Home  | Tensegridade  |  Recapitulação  | Sonho  |  Espreita  |  Letras  |  Contato  |  Links

 

Recapitulação

Trechos das obras de Carlos Castaneda

  • O Presente da Águia

Páginas: 227, 228, 229, 230.

(...) Além do mais, com o pretexto da exigência da curandeira, ele a colocava dentro do engradado diariamente durante seis horas pelo menos, a fim de que ela realizasse uma tarefa específica a que ele dava o nome de “recapitulação”.

(...) Explicou que a recapitulação é o ponto forte dos espreitadores, como o corpo sonhador é o ponto forte dos sonhadores. Consistia em recordar sua vida até os mínimos detalhes. Para isso seu benfeitor lhe tinha dado aquele engradado como um instrumento e um símbolo. Era um instrumento que lhe permitia aprender a se concentrar, pois tinha de se sentar lá durante anos até que toda sua vida tivesse passado diante dos seus olhos. E era um símbolo dos estreitos limites da nossa pessoa. Seu benfeitor lhe disse que quando terminasse a recapitulação quebrasse o engradado para simbolizar que não mais mantinha as limitações da sua pessoa.

Ela disse que os espreitadores usam engradados ou caixões de terra afim de se trancarem dentro enquanto estão revivendo, mais que simplesmente rememorando, todos os momentos de suas vidas. Os espreitadores devem recapitular suas vidas completamente, porque a dádiva da Águia ao homem inclui a disposição de aceitar uma conscientização substituta, em vez de verdadeira, se tal substituição for uma réplica perfeita. Florinda explicou que como a consciência é o alimento da Águia, ela pode se satisfazer com uma recapitulação perfeita em lugar da consciência.

Florinda me deu então os fundamentos da recapitulação. Disse que o primeiro estágio é um breve relato de todos os incidentes da nossa vida, que se apresentam de uma maneira óbvia para exame.

O segundo estágio é uma recordação mais detalhada, que sistematicamente vai desde a época anterior ao espreitador ter se sentado dentro do engradado, e teoricamente se estende ao momento do nascimento.

Ela me assegurou que uma recapitulação perfeita pode mudar um guerreiro tanto, se não mais, quanto o controle total do corpo sonhador. Nesse particular, o sonho e a espreita têm a mesma finalidade, entrar na terceira atenção. É importante, entretanto, que o guerreiro saiba e pratique os dois. Disse que para a mulher há configurações diferentes do corpo luminoso para se aperfeiçoar em uma ou em outra. Os homens, ao contrário, podem realizar os dois com facilidade, mas ao mesmo tempo não podem nunca chegar ao grau de eficiência que as mulheres atingem em cada arte.

Florinda explicou que o elemento-chave na recapitulação é a respiração. Respirar para ela era uma mágica, por ser uma função que produz vida. Disse que essa recordação é fácil se se consegue reduzir a área de estímulo em volta do corpo. Por isso existia o engradado; a partir daí a respiração produz memórias cada vez mais profundas. Teoricamente, os espreitadores têm de se lembrar de cada sentimento que tiveram na vida, e esse processo se inicia com uma respiração. Ela me avisou que o que estava me ensinando eram apenas preliminares, que mais tarde, em condições diferentes, me ensinaria as complexidades do processo.

Florinda disse que seu benfeitor lhe orientou a escrever uma lista de acontecimentos a serem revividos. Falou que a técnica se iniciava com uma respirada inicial. Os espreitadores começam com o queixo sobre o ombro direito e lentamente inspiram à medida que viram a cabeça num ângulo de cento e oitenta graus. A respirada termina no ombro esquerdo. Uma vez terminada a inspiração, a cabeça volta a ficar relaxada. Eles expiram olhando para a frente.

