendo y diciendo a sus discípulos. Para sus
discípulos, la técnica tuvo el mismo valor; les ayudaba a recordar lo que les
habían dicho y hecho sus maestros. Tuvieron que pasar por terribles trastornos
sociales, como ser conquistados y vencidos varias veces, antes de que los
antiguos chamanes se dieran cuenta de que su técnica tenía mayor alcance.
-¿Se refiere usted, don Juan, a la conquista española? -le
pregunté.
-No -me dijo-. Eso fue sólo el golpe de gracia. Antes hubo
trastornos más devastadores. Cuando llegaron los españoles, los antiguos
chamanes ya no existían. Ya para entonces, los discípulos de aquellos que
habían sobrevivido otros trastornos, se habían vuelto muy cautelosos.
Sabían cuidarse. Fue ese nuevo grupo de chamanes el que le dio el nombre
nuevo de recapitulación a la técnica de los antiguos chamanes.
»El tiempo tiene un enorme valor -continuó-. Para los
chamanes en general, el tiempo es esencial. El desafío que tengo ante mí, es
que dentro de una unidad muy compacta de tiempo tengo que atestarte con todo lo
que hay que saber de la brujería como una proposición abstracta, pero para
hacer eso tengo que construir en ti el espacio debido.
-¿Qué espacio? ¿De qué me habla usted, don Juan?
-La premisa de los chamanes es que para llenar algo, hay que
crear un espacio donde ubicarlo -me dijo-. Si estás repleto de todos los
detalles de la vida cotidiana, no hay espacio para nada nuevo. Ese espacio hay
que construirlo. ¿Comprendes? Los antiguos chamanes creían que la recapitulación
de tu vida creaba ese espacio. Lo crea y mucho más, por supuesto.
»Los chamanes llevan a cabo la recapitulación de una
manera muy formal -continuó-. Consiste en escribir una lista de todas las
personas que han conocido, desde el presente hasta el mismo principio de la
vida. Una vez que hicieron esa lista, toman a la primera persona que aparece y
recuerdan todo lo que pueden acerca de esa persona. Y quiero decir todo; cada
detalle. Es mejor recapitular desde el presente hacia el pasado porque los
recuerdos del presente están vivos, y de esa manera, la habilidad para recordar
se afila. Lo que hacen los practicantes es recordar y respirar. Inhalan lenta
y deliberadamente, abanicando la cabeza de derecha a izquierda, en un vaivén
casi imperceptible, y exhalan de la misma manera.
Dijo que las inhalaciones y las exhalaciones deben ser
naturales; si son demasiado rápidas, uno podría entrar en algo que se llama respiraciones
fatigantes: respiraciones que requerirían respiraciones más lentas después,
para calmar los músculos.
-¿Y qué quiere que haga con todo esto, don Juan? -le
pregunté.
-Empiezas a hacer tu lista ahora mismo -dijo-. Divídela por
años, por trabajos, arréglala en el orden que quieras, pero hazla secuencial,
con la persona más reciente al principio, y termina con Mami y Papi. Y luego,
recuerda todo acerca de ellos. Sin más ni más. Al practicar, te vas a dar
cuenta de lo que estás haciendo.
Durante mi siguiente visita a su casa, le dije a don Juan que
había estado repasando todos los sucesos de mi vida meticulosamente, y que era
muy difícil adherirme a su formato estricto y seguir mi lista de personas una
por una. Generalmente, mi recapitulación me llevaba por uno y otro
camino. Dejaba que los sucesos decidieran la vertiente de mi recuerdo. Lo que
hacía, que era volitivo, era adherirme a una unidad general del tiempo. Por
ejemplo, había empezado con la gente del departamento de antropología, pero
dejaba que mis recuerdos me llevaran a cualquier momento, empezando con el
presente y retrocediendo en el tiempo hasta el día en que empecé a asistir a
UCLA.
