da Revista de la Sociedad Uruguaya de Egiptología.
por Marcio Luiz Ramos D'Albuquerque
Resumo
O presente artigo resume uma das discussões presentes na
Dissertação de Mestrado apresentada pelo autor à Universidade Federal Fluminense
(UFF), para a obtenção do grau de Mestre em História (M.S.). A Dissertação é um
trabalho de historiografia sobre obras do autor inglês Cyril Aldred (1914 -
1991) que utiliza em seus textos as expressões "heresia"e "monoteísmo" para
classificar atos ocorridos durante o período de reinado do faraó Amenhetep IV -
Akhenaton, ao fim da XVIII dinastia egípcia. Foram utilizadas como fontes vários
trabalhos daquele autor mas, principalmente, dois que servem como referência a
todos os autores da Egiptologia quando se remetem ao reinado daquele faraó:
Akhenaten, Pharaoh of Egypt (1968) e Akhenaten, King of Egypt (1988). Procuramos
mostrar que Cyril Aldred incorre em anacronismo quando utiliza termos cunhados
no seio da cultura judaico-cristã sobre uma outra, oriental, que, à época dos
faraós, desconhecia o sentido dos mesmos.
Abstract
This paper summarizes one of the discussions ocurred at the
thesis presented by the author to the Universidade Federal Fluminense (UFF) to
obtain the Master's Degree in History (M.S.). The thesis is a work of
historiography upon the writings of the Englishman Cyril Aldred (1914 - 1991)
who used in his texts the expressions "heresy" and "monotheism" to classify acts
that occurred during the reign period of the pharaoh Amenhetep IV - Akhenaton,
at the end of the XVIIIth Egyptian dynasty. Like sources I used some works from
that author but, mainly, two that serve as reference for all the authors of
Egyptology when they refer in their texts to the reign of that pharaoh:
Akhenaten, Pharaoh of Egypt (1968) and Akhenaten, King of Egypt (1988). We
intend to show that Cyril Aldred incurred in an anachronism when he used terms
molded into the Jewish-Christian culture upon another, Oriental, which, at the
time of the Pharaohs, did not have such meanings.
O faraó Akhenaton (Amenhetep IV) sempre é mencionado nas obras
nossas contemporâneas como tendo sido um faraó "herege" por sua tentativa de
estabelecer um culto de cunho "monoteísta" no Egito.
Em nossa Dissertação de Mestrado em História, defendida em
outubro de 1998 junto à Universidade Federal Fluminense, discutimos os conceitos
de "heresia" e "monoteísmo" aplicados à Akhenaton, levando em conta a carga de
"ocidentalidade" presentes nessas categorias. Naquela Dissertação também
apontamos como Cyril Aldred (1914 - 1991) tornou-se responsável pela
"cristalização" desses conceitos na historiografia do Antigo Egito, a partir do
momento em que foi firmado como referência obrigatória para o estudo do período
Amarniano com a escrita de Akhenaten, Pharaoh of Egypt (1968) e Akhenaten, King
of Egypt (1988).
Neste artigo nos preocuparemos com a propriedade da utilização
do termo "heresia" para as questões amarnianas, mostrando o quanto os
pressupostos de uma cultura interferem na escrita sobre uma outra, podendo
aproximá-las mas causando, no entanto, alguns problemas de nível teórico para os
leitores e estudiosos.
Assim, este trabalho inicia uma discussão sobre o caráter
"herético" de Akhenaton, "heresia" essa que tem como causa o estabelecimento de
um culto "monoteísta" durante o período de reinado daquele faraó. A hipótese
central da nossa Dissertação de Mestrado, portanto, esteve presa ao anacronismo
apresentado pela categoria "heresia", deslocada de um tempo mais "moderno" e
vinculado à cultura ocidental, para o Egito da antiguidade. Há uma hipótese
secundária: a da aceitação da "heresia" na historiografia sobre o Egito Antigo,
de forma acrítica, em que pese o fato de termos notado que Aldred não introduz
esse discurso, mas o reproduz, reforçando o emprego daquele conceito quando ele
próprio (Aldred) assume o status de "referência obrigatória" para o estudo do
chamado período Amarniano, o tempo de reinado do faraó Akhenaton.
Discussão da categoria "heresia" vinculada às ocorrências em
Amarna.
Necessitamos explicitar, inicialmente, o que entendemos como
"heresia". Para tanto recorremos a algumas fontes, passando por dicionários
gerais da língua portuguesa e por obras que, especificamente, nos apresentassem
uma categorização mais descritiva. Pela definição dicionarística da palavra
"heresia" temos:
HERESIA, s.f. Doutrina contrária aos dogmas da Igreja; ato ou
palavra ofensiva à religião; blasfêmia; (fam.) contra-senso; absurdo; disparate.
