| Modernismo |
Tendência vanguardista que rompe com padrões rígidos e caminha para uma criação mais livre, surgida internacionalmente nas artes plásticas e na literatura no final do século XIX e início do século XX. É uma reação às escolas artísticas do passado. Como resultado, desenvolvem-se novos estilos, entre eles o expressionismo, o cubismo, o dadá, o surrealismo e o futurismo.
No Brasil, o termo identifica o movimento desencadeado pela Semana de Arte Moderna de 1922. De 11 a 18 de fevereiro daquele ano, conferências, recitais de música, declamações de poesia e exposição de quadros, realizados no Teatro Municipal de São Paulo, apresentam ao público as novas tendências das artes do país. Seus idealizadores rejeitam a arte do século XIX e as influências estrangeiras do passado. Defendem a assimilação das estéticas internacionais para mesclá-las com a cultura nacional, o que dá origem a uma arte vinculada à realidade brasileira.
A partir da Semana de 22 surgem vários grupos e movimentos, que radicalizam ou se opõem a seus princípios básicos. O escritor Oswald de Andrade e a artista plástica Tarsila do Amaral publicam em 1924 o Manifesto da Poesia Pau-Brasil, que enfatiza a necessidade de criar uma arte baseada nas características do povo brasileiro, com absorção crítica da modernidade européia. Em 1928 levam ao extremo essas idéias com o Manifesto Antropofágico, que propõe "devorar" influências estrangeiras para impor o caráter brasileiro à arte e à literatura. Por outro caminho, mais conservador, segue o grupo da Anta, liderado pelo escritor Menotti del Picchia (1892-1988) e pelo poeta Cassiano Ricardo (1895-1974). Em um movimento chamado de verde-amarelismo, fecham-se às vanguardas européias e aderem a idéias políticas que prenunciam o integralismo, versão brasileira do fascismo.
O principal veículo das idéias modernistas é a revista Klaxon, lançada em maio de 1922.
Artes plásticas – Uma das primeiras exposições de arte moderna no Brasil é realizada em 1913 pelo pintor de origem lituana Lasar Segall. Suas telas chocam, mas as reações são amenizadas pelo fato de o artista ser estrangeiro. Em 1917, Anita Malfatti faz a que é considerada de fato a primeira mostra modernista brasileira. Apresenta telas influenciadas pelo cubismo, expressionismo, fauvismo e futurismo que causam escândalo, entre elas A Mulher de Cabelos Verdes.
Apesar de não ter exposto na Semana de 22, Tarsila do Amaral torna-se fundamental para o movimento. Sua pintura é baseada em cores puras e formas definidas. Frutas e plantas tropicais são estilizadas geometricamente, numa certa relação com o cubismo. Um exemplo é Mamoeiro. A partir dos anos 30, Tarsila interessa-se também pelo proletariado e pelas questões sociais, que pinta com cores mais escuras e tristes, como em Os Operários.
Di Cavalcanti retrata a população brasileira, sobretudo as classes sociais menos favorecidas. Mescla elementos realistas, cubistas e futuristas, como em Cinco Moças de Guaratinguetá. Outro artista modernista dedicado a representar o homem do povo é Candido Portinari, que recebe influência do expressionismo. Entre seus trabalhos importantes estão as telas Café e Os Retirantes.
Distantes da preocupação com a realidade brasileira, mas muito identificados com a arte moderna e inspirados pelo dadá, estão os pintores Ismael Nery e Flávio de Carvalho (1899-1973). Na pintura merecem destaque ainda Regina Graz (1897-1973), John Graz (1891-1980), Cícero Dias (1908-) e Vicente do Rego Monteiro (1899-1970).
O principal escultor modernista é Vitor Brecheret. Suas obras são geometrizadas, têm formas sintéticas e poucos detalhes. Seu trabalho mais conhecido é o Monumento às Bandeiras, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Outros escultores importantes são Celso Antônio de Menezes (1896-) e Bruno Giorgi (1905-1993).
Na gravura, o modernismo brasileiro possui como expoentes Osvaldo Goeldi (1895-1961) e Lívio Abramo (1903-1992). Identificado com o expressionismo, Goeldi cria obras em que retrata a alienação e a solidão do homem moderno. Abramo desenvolve também um trabalho com carga expressionista, porém engajado socialmente.
No final dos anos 20 e início da década de 30 começam a se aproximar do movimento artistas mais preocupados com o aspecto plástico da pintura. Utilizam cores menos gritantes e composição mais equilibrada. Entre eles destacam-se Alberto Guignard (1896-1962), Alfredo Volpi, depois ligado à abstração, e Francisco Rebolo (1903-1980).
O modernismo enfraquece a partir dos anos 40, quando o abstracionismo chega com mais força ao país. Seu final acontece nos anos 50, com a criação das bienais, que promovem a internacionalização da arte brasileira.
Literatura – Uma das principais inovações modernistas é a abordagem de temas do cotidiano, com ênfase na realidade brasileira e nos problemas sociais. O tom é combativo. O texto liberta-se da linguagem culta e passa a ser mais coloquial, com admissão de gírias. Nem sempre as orações seguem uma seqüência lógica e o humor costuma estar presente. Objetividade e concisão são características marcantes. Na poesia, os versos tornam-se livres, e deixa de ser obrigatório o uso de rimas ricas e métricas perfeitas.