O espreitador então pega o primeiro acontecimento da lista e se concentra, até que todos os sentimentos que nele se encerram tenham sido recontados. Enquanto se lembram dos sentimentos que tiveram durante o acontecimento recordado, inspiram lentamente, movendo a cabeça do ombro direito para o esquerdo. A função desta respiração é restaurar energia. Florinda disse que o corpo luminoso está constantemente criando filamentos semelhantes à teias de aranha, que são projetados para fora da massa luminosa, impulsionados por qualquer tipo de emoções. Portanto, cada situação de interação ou cada situação que envolve sentimentos é potencialmente drenada para o corpo luminoso. Respirando da direita para a esquerda enquanto se lembram de um sentimento, os espreitadores, através da mágica da respiração, pegam os filamentos que foram deixados para trás. A próxima respiração imediata é da esquerda para a direita e é uma expiração. Com ela os espreitadores soltam os filamentos deixados neles por outros corpos luminosos envolvidos no acontecimento que está sendo recordado.

Ela declarou que essas eram as preliminares essenciais da espreita que todos os membros do seu grupo tinham passado como introdução a exercícios mais apurados da arte. Sem fazer os exercícios preliminares para recuperar os filamentos deixados no mundo, e particularmente para desprezar o que os outros deixaram neles, não há possibilidade de manipular a loucura controlada, pois esses filamentos estranhos são a base da capacidade ilimitada de auto-importância de uma pessoa. Para exercitar a loucura controlada, já que ela não visa a enganar ou punir as pessoas ou se sentir superior a elas, tem-se de ser capaz de rir de si próprio. Florinda disse que um dos resultados de uma recapitulação detalhada é a graça de se ver face a face com a repetição monótona da auto-estima de alguém, que está no cerne de toda interação humana.

Ela enfatizou que o regulamento definia a espreita e o sonho como artes, portanto, a serem representadas. Disse que a natureza produtora de vida da respiração é também o que dá sua capacidade de limpeza. É essa capacidade que faz da recapitulação uma questão prática.

 

  • O Poder do Silêncio

Páginas: 129 e 130.

(...) Recordar não é o mesmo que relembrar - continuou. - Relembrar é ditado pelo tipo de pensamento cotidiano, enquanto recordar é ditado pelo movimento do ponto de aglutinação. Uma recapitulação de suas vidas, que os feiticeiros fazem, é a chave para mover seus pontos de aglutinação. Os feiticeiros começam sua recapitulação pensando, relembrando os atos mais importantes de suas vidas. Após apenas pensar a respeito deles, movem-se então para estar realmente no local do evento. Quando conseguem fazer isso, estar no local do evento, foi porque moveram com sucesso seu ponto de aglutinação ao lugar preciso onde estava quando o evento teve lugar trazer de volta o evento toal por meio do ponto de aglutinação é conhecido como a recordação dos feiticeiros.

Olhou para mim por um instante, como se tentando assegurar-se de que eu estava escutando.

- Nossos pontos de aglutinação estão constantemente se movendo, movimentos imperceptíveis. Os feiticeiros acreditam que, para fazer seus pontos de aglutinação se moverem a pontos precisos, devemos empenhar por intento. Uma vez que não há maneira de saber o que é o intento, os feiticeiros deixam que seus olhos o chamem. (...)

 

  • A Arte do Sonhar

Páginas 166, 167, 168, 169, 170, 206, 207.

(...) - Você não está verdadeiramente pronto para fundir sua realidade de sonho com sua realidade cotidiana. Precisa recapitular mais a sua vida.

- Mas eu já fiz toda a recapitulação possível - protestei. - Venho recapitulando há anos. Não há mais nada que eu possa lembrar sobre minha vida.

- Deve haver muito mais - ele disse, inflexível. - de outro modo não acordaria gritando.

Não gostei da idéia de ter de recapitular outra vez. Eu tinha feito isso, e acreditava que fizera tão bem que não precisaria nunca mais tocar no assunto.

- A recapitulação de nossa vida não termina nunca, não importa que tenhamos recapitulado direito - disse Don Juan. - o motivo das pessoas comuns não terem vontade própria nos sonhos é nunca terem recapitulado, e suas vidas ficam cheias até a borda de emoções como lembranças, esperanças, medos etc., etc.