(Do lat. haerese.) (FERNANDES et al., 1993, p.403.) Outra definição de "heresia"
que cabe neste espaço: heresia (lat. haeresis, do gr. hairesis: ação de tomar,
escolha, seita) Doutrina contrária aos ensinamentos oficiais de uma Igreja e a
seus dogmas religiosos: a heresia jansenista. Por extensão, toda doutrina
contrária às concepções estabelecidas ou oficialmente reconhecidas como
verdadeiras: a idéia de movimento perpétuo real é uma heresia científica.
(JAPIASSU & MARCONDES, 1991, p. 118.)
Ainda com relação a definições do que é "heresia", nos fala
Ribeiro Júnior: "Heresia (do grego haíresis, hairen) significa escolher. Na
época helenística tinha o sentido de doutrina ou escolha. Com o advento do
cristianismo, a palavra recebeu uma conotação pejorativa de 'doutrina que está
fora da Igreja', ou seja, contrária aos princípios da fé cristã. No fundo
heresia nada mais é do que divergência de opinião. Em face da doutrina cristã, a
heresia pode apresentar-se sob dois aspectos: um, negativo ou filosófico, que
nasce do conflito ou do contraste entre a verdade revelada e os diversos
sistemas filosóficos e teológicos sobre os quais recai essa revelação; outro,
positivo no sentido de que nem tudo está errado na heresia - há uma intenção
verdadeira mas que não está de acordo com a opinião da Igreja.
As heresias, portanto, foram obras de pensadores, cristãos ou
não, que não satisfeitos com a revelação cristã tentaram conciliar entre si
doutrinas diversas e opostas, criando uma confrontação inevitável.
As heresias, assim, representaram (e ainda representam),
relativamente ao corpo doutrinário da Igreja, movimentos dissidentes que
deterioraram o que se considerava o conteúdo específico e original da fé cristã.
As fronteiras ideológicas do cristianismo tornaram-se frágeis e diluíram-se em
tendências heterogêneas. Contudo as heresias também são consideradas como
ocasião de progresso na compreensão da fé no seio da Igreja." (RIBEIRO JÚNIOR,
1989, pp. 19-20.)
Das definições retro pode-se perceber que, apesar da origem
grega da palavra "heresia" com o sentido de "escolha", há uma forte manifestação
do sentido religioso para o seu significado, particularmente com a sua
vinculação a questões da cultura cristã, cuja origem da linha de pensamento está
situada em Aristóteles (ocidental, portanto), mais as suas sucessivas
releituras, sendo a de São Tomás de Aquino a principal.
Tendo isso em mente, e aceitando o fato de que os autores da
Egiptologia, ao menos em seu início, eram europeus, provenientes, portanto, de
berços ocidentais, cristianizados e herdeiros de toda uma carga cultural
clássica (de fundamentação grega), podemos nos remeter à consideração de que
Akhenaton teria tido uma importância maior de análise para o que diz respeito ao
aspecto religioso de sua reforma, em detrimento dos aspectos (e efeitos)
políticos dessa mesma reforma. É com esse mesmo tom, a ênfase religiosa, que
verificamos a utilização do termo por parte de Aldred e de quem escreve sobre
Akhenaton. Dessa forma pensamos que, relacionado aos escritos sobre aquele rei,
os pesquisadores da ocidentalidade cristianizada realizaram uma apropriação do
termo "heresia" e, assumindo uma postura de extrapolação, categorizaram as
atitudes do faraó (bem como os efeitos resultantes dessas atitudes) sem que se
procurasse perceber quais as vinculações estruturais das categorias com o
universo cultural egípcio da XVIII dinastia.
Partimos, dessa forma, para a busca de uma discussão do
conceito da categoria "heresia", sem a limitação imposta por uma definição
eminentemente dicionarística que pouco auxilia nos propósitos deste trabalho.
Encontramos em Leszek Kochakowicz essa discussão, mesmo que em um artigo
sucinto, veiculado em obra de caráter de referência, apesar da profundidade que
tenta imprimir às discussões que realiza. Cabe, portanto, aqui, a remissão ao
texto daquele autor que propõe, inclusive metodologicamente, a leitura da
categoria "heresia".
Kochakowicz define "heresia" a partir da sua acepção original,
grega, e segundo a tradição Neo-Testamentária, embora nas suas considerações
circunscreva a "ação herética" ao universo do cristianismo. Quando não o faz é
por causa das remissões léxico-etimológicas, mas ainda num contexto
ocidentalizado.
"A palavra grega airéu significa 'levar'; o médio airéoamai
quer dizer 'tomar para si próprio' ou 'escolher'. Assim, airésis significa uma
escolha, entendida como o acto ou o objecto da própria escolha. O Novo
Testamento fala, em várias ocasiões, de 'heresia', referindo-se a uma seita ou a
uma facção; são deste modo mencionadas as 'heresias' dos Saduceus, dos Fariseus
e dos Nazarenos [Actos dos Apóstolos, 5, 17; 26, 5; 24, 5]. Que a palavra já
então não era neutra e tinha um sentido bastante pejorativo, podemos inferir do
facto de São Paulo, na sua apologia perante as autoridades, falar da sua vida, a
que 'eles chamam' heresia [ibid. 24, 14; cf. ainda 28, 22] e de na Epístola I
aos Coríntios, 11, 19 mencionar 'heresias' - referindo-se a seitas ou facções -
entre os seus seguidores [cf. Epístola aos Gálatas, 5, 20]. Todavia, a palavra
refere-se mais a um determinado grupo religioso do que a uma doutrina errónea,
muito embora São Pedro fale dos falsos profetas e de falsos mestres que trazem
heresias ao povo [Epístola segundo São Pedro, 2, 1]; isto tanto pode referir-se
a 'divisões' como, mais perto da acepção moderna do termo, a erros doutrinais."
