A verdadeira história de Kitty Genovese
por Lucas Mitre Paio
O universo de Watchmen, embora
fictício, traz várias histórias que realmente aconteceram, e que no mundo deles
traz implicações diferentes das que tiveram no nosso. Um exemplo disso é o caso
de Kitty Genovese, contado por Rorschach ao seu psicólogo na edição #6.
Kitty realmente existiu. Na série de Alan Moore, ela entra na
história quando, em 1962, encomenda para uma indústria de confecção um vestido
feito por um tecido criado pelo Dr. Manhattan. Segundo o relato de Rorschach,
era uma "jovem, nome italiano. Não levou a encomenda. Disse que o vestido era
feio". O então Walter Kovacs acaba levando o tecido para casa e com ele
desenvolve sua famosa máscara. Dois anos depois, ele se depara com uma notícia
no jornal sobre a morte da garota que encomendou o vestido.
No nosso mundo, Kitty Genovese foi um nome que, naquela época,
se tornaria simbólico na mente do povo.
"Um nome que representaria que os americanos que eram muito indiferentes ou
muito amedrontados ou muito alienados ou muito egoístas para 'se envolver' e
ajudar um ser humano em um horrível problema. O termo síndrome de Genovese
seria cunhado para descrever essa atitude", diz Michael Dorman num texto sobre o
caso. Dorman fornece detalhes sobre o dia:
"Era pouco
mais de 3 da manhã.
Um Fiat vermelho girou lentamente através da escuridão em um lugar
próprio para estacionar adjacente à estação Long Island Rail Road em Kew Gardens. A
jovem mulher atrás do volante saiu do carro e o trancou. E começou a caminhada de 30
metros em direção ao seu apartamento na 82-70 Austin St.
Mas em seguida ela viu um homem em seu caminho. Aparentemente com medo,
ela mudou de direção e foi rumo ao cruzamento do Austin com o Lefferts Boulevard - onde
havia uma cabine telefônica policial.
Subitamente, o homem agarrou-a à força. Ela gritou. Moradores
de apartamentos próximos ao local acenderam as luzes e abriram as janelas. A mulher
gritou novamente: "Oh, meu Deus, ele me apunhalou! Por favor, me ajudem!"
Um homem em uma janela gritou: "Deixe essa menina em paz." O
agressor andou para longe. As luzes dos apartamentos foram apagadas e as janelas fechadas.
A vítima tentou caminhar rumo ao seu apartamento, mas o agressor voltou e a esfaqueou
novamente.
"Estou morrendo!", ela chorou.
As janelas se abriram novamente. O agressor entrou num carro e foi
embora. As janelas se fecharam, mas logo o agressor voltou. Sua vítima havia engatinhado
para a porta da frente de um prédio na 82-62 Austin St. Ele a encontrou estendida no
chão e a esfaqueou novamente. Desta vez a matou.
Não antes de 3:50 daquela manhã - 13 de março de 1964 - um vizinho
da vítima chamou a polícia. Os oficiais chegaram dois minutos depois e encontraram seu
corpo. A vítima foi identificada como sendo Catherine Genovese, 28, que estava voltando
de seu emprego como gerente de um bar em Hollis. Os vizinhos a conheciam não como
Catherine, mas como Kitty."
Os detetives que investigaram o assassinato de Kitty Genovese descobriram
que nada menos que 38 de seus vizinhos haviam testemunhado pelo menos um dos
três ataques do assassino, sem ir à sua ajuda ou chamar a polícia. A única
chamada veio depois que Genovese já estava morta.
Seis dias depois da morte da jovem, a polícia prendeu um
suspeito - Winston Moseley, 29 anos, operador de máquinas em comércios que vivia
com sua esposa e os dois filhos. Moseley acabou confessando não apenas ter
matado Kitty, mas também duas outras mulheres. Moseley disse possuir "um desejo incontrolável de matar".
Ele disse aos detetives que vagava pelas ruas à noite quando sua esposa, Elizabeth,
estava no trabalho. "Eu escolhia mulheres para matar porque elas eram mais fáceis e
não lutavam", disse Moseley. A princípio condenado à cadeira elétrica, ele
teve sua pena modificada para prisão perpétua. Décadas depois, após fugas e
pedidos de condicional, Winston Moseley continua na cadeia.
Kitty foi um símbolo não apenas para os americanos dos anos
60, mas, em Watchmen, essencial para que Rorschach se tornasse quem ele
se tornou. "Estrupada. Torturada. Morta. Aqui. Em Nova York. Do lado de fora do
próprio prédio. Quase 40 vizinhos ouviram gritos. Ninguém chamou a polícia.
Alguns ficaram olhando", disse Rorschach ao psicólogo. "Está entendendo? Alguns
ficaram olhando. Eu já sabia o que as pessoas eram por trás de todos os
subterfúgios, mentiras para si mesmas. Com vergonha da humanidade, fui para
casa. Peguei os restos do vestido que ela não quis, e fiz um rosto que eu
tolerasse olhar no espelho." Mais tarde, o médico escreve em suas anotações: "A
inconsistente história sobre Kitty Genovese é apenas uma justificativa para si
mesmo". Será?