“Os feiticeiros, por outro lado, são relativamente livres de emoções pesadas e opressivas, por causa da recapitulação. E se alguma coisa faz com que eles fiquem bloqueados, como está acontecendo com você, a suposição é que ainda existe alguma coisa neles que não está suficientemente clara.

- Recapitular é um negócio envolvente demais, Don Juan. Talvez exista outra coisa que eu possa fazer.

- -Não, não existe. Recapitular e sonhar andam lado a lado. À medida que regurgitamos nossas vidas nós ficamos mais e mais leves.

Don Juan me dera instruções detalhadas e explícitas sobre a recapitulação. Consistia em reviver a totalidade das experiências de vida lembrando-se de cada detalhe possível. Ele via a recapitulação como fator essencial na redefinição e reestruturação da energia do sonhador.

- A recapitulação liberta a energia aprisionada dentro de nós, e sem essa energia liberada o sonhar não é possível.

Anos antes Don Juan me levara a fazer uma lista de todas as pessoas que conhecera na vida, começando no presente. Ele me ajudou a arrumar a lista de modo ordenado, separando-a por áreas de atividade, como os empregos que eu tivera, as escolas onde estudara. Em seguida guiou-me para ir, sem qualquer desvio, da primeira pessoa em minha lista até a última, revivendo cada uma das interações que eu tivera com elas.

Explicou que a recapitulação de um evento começa com a m,ente arrumando tudo que tem a ver com o que está sendo recapitulado. Arrumar significa reconstruir o evento, peça por peça, começando pela lembrança dos detalhes físicos ao redor, e em seguida passando à pessoa com quem compartilhamos a interação, e em seguida para nós mesmos; para o exame de nosso sentimentos.

Don Juan me ensinou que a recapitulação é realizada junto com uma respiração natural e rítmica. São feitas longas expirações enquanto a cabeça se move devagar e suavemente da direita para a esquerda; e são tomadas longas inalações quando a cabeça se move da esquerda para a direita. Ele chamava de “arejar o evento”, esse ato de mover a cabeça de um lado para o outro. A mente examina o evento do princípio ao fim, enquanto o corpo ventila tudo em que a mente se concentra.

Don Juan disse que os feiticeiros da antiguidade, os inventores da recapitulação, viam a respiração como um ato mágico, vivificante, e usavam-na como um veículo de magia; a expiração era usada para ejetar a energia estranha deixada neles enquanto a interação era recapitulada, e a inalação servia para recuperar a energia que eles tinham deixado para trás durante a interação.

Devido aos meus estudos acadêmicos tomei a recapitulação como o processo de analisar a própria vida. Mas Don Juan insistiu que havia mais coisa envolvida do que uma psicanálise intelectual. Ele postulava a recapitulação como uma manobra dos feiticeiros para induzir um deslocamento minúsculo, porém firme, do ponto de aglutinação. Disse que, sob o impacto de rever sentimentos e ações do passado, o ponto de aglutinação fica indo e voltando do posicionamento atual para o que ele ocupava quando aconteceu o evento que está sendo recapitulado.

Don Juan afirmava que o raciocínio dos feiticeiros antigos, para explicar a recapitulação, era sua convicção de que existe uma inconcebível força de dissolução no universo, que faz os organismos viverem emprestando-lhes consciência. A mesma força também faz os organismos morrerem, para extrair deles a mesma consciência emprestada, que os organismos aprimoraram através de suas experiências de vida. Don Juan explicou o raciocínio dos feiticeiros antigos. Eles acreditavam que, como essa força estava atrás de nossa experiência de vida, era de supre importância o fato de que ela poderia se satisfazer com um fac-símile de nossa experiência de vida: a recapitulação. Ao receber o que deseja, a força de dissolução deixa os feiticeiros livres para expandir sua capacidade de perceber e de chegar com ela aos confins do tempo e do espaço.