(KOCHAKOWICZ, 1984, p. 301. Grifos nossos.)
Nesta primeira abordagem Kochakowicz amarra o termo às suas
origens, apontando para uma forte conotação cristianizada do mesmo. Mostra a
vinculação do termo a um senso para o qual heresia era a formação de uma seita
ou facção, ou a uma doutrina falsa ou errada. Seria, possivelmente, esse o
caminho trilhado por Aldred para categorizar as ações em Amarna como
heréticas.
Num segundo momento, com relação ainda à retro-mencionada
circunscrição ao universo cristão ocidental, Kochakowicz aponta a definição que
a Igreja Romana estabelece para o termo.
"Mesmo na linguagem quotidiana falamos muitas vezes de
'heresia', não querendo com isso significar necessariamente a doutrina
condenável em si, mas um movimento sectário que professe essa doutrina. Quanto
ao significado etimológico de 'escolha', está longe de ser irrelevante para a
utilização da palavra na teologia cristã. Usar exclusivamente a nossa própria
vontade - fazendo assim uma escolha própria, sem se ser guiado por Deus e pela
Igreja - equivale a escolher o mal, tanto em assuntos morais como doutrinais. Se
faço uma escolha, reclamo a superioridade do meu juízo pessoal, escolho a minha
vontade contra a vontade de Deus; mas considerando que a vontade do homem é
corrupta, uma escolha puramente humana em matéria de fé equivale a optar pelo
erro e não a um acto de seleção que poderia ser certo ou errado, dependendo das
circunstâncias. Deste ponto de vista, parece teologicamente válido que de um
acto de escolha humana no campo da fé deriva, inevitavelmente, numa heresia e
que a heresia é uma doutrina escolhida ou afirmada pela vontade humana (humano
sensu electa). (...) A acepção etimológica sobrevive no uso moderno da palavra."
(Idem, pp.301-2.)
Adiante em seu texto, Kochakowicz explana sobre o que chama de
"definição oficial" a qual, acreditamos, está mais fortemente afinada com a
utilização da categoria "heresia" para as questões de Amarna por parte dos
pesquisadores ocidentais, e no nosso caso, particularmente, Cyril Aldred. Vemos,
no entanto, elementos de impropriedade que passamos a discutir. Ele baseia-se no
Codex iuris canonici apontando que a definição naquele instrumento é a de
herege, e não a de afirmação herética. O diploma legal estabelece que há
implicação em "negação ou dúvida sobre qualquer verdade da fé divina, desde que
1) a pessoa que nega ou duvida seja baptizada;" observamos que na religião
egípcia não existe algo que seja comparável ao batismo, um sacramento da Igreja
que, simbolicamente, determina a relação de pertinência entre o indivíduo e a
instituição; Ŗ) que ele (ou ela) declare ser cristão;" não existe, para a
religião egípcia, uma relação qualquer que implique a declaração de pertinência
ou não a um determinado credo; ŗ) que ele (ou ela) se obstine no erro" por não
existirem elementos que simbolicamente indiquem a relação de pertinência, a
obstinação em um "erro" é dificultada pela própria estrutura da religião
egípcia. Dessa forma, uma vez que não se caracteriza uma "verdade" estabelecida
por "fé divina", não há heresia. Por fim, Kochakowicz aponta que, ainda segundo
o código canônico:
"(...) 'Aquele que, depois de ter recebido o baptismo, e
conservando o nome de cristão, nega pertinazmente alguma das verdades em que se
deve crer por fé divina e católica, ou dela duvida, é herege; se abandona
totalmente a fé cristã, é apóstata; enfim, se recusou ser submetido à autoridade
do Sumo Pontífice ou se recusou a comunhão com os membros da Igreja a ela
submetidos, é cismático' [can. 135, par. 2])." (Idem, p.302.)
Acreditamos, aqui, que a apostasia não se aplica à religião
egípcia pois esta não trata de fé cristã, supondo-se que o termo está
circunscrito, também, ao universo do cristianismo. No caso de Akhenaton, ser
considerado cismático implicaria a não submissão do rei à autoridade de um Sumo
Pontífice que, para a religião egípcia, tem o faraó nessa posição. Poderia,
assim, Akhenaton discordar de si próprio? Ainda nessa linha de raciocínio temos
que o rei é o primeiro e único sacerdote no Egito. Os cleros existem por
delegação do próprio faraó. (CARDOSO, 1980, pp. 40-4. Ver também: SAUNERON,
1980, pp. 31-5; SHORTER, 1984, p.29.)
