LONG-SHOT

 

 
 
 

PALETÓ AMERICANO: O CINEMA COMO SONHO DE CONSUMO

Sabine Sorrel


 

Mário Mascarenhas e Cláudia Montenegro em cena de O Canto da Saudade, de Humberto Mauro (1952).

Este pequeno artigo não pretende, é claro, analisar a fundo a obra de Humberto Mauro ou as recentes obras do Cinema brasileiro, mas criar um primeiro paralelo de ambições e ansiedades entre cineastas de duas gerações que tem mais em comum do que parecem perceber. Se temos uma dificuldade muito grande em examinar nosso passado fica a sugestão de nos apoiarmos na experiência de nossos antecessores como forma mais lógica de não começar tudo sempre praticamente do zero. As questões aqui destacadas são atemporais, a identificação que fica com Mauro é um apoio a mais em novas empreitadas.

 

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O Cinema brasileiro nasceu e foi assassinado várias vezes no século sem conseguir estabelecer uma diversidade real que levasse à criação de mercado e público para seus filmes e de legislação mais convincente no que diz respeito à distribuição e aos incentivos de produção, mas sua história estética muitas vezes foi responsável por registrar grandes conscientizações populares e por marcos culturais de livre expressão (como no caso do Cinema Novo).

Assim, quando recentemente alguns cineastas questionaram a real existência de um Cinema brasileiro, questionando sua permanência no tempo e a pouca variedade de estilos em cada época de renascimento, obviamente se esqueceram de sua enorme importância social e política em momentos anteriores e mesmo do grande público que já foi às salas para ver as comédias da Atlântida, entre outros filmes.

A nova geração do Cinema brasileiro muitas vezes parece questionar seu passado, mas quer como em todos os outros momentos de auge do Cinema brasileiro descobrir uma saída para continuar sendo visto por um público que tem sido sempre tão difícil de alcançar, em meio à colonização dos cinemas pelo produto americano plastificado: filmes feitos para dar público em qualquer lugar, óbvios e repletos de tecnologia, que perdem em conteúdo e estética.

Esse processo de colonização deixa poucas saídas aos novos realizadores, uma vez que a supõe a supremacia da estética clean – com sua luz padronizada em imagens claras e limpas e ângulos “quadrados” demais que parecem muitas vezes molduras para o rosto de um ator ou para um cenário fulgurante – e a negação (parcial ou total) do trabalho criativo do diretor, que fica submetido a esses códigos gerais de apresentação, essa linguagem griffithiana pós-moderna (narrativa clássica com efeitos especiais) que já está introjetada no espectador. Trabalha-se cada vez mais com as elipses, retirando os “tempos mortos” do filme e transformando a ida ao cinema em um processo catártico de identificação em vários graus, que pode levar o público a comprar o CD do filme e assistir seu clip na MTV ou a se projetar totalmente na tela, perdendo por completo sua capacidade de análise crítica perante o filme. Contemporaneamente, as noções de diversão várias vezes são confundidas e aproximadas do estágio em que quem assiste já não pensa, tão somente percebe o filme. Não pensar passou a ser divertido.

Quanto a posturas frente à ditadura estética, existem basicamente duas: remar contra a maré e ser taxado de alternativo ou experimental, ou seguir o modelo e tentar atingir o público pela semelhança. Neste último renascer do Cinema brasileiro, na segunda metade da década de noventa, ainda é cedo para analisarmos qual das duas táticas dará mais certo, embora se note uma predominância dos filmes baseados na estética do cinemão americano, que tem sido privilegiados pelos grandes patrocinadores e conseguido espaço em premiações nacionais e internacionais.

De qualquer maneira, existem várias questões éticas e estéticas que se derivam daí, como por exemplo: até onde a busca por um Cinema alternativo deveria nos levar para longe do público e at

Os jovens realizadores deste renascimento do Cinema, como em todas as áreas profissionais atualmente,

Em Humberto Mauro, paralelamente, podemos observar um mesmo amor pelo Cinema e as mesmas questões polêmicas refletidas em sua vida real, em sua trajetória como realizador.

Assim temos, contemporaneamente, exemplos da mesma vontade e amor ao Cinema que moveram Mauro nessas empreitadas que tecnicamente poderiam parecer impossíveis na época.

Se para Mauro a tecnologia e os conhecimentos narrativos pareciam inacessíveis, o que motiva sua busca autodidata, para a nova geração de realizadores existe uma clara censura econômica, que os impele a procurar soluções criativas.

Em sua segunda fase, uma segunda questão polêmica, o mercado e o real acesso aos recursos de maquinaria, luz etc., que fazem nosso Humberto Mauro de casaca.

Enquanto Humberto Mauro dirige o incômodo Lábios Sem Beijos, que aparece como um parêntesis mal feito em sua carreira,

Em uma terceira fase, Mauro se institucionaliza, mas agora parece mais consciente de como trabalhar criativamente em um ambiente que o pressiona.

É semelhante a fenômenos recentes como o do curta Brevíssima História das Gentes de Santos , encomendado pelo governo de Santos para as comemorações do aniversário da cidade, transformado em sucesso em festivais nacionais e vencedor de alguns deles (como o RioCine, por exemplo), transcendendo sua proposta inicial. Pensando na técnica demonstrada em A Velha a Fiar, percebemos muitas semelhanças e uma grande inspiração do realizador deste curta, em particular, em Humberto Mauro. O modo como as imagens são picotadas, a rapidez humorística da narração ritmada em paralelo à música de roda no filme de Mauro.

Parcerias com o governo têm garantido possibilidades interessantes ao Cinema brasileiro contemporâneo, se bem administradas e ampliadas, a criação de pólos de Cinema alternativos ao velho eixo Rio-São Paulo, em todas as regiões do país. Quase todas as produções recentes se incluem nesse esquema de produção dos filmes que já nascem pagos.

Fica a imagem geral de que os realizadores do Cinema brasileiro são como o personagem principal de O Canto da Saudade, o humilde Galdino, sonhando com seu paletó americano, cobiçado e nunca realmente seu. Um cineasta brasileiro também é um sonhador humilde que tem o Cinema como seu sonho de consumo, seu “paletó americano”, e parece pegá-lo emprestado dos irmãos estrangeiros algumas vezes para uma festa ou ocasião especial. O Cinema nos escapa por entre os dedos e insistimos em correr atrás dele.

Sabine Lima Mendes Moura, codinome SABINE SORREL, é aluna do Curso de Cinema da Universidade Federal Fluminense. está finalizando seu primeiro curta-metragem, O Diário Ilustrado de Carmen Ferreira. Este artigo foi escrito como tarefa de conclusão da  disciplina Estudo Especifico de Cineasta Brasileiro, do Curso de Cinema da UFF, ministrado pelo professor Roberto Moura no primeiro semestre de 1998, e cujo tema específico foi Humberto Mauro. 

© 1998 – Sabine Sorrel

© 2004 – SOMBRAS ELÉTRICAS

Permitida a reprodução, desde que citada a fonte.

 

 

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