Quando comecei a recapitular de novo tive a grande surpresa de ver meus treinamentos de sonhar suspensos automaticamente. Perguntei a Don Juan sobre esse recesso indesejado.

- o sonhar exige toda a energia disponível - respondeu ele. - se houver uma preocupação profunda em sua vida, não existe possibilidade de sonhar.

- Mas eu já estive profundamente preocupado antes, e meus treinamentos nunca se interromperam.

- Pode ser então que, toda vez que você achou que estava preocupado, estivesse apenas egomaniacamente perturbado - ele disse rindo. - para os feiticeiros, estar preocupado significa que todas as nossas fontes de energia foram utilizadas. Essa é a primeira vez que você envolve a totalidade de suas fontes de energia. No resto do tempo, mesmo quando recapitulou antes, você não estava completamente absorvido.

Dessa vez Don Juan me deu um outro padrão de recapitulação. Eu deveria construir um quebra-cabeça recapitulando, sem qualquer ordem, recapitulando diferentes fatos de minha vida.

- Mas vai ser uma confusão - protestei.

- Não, não vai - ele assegurou. - será uma confusão se você deixar sua mesquinharia escolher os eventos a serem recapitulados. Em vez disso deixe o espírito decidir. Silencie, e em seguida vá até o evento que o espírito escolher.

Os resultados desse padrão de recapitulação foram chocantes em muitos níveis. Achei impressionante descobrir que, toda vez que silenciava meus pensamentos, uma força que parecia independente lançava-me de imediato numa lembrança detalhada de algum evento da minha vida. Mas foi ainda mais impressionante descobrir que aquilo resultava de uma configuração bastante ordenada. O que imaginei que seria caótico acabou mostrando-se extremamente eficaz.

Perguntei a Don Juan porque ele não me fizera recapitular daquele jeito desde o início. Ele respondeu que existem dois ciclos básicos para a recapitulação: o primeiro era chamado de formalidade e rigidez, e o segundo de fluidez.

Eu não tinha a menor idéia de como minha recapitulação seria diferente. A capacidade de concentração, que eu adquirira através dos treinamentos de sonhar, permitiu-me examinar minha vida numa profundidade que nunca imaginaria possível. Demorei mais de um ano para ver e rever tudo que podia sobre minhas experiências. No final precisei concordar com Don Juan: eu tinha uma imensidão de emoções escondidas tão profundamente a ponto de se tornarem virtualmente inacessíveis.

O resultado de minha nova recapitulação foi uma atitude nova e mais relaxada. No primeiro dia em que voltei aos exercícios de sonhar eu sonhei que me vi dormindo. Vieri-me e saí ousadamente do quarto, descendo penosamente um lance de escadas até a rua. (...)

(...) Don Juan explicou que o uso da consciência como um elemento energético do universo era a essência da feitiçaria; que em termos práticos a trajetória da feitiçaria era, primeiro, libertar a energia existente em nós (através da recapitulação)* e seguindo implacavelmente o caminho dos feiticeiros; segundo, usar essa energia para desenvolver o corpo energético através do sonhar; e terceiro, usar a consciência como um elemento do ambiente para entrar com o corpo energético e toda a nossa fisicalidade em outros mundos.

* Esta parte somente existe na versão espanhola, e não na brasileria, é necessário checar o original em inglês.

 

  • O lado ativo do infinito (Versão eletrônica em espanhol)

-Ya es tiempo que empieces uno de los proyectos mayores de la brujería -dijo don Juan.

-¿A qué proyecto de la brujería se refiere usted, don Juan? -le pregunté.

-Se llama la recapitulación -me dijo-. Los antiguos chamanes lo llamaban hacer el recuento de los sucesos de tu vida y para ellos empezó como una técnica sencilla, una estratagema para ayudarles a recordar lo que estaban ha­ciendo y diciendo a sus discípulos. Para sus discípulos, la técnica tuvo el mismo valor; les ayudaba a recordar lo que les habían dicho y hecho sus maestros. Tuvieron que pasar por terribles trastornos sociales, como ser conquistados y vencidos varias veces, antes de que los antiguos chamanes se dieran cuenta de que su técnica tenía mayor alcance.