O modelo que Kochakowicz aponta para o entendimento de heresia
pode ser aplicado a Akhenaton e a Amarna? No nosso entendimento seria necessária
uma grande relativização de elementos estruturais da sociedade e da religião do
Egito para que se possa promover um encaixe, e esse, no nosso ponto de vista,
não é perfeito. É necessário que sejam aparadas muitas arestas, forçando-se a
modelagem, se levarmos em consideração que o termo nasce, com a sua acepção
ligada a questões religiosas, no seio da igreja Romana, e a ela é
especificamente dirigido. O que está fora da alçada dessa Igreja é paganismo não
sendo passível, portanto, de enquadramento nos conceitos a ela (Igreja) afetos,
tendo-se em conta que, nos termos de Kochakowicz, as heresias nascem no interior
da Igreja e não se desvinculam dela.
A religião egípcia existe para a manutenção do equilíbrio no
universo, representado por Maat que, antes mesmo de ser uma deusa, é tida como
um princípio mágico (notar que essa religião é dual, e não dicotomizada; seus
princípios são complementares, não são antagônicos pelo simples fato de o serem:
contrapõem-se para o surgimento do equilíbrio, numa comparação superficial, mas
válida, entre o Yin e o Yang que, juntos e equilibrados, formam o Chi das
culturas extremo-orientais). Os cleros existem e os cultos são realizados para
que esse equilíbrio seja permanente. O objetivo principal dos cultos aos deuses
é não permitir que o Universo retorne ao caos primordial, de onde saiu a partir
do movimento de Rá. Não há a constituição de "rebanhos de fiéis" e as práticas
religiosas estão circunscritas aos templos e aos meios sacerdotais, sendo vedado
ao povo, em geral, a imiscuição naquelas práticas, a não ser quando acompanham
as grandes procissões, nos festivais dos deuses, quando as imagens saem dos
templos por alguns momentos mas retornam às capelas internas após as festas.
Somente nessas ocasiões o povo tem contato com essas imagens. (SAUNERON, p.16;
SHORTER, pp. 35-7.)
Kochakowicz articula um campo de compreensão para significados
argumentando sobre o estabelecimento de uma distinção entre "heresia" e "cisma".
Para ele o segundo termo indica "uma separação deliberada do organismo da
verdadeira Igreja". Indica, também, que um herético não necessariamente pretende
criar um cisma, sendo seu objetivo, grande parte das vezes, "melhorar ou
reformar o corpo existente, restaurando-o à sua pureza primordial".(KOCHAKOWICZ,
p. 303.) Aqui o estudioso leva em conta a metáfora da Igreja que representa a si
mesma como um "corpo", do qual os seus fiéis são "membros", idéia que, por
características já mencionadas retro, não está incluída no universo do Egito
faraônico.
Mutatis mutandi, talvez em Akhenaton possa ser vista a tomada
para si próprio da responsabilidade em vivificar as idéias de afastamento do
clero tebano, latentes nos períodos de reinado de seu avô (Tutmés IV) e de seu
pai (Amenhetep III). Podemos considerar, também, que o culto a Aton surge como
uma roupagem nova para o culto de Rá e que aqueles reis teriam sofrido grande
influência de um dos mais tradicionais cleros do Egito: o de Heliópolis (Aunnu).
Apesar da certeza dessa influência, qualquer conclusão estaria apoiada
exclusivamente no campo das suposições.
Kochakowicz pretende que uma separação do corpo da Igreja não
implique apartamento do que chama de "doutrina ortodoxa", posto que pode estar
baseada em desacordos sobre questões que não dizem respeito aos dogmas." (Idem,
ibidem.)
Aqui vale comentar que Aldred vê no clero de Amon uma frente
"ortodoxa" no que diz respeito à religião no Egito, encarando-o como um elemento
"tradicional" na cultura egípcia. Em pelo menos dois momentos ele é explícito
com relação à utilização do termo: em 1961 em um artigo para o JEA, e no seu
livro de 1988. Cabe então questionar se Aldred pensa nessa "ortodoxia"
utilizando o conceito de "tradição" que Hannah Arendt categoriza como sendo de
concepção ocidental (grega).(ARENDT, 1992, pp. 43-68)
Kochakowicz nos coloca, agora, frente a questões que dizem
respeito à figura representativa da Igreja, falando sobre atitudes heréticas.
Parte da premissa de que é herético quem desafia a autoridade do papa (posto que
esta autoridade foi estabelecida como parte da doutrina oficial), tendo ainda
como premissa a metáfora da Igreja-corpo, apontando que: "... quem for rotulado
de herético pelas autoridades eclesiásticas é separado da unidade do corpo; e
tendo como pressuposto que esta separação resultou da sua má vontade (e não do
veredicto da Igreja), o acto de aceitar e defender uma heresia transformou-se
per se num acto de cisma (a palavra 'apostasia' significa a rejeição aberta dos
ensinamentos cristãos, e o termo é utilizado principalmente para referir actos
individuais de deserção da Igreja, enquanto 'cisma' denota sobretudo uma
separação colectiva)." (KOCHAKOWICZ, p. 303.)