Os autores mais importantes são Oswald de Andrade e Mário de Andrade, os principais teóricos do movimento. Destacam-se ainda Menotti del Picchia e Graça Aranha (1868-1931). Oswald de Andrade várias vezes mescla poesia e prosa, como em Serafim Ponte Grande. Outra de suas grandes obras é Pau-Brasil. O primeiro trabalho modernista de Mário de Andrade é o livro de poemas Paulicéia Desvairada. Sua obra-prima é o romance Macunaíma, que usa fragmentos de mitos de diferentes culturas para compor uma imagem de unidade nacional. Embora muito ligada ao simbolismo, a poesia de Manuel Bandeira também exibe traços modernistas, como em Libertinagem.
O modernismo vive uma segunda fase a partir de 1930, quando é lançado Alguma Poesia, de Carlos Drummond de Andrade. Os temas sociais ganham destaque e o regionalismo amplia sua temática. Paisagens e personagens típicos são usados para abordar assuntos de interesse universal. Entre os que exploram o romance social voltado para o Nordeste estão Rachel de Queiroz (O Quinze), Graciliano Ramos (Vidas Secas), Jorge Amado (Capitães de Areia), José Américo de Almeida (A Bagaceira) e José Lins do Rego (Menino de Engenho). Surgem ainda nessa época os romances urbanos de introspecção psicológica, como Caminhos Cruzados, de Érico Veríssimo. Numa linha mais intimista estão poetas como Cecília Meireles, autora de Vaga Música, Vinicius de Moraes, de Poemas, Sonetos e Baladas, Augusto Frederico Schmidt (1906-1965), de Desaparição da Amada, e Henriqueta Lisboa (1904-1985), de A Face Lívida.
A terceira fase do movimento começa em 1945. Os poetas retomam alguns aspectos do parnasianismo, como Lêdo Ivo (Acontecimento do Soneto). João Cabral de Melo Neto (Morte e Vida Severina) destaca-se pela inventividade verbal e pelo engajamento político. Na prosa, os nomes mais importantes são Guimarães Rosa (Grande Sertão: Veredas) e Clarice Lispector (Perto do Coração Selvagem).
Música – O modernismo dá prosseguimento às mudanças iniciadas com o impressionismo e o expressionismo, rompendo ainda mais com o sistema tonal (música estruturada a partir da escolha de uma das 12 notas da escala como a principal). Os movimentos musicais modernistas são o dodecafonismo, o neoclassicismo e as escolas nacionais (que exploram o folclore de cada país), predominantes internacionalmente de 1910 a 1950.
Heitor Villa-Lobos é o principal compositor no Brasil e consolida a linguagem musical nacionalista. Para dar às criações um caráter brasileiro, busca inspiração no folclore e incorpora elementos das melodias populares e indígenas. O canto de pássaros brasileiros aparece em Bachianas Nº 4 e Nº 7. Em O Trenzinho Caipira, Villa-Lobos reproduz a sonoridade de uma maria-fumaça e, em Choros Nº 8, busca imitar o som de pessoas numa rua. Nos anos 30 e 40, sua estética serve de modelo para compositores como Francisco Mignone (1897-1986), Lorenzo Fernandez (1897-1948), Radamés Gnattali (1906-1988) e Camargo Guarnieri (1907-1993).
Teatro – O modernismo influencia tardiamente a produção teatral. Só em 1927 começam as inovações nos palcos brasileiros. Naquele ano, o Teatro de Brinquedo, grupo experimental liderado pelo dramaturgo e poeta Álvaro Moreyra (1888-1965), monta Adão, Eva e Outros Membros da Família. A peça, em linguagem coloquial e influenciada pelo marxismo, põe pela primeira vez em cena dois marginais: um mendigo e um ladrão.
Ainda na década de 20 são fundadas as primeiras companhias de teatro no país, em torno de atores como Leopoldo Fróes (1882-1932), Procópio Ferreira (1898-1979), Dulcina de Moraes (1908-1996) e Jaime Costa (1897-1967). Defendem uma dicção brasileira para os atores, até então submetidos ao sotaque e à forma de falar de Portugal. Também inovam ao incluir textos estrangeiros com maior ousadia psicológica e visão mais complexa do ser humano.
A peça O Bailado do Deus Morto, de Flávio de Carvalho, é tida como uma das montagens modernistas pioneiras, por ser a primeira a apresentar texto livre e improvisado, cenário impactante, linguagem popular e uso de palavrão, sem a preocupação com a seqüência lógica de acontecimentos. Encenado pela primeira vez em 15 de novembro de 1933, em São Paulo, o espetáculo mescla teatro, dança, música e pintura. No entanto, O Rei da Vela (1937), de Oswald de Andrade, é considerado o primeiro texto modernista para teatro. Nas experiências anteriores, as inovações ficavam praticamente restritas à encenação. A peça de Oswald de Andrade trata sob o enfoque marxista da sociedade decadente, com a linguagem e o humor típicos do modernismo.
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