-¿Se refiere usted, don Juan, a la conquista españo­la? -le pregunté.

-No -me dijo-. Eso fue sólo el golpe de gracia. Antes hubo trastornos más devastadores. Cuando llega­ron los españoles, los antiguos chamanes ya no existían. Ya para entonces, los discípulos de aquellos que habían sobrevivido otros trastornos, se habían vuelto muy cau­telosos. Sabían cuidarse. Fue ese nuevo grupo de cha­manes el que le dio el nombre nuevo de recapitulación a la técnica de los antiguos chamanes.

»El tiempo tiene un enorme valor -continuó-. ­Para los chamanes en general, el tiempo es esencial. El desafío que tengo ante mí, es que dentro de una unidad muy compacta de tiempo tengo que atestarte con todo lo que hay que saber de la brujería como una proposi­ción abstracta, pero para hacer eso tengo que construir en ti el espacio debido.

-¿Qué espacio? ¿De qué me habla usted, don Juan?

-La premisa de los chamanes es que para llenar algo, hay que crear un espacio donde ubicarlo -me di­jo-. Si estás repleto de todos los detalles de la vida coti­diana, no hay espacio para nada nuevo. Ese espacio hay que construirlo. ¿Comprendes? Los antiguos chamanes creían que la recapitulación de tu vida creaba ese espa­cio. Lo crea y mucho más, por supuesto.

»Los chamanes llevan a cabo la recapitulación de una manera muy formal -continuó-. Consiste en escribir una lista de todas las personas que han conocido, desde el presente hasta el mismo principio de la vida. Una vez que hicieron esa lista, toman a la primera persona que aparece y recuerdan todo lo que pueden acerca de esa persona. Y quiero decir todo; cada detalle. Es mejor re­capitular desde el presente hacia el pasado porque los recuerdos del presente están vivos, y de esa manera, la habilidad para recordar se afila. Lo que hacen los practi­cantes es recordar y respirar. Inhalan lenta y delibera­damente, abanicando la cabeza de derecha a izquierda, en un vaivén casi imperceptible, y exhalan de la misma manera.

Dijo que las inhalaciones y las exhalaciones deben ser naturales; si son demasiado rápidas, uno podría en­trar en algo que se llama respiraciones fatigantes: respi­raciones que requerirían respiraciones más lentas des­pués, para calmar los músculos.

-¿Y qué quiere que haga con todo esto, don Juan? -le pregunté.

-Empiezas a hacer tu lista ahora mismo -dijo-. Divídela por años, por trabajos, arréglala en el orden que quieras, pero hazla secuencial, con la persona más recien­te al principio, y termina con Mami y Papi. Y luego, re­cuerda todo acerca de ellos. Sin más ni más. Al practicar, te vas a dar cuenta de lo que estás haciendo.

Durante mi siguiente visita a su casa, le dije a don Juan que había estado repasando todos los sucesos de mi vida meticulosamente, y que era muy difícil adherir­me a su formato estricto y seguir mi lista de personas una por una. Generalmente, mi recapitulación me llevaba por uno y otro camino. Dejaba que los sucesos decidie­ran la vertiente de mi recuerdo. Lo que hacía, que era volitivo, era adherirme a una unidad general del tiempo. Por ejemplo, había empezado con la gente del departa­mento de antropología, pero dejaba que mis recuerdos me llevaran a cualquier momento, empezando con el presente y retrocediendo en el tiempo hasta el día en que empecé a asistir a UCLA.