Já mencionamos que a autoridade máxima tanto do clero como do
governo, no Egito, é o rei. Seria um contra-senso que ele rotulasse a si mesmo
como contrário a interesses que eram em grande medida os seus próprios. Por
outro lado, insistimos na visão que Serge Sauneron nos apontou, e que já
mencionamos retro, não enxergando distinções entre "Igreja" e "Estado" no Egito
faraônico. Mais ainda, Sauneron defende um tipo de olhar que em muito se
aproxima da prática metodológica de uma história das mentalidades, ou das
idéias, quando adverte que:
"Para entender o antigo Egito, nós temos que abandonar a idéia
de encontrar nele nossa própria cultura e nossas próprias tendências: nós temos
que aceitar esta exclusão, e não iludir a nós mesmos com as aparentes
similaridades." (SAUNERON, p. 6)
Isso, cotejando o entendimento que Aldred aparenta ter sobre o
que é heresia com o que é explicitado por Kochakowicz, pode já nos fornecer
alguma medida de quão impróprio o termo está sendo utilizado, senão por uma
aproximação que, continuamos acreditando, é por demais forçada, lendo-se uma
cultura oriental da antiguidade com olhos ocidentais de uma sociedade
cristianizada.
Kochakowicz abre outra discussão, esta de evidente cunho
metodológico, onde procura delimitar mais ainda o campo semântico para a
compreensão do termo "heresia", campo, neste caso, diretamente relacionado com o
trabalho do historiador. Esclarece o que é a prática da "heresia", mesmo que
circunscreva-a ao meio da Igreja Romana (e é sempre em relação ao pensamento
dessa Igreja que a sua argumentação vai ser construída) e a uma tradição
Neo-Testamentária.
"Um historiador, enquanto tal, não pode aceitar a definição de
heresia admitida pela Igreja Romana (ou por qualquer outra), sob pena de se
colocar no interior de um determinado corpo, no sentido em que o ensinamento
deste corpo seria decisivo para identificar os factos históricos. Este é, ao que
parece, o ponto fulcral da resposta à questão sobre a influência das crenças
individuais no ofício de historiador. Se se estiver disposto a admitir, por
exemplo, que as cinco afirmações atribuídas a Jansénio, e condenadas como
heréticas por Inocêncio X em 1653 na bula Cum occasione, são de facto heréticas,
na medida em que contradizem a Sagrada Escritura, estar-se-á a usar a
interpretação católica e ter-se-á de a admitir como válida na identificação e
classificação dos acontecimentos históricos. Pelo contrário, se se deixar de
lado, na investigação histórica, as crenças ou descrenças pessoais, a definição
de heresia será a seguinte: heresia (ou herege) é aquilo (ou quem) foi definido
como tal pelas autoridades eclesiásticas. Esta é a única definição operatória,
ficando subentendido que o historiador aceita como vinculativas todas as
decisões de todos os corpos eclesiásticos; pressupõe que a heresia não tem
origem num desvio ao ensinamento ortodoxo, antes é estabelecida pelo facto de
ter sido condenada. Para um historiador a heresia é um facto institucional, não
apenas doutrinal. A mesma consideração é ainda mais válida na definição de quem
é herético. (KOCHAKOWICZ, p. 304. Grifos nossos.)
Podemos aceitar essa argumentação para a cultura ocidental
cristã, mas dirigi-la para o Egito faraônico implica termos Akhenaton declarado
herege por uma ortodoxia institucionalizada, se (e somente se) reconhecermos o
clero de Amon como tal. Uma vez que não encontramos qualquer termo egípcio (ao
menos em Médio e Antigo Egípcio) que indicasse a condição de "herege", de
"herético", ou mesmo o substantivo "heresia", não acreditamos que o senso deva
ter existido. (GARDINER, 1982; MERCER, 1926.) E mais, esse direcionamento também
implica aceitar o clero de Amon como normatizador dos padrões de religião, em se
considerando a religião como fator isolado, per se, auto-suficiente,
desvinculado do Estado, o que, como já discutido retro, não é o caso. É também
aceitar a institucionalização do apartamento de Akhenaton por parte do clero,
afirmativa irreal porquanto essa institucionalização, em tendo havido, tinha
como vértice emissor o próprio faraó (pelo que a história política do período
nos dá a conhecer, com a reaproximação de Semenkhará do clero tebano, com a
recondução do culto e do clero de Amon aos seus antigos privilégios sob
Tutankhamon e com o início do apagamento do nome de Akhenaton da memória do
Egito sob Horemheb).
