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A globalização e o Fórum Social Mundial

      Entrevista realizada , em 5 de Fevereiro de 2003, por Pedro Guerreiro; Gabriel Silva e Paulo May a Luís Guerreiro participante no FSM, que decorreu de 23 a 28 de Janeiro de 2003, em Porto Alegre, no Brasil.

 

      12D - Antes de tudo gostaríamos de saber o que é a globalização? O que entende por globalização?

 

      LG- Hoje em dia, costuma chamar-se globalização à tendência da economia para funcionar à escala planetária. Por exemplo, uma grande empresa pode ter a sua sede em Londres e as suas fábricas, lojas e clientes espalhados por todos os continentes. Nas bolsas de valores das grandes cidades trocam-se acções de empresas de vários países e, por vezes, pode acontecer que uma bolsa como a de Hong Kong entre em crise e que isso implique o despedimento de todos os trabalhadores de uma fábrica num qualquer país terceiro, como o México, ou mesmo desencadear uma crise económica nesse país, até no continente inteiro.

      A globalização não é um fenómeno que tenha surgido nos nossos dias, apenas estamos a assistir a um desenvolvimento hoje a um ritmo sem paralelo. Diz-se até que a globalização terá surgido aquando dos Descobrimentos, do contacto entre os povos que esse acontecimento proporcionou, da difusão de culturas, idiomas, credos e, é claro, produtos, que aí nasceu, sendo essa a "pré-história" da globalização.

      A crítica à globalização de hoje incide no facto em que esta é eminentemente económica e não social. Os Direitos Humanos ainda não estão consolidados em muitas e vastas regiões do mundo, enquanto que o capital viaja num segundo de Lisboa a Tóquio.

      Luta-se, pois, não contra a globalização, mas sim, "Por Uma Outra Globalização".

 

      12D- Em globalização, fala-se muito de Economia, Política e, por outro lado, de Direitos Humanos. Mas, porventura, esquece-se o mais óbvio, a globalização da informação e da cultura.

 

      LG- Há também a Globalização da informação e cultura, sim, mas essa é, penso eu, um fruto da globalização e da revolução tecnológica. As redes de comunicação desenvolvidas nas últimas décadas, como as comunicações por satélite, as telecomunicações móveis e, sobretudo, a Internet, permitem uma fluidez da informação que nem os mais visionários dos nossos antepassados conceberiam. Hoje, se um avião cair na Indonésia, as notícias do sucedido chegarão ao Alasca em menos de dez minutos. Ou dando um exemplo mais feliz, um jovem brasileiro pode enamorar-se por uma japonesa, sem nunca se terem visto, graças aos "chats" e aos "e-mails". O mesmo acontece com a difusão da música, dos filmes que todos conhecemos. Isso implica que pessoas diferentes, de diferentes culturas e nacionalidades se encontrem e se unam, partilhando as mesmas preferências quanto a bandas, filmes, livros e roupas. O problema é que todos sabemos que este processo não é democrático. No caso da música, estejamos aqui em Palmela ou em Moscovo, saberemos sempre que as rádios só passam música de expressão inglesa, pois as empresas que controlam a indústria musical internacional estão todas sediadas em Londres ou em Nova York e promovem sempre artistas dos seus países com os meios que controlam, como a MTV. Por alguma razão há excelentes bandas na Europa e na América do sul que vivem sempre na sombra de "produtos musicais" oriundos dos Estados Unidos, de muito menor qualidade.

      Há ainda outra questão preocupante, a homogeneização das culturas sob a influência da cultura anglo-saxónica pode significar a extinção dos sonhos em muitas línguas, incluindo a que falamos desde crianças.

 

      12D- O que é o Fórum Social Mundial de Porto Alegre?

 

      LG- É um gigantesco ponto de encontro e debate de associações, ONG e simples cidadãos de todo o Mundo que querem encontrar alternativas a esta globalização. Este Fórum surgiu no seguimento da enorme contestação aos fóruns não democráticos dos líderes económicos, como todos vimos em Seatle, Génova e Praga. Tais acontecimentos revelaram-nos que havia uma enorme vontade de conversar e debater para além de marchar e lutar nas ruas. Neste gigantesco Fórum participam ecologistas, agricultores, professores, líderes estudantis, jornalistas, líderes sindicais, pequenos empresários, líderes indígenas e representantes de milhões de pessoas que não se sentem ouvidas nem representadas pelos partidos políticos e, sobretudo, pelos comandantes da actual e injusta globalização – os grandes agentes económicos. A evolução deste Fórum tem sido fantástica. No 1º ano, em 2001, 16 mil pessoas acorreram a esta cidade do sul do Brasil; em 2002 já éramos 60 mil participantes e, este ano, mais de 100 mil pessoas participaram no Fórum e nos milhares de debates por ele dinamizado. É o maior ponto de debate social e político do nosso planeta. Muitos dos participantes levam, agora, o espírito, as ideias e as soluções do Fórum para os seus a empresa ou um partido.

 

      12D- Que diferença estabelece entre o Fórum de Porto Alegre e o Fórum Social Europeu de Florença? Quais as principais temáticas abordadas?

 

      LG- O conceito é o mesmo: dar a voz ao povo e debater alternativas à globalização entre cidadãos reais. Divergem, é claro, os temas em debate. Para os europeus urge encontrar uma solução para o dilema da imigração, ideias para o aprofundamento da democracia e uma saída para o problema da agricultura Europeia. Depois há temas comuns, é claro, temas de discussão urgente em qualquer lugar do mundo, como a anulação ou a renegociação da dívida externa dos países do Terceiro Mundo, a luta pela defesa do ambiente, a criação de mecanismos de tributação dos movimentos de capital, com a taxa Tobin, a discussão do desenvolvimento da democracia participativa e activa por parte dos cidadãos, a defesa dos povos indígenas, a luta contra a fome e a SIDA, temas muito mais urgentes do que a hipotética existência de armas de destruição maciça no Iraque. Criam-se redes de contacto, nascem projectos e a maior informação das pessoas pode resultar na solução dos problemas.

 

      12D- Haverá um Fórum Social em Portugal?

 

      LG- Sim, há já uma rede de cerca de 300 organizações que se encontrarão e debaterão no próximo mês de Junho, em Lisboa. Serão discutidos os mesmos temas em debate em Porto alegre e Florença, mas em destaque estarão os temas e debates que afectam directamente a vida dos portugueses, como a educação, a agricultura, a toxicodependência, a integração social, a imigração, a defesa da cultura e muitas outras temáticas.

 

      12D- Muito obrigado pela sua colaboração

 

 

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