Le dije a don Juan que había descubierto algo muy cu­rioso que había olvidado por completo, y era que no tenía yo idea alguna de que existía UCLA, hasta que una noche vino a Los Ángeles la que había sido compañera de cuarto de mi novia en la universidad y fuimos al aeropuerto por ella. Iba a estudiar musicología en UCLA. Su avión llegó ya entrada la tarde y me pidió que la llevara a la ciudad universitaria para poder echarle un vistazo al lugar donde iba pasar los próximos cuatro años de su vida. Yo sabía dónde estaba porque había pasado delante de la entrada en el Boulevard de Sunset interminables veces camino de la playa. Sin embargo, nunca había entrado.

Estaban entre semestres. La poca gente que encon­tramos nos dirigió al departamento de música. El campo universitario estaba vacío, pero lo que atestigüé subjeti­vamente fue la cosa más exquisita que jamás he visto. Fue un deleite para mis ojos. Los edificios parecían estar vivos de su propia energía. Lo que iba ser una visita su­perficial al departamento de música, se convirtió en un recorrido gigantesco por toda la universidad. Me enamoré de UCLA. Le comenté a don Juan que la única cosa que me aguó la fiesta fue el enojo de mi novia cuan­do insistí que camináramos alrededor de toda la ciudad universitaria.

-¿Qué demonios puede haber aquí? -me gritó en tono de protesta-. Es como si nunca hubieras visto una ciudad universitaria en tu vida. Si has visto una, las has visto todas. ¡Lo que pasa es que estás tratando de impre­sionar a mi amiga con tu sensibilidad!

Pero no era el caso, y con vehemencia les dije que es­taba genuinamente impresionado por la belleza que me rodeaba. Sentía tanta esperanza en esos edificios, tanta promesa, y sin embargo no podía expresar mi estado subjetivo.

-¡He asistido a la escuela casi toda mi vida! -dijo mi novia entre dientes-. ¡Y estoy harta y cansada! ¡Nadie va a encontrar ni mierda aquí! No son más que cuentos y ni siquiera te preparan para enfrentarte a las responsabi­lidades de la vida.

Cuando dije que quería estudiar allí, se puso aún más fúrica.

-¡Ponte a trabajar! -me gritó-. ¡Ve y enfréntate a la vida de ocho a cinco y déjate de mierdas! ¡Eso es lo que es la vida: trabajar de ocho a cinco, cuarenta horas por semana! ¡Mira el resultado! Mírame a mí: estoy su­per-educada y no estoy preparada para un empleo.

Lo único que yo sabía es que nunca había visto un lugar tan bello. Hice la promesa que iría a estudiar a UCLA, no importaba cómo, pasara lo que pasara, con­tra viento y marea. Mi deseo tenía todo que ver conmi­go y a la vez, no estaba impulsado por una necesidad de gratificación inmediata. Era más bien una cuestión en el reino del asombro.

Le dije a don Juan que el enojo de mi novia me había sacudido tanto que empecé a verla de manera distinta, y que según mi recuerdo, fue la primera vez que un co­mentario había suscitado en mí tan fuerte reacción. Vi facetas de carácter en mi novia que no había visto ante­riormente, facetas que me llenaron de un miedo espan­toso.

-Creo que la juzgué muy mal -le dije a don Juan-. Después de nuestra visita a la universidad, nos fuimos distanciando. Era como si UCLA nos hubiera dividido. Yo sé que es absurdo pensar así.

-No es absurdo -dijo don Juan-. Es una reacción totalmente válida. Mientras caminabas por la universi­dad, estoy seguro de que tuviste un encuentro con el intento. Hiciste el intento de estar allí, y tenías que soltar­te de cualquier cosa que se te opusiera.

»Pero no exageres -prosiguió-. El toque del gue­rrero-viajero es muy ligero, aunque muy cultivado. La mano del guerrero-viajero empieza como una mano de hierro, pesada y apretada, pero se convierte en la mano de un duende, una mano de telaraña. Los guerreros-via­jeros no dejan señas ni huellas. Ése es el desafío del gue­rrero-viajero.