Kochakowicz envereda por outra discussão, a nosso ver, e para
os objetivos deste trabalho, extremamente pertinente: sobre ortodoxia
contraposta a heresia. Inicia a sua argumentação acentuando uma diferença de
pontos de vista entre o historiador e o crente, mencionando que, para ambos, "a
heresia é função da ortodoxia e tem de ser definida em relação a ela", mas
aponta que há validade, para o historiador, na relação inversa. "A ortodoxia -
e, logo, a verdade - estabelece-se e articula-se contra o pano de fundo da
heresia; na maior parte das vezes os dogmas cristalizam-se, paradoxalmente, na
luta contra a sua rejeição. Mas a simetria não é perfeita. Uma vez o dogma
claramente definido, desafiá-lo abertamente equivale, como é evidente, a
incorrer no estigma da heresia (...)." (KOCHAKOWICZ, p. 305.) Declara ainda que,
na história da Igreja, "alguns grandes heréticos foram, na verdade, reformadores
que falharam, do mesmo modo que alguns grandes santos estiveram bastante perto
de se tornarem hereges (...)" (Idem, p. 306.)
Situa a Igreja Romana como um caso privilegiado para o estudo
das heresias. É aqui, neste ponto, que Kochakowicz abre a categoria para
aplicação em outros loci que não a Igreja Romana. Mas em contraposição, quase o
fecha ao mesmo tempo que limita as apropriações da categoria ao protestantismo e
ao judaísmo, circunscrevendo a sua aplicação a um universo de cultura
judaico-cristã, mesmo quando considera as seitas, quer vinculadas à Igreja
Romana, quer vinculadas ao protestantismo. Limita-se a comentar sobre a
relutância dos historiadores em identificar por conta própria certas pessoas ou
idéias como heréticas, "dentro de um corpo protestante". Entendemos, aí, que o
autor manifesta o ponto de vista de que o historiador aguarda a manifestação
institucional da Igreja para o emprego da categoria que discutimos.
Kochakowicz comenta, agora, sobre as práticas de esmagamento ou
domesticação de uma heresia: "Não existe um modo único de enfrentar uma heresia.
Tudo depende do perigo que ela representa para a unidade da Igreja, da sua força
real ou potencial, das capacidades estratégicas das autoridades. Nem sequer se
podem apontar regras gerais quanto ao método mais eficaz para destruir uma
heresia. Uma resposta directa e intransigente pode, por vezes, ter êxito, mas
nem sempre é assim." (Idem, p. 308.)
Tornamos a lembrar que após o restabelecimento tanto do culto a
Amon quanto dos privilégios para os membros do clero desse deus, existiram ações
para o apagamento da memória do Egito do nome de Akhenaton, dos nomes dos
membros de sua família, bem como do culto a Aton, tanto através da raspagem dos
nomes reais dos monumentos quanto com a demolição de muitas edificações erguidas
no reinado daquele faraó. Muitas dessas atitudes foram consideradas como uma
perseguição aos adoradores de Aton, na tentativa do ressurgimento do antigo
culto do Império. No entanto, como no considerado período iconoclasta de
Akhenaton, quando os nomes dos deuses foram tirados dos documentos oficiais e
substituídos pelo de Aton, o ato, para o Egito, tinha um caráter mágico que
sobrepuja a simples retaliação. E nesse contexto nunca é demais reforçar que
Kochakowicz escreve tendo em seu horizonte teórico um objeto bem específico que
é a Igreja Romana e o cristianismo.
Retornamos aos argumentos de Kochakowicz e nos deparamos com
uma abordagem crítica sobre o significado social e religioso da categoria
"heresia". O autor comenta sobre a insistente procura, entre os estudiosos, de
elementos reivindicatórios, bem como de indicadores de descontentamentos
sociais, nos movimentos e nas idéias heréticas, principalmente entre os
pesquisadores marxistas. (Idem, p. 311.)
"É portanto verdadeiro que determinados interesses de classe
utilizavam estes símbolos e apareciam amiúde como movimentos heréticos. Isto não
implica necessariamente que a afirmação inversa seja verdadeira, ou seja, que
todas as heresias tenham de ser interpretadas em termos de classe ou que todas
as idéias heréticas não sejam senão sintomas, ou uma expressão 'distorcida', de
problemas de classe; tal pressuposto baseia-se não tanto em material histórico
como numa certa filosofia da história que sugere que todos os 'verdadeiros'
interesses humanos podem ser descritos em termos de classe e que as pessoas
sempre erraram (ou se enganaram, ou se 'mistificaram') quando acreditavam que
lutavam por outros valores - religiosos, nacionais, políticos, - e os
consideravam valores em si mesmos. Este pressuposto parece ser arbitrário e, de
qualquer das formas, não menos arbitrário que o anterior, segundo o qual todos
os valores 'verdadeiros' são, em última análise, de caráter religioso e todos os
outros apenas lhe conferem uma expressão distorcida."
"Para os estudiosos, as heresias diferem umas das outras tanto
na medida em que a sua popularidade pode ser interpretada em termos de
reivindicações sociais específicas, como no grau de correspondência que se pode
encontrar entre esses interesses e o conteúdo especificamente religioso." (Idem,
p. 312.)
