O MARTELO DAS BRUXAS

Copyright © 1978-1995. Sylvio Ourique Fragoso

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Parte III

O grande cuidado dos inquisidores era para que o acusado não morresse durante as torturas, e para isso um médico deveria estar sempre presente, examinando a vítima de quando em quando. Porque a morte teria que se dar por um ato público de muita pompa, chamado Auto de Fé. Mas se acaso alguém morresse por causa das torturas, estaria igualmente confirmada sua culpa: o demônio quebrara-lhe o pescoço. Ainda assim não se escapava à fogueira, pois mesmo o cadáver era queimado em praça pública. Houve um herético que morreu durante o julgamento e teve seu corpo preservado por quinze dias, para depois ser queimado juntamente com uma mulher ainda viva.

Mas além da confissão, que se procurava obter custasse o que custasse, e do exame das marcas do corpo, havia o recurso extremo: a prova da água. Julgava-se que era um sinal sobrenatural da monstruosa impiedade das feiticeiras que a água se recuse a recebê-las em seu seio, pois afastaram de si a água sagrada do batismo. Então, como prova extrema, como último recurso, quando nem as torturas brutais e nem as promessas de clemência levavam à confissão, faziam isto: a feiticeira era amarrada, o polegar direito no pé esquerdo e o polegar esquerdo no pé direito e nessa posição era lançada em um rio profundo. Se flutuasse, era culpada e iria para a fogueira. Se afundasse, era inocente. Claro que afundando a infeliz morria afogada, se não fosse salva a tempo, mas isso não preocupava os inquisidores, pois achavam que aquela alma iria direto para o Céu, livrando-se assim dos aborrecimentos deste mundo. E todos voltavam para casa na maior tranqüilidade.

O fato é que as torturas sofridas nos tribunais eram tão pavorosas que muitas acusadas pediam logo a prova da água para demonstrarem sua inocência. Era, talvez, um meio indireto de praticarem o suicídio, fugindo assim às torturas, mas quem, humanamente, pode censurar as bruxas por isso? Porque os métodos para obterem confissões usados pelos inquisidores superam a tudo que um escritos de imaginação fecunda e mórbida pode conceber.

Depois de ter ficado encerrada no calabouço por muitos dias, a feiticeira era levada à presença do tribunal e convidada a confessar, conforme já vimos. Se protestasse inocência, era despida e levada à sala das torturas. Despiam-na sob o pretexto de procurar as stigmata diaboli (marcas do diabo) e também para que ela não pudesse usar nenhum amuleto que a defendesse. Então, à vista dos instrumentos de tortura, era novamente convidada com caridade a confessar. Mas confessar o quê, se a pessoa não tinha o direito de saber do que era acusada? Considera-se hoje que muitas dessas narrativas sobre o sabbat, o vôo em vassouras e coisas assim, mais não sejam que invenções de quem, no desespero da situação, precisava contar qualquer coisa.

Mas se a simples visão dos instrumentos de tortura não era suficiente para fazer com que a pobre moça apavorada, exausta, faminta e exposta aos olhares dos representantes do clero ali presentes confessasse logo qualquer coisa, tinha início o interrogatório.

Faziam-se perguntas de todo tipo, as mais capciosas, entre acusações diretas e ameaças. No julgamento de Joana D’Arc, por exemplo, segundo Isambard de la Pierre, testemunha ocular do interrogatório, as perguntas que os inquisidores a ela faziam eram de tal ordem que "os mais notáveis clérigos da assistência não teriam podido a elas responder, sem grande embaraço".

E quando o interrogatório não bastasse, tinham início as torturas. Aí as variações iam ao infinito, dependendo da imaginação dos inquisidores. As mais usadas eram estas:

Aplicação de parafusos nos polegares. Arrancamento das unhas. Prendiam as mãos dos acusados para trás e por uma corda amarrada nos pulsos içavam-no até uma trave no teto. Geralmente ainda lhe punham pesos nas pernas. Essa tortura era chamada strappado. Estando o prisioneiro amarrado pelas mãos, com os braços torcidos para as costas e içado ao teto, soltavam subitamente a corda que o sustinha, deixando-o cair mas sem atingir o chão, pois a corda era travada bruscamente em meio à queda, provocando deslocamento dos ossos. Esse suplício chegava a ser repetido até três vezes. Mais que isso podia matar o acusado.

Uma variante do strappado consistia em dependurar a pessoa, agora horizontalmente, à altura do teto, estando ela amarrada pelos pés e pelas mãos, com pesos presos aos rins. Outra variante ainda era levantar igualmente a vítima horizontalmente, mas em vez de amarrada ia ela presa a ganchos que lhe penetravam as carnes.

