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“Eucaristia e Compromisso Social”
Recensão ao artigo de Maria Júlia Bacelar
Bacelar, Maria Júlia, “Eucaristia e compromisso social”, Revista Eborensia, Évora, Ano XIII(2000), pp. 181-190.
O lugar da Eucaristia
“ A Eucaristia é o braseiro incandescente do amor de Deus pelos homens” (Cardeal Roger Etchegaray). Quando acendemos uma fogueira é para nos aquecermos e aquecermos quem ao nosso redor tem frio. Quem celebra e vive a Eucaristia, quem sente em si esse fogo de amor, não pode ficar indiferente ao dinamismo que esta provoca em nós, que a sentimos e vivemos. Ela é o ponto de partida para ir ao encontro dos irmãos que por tantos motivos ali não estão presentes e sabemos precisam da nossa ajuda..
Viver a Eucaristia é comprometer-se com a Humanidade… Celebrar, adorar e vivê-la é sentir-se impelido a ser gerador da vida, da paz, em nome da fé e do amor que sabemos Jesus tem por nós. Constantemente ela envia-nos para o mundo. “Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe” profere o sacerdote no término da Eucaristia. Tudo isto para sermos fermento de um mundo novo. Jesus Cristo ofereceu-se por nós na cruz , “pela nossa salvação” e nós, aceitando esta força que transforma devemos sentir-nos impelidos a renovar a Humanidade comprometendo-nos.
S. João, no seu Evangelho, dá especial relevo ao facto de Jesus lavar os pés ao seus discípulos. Este gesto é antes de mais um verdadeiro exemplo, para que também nós o sigamos entregando-nos ao Pai, aos irmãos, à humanidade. Só pode dizer-se que realmente se vive e celebra a Eucaristia quando a prolongamos no serviço a Deus e aos irmãos.
Quando deitámos nos irmãos este olhar de amor, sentimo-nos logo cheios de pressa em fazer algo, no imediato, de querermos ser os “salvadores do mundo”! Não devemos nós antes contemplar primeiro para depois, sentindo em mim uma vontade mais radical e incondicional que me levará e conduzirá a Cristo?
Primeiro então, lavar os pés aos irmãos antes da Eucaristia, depois imbuir-se de Cristo contemplando a sua entrega por amor na Eucaristia e depois viver o que se celebra. Esta jamais será verdadeira se não tiver no cristão este efeito de prolongamento ao longo do dia, ao longo da semana, ao longo da vida! Jesus convida para o seu banquete os mais pobres e marginalizados da sociedade de então. E nós limitamo-nos ao “ouro e prata” no fim da missa ou, pelo contrário, à semelhança de Pedro e João à saída do Templo, faremos milagre de auxiliar este pobre?
A Eucaristia edifica-se em nós não despejando palavras mas comprometendo-nos na nossa própria transformação e na transformação da comunidade que celebrando, procura caminha. Nem sempre a acção que fazemos é gratificante ou compensadora. Os seus frutos muitas vezes nem sequer são vistos…
Eucaristia: banquete só para alguns?
A Eucaristia leva-nos à comunhão, “com todos e com tudo”, com a Trindade Santa, com a Igreja, com os irmãos e somos convidados a ser construtores da mesma. É aqui que, à semelhança dos discípulos de Emaús, reconhece-mos Cristo. Nesta medida, a Eucaristia é incompatível com qualquer forma de exclusão, social ou económica. Vivendo assim, a Eucaristia verdadeiramente, recebemos e somos inundados pelos dons do Espírito…
Se não sentimos em nós esta vontade de amar e, pelo contrário, tudo o que fazemos é aumentar este “apartheid” na comunhão, então temos de nos colocar a nós mesmos a questão: Estarei eu a viver plenamente em mim a Eucaristia? “Comungar” com os que “estão de fora” é a “prova de fogo” da Eucaristia. O nosso compromisso é para com esses que mais precisam de amor, solidariedade, ajuda, o mesmo que nós recebemos no sacramento. “A missa é pão partido e repartido” que nos desafia a uma maior entrega, que nos convida a ir levar esse “pão” pelo mundo. Ser indiferente é não viver eucaristicamente, é talvez, não ser cristão!
Eucaristização: “O mundo é para mim o Sacrário”
Uma das pessoas que mais soube viver este dinamismo intenso da Eucaristia foi Santa Maria Micaela, que vivia fascinada com a presença de Jesus no Santíssimo Sacramento. Ela entendeu que aquilo que ela sentia tinha de ser atendido e adorado no corpo dos irmãos que sofriam Ela dizia que era preciso “não separar-se nunca do Sacrário”. Via nos outros a imagem de Deus e prolongava-a no seu coração, em acto de profunda adoração e amor. Assim, todo o mundo é um Sacrário, onde sentimos e vemos a presença de Cristo, onde continuamente o podemos adorar. Estar continuamente na presença de Cristo e em comunhão com Ele leva-nos a este prolongamento de amor, de vida, a entregar-mo-nos com e como Ele.
A mesa em que Jesus nos convida a participar é uma mesa de comunhão e amor onde Ele se entrega por nós, de uma maneira radical. Mais tarde, “o Espírito Santo é quem nos converte o pão no corpo de Cristo e o vinho no seu sangue; do mesmo modo, no contexto eucarístico quotidiano, converte-nos em criaturas novas, com um coração e alma novas, porque “onde abunda o pecado, superabunda a Graça”.