O mais interessante, aqui, seria podermos identificar as
motivações que Akhenaton teria para infulcrar-se num movimento herético. Se há
"luta de classes" no caso de Amarna, esta se dá entre o Rei e o clero, mais
especificamente o de Amon, formado em sua grande parte por indivíduos que detêm
posições na hierarquia do estado egípcio, ligadas à condição civil de cada um.
Que função social, então, os acontecimentos de Amarna teriam tomado? Novamente,
no nosso entendimento, a heresia categorizada no contexto da Igreja Romana toma
distância das molas dos acontecimentos em Amarna.
Kochakowicz, então, parte novamente em busca de um campo de
significado para heresia, de acordo com a função social desta.
"Podemos dividir as heresias em várias categorias, segundo o
seu significado social.
Primeiro, as heresias que têm por origem um cisma, provindas
'do cimo'; nestas as considerações políticas são patentemente predominantes e as
diferenças dogmáticas são inexistentes, de somenos importância ou apenas
aparecem mais tarde como resultado da ruptura com a unidade eclesiástica."
"Em segundo lugar, as heresias de caráter claramente 'erudito':
idéias teológicas ou filosóficas desenvolvidas por um pensador e que ou
permaneceram como opiniões pessoais ou apenas ganharam pequenos círculos de
seguidores, sem se tornarem um verdadeiro movimento herético. Estas heresias são
normalmente de tipo racionalista, e em muitos casos patenteiam tendências
místicas; estas últimas aparecem por vezes na forma de pequenos conventículos de
devotos." "Por vezes uma heresia torna-se um verdadeiro movimento dentro da
Igreja (ou de uma seita), porém a sua influência fica limitada às pessoas
cultas."
"Em terceiro lugar, as heresias genuinamente populares, quer se
desenvolvam ou não a partir de idéias teológicas avançadas por um pensador
proeminente (...), tem dois aspectos em comum: afectam largas camadas da
população inculta, camponesa ou urbana, existindo um elo claramente
identificável entre os seus dogmas e o seu significado social." (Idem, pp.
315-6.)
Talvez as duas primeiras formulações sejam passíveis de
aplicação a Akhenaton, da forma como Aldred escreveu. Na primeira, temos que o
rei promove a instalação do novo culto e o apartamento da influência tebana, o
que caracterizaria a cisão "provinda do cimo", como quer Kochakovicz, fato que
dá a entender da mesma forma um apartamento político do clero de Amon nas
atividades do Estado. Na segunda formulação temos que a figura do rei poderia
ser apresentada como a do patrocinador e formulador das novas idéias, sendo que
a sua área efetiva de atuação fica circunscrita à região de Amarna que se torna,
além de capital, o novo grande centro de culto no Egito. Com relação a esta
segunda formulação, somos pela compreensão de que nas expressões "erudito" e
"culto" está implícita a idéia de "elite social".
Acreditamos que se há algum aspecto herético nos acontecimentos
de Amarna, estes estão muito mais presos aos aspectos políticos que à estrutura
da religião no Egito, quer seja representada pelo culto do deus do Império
(Amon), quer seja representada pelo culto de qualquer outro deus. E somente
nessa situação nos socorremos em Kochakowicz, justificando a forma de
entendimento de Aldred para a questão da heresia Amarniana.
"O conceito de heresia é bastante usado fora do contexto
propriamente cristão ou religioso para denotar fenómenos semelhantes em corpos
ideológicos de carácter político. Com efeito, as analogias são surpreendentes.
Movimentos políticos com uma forte necessidade incorporada de permanecerem fiéis
a um credo herdado e detendo uma estrutura hierárquica (em particular movimentos
ligados à ideologia marxista) produzem inevitavelmente os mesmos fenómenos que
observamos na história da Igreja. Isto é óbvio nos movimentos que têm uma
autoridade identificável que pronuncia veredictos sobre a verdade e que condena
os dissidentes, e ainda em todas as versões do comunismo, cada qual lançando
anátemas sobre as outras. O nome mais comum, e que é exactamente análogo a
'heresia', é 'revisionismo'; corresponde ao que a heresia deveria ser no
cristianismo: uma fuga ao cânone estabelecido, tal como é definido e
interpretado pelas autoridades do momento. Contudo é verdade que o comunismo
nunca alcançou, nem sequer de longe, a precisão, característica da Igreja
Romana, em definir os seus dogmas e as suas escrituras canônicas; apesar disso,
comparecem na sua história todos os fenômenos analógicos (Sagrada Escritura,
pais perfeitamente ortodoxos, pais menos perfeitamente ortodoxos, hereges, papas
e antipapas, concílios e anticoncílios, cismas, apostasias, sucessão apostólica,
já para não falar de Inquisição). Também existem analogias na estrutura - e não
apenas no conteúdo - da ideologia, o que, aos olhos dos católicos ortodoxos,
confirma o tradicional ditado cristão segundo o diabo macaqueia Deus.