Le dije a don Juan que había descubierto algo muy curioso
que había olvidado por completo, y era que no tenía yo idea alguna de que
existía UCLA, hasta que una noche vino a Los Ángeles la que había sido
compañera de cuarto de mi novia en la universidad y fuimos al aeropuerto por
ella. Iba a estudiar musicología en UCLA. Su avión llegó ya entrada la tarde
y me pidió que la llevara a la ciudad universitaria para poder echarle un
vistazo al lugar donde iba pasar los próximos cuatro años de su vida. Yo
sabía dónde estaba porque había pasado delante de la entrada en el Boulevard
de Sunset interminables veces camino de la playa. Sin embargo, nunca había
entrado.
Estaban entre semestres. La poca gente que encontramos nos
dirigió al departamento de música. El campo universitario estaba vacío, pero
lo que atestigüé subjetivamente fue la cosa más exquisita que jamás he
visto. Fue un deleite para mis ojos. Los edificios parecían estar vivos de su
propia energía. Lo que iba ser una visita superficial al departamento de
música, se convirtió en un recorrido gigantesco por toda la universidad. Me
enamoré de UCLA. Le comenté a don Juan que la única cosa que me aguó la
fiesta fue el enojo de mi novia cuando insistí que camináramos alrededor de
toda la ciudad universitaria.
-¿Qué demonios puede haber aquí? -me gritó en tono de
protesta-. Es como si nunca hubieras visto una ciudad universitaria en tu vida.
Si has visto una, las has visto todas. ¡Lo que pasa es que estás tratando de
impresionar a mi amiga con tu sensibilidad!
Pero no era el caso, y con vehemencia les dije que estaba
genuinamente impresionado por la belleza que me rodeaba. Sentía tanta esperanza
en esos edificios, tanta promesa, y sin embargo no podía expresar mi estado
subjetivo.
-¡He asistido a la escuela casi toda mi vida! -dijo mi novia
entre dientes-. ¡Y estoy harta y cansada! ¡Nadie va a encontrar ni mierda
aquí! No son más que cuentos y ni siquiera te preparan para enfrentarte a las
responsabilidades de la vida.
Cuando dije que quería estudiar allí, se puso aún más
fúrica.
-¡Ponte a trabajar! -me gritó-. ¡Ve y enfréntate a la
vida de ocho a cinco y déjate de mierdas! ¡Eso es lo que es la vida: trabajar
de ocho a cinco, cuarenta horas por semana! ¡Mira el resultado! Mírame a mí:
estoy super-educada y no estoy preparada para un
empleo.
Lo único que yo sabía es que nunca había visto un lugar
tan bello. Hice la promesa que iría a estudiar a UCLA, no importaba cómo,
pasara lo que pasara, contra viento y marea. Mi deseo tenía todo que ver
conmigo y a la vez, no estaba impulsado por una necesidad de gratificación
inmediata. Era más bien una cuestión en el reino del asombro.
Le dije a don Juan que el enojo de mi novia me había
sacudido tanto que empecé a verla de manera distinta, y que según mi recuerdo,
fue la primera vez que un comentario había suscitado en mí tan fuerte
reacción. Vi facetas de carácter en mi novia que no había visto anteriormente,
facetas que me llenaron de un miedo espantoso.
-Creo que la juzgué muy mal -le dije a don Juan-. Después
de nuestra visita a la universidad, nos fuimos distanciando. Era como si UCLA
nos hubiera dividido. Yo sé que es absurdo pensar así.
-No es absurdo -dijo don Juan-. Es una reacción totalmente
válida. Mientras caminabas por la universidad, estoy seguro de que tuviste un
encuentro con el intento. Hiciste el intento de estar allí, y
tenías que soltarte de cualquier cosa que se te opusiera.
»Pero no exageres -prosiguió-. El toque del guerrero-viajero
es muy ligero, aunque muy cultivado. La mano del guerrero-viajero empieza
como una mano de hierro, pesada y apretada, pero se convierte en la mano de un
duende, una mano de telaraña. Los guerreros-viajeros no dejan señas
ni huellas. Ése es el desafío del guerrero-viajero.
