No dia em que morri, era um dia comum de aula. Agora, eu desejaria Ter
tomado o ônibus. Mas eu não estava a fim. Lembrei-me de quanto
bajulei mamãe para ela me dar o carro. Um favor especial, eu pedi
e implorei: todos os da patota tranzam o carro mãe. Quando soou
a sineta das 14:50 Hs, joguei todos os livros no armário. Eu estava
livre até as 8:40 Hs do dia seguinte. Corri para o estacionamento,
entusiasmado pelo pensamento de dirigir um carro e ser meu próprio
chefe. Agora não importa lembrar como aconteceu o desastre. Eu estava
sentando o pé, correndo pacas. Tirando
fininhas, mandando brasa. Estava gozando minha liberdade, e tendo um tempo
sensacional. A ultima coisa que lembro, era uma velha que parecia devagar
pra burro. Depois só ouvi um barulho ensurdecedor e um terrível
solavanco. Ferro e vidro voaram para todos os lados. Meu corpo inteiro
parecia sair de fora para dentro, arrancado sei lá por que, e eu
ouvi o meu próprio grito. De repente acordei: tudo estava calmo,
quieto, silencioso. Um policial estava de pé me olhando. Então
vi um medico. Meu corpo estava estraçalhado. Eu estava uma pasta
só de sangue. Pedaços de vidro estavam me picando o corpo.
Só que eu não sentia nada, caramba. Hei, não puxem
esse lençol sobre a minha cabeça. Eu não posso estar
morto. Tenho um encontro, uma pequena para logo mais. Eu devo crescer e
Ter uma vida jóia. Eu nem vivi direito ainda cara. Eu não
posso estar morto. Tirem esse lençol da minha cara. Depois, eu fui
colocado numa gaveta. Meu pessoal teve de me identificar. Por que é
que eu tive que ser visto assim? Por que tive de olhar para os olhos de
mamãe, enquanto ela encarava a mais terrível provação
da sua vida? Papai, de repente ficou um velho. Sua vos estava assim quando
ele disse ao encarregado: “Sim, é meu filho”. Meu funeral foi uma
terrível fantástica experiência. Eu vi todos os meus
parentes e amigos desfilarem frente ao meu caixão. Eles iam passando,
um a um, e olhavam para mim com um olhar triste que eu nunca vira. Alguns
de meus amigos estavam chorando. Algumas brotinhas tocavam a minha mão
e soluçavam sem conseguirem dizer nada. Por favor, alguém
me acorde. Tirem-me daqui. Eu não agüento ver papai e mamãe
tão arrasados. Meus avós estão destroçados
de pesar, e quase não podem nem andar. Meu irmão e minhas
irmãs, estão como zumbis. Andam como se fossem robôs.
Todo mundo desorientado. Ninguém pode acreditar no que aconteceu.
Nem eu acredito. Por favor, não me enterrem. Eu não posso
estar morto. Tanto eu tenho ainda que viver. Eu quero rir e brincar outra
vez. Quero cantar e dançar. Por favor, não me ponham debaixo
da terra. Eu prometo que, se eu tiver uma nova chance, Deus, eu serei o
motorista mais cuidadoso do mundo. Tudo que eu quero é uma chance
a mais, uma só. Por favor, Deus, eu só tenho 17 anos, só
17 anos.
Carta de adeus de um jovem de 19 anos vitima dos tóxicos
Acho que neste mundo, ninguém procurou descrever o seu próprio cemitério. Não sei como meu pai vai recebê-lo; mas preciso de todas as forças enquanto é tempo. Sinto muito, meu pai; acho que este diálogo é o último que tenho com o Senhor. Sinto muito mesmo... Sabe, pai, está em tempo do Senhor saber a verdade que nunca nem desconfiou. Vou ser breve e claro. Bastante objetivo. O TÓXICO me matou. Travei conhecimento com meu assassino. O TÓXICO, aos 15 ou 16 anos de idade. É horrível, não pai? - Sabe como nós conhecemos isso? Através de um cidadão elegante vestido; bem elegante mesmo, e bem falante, que me apresentou o meu futuro assassino: O TÓXICO. Eu tentei recusar, tentei mesmo; mas o cidadão mexeu com o meu brio dizendo que eu não era homem. Não é preciso dizer mais nada, não é pai? Ingressei no mundo do tóxico. No começo foram as torturas, depois e o devaneio, e a seguir a escuridão. Não fazia nada sem que o tóxico estivesse presente. Depois veio a falta de ar, o medo, as alucinações; e logo após veio do pico novamente. Eu me sentia mais gente do que as outras pessoas; e o TÓXICO, meu amigo inseparável, sorria... Sabe, pai, a gente quando começa acha tudo ridículo e muito engraçado. Até DEUS eu achava ridículo, e hoje no leito de um hospital, eu reconheço que DEUS é o mais importante de tudo no mundo, e que sem a ajuda DELE, eu não estaria escrevendo esta carta. Pai, eu só tenho 19 anos, e sei que não tenho a menor chance de viver. É muito tarde pra mim; mas para o senhor, meu pai, tenho um último pedido a fazer. Diga a todos os jovens que o senhor conhece, e mostre a eles esta carta. Diga a eles, que em cada porta de escola, em cada cursinho de faculdade, em qualquer lugar, há sempre um homem elegante vestido e bem falante, que irá mostrar-lhes o seu futuro assassino e destruidor de suas vidas; e que os levará à loucura e à morte, como aconteceu comigo. Por favor, faça isso meu pai, antes que seja tarde demais para eles. Perdoai-me, pai. Já sofri demais. Perdoai-me também por fazê-lo sofrer pelas minhas loucuras.
ADEUS, MEU PAI.
Obs. Depois desta carta o jovem morreu.
Caso verídico – Hospital 23 de Maio – São Paulo –
Capital
O samurái e a pedra
Certa vez, um samurái chegou para o seu mestre, e lhe perguntou: mestre, como eu faço para me tornar um guerreiro indestrutível? E o mestre lhe respondeu: está vendo aquela pedra? Vá até lá e lhe dê vários golpes de espada. E o samurái foi e desferiu vários golpes com a sua espada naquela pedra. Voltando, o samurái disse para o mestre: pronto mestre, já desferi vários golpes de espada naquela pedra, só que ainda não aconteceu nada. E o mestre então lhe disse: volte lá, e xingue a pedra. O samurái encabulado, voltou e ofendeu a pedra de todas as maneiras que ele conhecia. Voltou e disse para o seu mestre: pronto mestre, já agredi a pedra com a minha espada e a quebrei; já ofendi a pedra de todas as maneiras que conheço; agora gostaria de saber como me tornar um guerreiro indestrutível! E o mestre lhe disse: SEJA COMO A PEDRA.
O prisioneiro
Certa vez, um jovem cometeu um crime. O juiz ao aplicar a sentença, decidiu dar uma chance ao rapaz, pois o mesmo nunca havia cometido nem um outro crime. O juiz disse para o rapaz: você meu jovem, que cometeste um crime, apesar dos pesares, lhe darei uma chance lhe colocando em uma cela com uma bela vista para o mar e para um florido jardim. O jovem agradeceu, e disse: quero a cela mais escura que possuíres. O juiz encabulado, perguntou o porquê desta escolha. O jovem então disse: de que adiantaria-me tanta beleza, sendo que eu não posso toca-la? Não, prefiro esperar a hora certa; a hora em que alem de poder observar, também poderei tocar.