É provável que todos os movimentos e corpos que se baseiam, ou
se supõe basearem-se, numa ideologia ou numa mundividência que tudo abarque, têm
forçosamente de gerar heresia e todos os fenómenos que lhe estão ligados; este
facto parece ser consequência de uma contradição cultural quase permanente: tais
corpos necessitam de ver a sua ideologia como a verdade num sentido não
histórico da palavra, enquanto nas questões filosóficas e religiosas a verdade
tem de ser redefinida de acordo com as vicissitudes da civilização humana."
(Idem, pp. 316-25. Grifos nossos.)
Fundamentados numa comparação (ainda que a achemos grosseira e
inadequada) entre a Igreja Romana e o culto de Amon de Tebas, e entre as
heresias presentes na história do cristianismo e a Reforma Amarniana, colocamos
Tebas numa posição representativa da ortodoxia religiosa no Egito,
contrapondo-se a algo que, apesar do aparente contra-senso, é mais antigo mas
que, no entanto, se apresenta com uma nova roupagem: o culto a Aton. Parece-nos
que Aldred prende-se a esse tipo de visão em seus escritos.
Apresentamos mais uma questão, considerando, também, todas as
relativizações que podem ser feitas para Akhenaton e Amarna, sobre a existência
(ou não) de uma heresia no final da XVIII dinastia egípcia.
"Há heresia quando existe uma igreja que pretende possuir uma
verdade (...) fora do tempo. É precisamente esta pretensão que, em determinadas
mudanças tornadas necessárias pelas transformações da sociedade, da economia, da
cultura (...), faz corresponder tensões e rupturas, dado que alguns se
pronunciam por uma actualização (...), outros pela manutenção das tradições:
atitudes estas que podem ser consideradas inaceitáveis pelas autoridades
eclesiásticas (...). Uma outra fonte de heresias é a relação dinâmica entre o
mundo de 'aqui em baixo' e o 'além', próprio de cada religião, e em particular
do cristianismo; os conceitos-imagens que desempenham o papel de mediação (...)
são os mais frequentemente contestados. Em particular, na origem das heresias
estão as tentativas de estabelecer o reino de Deus sobre a Terra (...), os
convites para fugir da vida terrena, ou para pôr em questão o poder (...)
temporal e as iniciativas mundanas da Igreja (neste último caso o limiar entre
heresia e santidade é mais esbatido)." (Idem, p. 325.)
Partindo das idéias supra expostas, fala-se de "heresia" frente
a uma "igreja"que assume uma caráter "tradicional". Dessa forma, poderia-se
pensar que no Egito da XVIII Dinastia o clero de Amon representava essa
"igreja"? Note-se que, aqui, estamos tomando a palavra "igreja"com o sentido de
"instituição", organização religiosa composta de uma estrutura mental de crenças
que são veiculadas e/ou mantidas por uma classe específica formada pelos
sacerdotes. Observando-se por esse prisma, as atitudes de Akhenaton quando da
instalação de um "novo"culto, em que se observa a determinação na recuperação de
um culto ancestral (o de Rá), mais tradicional portanto (em que pese a nova
roupagem que lhe é destinada), pode, por tentação, ser relacionadas a uma
"heresia". Repetimos que esse ponto de vista baseia-se numa comparação das
estruturas do clero egípcio com a da Igreja Católica Romana.
No caso da "mediação" apontada por Kochakowicz, a contestação
das imagens e referências a outros deuses, durante a chamada "fase iconoclasta
de Akhenaton", e a sua tentativa de plena substituição pelas representações
exclusivas de Aton, podem tender a que se vislumbre uma outra atitude
"herética", observados os mesmos parâmetros que mencionamos retro. Ora,
acreditamos que estamos à frente de problemas com naturezas diferentes: quando a
Igreja Romana impõe as suas imagens, há uma nítida tentativa de substituição do
que essa igreja considera "pagão" pela "verdade" que traz em seu bojo com uma
postura de "conquista" para o pensamento egípcio, "apagar" um nome, um rosto,
uma imagem, era fazer com se caísse no esquecimento a essência da personagem,
sendo que essa atitude tem um caráter mágico, simbólico, de força que está
aliado à concepção do que é o "nome" para o egípcio. É uma atitude que pode ser
observada tanto no passado egípcio, com relação à Akhenaton, quanto aos tempos
posteriores ao do seu reinado.
Com relação ao estabelecimento de um reino de Deus sobre a
terra, acreditamos que o terreno para esta discussão é perigoso e incerto
porquanto poderíamos nos sentir tentados a abordar a questão do tipo de
influência que a cultura religiosa do Egito exerceu sobre a constituição de um
pensamento judaico nos seus primórdios. Quer como aponta Sigmund Freud, quer se
raciocinarmos que tanto Akhenaton quanto os judeus do Êxodo estavam sob
influência de um pensamento que é oriundo da mesma região egípcia: Mênfis. Mas
como esse pensamento pode ter influenciado Akhenaton no estabelecimento do culto
ao deus Aton é assunto para um próximo artigo.
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