Los comentarios de don Juan me hicieron caer en un profundo
estado taciturno de recriminaciones contra mí mismo. Sabía, a través de lo
poco que había recordado, que yo era de mano pesada en extremo, obsesivo y dominante.
Le comenté mis reflexiones a don Juan.
-El poder de la recapitulación -dijo don Juan- es que
revuelve todo el desperdicio de nuestras vidas y lo hace salir a la superficie.
Entonces don Juan delineó las complejidades de la conciencia
y de la percepción, que eran la base de la recapitulación. Empezó por
decir que iba a presentar un arreglo de conceptos que bajo ninguna condición
debía tomar como teorías chamánicas, porque era un arreglo formulado por los
chamanes del México antiguo como resultado de ver energía directamente
como fluye en el universo. Me advirtió que me iba a presentar las unidades de
este arreglo sin ninguna tentativa de clasificarlas o de colocarlas según una
norma predeterminada.
-No estoy interesado en clasificaciones -prosiguió-. Has
estado clasificando todo a lo largo de tu vida. Ahora, por fuerza, vas a
alejarte de las clasificaciones. El otro día, cuando te pregunté si sabías
algo acerca de las nubes, me diste los nombres de todas las nubes y el porcentaje
de humedad que se debe esperar de cada una de ellas. Eras un verdadero
meteorólogo. Pero cuando te pregunté si sabías qué podías hacer
personalmente con las nubes, no tenías idea de lo que estaba hablando.
»Las clasificaciones tienen su mundo propio -continuó-.
Después de que empiezas a clasificar cualquier cosa, la clasificación adquiere
vida propia y te domina. Pero como las clasificaciones nunca empezaron como
asuntos que dan energía, siempre se quedan como troncos muertos. No son
árboles; son sencillamente troncos.
Me explicó que los chamanes del México antiguo vieron que
el universo en general está compuesto de campos de energía bajo la forma de
filamentos luminosos. Vieron billones por donde fuera que vieran.
También vieron que estos campos de energía se configuran en
corrientes de fibras luminosas, torrentes que son fuerzas constantes, perennes
en el universo; y la corriente o torrente de filamentos que se relaciona con
la recapitulación, fue nombrada por aquellos chamanes el oscuro mar
de la conciencia, y también el Águila.
Declaró que los chamanes también descubrieron que cada
criatura del universo está atada al oscuro mar de la conciencia por un
punto redondo de luminosidad que era aparente cuando esas criaturas eran
percibidas como energía. Don Juan dijo que sobre ese punto de luminosidad,
que los chamanes del México antiguo llamaron el punto de encaje, la
percepción se encaja a través de un aspecto misterioso del oscuro mar de la
conciencia.
Sostuvo que bajo la forma de filamentos luminosos, billones
de campos energéticos del universo en general convergen y atraviesan el punto
de encaje de los seres humanos. Estos campos energéticos se convierten en data
sensorial, y esta data sensorial se interpreta y es
percibida como el mundo que conocemos. Don Juan siguió explicando que lo que
convierte las fibras luminosas en data sensorial
es el oscuro mar de la conciencia. Los chamanes ven esta
transformación y la llaman el resplandor de la conciencia, un brillo que
se extiende como nimbo alrededor del punto de encaje. Me advirtió que
iba a hacer una declaración que, según los chamanes, era central para
comprender el alcance de la recapitulación.
Dando enorme énfasis a sus palabras, dijo que lo que en los
organismos llamamos sentidos no son más que grados de conciencia.
Mantuvo que si aceptamos que los sentidos son el oscuro mar de la conciencia,
tenemos que admitir que la interpretación que los sentidos hacen de la data
sensorial es también el oscuro mar de la conciencia. Me explicó con
gran detalle, que el enfrentar el mundo que nos rodea bajo las condiciones que
lo hacemos es el resultado del sistema de interpretación de la humanidad, con
el cual todo ser humano está provisto. También dijo que todo organismo que
existe debe tener un sistema de interpretación que le permita funcionar en su
medio.