O chicoteamento era uma das torturas mais suaves. Bem pior era o dilaceramento das carnes com pinças de metal aquecidas ao rubro. Às vezes queimavam os olhos da feiticeira com essas pinças, ou lhes rasgavam a língua ao meio. Já a roda era um instrumento de madeira, com cerca de 2,00 m de diâmetro, onde a pessoa era amarrada pelos pulsos ou pelos polegares. À medida em que a roda ia girando, os ossos iam sendo deslocados pela enorme tração exercida. Na escada o efeito era quase o mesmo. Tratava-se de uma escada comum, posta horizontalmente em plano elevado, ficando a acusada sobre ela, deitada de costas, com os pés presos a um degrau e com os braços levantados para trás da cabeça. Então um peso era amarrado em seus pulsos, ficando dependurado ao fim do último degrau. Poderia ser um bom exercício para a coluna se o peso não fosse tamanho a ponto de deslocar os ossos.

O potro era uma tortura em que a vítima, deitada, tinha vários pontos do corpo amarrados por cordas finas e fortes. Girando-se uma manivela, as cordas iam sendo apertadas até penetrarem nas carnes. E havia prescrições meticulosas de como ir apertando os cordéis enquanto o interrogatório prosseguia: meia volta, uma volta, uma volta e meia, etc. Também era comum amarrar a pessoa a um estrado, com as pernas para fora e acender um fogareiro sob seus pés. E ainda iam derramando gordura ou manteiga no local.

A virgem era um sarcófago muito estreito e cheio de pontas onde o acusado era preso. Curioso é que o inventor desse instrumento acabou sendo vítima de sua própria criação.

Alguns inquisidores preferiam enterrar a pessoa de pé, deixando-lhe apenas a cabeça para fora. Também costumavam deitar a bruxa e iam amontoando pedras sobre seu corpo. Ou então, estando a feiticeira amarrada de costas, iam despejando água em sua boca. Ou a pessoa bebia ou sufocava.

O borzeguim era uma traquitana de ferro e madeira que ia apertando os pés da feiticeira até moer-lhe os ossos.

Na França uma mulher foi torturada porque uma menina de nove anos disse tê-la visto conversando com o diabo. Essa infeliz teve os dois seios arrancados aos pedaços com tenazes em brasa, os olhos furados com estiletes também aquecidos e ácido corrosivo despejado em seu corpo. Um médico, atento, cuidava para que não morresse, de modo a não frustrar a execução posterior na fogueira.

Paremos por aqui. Os métodos de tortura variavam muito, mas o exposto já dá, cremos, para uma idéia de como as coisas se passavam.

Obtida a confissão, a feiticeira deveria abjurar o demônio e mostrar-se arrependida. Se isto ocorresse, ela era enforcada primeiro e depois queimada. Caso contrário, era queimada viva. Em alguns casos a pena era a prisão, que podia ser perpétua. Quando a condenação prescrevia a morte na fogueira, ela se dava num ato público muito concorrido, geralmente em frente a uma igreja ou catedral. Aí, estando a vítima já sobre o monte de lenha, presa a um poste, um sacerdote passava-lhe uma tocha em frente ao rosto para mostrar-lhe o que a esperava e pela última vez convidava a acusada a que se arrependesse. Se ela o fizesse, os sacerdotes a abraçavam, davam graças a Deus, entoavam loas, havia regozijo. Então enforcavam a feiticeira antes de queimá-la. Mas se a acusada persistisse em negar seu conúbio com o demônio ou se não desse mostras de arrependimento, a pira era acesa.

Durante esses atos públicos, feitos com toda a pompa, tomava-se muito cuidado para que o herético que ia morrer não se dirigisse ao povo amontoado na praça, a fim de que suas afirmações não provocassem simpatia. Mesmo assim uma feiticeira inglesa disse, na hora em que iam acender a fogueira:

- "Eu desejava morrer. Minha família me desprezou, meu marido me repudiou. Se eu vivesse seria uma infelicidade para meus amigos".

Pobre alma atormentada! Possam os bons Espíritos tê-la socorrido nesse instante em que se sentia tão só, no momento mesmo de morrer.

Não devemos pensar que todo o movimento de caça às bruxas tenha sido feito sob orientação da Igreja Católica. Após a Reforma os protestantes também instituíram seus próprios tribunais, nos mesmos moldes que os outros. A diferença principal era o meio de execução das vítimas, pois os protestantes preferiam a forca em vez das fogueiras. Em 1692, na comunidade anglicana de Salem, dezenas de pessoas foram presas e 18 mulheres morreram sob acusação de feitiçaria. Este caso, que ficou conhecido como o das Feiticeiras de Salem, começou com uma inocente brincadeira de algumas adolescentes que deixaram que uma empregada doméstica "lesse" as suas mãos. Por fim, até uma menina de cinco anos de idade foi presa para interrogatório. A condenação das vítimas foi "honrosamente" assinada por Suas Majestades Sereníssimas, a Rainha Mary e o Rei William, da Inglaterra.