Los comentarios de don Juan me hicieron caer en un profundo estado taciturno de recriminaciones contra mí mismo. Sabía, a través de lo poco que había recordado, que yo era de mano pesada en extremo, obsesivo y do­minante. Le comenté mis reflexiones a don Juan.

-El poder de la recapitulación -dijo don Juan- es que revuelve todo el desperdicio de nuestras vidas y lo hace salir a la superficie.

Entonces don Juan delineó las complejidades de la conciencia y de la percepción, que eran la base de la recapitulación. Empezó por decir que iba a presentar un arreglo de conceptos que bajo ninguna condición debía tomar como teorías chamánicas, porque era un arreglo formulado por los chamanes del México antiguo como resultado de ver energía directamente como fluye en el universo. Me advirtió que me iba a presentar las unida­des de este arreglo sin ninguna tentativa de clasificarlas o de colocarlas según una norma predeterminada.

-No estoy interesado en clasificaciones -prosi­guió-. Has estado clasificando todo a lo largo de tu vida. Ahora, por fuerza, vas a alejarte de las clasificaciones. El otro día, cuando te pregunté si sabías algo acerca de las nubes, me diste los nombres de todas las nubes y el por­centaje de humedad que se debe esperar de cada una de ellas. Eras un verdadero meteorólogo. Pero cuando te pregunté si sabías qué podías hacer personalmente con las nubes, no tenías idea de lo que estaba hablando.

»Las clasificaciones tienen su mundo propio -con­tinuó-. Después de que empiezas a clasificar cualquier cosa, la clasificación adquiere vida propia y te domina. Pero como las clasificaciones nunca empezaron como asuntos que dan energía, siempre se quedan como tron­cos muertos. No son árboles; son sencillamente troncos.

Me explicó que los chamanes del México antiguo vieron que el universo en general está compuesto de campos de energía bajo la forma de filamentos luminosos. Vieron billones por donde fuera que vieran. Tam­bién vieron que estos campos de energía se configuran en corrientes de fibras luminosas, torrentes que son fuerzas constantes, perennes en el universo; y la co­rriente o torrente de filamentos que se relaciona con la recapitulación, fue nombrada por aquellos chamanes el oscuro mar de la conciencia, y también el Águila.

Declaró que los chamanes también descubrieron que cada criatura del universo está atada al oscuro mar de la conciencia por un punto redondo de luminosidad que era aparente cuando esas criaturas eran percibidas como energía. Don Juan dijo que sobre ese punto de lumino­sidad, que los chamanes del México antiguo llamaron el punto de encaje, la percepción se encaja a través de un aspecto misterioso del oscuro mar de la conciencia.

Sostuvo que bajo la forma de filamentos luminosos, billones de campos energéticos del universo en general convergen y atraviesan el punto de encaje de los seres humanos. Estos campos energéticos se convierten en data sensorial, y esta data sensorial se interpreta y es percibida como el mundo que conocemos. Don Juan si­guió explicando que lo que convierte las fibras lumino­sas en data sensorial es el oscuro mar de la conciencia. Los chamanes ven esta transformación y la llaman el resplandor de la conciencia, un brillo que se extiende como nimbo alrededor del punto de encaje. Me advirtió que iba a hacer una declaración que, según los chama­nes, era central para comprender el alcance de la recapi­tulación.

Dando enorme énfasis a sus palabras, dijo que lo que en los organismos llamamos sentidos no son más que grados de conciencia. Mantuvo que si aceptamos que los sentidos son el oscuro mar de la conciencia, tenemos que admitir que la interpretación que los sentidos hacen de la data sensorial es también el oscuro mar de la concien­cia. Me explicó con gran detalle, que el enfrentar el mundo que nos rodea bajo las condiciones que lo hace­mos es el resultado del sistema de interpretación de la humanidad, con el cual todo ser humano está provisto. También dijo que todo organismo que existe debe tener un sistema de interpretación que le permita funcionar en su medio.