-Los chamanes que vinieron después de las agitaciones
apocalípticas que te contaba -continuó-, vieron que al momento de la
muerte el oscuro mar de la conciencia tragaba, por decirlo así, la
conciencia de las criaturas vivas a través del punto de encaje. También
vieron que el oscuro mar de la conciencia tenía un momento de,
digamos, vacilación al enfrentarse con chamanes que habían hecho un recuento
de sus vidas. Sin saberlo, algunos habían hecho ese recuento tan
minuciosamente, que el oscuro mar de la conciencia tomaba la conciencia
de sus experiencias de vida; pero no tocaba su fuerza vital. Los chamanes
habían descubierto una verdad gigantesca acerca de las fuerzas del universo:
El oscuro mar de la conciencia sólo quiere nuestras experiencias de
vida, no nuestra fuerza vital.
Las premisas de la declaración de don Juan me eran
incomprensibles. O quizá sería más acertado decir que reconocía vagamente y
a la vez profundamente, cuán funcionales eran las premisas de su explicación.
-Los chamanes creen -prosiguió don Juan- que al recapitular
nuestras vidas toda la basura, como te dije, sale a superficie. Nos damos
cuenta de nuestras contradicciones, nuestras repeticiones, pero algo en nosotros
se resiste tremendamente a la recapitulación. Los chamanes dicen que el
camino queda libre sólo después de una agitación gigantesca, después de que
aparece en la pantalla el recuerdo de un suceso que nos sacude hasta los
cimientos con una claridad de detalles terrorífica. Es el suceso que nos
arrastra hasta el momento real en que lo vivimos. Los chamanes llaman a ese
suceso el acomodador, porque desde ese momento cada suceso que tocamos,
no sólo se recuerda sino que se vuelve a vivir.
-Caminar precipita los recuerdos -dijo don Juan-. Los
chamanes del México antiguo creían que todo lo que vivimos queda guardado como
sensación en la parte trasera de las piernas. Consideraban la parte trasera
de las piernas como el almacén de la historia personal del hombre. Así es
que vamos a hacer una caminata en las colinas.
Caminamos casi hasta que oscureció.
-Creo -dijo don Juan cuando ya estábamos en la casa- que te
he hecho caminar lo suficiente para prepararte para esa maniobra de chamanes
de encontrar un acomodador, un suceso en tu vida que recordarás con
tanta claridad que va a servir de faro para iluminar todo lo demás en tu recapitulación
con igual o similar claridad. Haz lo que los chamanes llaman recapitular
las piezas de un rompecabezas. Algo que te va a conducir a recordar el
suceso que te servirá de acomodador.
Me dejó solo, dándome una última advertencia.
-Dale lo mejor que tienes -dijo- Dale lo máximo.(...)
(...)-La recapitulación contiene una opción
secreta-dijo don Juan-. Tal como te dije que la muerte contiene una opción
secreta, una opción que sólo los chamanes utilizan. En el caso de la muerte,
la opción secreta es que los seres humanos pueden retener su fuerza vital y
renunciar solamente a su consciencia, el resultado de sus vidas. En el caso de
la recapitulación, la opción secreta que sólo los chamanes eligen es
la de acrecentar sus verdaderas mentes.
»La inquietante memoria de tus recuerdos -prosiguió-
sólo puede venir de tu mente verdadera. La otra mente que todos tenemos y
compartimos es, diría yo, un modelo barato; económico, de igual tamaño para
todos. Pero éste es un tema para más tarde. Lo que ahora tenemos delante es
el principio de una fuerza desintegrante. Pero no es una fuerza que te está
desintegrando, no quiero decir eso. Está desintegrando lo que los chamanes
llaman la instalación foránea que existe en ti y en cada ser humano. El
efecto de la fuerza que se te viene encima, que está desintegrando la instalación
foránea, es que saca a los chamanes de su sintaxis.
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