Na Espanha a Inquisição preocupou-se muito mais com os judeus que com as bruxas. O mais famoso inquisidor de lá foi o beneditino Tomaz Torquemada, que fizera a Rainha Izabel, cognominada "A Católica", jurar que perseguiria todos os hereges e que os mataria, para salvação de sua alma (de Izabel) e para a grandeza de Castela. Pois esse monge foi, em 1483, nomeado Grande Inquisidor da Espanha. A ele se devem as chamadas Leis de Ferro, que logo foram seguidas pelos demais inquisidores da Europa. Para se ter uma idéia do que essas leis preconizavam vejamo-lhes alguns artigos, pescados ao acaso:

- É expressamente proibida a absolvição secreta. O culpado deverá sempre arrepender-se em um Auto de Fé Público.

- Ao penitente absolvido será somente aplicada a pena de não poder usar ouro, prata, seda ou tecidos finos. (Este artigo implicava no confisco de bens, mesmo em caso de absolvição!).

- Os penitentes que espontaneamente tenham confessado suas faltas, pagarão suas multas ao Santo Ofício, bem como as penas que o inquisidor determinar.

- (O acusado deve) declarar na confissão qual o crime contra a Fé, para que os juizes do Santo Ofício possam determinar a parte de seus bens que deverão ser confiscados.

- No caso do arrependimento ser fingido será recusada a absolvição e o herege condenado à fogueira.

- Se o acusado continuar a negar depois das declarações assinadas pelas testemunhas, será considerado como impenitente.

- Quando exista uma desconfiança de que o acusado nega o crime, será submetido à tortura. Se durante a tortura confessar o crime e depois voltar a negar, será novamente submetido à tortura mais rigorosa ou condenado a uma pena extra.

- O acusado não poderá saber quem o acusou nem tampouco de que espécies são essas acusações.

- Se um morto for condenado por heresia, por seus escritos ou por qualquer testemunha, seu cadáver será exumado e queimado e seus bens confiscados.

- Se o condenado deixar filhos menores, será concedido a estes uma pequena parte dos bens confiscados, a título de esmola.

E por aí a fora. A explicação pelo empenho em confiscar os bens do acusado pode ser encontrada neste trecho com que os inquisidores se justificam:

- Afora as penitências, pode o inquisidor impor penas pecuniárias (...) Estas multas devem ser empregadas em obras pias, como a conservação e sustentação do Santo Ofício. Com efeito, é justo que a Inquisição faça pagar suas despesas às custas daqueles que são levados perante o seu tribunal (...) De todas as obras pias, sendo mais útil o estabelecimento e manutenção da Inquisição, sem dificuldade podem ser aplicadas as multas à sustentação dos inquisidores e seus familiares (...) pois é muito útil e muito vantajoso à fé cristã que os inquisidores tenham muito dinheiro, a fim de poderem manter e pagar bem aos seus familiares para procurarem e prenderem os hereges.

Mas Torquemada, além de pessoas, queimava livros. Em 1490 mandou queimar vários manuscritos hebreus da Bíblia. Queimou toda a biblioteca de Henrique de Aragão e 6.000 manuscritos que tratavam de ciências ocultas. Também a biblioteca da Universidade de Salamanca virou cinzas. Nos 14 anos em que ocupou o cargo de Grande Inquisidor esse monge mandou para a fogueira 10.222 pessoas. E antes de morrer, Torquemada ainda redigiu uma nova série de instruções para os inquisidores que o sucedessem.

Em Portugal a Inquisição também se fez presente. A exemplo da Espanha, a perseguição ali não era dirigida principalmente contra as bruxas, mas sim contra outros "hereges", como os maçons, que sofreram também enormes sevícias. Na Torre do Tombo há 36.000 processos arquivados.

E nem o nosso Brasil ficou livre desse flagelo. Vez por outra aportavam por aqui os visitadores do tribunal, como agentes secretos do Santo Ofício. Principalmente após 1708 a perseguição se fez mais intensa em nossa terra, sendo os acusados quase sempre levados para os cárceres de Lisboa. Os brasileiros mortos pela Inquisição chegaram a 339. A Loja Maçônica Branca Dias, na Paraíba, tem esse nome em justa homenagem a uma valorosa mulher vitimada pela Inquisição naquele Estado.

Embora no Brasil o flagelo do Santo Ofício não tenha atingido as proporções que assumiu na Europa, não deixou de se constituir em um perigo, rondando os lares onde houvesse uma consciência liberal a serviço da liberdade e da virtude.

setembro/1982

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