-Los chamanes que vinieron después de las agita­ciones apocalípticas que te contaba -continuó-, vie­ron que al momento de la muerte el oscuro mar de la conciencia tragaba, por decirlo así, la conciencia de las criaturas vivas a través del punto de encaje. También vie­ron que el oscuro mar de la conciencia tenía un momento de, digamos, vacilación al enfrentarse con chamanes que habían hecho un recuento de sus vidas. Sin saberlo, al­gunos habían hecho ese recuento tan minuciosamente, que el oscuro mar de la conciencia tomaba la conciencia de sus experiencias de vida; pero no tocaba su fuerza vi­tal. Los chamanes habían descubierto una verdad gigan­tesca acerca de las fuerzas del universo: El oscuro mar de la conciencia sólo quiere nuestras experiencias de vida, no nuestra fuerza vital.

Las premisas de la declaración de don Juan me eran incomprensibles. O quizá sería más acertado decir que reconocía vagamente y a la vez profundamente, cuán fun­cionales eran las premisas de su explicación.

-Los chamanes creen -prosiguió don Juan- que al recapitular nuestras vidas toda la basura, como te dije, sale a superficie. Nos damos cuenta de nuestras contradicciones, nuestras repeticiones, pero algo en no­sotros se resiste tremendamente a la recapitulación. Los chamanes dicen que el camino queda libre sólo después de una agitación gigantesca, después de que aparece en la pantalla el recuerdo de un suceso que nos sacude has­ta los cimientos con una claridad de detalles terrorífi­ca. Es el suceso que nos arrastra hasta el momento real en que lo vivimos. Los chamanes llaman a ese suceso el acomodador, porque desde ese momento cada suceso que tocamos, no sólo se recuerda sino que se vuelve a vivir.

-Caminar precipita los recuerdos -dijo don Juan-. Los chamanes del México antiguo creían que todo lo que vivimos queda guardado como sensación en la parte tra­sera de las piernas. Consideraban la parte trasera de las piernas como el almacén de la historia personal del hom­bre. Así es que vamos a hacer una caminata en las colinas.

Caminamos casi hasta que oscureció.

-Creo -dijo don Juan cuando ya estábamos en la casa- que te he hecho caminar lo suficiente para prepa­rarte para esa maniobra de chamanes de encontrar un acomodador, un suceso en tu vida que recordarás con tanta claridad que va a servir de faro para iluminar todo lo demás en tu recapitulación con igual o similar clari­dad. Haz lo que los chamanes llaman recapitular las pie­zas de un rompecabezas. Algo que te va a conducir a re­cordar el suceso que te servirá de acomodador.

Me dejó solo, dándome una última advertencia.

-Dale lo mejor que tienes -dijo- Dale lo máximo.(...)

(...)-La recapitulación contiene una opción secreta-di­jo don Juan-. Tal como te dije que la muerte contiene una opción secreta, una opción que sólo los chamanes utilizan. En el caso de la muerte, la opción secreta es que los seres humanos pueden retener su fuerza vital y re­nunciar solamente a su consciencia, el resultado de sus vidas. En el caso de la recapitulación, la opción secreta que sólo los chamanes eligen es la de acrecentar sus ver­daderas mentes.

»La inquietante memoria de tus recuerdos -prosi­guió- sólo puede venir de tu mente verdadera. La otra mente que todos tenemos y compartimos es, diría yo, un modelo barato; económico, de igual tamaño para to­dos. Pero éste es un tema para más tarde. Lo que ahora tenemos delante es el principio de una fuerza desinte­grante. Pero no es una fuerza que te está desintegrando, no quiero decir eso. Está desintegrando lo que los cha­manes llaman la instalación foránea que existe en ti y en cada ser humano. El efecto de la fuerza que se te viene encima, que está desintegrando la instalación foránea, es que saca a los chamanes de su sintaxis.

 
Home  | Tensegridade  |  Recapitulação  | Sonho  |  Espreita  |  Letras  |  Contato  |  Links